quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

Réguas diferentes

Em toda a minha infância nunca soube da existência de uma parte do boi: o filé mignon. Em Passos, MG, cidade em que morei até os 11 anos, quando se comia um bife, o normal era a alcatra ou o contra filé.

Um tempo depois de mudarmos para São Paulo, pela primeira vez na vida, soube que existia o filé mignon.

Minha mãe sempre foi partidária da participação de todos nas tarefas domésticas. Tornei-me o comprador oficial de carne. Até hoje, olhando para as peças em um açougue, reconheço cada corte. Se era carne moída, a escolha era o patinho, para os bifes a rolê, o coxão mole ou o duro. Os bifes do dia a dia eram sempre de alcatra. Minha mãe dizia: “Só compra alcatra se tiver passado do meio da peça.” A carne é mais dura no começo dela. Nesse caso, a instrução era para comprar contrafilé. É uma coisa que não esqueci.

Morando em São Paulo, ao descobrir da existência do filé mignon, fiquei com vontade de experimentar. Minha mãe, no entanto, mantinha-se irredutível. Continuava na alcatra. Seu argumento: “Filé mignon é uma carne sem graça, seca e é para banguelas.”Bom, pra que discutir com a mãe?

Deve ter demorado uns cinco anos para que eu pudesse comer filé mignon pela primeira vez. Ela, inexplicavelmente, mudou de opinião e os bifes quase diários mudaram para esse corte.

Comida de rico. Apesar da infância de sacrifícios, meu pai era de hábitos requintados. Por exemplo, jogava golfe. Quando minha irmã foi para a Escandinávia, deu-lhe dólares para que trouxesse caviar, salmão defumado e enguia defumada, que ocuparam dois terços de sua mala na volta. Na década de 1970, eram itens da mesa de ricos, o que não era o nosso caso. 

Sempre participei dos afazeres domésticos. Meu pai adorava fazer festas em nossa casa no bairro do Morumbi. Sobrava para minha mãe e sua auxiliar, a empregada doméstica da vez. No apuro, virei o terceiro auxiliar: batia maionese na mão, cortava cebola, picava alho e ficava a acompanhar o cozimento dos alimentos. Desse modo, adquiri uma certa habilidade com os utensílios domésticos e com a cozinha. 

Meu pai chegava sempre por volta das 19h. A mesa já estava sempre posta. A peça de salmão defumado era de respeito, uns 40 cm., assim como a enguia defumada. Eu era o cortador oficial. Todas as noites, fatiava o salmão em finíssimas lâminas e a enguia em rodelas de menos de um centímetro de espessura. Durante semanas, diariamente, foi o menu de jantar do meu pai. O resto da família, exceto eu, nunca foi chegado em coisas do mar.

Em um das vezes em que o menu incluía filé mignon, enquanto se esbaldava com o caviar — comia de colherada —, salmão e enguia defumada, veio com essa: “Vocês ficam comendo filé mignon… e nem imaginam o tanto de gente que não tem nem tem o que comer!” E nós, mudos, olhando para a cara dele, impávida, a deliciar-se com iguarias pouco comuns em mesas de comensais da classe média.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

Enrico Rava e o meu gosto pela escolha dos títulos

Com um bigode de respeito, na foto de perfil da capa de “Ah” (ECM, 1979), ficava a dúvida: fazia parte do trompete ou dele mesmo? Quarenta e um anos depois, continua com um bigode de respeito, agora, branco. Natural. Tem 81 anos. Impressionante como certos músicos, principalmente os de sopros, conseguem manter essa energia. Agora, aposentado, Sonny Rollins é a prova disso. Até 2012, com 82 anos, estava se apresentando. Minha teoria é a de que a saúde dos pulmões é tudo na vida de alguém, sendo músico ou não.

Por considerar que tudo da ECM era bom, simplesmente, fui comprando tudo o que era lançado pelas gravadoras brasileiras. Não foram muitos. Jazz nunca vendeu aqui. Todo o resto do que tenho do selo é importado, três vezes mais caro, se bem que, na era dos LPs, a qualidade da prensagem fazia valer a pena. Mas foi assim que conheci Enrico Rava: “Ah” saiu no Brasil. Nem fazia ideia de quem era.

Foi o primeiro músico italiano de jazz italiano que conheci. Imagino que seja pouco conhecido no Brasil, apesar de ter se apresentado aqui em um desses festivais de jazz. Se não me engano, foi o único título dele lançado aqui. Todos os que tenho, fora “Ah”, são importados. 

Com o passar do tempo, fui conhecendo melhor o jazz italiano, ouvindo Paolo Fresu, Enrico Pieranunzi, Stefano Battaglia, Franco D’Andrea, Danilo Rea, Enzo Pietropaoli, e outros mais. Fui descobrindo muita música boa por meio de selos como Splasc(h) Records e o CAM Jazz. No início da década de 1980, comecei a me interessar pelo jazz de vanguarda, feito por músicos como Anthony Braxton, Art Ensemble o Chicago, Air, composto por Henry Threadgill, Fred Hopkins e Steve McCall. Desse modo, acabei descobrindo que uma das principais gravadoras que lançava esse tipo de música, era italiana. A Black Saint e a Soul Note, se não me engano, são hoje do grupo CAM Jazz.

Atração por títulos. Ouço música até dormindo. Tenho equipamentos de som espalhados pela casa. Meu quarto abriga uma caixa de som Altec Lansing, com entrada específica para os antigos iPods. Acoplo um dos meus de140 mb. É o fundo musical para o início do meu sono. Com ele posso calcular a minha insônia. Considerando-se que cada álbum tem entre 40 a 70 minutos, se depois de terminada a audição do título escolhido, e não peguei no sono, sei que a noite vai ser longa. Se durmo na segunda ou terceira música, bom sinal. Vou levantar melhor disposto.

Ultimamente tenho ouvido os álbuns de Enrico Rava do iPod que está conectado. Um que me chamou a atenção, por causa do título, foi “The Pilgrim and te Stars” (ECM, 1975). É com essa composição, de sua lavra, que começa. Tocam com o italiano John Abercrombie (guitarra), Palle Danielsson (contrabaixo) e o Jon Christensen (bateria). Quem acompanha o que a ECM lançou até hoje, conhece bem os dois últimos. Faziam parte do quarteto europeu de Keith Jarrett, e, mais tarde, do quarteto de Bobo Stenson. Gosto bastante da primeira, da terceira (“Bella”), e minha preferida é “By the Sea”, bem vigorosa, com John Abercrombie na guitarra, minimalista e essencial na música, com forte marcação do contrabaixo de Palle Danielsson. Ouça as três pelo playlist que fiz no Spotify.

Outro título que atraiu a minha atenção, pelo título, também, foi “The World and the Days” (ECM, 2007). Nem é tão original, mas me soa bonito. Penso no termo “world” sem o “L”. O “mundo”, o “universo”, e a “palavra”. A linguagem constrói o mundo. Neste, todos os que tocam com ele são seus conterrâneos:\ Gianluca Petrella (trombone), Andrea Pozza (piano), Rosario Bonaccorso (baixo) e Roberto Gatto (bateria). A música título é de sua autoria. Os destaques são o clássico “The Wind”, de Russ Freeman, “Tutù” e “Todamor’, essas, dele. Há uma diferença bem grande entre os sons de 1975 e o de 2007, afinal, são mais de trinta anos entre os dois. As energias são diferentes. O que se mantém é o seu sopro sem vibrato, firme, às vezes, dramático, ondulante. Ele e Paolo Fresu são os grandes no trompete e no flugelhorn, na Itália.

Uma discografia apressada. A maioria de seus álbuns foi lançada pela ECM. Lançou outros por selos italianos e também pelo Label Bleu, francês. Na lista abaixo, destaco alguns, os que saíram depois do início deste século.

Cito, sem ordem cronológca, alguns. O primeiro é “Tati” (ECM, 2005). O diferencial é a ausência de um contrabaixo. É um trio com o piano de Stefano Bolani e bateria de Paul Motian/ Meus destaques são “The Man I Love”, grande clássico dos irmãos Gershwin, espetacular, e “E lucevan le stelle”, a belíssima ária da “Tosca”, de Gioacomo Puccini. Esta, me conecta à gravação do “Concierto de Aranjuez”, por Miles Davis, com arranjos de Gil Evans. As citadas estão no playlist abaixo.

O próximo é “The Third Man” (ECM, 2007), novamente com o jovem pianista — em comparação a Rava, um octogenário — Stefano Bollani, um dos grandes talentos da atualidade, com formação erudita — gravou “Rhapsody in Blue”, de Gershwin, com regência de Riccardo Chailly. É um duo com momentos sublimes, como nas versões de “Estate”, “Retrato em Branco e Preto”, de Antônio Carlos Jobim, e na a canção título, composição dos dois.

“New York Days” (ECM, 2009) é belíssimo, melancólico, seguindo o famigerado padrão ECM — tem gente que odeia —, novamente, com o brilhante Bollani, que arrasa, com discrição, leveza e muita poesia emanando de seus dedos. Os outros componentes são americanos, o, às vezes frio, muito bom nesse seu estilo contido, Mark Turner, Larry Grenadier, baixista que tocou bastante com Brad Mehldau, craque, e o sempre  genial Paul Motian. São destaques “Lulù”, “Interiors”, longa faixa em que Turner brilha, “Lady Orlando”, é tão soturna quanto a citada antes e, na mesma toada, “Biancasnow”, todas de autoria de Rava.

Termino com “Easy Living” (ECM, 2005), gravado com seu quinteto italiano. Em “Cromossomi”, inicia o álbum com uma longa introdução ao flugelhorn. Em seus álbuns, sempre, na maioria deles, as composições são suas, mas, eventualmente, inclui um clássico. Neste, é a música título. Rava é ótimo em standards de tons menores. Outra a se destacar é “Drops”.

Os últimos álbuns de Rava — “On the Dance Floor” (ECM, 2012) e “Wild Dance” (ECM 2012) — são medianos. Está com novo pianista, o jovem talento Giovanni Guidi. Agora, em 2020, saiu um ao vivo, com o saxofonista Joe Lovano — “Roma” —, registrado no Auditorium Parco della Musica, Roma, em 2017. É uma demonstração de que está muito bem ainda.

Ouça as músicas selecionadas.


quinta-feira, 19 de novembro de 2020

A primeira vez de Miroslav Vitous com John Surman

Em um dos posts anteriores comentei sobre o impacto da criação do selo ECM, por Manfred Eicher. Foi tão significativo que, se não me engano, a PolyGram, apressou-se em lançar alguns títulos no Brasil. Assim, pudemos conhecer músicos hoje consagrados, como Pat Metheny, Gary Burton, John Surman, Jan Garbarek, Carla Bley, Steve Swallow e muitos outros.

Um dos músicos virou um caso de amor, de minha parte; dele, com certeza, não. Depois de décadas, alimentado por essa paixão, pude vê-lo ao vivo em uma noite fria de São Paulo, no Teatro Sesi-SP, eu mais uns gatos pingados, 50 ou 60 espectadores. Era um dia chuvoso, além de gélido, fora que o show foi pouco divulgado. John Surman veio para divulgar “Invisible Threads” (ECM, 2028), com o brasileiro Nelson Ayres e o vibrafonista americano, radicado em Oslo, Noruega, Rob Waring. Dei uma de tiete, puxei um papo envergonhado depois do show e ainda aproveitei para tirar uma foto com ele.

Foram dois os LPs com participação de Surman lançados no Brasil: “Upon Reflection” (1980), solo dele em overdubs nos sopros e teclados, e “First Meeting” (ECM 1980), de Miroslav Vitous, com ele, o pianista Kenny Kirkland e Jack DeJohnette na bateria. “Miroslav Vitous Group” (1981) foi o segundo, com a mesma formação, e ainda um terceiro: “Jounrey’s End” (1983)). Neste, John Taylor substitui Kirkland.

John Surman, na minha opinião, é o melhor no sax barítono e na clarineta baixo de todos os tempos. Menos presente na cena musical, hoje, morando em Oslo, perdeu o posto de melhor saxofonista barítono, que manteve por décadas, pela revista Downbeat. O terceiro instrumento no qual se destaca é o sax soprano, além da competência em criar climas sonoros nos teclados eletrônicos. Seu estilo é inconfundível. Por essa razão, logo identifiquei onde o tinha ouvido antes: em “Extrapolation” (Polydor, 1969), de John McLaughlin. Comentei isso com ele na noite em que apresentou-se em São Paulo. Disse que muitos de seus fãs falam o mesmo. Sua presença é marcante neste álbum. No ano em que saiu “Extrapolation” já tinha lançado na Grã Bretanha seu primeiro disco como líder.

First meeting. É a primeira reunião de Miroslav Vitous e John Surman. Ao piano, o talentoso Kenny Kirkland — quem conhece a obra de Sting sabe que foi membro de sua banda, junto com outro músico do jazz, Branford Marsalis — e Jack DeJohnette na bateria. Todas as composições são de Vitous, com exceção da música-título, uma criação coletiva.

Pelo começo, iniciada com o piano de Kenny Kirkland, “Silver Lake” é uma preparação ao que ouviremos. É um número com um colorido excepcional, e solos bem distribuídos: o piano discreto mas essencial, solos dramáticos de Vitous com o arco, Surman no saxofone soprano e a bateria politonal do grande DeJohnette. O breve solo de Kirkland no final da faixa é uma preciosidade. Pena que tenha morrido tão cedo, em consequência do consumo de drogas ilícitas.

“Beautiful Place to”, bem melancólica, sem a bateria, é inteira com solo de Surman no soprano e Vitous tocando com arco em uníssono em vários trechos, sobre acordes discretos de Kirkland. A próxima, “Trees”, não entra na minha seleção das preferidas. 

“Cycle” é a primeira em que Surman toca clarineta baixo. O início é com ele e o, mais uma vez, o belíssimo piano de Kirkland. Vitous e DeJohnette entram logo depois. O tcheco é um mestre no arco. Tem um estilo único, inconfundível. DeJohnette também tem um estilo original. Por tocar piano também — e bem — sua capacidade de criar sonoridades na bateria o diferencia da maioria dos bateristas. Outros que têm essa capacidade de produzir sons polifônicos por meio de suas baquetas são Paul Motian e Thomas Strønen.

A seguir vem a música título. Destaca-se aqui o sax soprano de Surman nos solos. A seguinte, sem dúvida, é um dos destaques. “Concerto in Three Parts” é um solo de Vitous. É, com certeza, um dos que melhor tira partido do arco no contrabaixo. “You Make Me So Happy” é uma boa conclusão para esse primeiro encontro desses grandes músicos.


quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Sempre bom sonhar com Diana Krall


Um grande feito de Diana Krall foi o de trazer milhões de ouvintes ao universo do jazz, ou mais genericamente, ao que chamam de “Great American Songbook”. Outros, como Harry Connick, Jr., este no início de sua carreira, e Michael Feinstein, com repertório voltado aos grandes compositores americanos do século 20, nem chegaram perto de sua popularidade.

Krall começou estimulada pelo contrabaixista Ray Brown e de seu professor, o pianista Jimmy Rowles. Depois de se lançar no Canadá pelo selo Justin Time, foi contratada pelo selo americano Impulse. Desde então, ganhou a crítica, por sua maestria ao piano, muito influenciada pelo estilo de execução de Nat King Cole. Para o público menos afeito ao jazz, o que chamou atenção foi o seu lado cantora. Coincidência: King Cole grande pianista, teve vários seguidores, como o genial Oscar Peterson, mas ficou famoso como cantor. Suas vozes são únicas, inconfundíveis. Ambas são cálidas, sensuais, Cole no seu registro de barítono e Krall, no de contralto. 

Casamento e filhos. Para a surpresa de muitos, Diana Krall casou com Elvis Costello, do universo do rock, em 2003. Quem duvidava que não fosse durar, enganou-se também. Estão juntos até hoje. Mais surpreendente ainda: preferiram sair de uma metrópole e irem morar em na pequena Nanaimo, cidade natal dela, a 50 e poucos quilômetros de Vancouver, na Columbia Britânica. Com filhos gêmeos adolescentes, Diana e Elvis têm uma vida de casal padrão, principalmente, nesses tempos de pandemia, impossibilitados de fazerem apresentações ao vivo.

O título do penúltimo álbum de Diana é “Turn Up the Quiet” (Verve, 2017) é bem apropriado à vida que estava e continua vivendo. O álbum é seu último trabalho com o produtor Tommy LiPuma, colaborador de vários discos desde “Only Trust Your Heart” (1995).

“This Dream of You”, o recém lançado álbum, pode ser considerado uma continuação do anterior. São gravações que não estavam prontas em 2017. Ainda bem que existia esse material. Nesses tempos de isolamento social foi possível concluí-las. E não pense que por serem “sobras” de gravação são descartáveis. É um novo álbum, mesmo sendo um “to be continued” de “Turn Up the Quiet”.

A diversidade das formações resultam em belos resultados. Em “But Beautiful”, “That’s All”, “Almost Like Being in Love” e “Singing in the Rain” a banda é aquela que conhecemos bem: Anthony Wilson na guitarra, John Clayton no contrabaixo e Jeff Hamilton na bateria, e ela no piano. Conhecem-se tão bem que tocam por telepatia. Tudo é perfeito sem grandes esforços.

A outra formação é composta por Marc Ribot na guitarra, Stuart Duncan no violino, Tony Garnier no contrabaixo e Karriem Riggins na bateria: “Just You, Just Me” e “How Deep Is the Ocean”. Com o acréscimo de Randall Krall, temos ”This Dream of You”, a música título, de Bob Dylan.

Ouça “How Deep Is the Ocean”.


Em um único número — “There’s No You” — o trio é completado pelo brilhante Christian McBride e Russell Malone, guitarrista excepcional, que tocou nos primeiros álbuns de Diana. É um dos destaques do disco, justamente, pela guitarra de Malone e a grande qualidade dela como cantora. Que voz! Com a maior simplicidade, nos envolve.

McBride e Malone participam também de “Autumn in New York”, aqui com um arranjo orquestral matador do mestre Alan Broadbent. Cabe ao mesmo Broadbent, desta vez ao piano um dos destaques do álbum: “Don’t Smoke in Bed”. Amo essa música. Agradeço por poder ouví-la na voz de Diana, apesar de a minha preferida continuar sendo a de kd lang, e não a de Nina Simone. Um segundo duo matador é “I Wished on the Moon”, com John Clayton, seu baixista de longa data.

O vídeo oficial de “Autumn in New York”.

 

Agora é sentar, abrir um vinho e sonhar. 

Ouça o álbum.


quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Terje Rypdal, Miroslav Vitous e Jack De Johnette

Jack DeJonhette, Miroslav Vitous e Jack DeJohnette (esq. para a direita)
 

Logo no início da década de 1970, começaram a surgir menções a uma gravadora alemã chamada ECM. Tendo lançado o primeiro disco em 1969 — “Free at Last”, do pianista Mal Waldron —, Manfred Eicher causava um pequena revolução no mundo fonográfico. Primeiro: não era um selo americano, mas gravava americanos, além de europeus, evidentemente. 

O ano de 1975 foi o da consagração da ECM ou quando o mundo a descobriu. “The Köln Concert”, de Keith Jarrett, foi o álbum solo mais vendido da história no jazz. Além de Jarrett, Eicher trouxe Chick Corea para o seu selo e acreditou em um jovem talento, o guitarrista Pat Metheny, que estreou tocando na banda de Gary Burton.

Um dos grandes feitos do alemão foi dar espaço aos músicos do continente europeu, outrossim. Uma coisa que deu certo foi a de juntar músicos de seu plantel, que nunca tinham se reunido antes. Foi assim que Jarrett passou a ter seu quarteto “versão européia”, com Jan Garbarek, Palle Danielsson e Jon Christensen, além do americano, composto por Dewey Redman, Charle Haden e Paul Motian.

Essas formações “móveis” eram como as cirandas brasileiras: Paul Bley gravava com John Surman, que gravava com Miroslav Vitous, que gravava com Jack DeJohnette, que gravava com Keith Jarrett, que gravava com Charlie Haden, que gravava com Don Cherry, que gravava com Naná Vasconcelos, que gravava com Jan Garbarek, que gravava com Egberto Gismonti e, assim por diante.

Desses grupos transitórios, um dos meus preferidos foi o que reuniu Terje Rypdal, Miroslav Vitous e Jack DeJohnette. O sucesso da ECM ecoou no Brasil e o disco dos três, intitulado apenas com os nomes deles foi um dos que saiu em versão nacional, não me lembro se na primeira ou segunda leva de lançamentos. Assim tivemos contatos com a música que seu criador usou como slogan “o mais belo som depois do silêncio”. 

No álbum em que tocaram juntos pela primeira vez, de 1979, duas composições são de Rypdal, duas de Vitous e as duas últimas, dos três. Os destaques são “Den Forste Sne” (Rypdal), “Believer” (Vitous) e Seasons (Rypdal, Vitous, DeJohnette). A combinação do som da guitarra tensa e inttensa combina muito bem com o estilo meio dramático, em alternâncias abruptas de andamento. Jack DeJohnette é um daqueles bateristas que se adequa em qualquer formação.

Em 1981 reuniram-se novamente e resultou no álbum “To Be Continued”, não tão bom quanto o primeiro, mas com dois títulos excepcionais: “Maya” e ‘Toplue, Votter & Skyerf”, ambas de Rypdal. Neste, o norueguês, além da guitarra toca flauta, Vitous, o contrabaixo elétrico, e Jack DeJonhette, vocais, na última faixa.

Ouça os destaques nessa playlist.


sábado, 24 de outubro de 2020

Flerte

Um termo que caiu em desuso é “flerte”, ou melhor, ninguém mais flerta. Um dos significados, segundo o dicionário Houaiss é “fazer a corte”. Nem “corte” é mais usado em nossos dias, pronunciado com o circunflexo e não com acentuação aguda, que significa outra coisa ainda.

Reencontrei com uma colega de faculdade que, por coincidência, morava no mesmo prédio de uma amiga íntima.

Dias depois, liguei para M, sua vizinha, e contei que tínhamos combinado de sair. Com a liberdade — ou liberalidade — das verdadeiras amigas, daquelas que dizem tudo sem receios, que te aconselham, e até te recriminam, disse: “Vai com calma! Ela é minha amiga e você não vai cair matando.” Bom, nunca fui de cair matando. Sou tímido. Sempre fui cuidadoso, até demais. 

Fiz o que ela disse. Saímos para jantar e conversamos muito. Eu a conhecia pouco. Estudamos na mesma turma por um semestre e sequer era da turma com quem andava. Lembrava bem dela porque era muito bonita.

Curiosa, M ligou-me no dia seguinte e perguntou como tinha sido o jantar. Disse que tínhamos combinado de sair novamente. Não satisfeita de ter me orientado do que fazer uma vez, deu-me os próximos passos. “Leve-a para jantar em um local mais perto da sua casa e depois você pode convidá-la para assistir a alguma ópera no seu telão. Sei que ela gosta muito. Mas você não vai cair matando em cima dela!”

Pois fiz tudo nos conformes. Coloquei a “Flauta Mágica”, do Mozart. Conversamos sobre a cenografia, sobre os cantores. Entendia de ópera mesmo. Bom, a história termina aqui. A partir desse dia, nunca mais permiti que minha amiga palpitasse sobre como devo agir nessas situações.

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Norah Jones é sempre ela mesma

 

Com o tempo, passamos a dar importância cada vez menor ao que um dia nos impressionou ou nos deixou apaixonados. E, pensando bem, por que? E se esse encanto esquecido, um dia, retorna?

Há algo de perenal quando ouço um novo trabalho de Norah Jones. Calma! Não a colocaria no pedestal dos gênios, como o que ocupa Billie Holiday ou Miles Davis. Quem sabe, melhor que não seja um gênio, que seja alguém que lhe traz esse sentimento de encantamento, sem que percebamos, como um amor suave, sem arroubos de ame-o ou deixe-o.

Comigo acontece de forma original.Ressurge sem que ao menos perceba.Cada novo álbum dela me provoca isso. Esqueço, e quando vem o outro, volta o mesmo sentimento. Por que?

Lançada sob a égide de um mega esquema de marketing como a nova voz do jazz. pela gravadora Blue Note, “Come Away with Me” vendeu como água em dia de verão. Até hoje, são 27 milhões de cópias vendidas. Passei a infância em Minas, portanto, sou desconfiado. Não caí na conversa da Blue Note. Mas sou curioso. Ouvi e concluí que de jazz não tinha nada. E achei bem normalzinho.

A mudança de opinião em relação à sua música aconteceu por vias tortas. Veio ao assistir “My Blueberry Nights”, no Brasil, intitulado “Um Beijo Roubado”. No filme dirigido por Wong Kar-Wai. Lizzie, ou Elizabeth, abandonada pelo namorado, vai curtir a for de cotovelo no café de Jeremy que fica perto de onde mora e lá permanece até ser a última cliente. A origem do título é justamente o último pedaço de torta de blueberry, oferecido pelo personagem protagonizado por Jude Law. Acho que nessa cena captei a tônica da música de Norah. Imagino que Kar-wai, cineasta com gosto apuradíssimo para a música, deve tê-la convidado por ter captado essa conexão. No seu olhar de abandono, à procura de algum conforto, creio que descobri o que era a sua música. 

Outra evidência da conexão de Kar-Wai com a cultura pop é ter Chan Marshall, mais conhecida como Cat Power, fazer uma aparição breve como Katya.

Não sou de prestar atenção em letras, acho que por ouvir mais jazz e música erudita. Mas quando me atenho ao seu teor, percebo que são confessionais, quase sempre. Uma boa descrição sobre as composições de Jones é a de Damien Morris, em “The Guardian” (21.6.2020):

“A música foi definida para não perturbar, mas Jones encontrou uma maneira matizada e emotiva de discutir perdas, mentiras, arrependimento, indecisão e depressão.”

Nesse momento anômalo em que vivemos, versos como “não parece tão triste, não é tão ruim assim/ Ou é?/ Pode ser hoje.” encaixam-se perfeitamente. Jones está isolada, como a maioria da população, com seus dois filhos, mas não para de compor. Algumas faixas da edição especial são de registros feitos no isolamento imposto pela pandemia.

É por isso: quando “esquecemos” dela, chega com uma música que toca nossos corações e almas. Não é pouco. “Pick Me Up Off the Floor” é um grande álbum.Os destaques, para o meu gosto são “Heartbroken, Day After”, “I’ll Be Gone”, “Trying to Keep Together”, “It’s Gonna Be” e “I Am Missing You”. As duas últimas estão na edição especial recém lançada.

Assista a um vídeo de Norah Jones na sua casa: “That’s the Way the World Goes Round”.

 

Ouça.

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

O Lee Konitz que eu tinha esquecido, com Kenny Wheeler


 
Lee Konitz e ao fundo, Kenny Wheeler


 

No texto sobre Lee Konitz, depois de sua morte pelo Covid-19, tentei ser abrangente em relação aos discos lançados, mas é uma tarefa quase impossível face ao quanto gravou. Começou jovem, no fim da década de 1940, e tocou até pouco antes de morrer, aos 92 anos.

Meio que aleatoriamente — tenho milhares de CDs —, peguei um de Kenny Wheeler: “Angel Song” (1997), com Lee Konitz no sax alto, Bill Frisell na guitarra,  e Dave Holland no contrabaixo, sem bateria, o que faz a diferença.

A dinâmica nessas composições de Wheeler é um estado de melancolia, que nos empurra aos momentos de introspecção. Tendemos a achar que se a música de alguém é triste, ele é triste? Essa pergunta, não posso responder. Em uma entrevista, Edu Lobo afirma que prefere compor músicas tristes, por achá-las mais belas. São bons exemplos “Pra Dizer Adeus”, “Canto Triste”, “Beatriz”, “Sobre Todas as Coisas”. Há uma certa predominância desse estado nas composições do canadense que se radicou e fez carreira na Inglaterra.

Dentro dos padrões da ECM, segundo seu produtor e dono é o “som mais próximo do silêncio”. É uma busca pelo sublime, dentro da definição do inglês Edmund Burke em “Uma investigação filosófica sobre a origem de nossas ideias sobre do sublime e do belo” (Papirus/Ed. Unicamp, 1983) e de Immanuel Kant, quando escreve: “Pois, o verdadeiro sublime não pode estar contido em nenhuma forma sensível, mas concerne somente a ideias da razão, que, embora não possibilitem nenhuma representação adequada a elas, são avivadas e evocadas ao ânimo precisamente por essa inadequação, que se deixa apresentar sensivelmente.”

Sem teorizar e entrar na aridez dos conceitos filosóficos, instintivamente, percebemos a beleza, pois ela nos toca de forma indefinida. A melancolia, uma tensão nas notas certeiras, sem vibrato de Kenny Wheeler nos emociona, como o amor que sentimos, sem podermos defini-lo. São sentimentos, sensações apenas. Entram em nós, simplesmente. O som do sax alto de Konitz combina perfeitamente com o de Wheeler.

Há uma questão essencial aqui: ou você entra nesse universo da contenção, da beleza introspectiva, ou não. Se você está em um momento “hey ya”, melhor ouvir o Outkast e vá balançar o seu esqueleto e dar vazão ao seu momento de extroversão.

 Ouça o álbum disponibilizado no Spotify

 

 

Se você não conseguir acessar, entre no link do Spotify.

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

A morte e as 72 virgens

O uso de artefatos explosivos sempre foi a modalidade mais comum nos atentados perpetrados por movimentos considerados terroristas, como o dos bascos, do IRA e dos árabes Causaram muitos estragos e mortes no continente europeu. Eram deixados em logradouros públicos de grande circulação ou em automóveis estacionados e, em vários casos os alvos almejados eram figuras públicas adversárias consideradas inimigas ou adversárias desses movimentos separatistas.

Uma modalidade, porém, pode ser considerada exclusiva dos árabes: a dos homens-bomba. Haveria a promessa de que no Paraíso os mortos seriam recebidos por 72 virgens. Talvez seja por isso a prevalência de homens nessa modalidade, mas até como forma de despistar um ou outro atentado foi praticado por mulheres. Objetivamente, seria mais fácil disfarçar ou esconder as bombas sob as vestes femininas.

Minha quase chegada ao paraíso. Embarcamos bem cedo, do aeroporto de Cumbica, para Montevidéu. Foi minha última viagem em um Boeing-747, minha aeronave preferida. 

O hotel, meio antigo, ficava na avenida da praia, mas próxima da região central da cidade. Depois de andar bastante, de almoçarmos no Mercado, acabamos entrando em um shopping porque ela queria comprar um creme. Preferi dar uma explorada por outras lojas. Uns quinze minutos depois, voltei e ela continuava na loja. Preferi esperar no lado de fora, já um pouco impaciente e irritado com a demora, de cócoras, com as costas encostadas na parede. 

Quando a vi saindo, devo ter levantado rapidamente e ter tido uma queda abrupta de pressão. Desmaiei. Na queda, bati a cabeça com certa violência e foi essa a razão de ter recobrado os sentidos no instante seguinte. Ao abrir os olhos vi três jovens moças agachadas perguntando se eu estava bem. Ela, não sei se pelo susto, nem se abaixou. Vi seu rosto e de mais umas cinco pessoas em pé observando. Fui levado para a enfermaria do shopping. Disse que estava bem e saímos em pouco tempo. 

Mesmo em momentos graves, mantenho um certo senso de humor. “Achei que tinha morrido. Quando vi aquelas três belas garotas, achei que eram as primeiras virgens das 72 que me esperavam no paraíso”, disse. Ela ficou fula com a minha observação. Mas, passou. O resto da viagem foi deliciosa. Um dia volto a Montevidéu. Sem virgens.


Como música é vida, assista a um show da marroquina Amina Aloui, genial. Interpreta canções de raízes muçulmanas, em árabe, em espanhol e em português.

 
 
Quer saber mais sobre ela? Tem um texto no meu blog sobre ela: A viagem de Amina Alaoui


quinta-feira, 8 de outubro de 2020

De como Samba em Prelúdio foi composta


 

Conta Ruy Castro, em “Chega de Saudade” (Companhia das Letras, 1991), que, segundo a lenda, Vinícius de Moraes foi à boate Arpège para prestigiar Tom Jobim, que defendia uns trocados, tocando piano, e lá viu Baden Powell executando “My Funny Valemtine” e “Estúpido Cúpido” na guitarra elétrica. Depois do show, o poetinha o procurou e propôs uma parceria musical.

Lenda mesmo. Tom Jobim, em 1962, já era suficientemente famoso e não precisava tocar em boates para se sustentar. E Baden, não era tão desconhecido. A real é a que Vinícius conheceu Baden por meio de Nilo Queiroz, aluno de violão deste último. Depois de ouvi-lo uma noite inteira na casa do amigo, surgia um novo parceiro. Baden  foi parar no apartamento do ex-diplomata e lá ficou por quase noventa dias, compondo e bebendo. Resultou em 25 canções, muitas delas, hoje, clássicos.

De parte delas, resultou o genial álbum “Afro-Sambas”. A parceria foi regada a whisky Haig, que Vinícius tinha trazido na mala diplomática. A partir de um disco de folclore baiano, dado pelo amigo Carlos Coqueijo, e Baden sem nunca ter ido à Bahia, compuseram clássicos como os Cantos de Ossanha, de Xangô e de Iemenjá. 

Depois dos quase noventa dias de isolamento, internaram-se na Clínica São Vicente para se desintoxicarem.

No programa “Ensaio”, dirigido por Fernando Faro, Baden conta que ele e Vinícius passavam noites em claro, enchendo a cara e compondo. Uma delas deixou o poeta  injuriado. Disse que não ia colocar letra em um tema plagiado. O violonista alegou que não. “Isso é do Chopin”, dizia, depois de hectolitros de Haig na cabeça. Madrugada, quase amanhecendo, resolveu acordar a mulher, que conhecia bem sua obra do polonês. 

A mulher confirmou que não era. Vinícius resolveu então colocar a letra. Assim nasceu o clássico “Samba em Prelúdio”.

A melhor interpretação, na minha opinião, é a de Odete Lara, no álbum “Vinícius & Odete” (Elenco, 1963).

 
 
 
Veja Elizete Cardoso cantando “Samba em Prelúdio”, com Baden Powell.
 
 
 
 
Veja também a talentosa Andrea Motis cantando esse clássico.
 

 



quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Terje Rypdal, como nos bons tempos

Acaba de ser lançado “Conspiracy”, do guitarrista Terje Rypdal. É uma volta do norueguês à sonoridade com que o conhecemos em seus primeiros álbuns pela ECM. Ele não pode ser classificado no gênero “jazz”, se formos mais ortodoxos. É um músico que privilegiou, desde o início da carreira, o instrumental. 

Se for necessário um rótulo, diria que tem o rock como fonte para as suas aventuras sonoras. Antes de passar a gravar pela ECM, aí considerando a mão de seu dono e produtor, Manfred Eicher, montou a banda The Vanguards, inspirado na inglesa Shadows e The Ventures. Curiosamente, estudou piano e trompete no Conservatório mas a guitarra, foi autodidata.

As portas para gravar na ECM se abriram por meio de sua cooperação com Jan Garbarek e Jon Christensen. Com sua formação em conservatório, Rypdal compôs a 1ª Sinfonia, comissionado pela Televisão Norueguesa. No mesmo ano de 1975, gravou “Odissey”, álbum com a sonoridade do jazz-rock fusion. O produtor e dono da gravadora alemã explorou bem esse ecletismo musical dele. Cada álbum lançado explorava um viés diferente. Um ano antes, pela ECM, lançou “Whenever I Seem to Be Far Away”, peça belíssima e soturna, com orquestra e instrumentos eletrônicos como o mellotron. Cada disco explorava um caminho diferente. O comum em todos eles era a voz única de sua guitarra. Era e é inconfundível, sendo suas composições de cunho erudito ou não.

“Conspiracy”, tem Ståle Storløkken nos teclados, Endre Hareide Hallre no Fender Precision e no baixo fretless e Pål Thowsen na bateria, lembra muito os primeiros álbuns dele na ECM. Nem tão roqueiras, sua guitarra é climática, evocando paisagens desoladas. São sons que criam atmosferas, em distorções com notas longas que criam uma tensão dramática, melancólicas e por vezes pungentes. É muito bom ver que certas pessoas não sucumbiram ao tempo. Continuam com suas energias vitais altas. E pensar que Elvis Presley, por exemplo, morreu com 42 anos e tinha se tornado uma caricatura de si mesmo. Rypdal está com 73 e ainda é capaz de nos emocionar. “Conspiracy” tem algo de nostalgia, decerto. Faz-nos lembra de uma úsica que nos emocionou há quase 50 anos. Não é qualquer um que nos resgata essa memória. 


domingo, 20 de setembro de 2020

A prisão sem grades de Jafar Panahi



Por manifestar-se contra Mahmoud Ahmadinejad e apoiar o candidato adversário à presidência do Irã, Jafar Panahi, foi acusado de fazer propaganda anti-islâmica. Foi proibido de filmar e ficou em prisão domiciliar.

Panahi foi assistente de Abbas Kiarostami, o cineasta iraniano mais conhecido e reconhecido pelo Ocidente, premiado várias vezes no Festival de Cannes. Do mestre, herdou a capacidade de fazer cinema com poucos recursos. “Táxi Teerã” é um ótimo exemplo. Cria um microcosmo da realidade iraniana. É cinema de resistência.

Sem entrar em detalhes sobre o filme, sem spoilers, reproduzo a fala de uma advogada, amiga dele, no táxi: 

“Sabe, Jafar, fazem tudo para nós sabermos que estamos sendo vigiados. Conhecemos os métodos deles. Eles criam um histórico político. Você vira um agente da Mossad, da CIA ou do MI-5. Para completar, adicionam um escândalo sexual. Eles fazem a rua virar uma prisão. Você está livre, foi libertado, mas a rua virou uma grande prisão. Transformam seus melhores amigos nos seus piores inimigos, até você achar que a única saída é fugir do país ou se enfiar num buraco. Na minha opinião, é melhor deixar isso pra lá. É isso. E não coloque no filme isso que eu falei, senão vão dizer que você denegriu a realidade. Vai arrumar mais problemas ainda.”

Só esse trecho, que está no final, vale ver o filme. Tudo o que acontece dentro do táxi resulta na síntese do que é viver sob uma ditadura. O Brasil está perto disso. E, vamos combinar, nosso presidente é muito mais tosco e primário que os aiatolás. Precisamos enfrentar a ditadura dos ignorantes.

Disponível no Globoplay.

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Sun Speak. Ou por que é bom ser curioso



Há muito perdi a conta do que tenho ou não tenho. Pelo perfil de colecionador, gosto de ter, possuir. Não ouço rádio desde quando tinha 20 anos, nem no carro, e até hoje não sou assinante do Spotify. Lembro de, muito tempo atrás, empolgado com a música “Hey Ya”, do Outkast, ter mostrado para as minhas sobrinhas, quando eram umas pequenas de 12/13 anos, como uma novidade.Gozaram da minha cara. Fizeram juntas a dancinha do videoclip. O que achava ser uma novidade, tinha sido hit dois anos antes.

Bom, quem conhece uma banda chamada Sun Speak? Pois é. Você conhece? Geralmente, ouço primeiro, e se gostei, vou saber quem é ou quem são. Como a The Black Keys, que nem deve mais existir, é uma banda de dois componentes, mas são de música instrumental. Como a dupla de Akron, EUA, é formada por um guitarrista e um baterista.

O guitarrista Matt Gold e o baterista Nate Friedman se conheceram quando estudavam na tradicional Oberlin College, Ohio, mas a ideia de tocarem juntos aconteceu alguns anos depois.

A música do Sun Speak nasce do improviso. Ficam horas improvisando e, segundo Friedman, “de vez em quando, bastam três segundos de música para surgir uma centelha que propicia um tema para uma nova música.” Gold afirma que “essa técnica de improviso revela o processo de composicão e execução bem diferente” em relação ao que ambos fazem em outros grupos em que estão envolvidos.

Desses longos improvisos, as “centelhas” se transformam em temas para as composições que, segundo um crítico da Chicago Jazz Tribune, são tão “cinemátográficas, que poderiam servir para um estudo de uma trilha sonora.” Em “Moon Preach” predomina o que pode ser chamado de “soundscapes”, paisagens sonoras, sons que nos levam a construir paisagens imaginárias, ou que nos levam a concebê-las sensorialmente. A guitarra de Matt Gold nos leva a um estado de contemplação, à introspecção, às vezes, lírica, um pouco mais dramática, em outros momentos, sem efeitos mirabolantes, sob a marcação multifacetada da bateria de Friedman.

Palavras e versos nos remetem a construir imagens a partir do que é cantado ou dito; sons são mais abstratos e nos impelem a uma interpretação mais sensorial. Há uma elegância em como esses sons que, por meio da guitarra, em “Moon Preach”, lançado agora em 2020, e a bateria que se amalgama, com o acréscimo do sintetizador análogo e o Wurlitzer de Daon Pierson, resultando em uma bela alquimia sonora colorida e multifacetada. Cada faixa desse álbum nos carrega por sensações únicas, em uma ambiência que mostra todo o poder da música instrumental. Pura arte abstrata. É a abstração que nos impele a construir paisagens de acordo com o universo de cada um de nós.

Dentre as minhas preferidas estão “Alaska”, a faixa que abre o disco, e “Mbira”. Provavelmente, suas preferidas podem ser outras. Ouça.


segunda-feira, 14 de setembro de 2020

A Ítaca de Leonardo Padura


“The Big Chill” (1984), de Lawrence Kasdan, é um filme que trata de amigos que fizeram a Universidade e se reencontram  — por isso, no Brasil, o título “Reencontro” — quinze anos depois, por um motivo amargo: o suicídio de um deles. Passam o fim de semana juntos. Algo da pureza e da alegria dos tempos de estudante se desfez.

 Há uma certa semelhança com “Retorno a Ítaca”, de Laurent Cantet, diretor do premiado “Entre os Muros da Escola” (2008), com roteiro do escritor Leonardo Padura. A Ítaca dele é Cuba. 

Em vez de o reencontro ser em uma casa de campo, acontece em um terraço de um prédio bem no meio da cidade de Havana. O pretexto de se reunirem é a volta de Amadeo, que morou por muito tempo em Barcelona e resolve voltar para a sua terra natal. A semelhança entre ficção e realidade é clara para os que conhecem o escritor. Apesar da decadência econômica e política, sem ser um dissidente, é um crítico do regime e, mesmo assim, optou por se fixar em Cuba.

São amigos há 40 anos. Tania é uma médica que ganha uma miséria, Rafa, um pintor desiludido, que submergiu no alcoolismo, Aldo, o único negro do grupo, que é quem mais acreditou no regime socialista de Fidel Castro, e, por último, Eddy, o único que se deu bem economicamente, comendo pelas bordas, como diria Leonel Brizola. 

A riqueza do filme está na qualidade dos diálogos. O terraço, ou melhor, a laje, é o cenário para a síntese das ilusões e desilusões, de sonhos desfeitos, da luta diária pela sobrevivência, das misérias de cada um, daquele que resolveu, em vez de perseguir a carreira de escritor, preferiu se dar bem e, de certo modo, ter virado um “merda”. Frente às censuras dos amigos, afirma: “Me deixei transformar num merda. É verdade. Mas não me roubaram a vida. Me roubaram o sonho de ser escritor. Mas a vida, não.”

A desilusão está em cada diálogo ou confissão. Aldo é personagem do sonho do socialismo que se desfez. Sabe disso. “Sempre acreditamos e nos encheram de medo. E sabem por que? Porque queríamos acreditar e não contestávamos. Tínhamos que ser puros, sinceros e honestos. Os filhos da mãe sabiam, e nos encheram de medo!” Tania, a médica, diz a Amadeo: “Muitas vezes penso e digo — Meu Deus! —, dá vontade de morrer. E sabe o que é pior? A gente não morre. Continua aqui. […] Não dá para saber, se todo o sofrimento impede de você viver. Dá para viver assim? Droga!”

Há passagens emocionantes. Não é para quem gosta de filmes de ação. É para quem prefere mergulhar nos dramas humanos. “Retorno a Ítaca” está disponível no Globoplay.

Um Bola de Nieve para fechar.



domingo, 13 de setembro de 2020

Buzina

A buzina, nos carros, existe para alertar o outro, seja um pedestre ou um outro veículo. Como qualquer invenção, mesmo sendo para o bem, pode achar o seu espaço para o mal. Se é lenda ou não, dizem que Santos Dumont morreu desgostoso ao perceber que sua invenção poderia ser uma poderosa arma para a guerra.

Estava chegando ao estacionamento em que deixava meu carro diariamente. Bem na entrada, um senhor estava parado a admirar um outdoor de uma pin-up da revista Playboy. Buzinei para que ele permitisse que eu entrasse no estacionamento. Nada. Buzinei novamente. Saí do carro para falar que ele precisava sair da frente. Descobri então que ele era surdo e mudo.

sábado, 12 de setembro de 2020

Carlos Conde e o 11 de setembro

O Conde, como era conhecido Carlos Conde, pelos amigos, foi um dos maiores colecionadores e expert do jazz, no Brasil. Teve um programa de jazz por muitos anos na rádio Cultura, interrompido pouco antes de sua morte.

Apesar da diferença de idade — cerca de vinte anos —, fiquei amigo do Carlos Conde ao ponto de, frequentemente, ser convidado a ir em apresentações em que ganhava convites, na condição de ter um programa especializado em jazz na rádio Cultura. Nas do Bourbon Street, Edgar, um dos sócios, reservava a mesa mais próxima do palco. Nnena Freelom, Carol Welsman, James Carter, John Pizzarelli tocaram e cantaram a menos de três metros de nós.

Ele tinha por hábito viajar duas vezes por ano aos Estados Unidos. Era um cliente conhecido da loja mais especializada em jazz em Nova York, a Jazz Record Center, localizada em um prédio próximo à Union Square. Trazia mais de cem CDs por vez. Jogava as “jewel box” e trazia apenas os CDs, encarte e capas dentro de um Case Logic, para não dar na vista. Comprava as “jewel box” no Brasil e remontava-os.
 
Houve uma vez em que estivemos no mesmo período em Nova York e nos desencontramos. Não existiam celulares, o que dificultou a nossa comunicação. A gente se encontrou no check in do aeroporto, pois voltávamos na mesma noite. Coincidência.

Em outra ocasião, tinha acabado de voltar e nos dias seguintes quem ia para lá era eu. Nos Estados Unidos, os lançamentos acontecem em datas anunciadas. Por um dia, não conseguiu comprar o CD “The Classic Concert Live” (Concord Jazz 2005), de uma apresentação de seu cantor preferido, Mel Tormé, no Carnegie Hall, com Gerry Mulligan e George Shearing. Ele disse: “Preciso ter esse CD. Eu estava no show. É o primeiro em que tenho certeza de que estava na plateia.” Comprei na J&R, uma de nossas preferidas, localizada perto da prefeitura. Bem downtown, a J&R era um conjunto de lojas, uma do lado da outra, em que se vendia desde utensílios domésticos, equipamentos de som, CDs a computadores. Ele, como eu, íamos uma vez por dia, pelo menos. Fazia parte do meu roteiro, junto com a Tower, localizada no Village. Na volta, ainda passava na HMV da Times Square.

Fui até as Torres Gêmeas apenas na primeira vez em que fui a Nova York. Acho que há pontos turísticos que devem ser visitados uma vez apenas. É o suficiente. Peguei o barco para conhecer a estátua da Liberdade em uma única ocasião. Ao Empire State fui umas três vezes, isso porque em cada uma delas, estava com alguém que não o conhecia. Portanto, o World Trade Center “sumiu” da minha vida. Por essa razão não percebi que ficava a pouco mais de um quarteirão da J&R.

Um dia depois do atentado às Torres Gêmeas, me liga o Conde e diz: “Você sabe qual é o meio mais fácil de ir à J&R?” Depois de uma pausa, completou: “de avião.” Não entendi prontamente. Desculpe. É uma piada de humor negro e hoje soa um pouco incoveniente. Mas foi o que ele disse. O Conde tinha umas tiradas muito espirituosas. Era um lado divertido dele. Não presenciou o ocorrido porque voltou dois dias antes. Sua mulher e a filha ainda estavam em Nova York. Tiveram que adiar a volta.

No ano seguinte, fui a Nova York. Foi aí que percebi como as Torres eram perto da J&R. Fui até lá. Era um imenso buraco cercado por tapumes.

Agora vai um “Body and Soul”, pelo Mel Tormé. Era a canção preferida do Conde. Tinha todas as gravações que conheceu.



sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Sobre elegância e o meu casaco Samira

Dizem que a roupa que você usa representa o que você é. Não tenho alguma opinião formada sobre esse assunto. Com a pandemia, quando, se você tem alguma responsabilidade, não sai de casa, a não ser para comprar itens essenciais ou ir até a farmácia, a opção é o conforto. Óbvio que se você participa de uma “live”, por exemplo, não vai aparecer com uma camiseta velha e puída.

A elegância é um atributo intrínseco. Não adianta sair por aí com uma bolsa Hermès combinando com a sua roupa comprada na loja da Chanel. Quem é realmente elegante é vestindo uma camiseta Hering e um jeans sem marca.

Pois tive fases em que me preocupei mais e menos com os itens da minha indumentária. É um assunto que entra no terreno da frivolidade, vamos dizer. No início da adolescência aconteceram duas coisas: deixei de usar as roupas que minha mãe escolhia e passei a gostar de ler. Nessa rebeldia, em vez de calças Topeka, queria calças de alfaiate, sapatos de uma loja bem conhecida na época, a Spinelli. Meu interesse por literatura foi um batismo de fogo: Flaubert, Dostoiévsky, Hemingway e Vargas Llosa. Meio sem noção de quem eram, encarei-os, em nunca antes ter lido Monteiro Lobato, um completo desconhecido em Passos, MG, onde fiz o 1º grau. Nesse caldeirão, eram óleo e água, futilidade e cultura.

Mas foi passageiro. Enquanto lia avidamente o que aparecia na minha frente, deixei crescer o cabelo — afronta explícita à rigidez da educação paterna — e passei a usar túnicas indianas. Tinha uma calça de sarja cor de laranja, quase cenoura, que minha mãe odiava. Um dia,dei falta dela. Minha mãe tinha jogado no lixo. Na foto da minha matrícula na FAU-USP, meus cabelos eram longos e vestia uma túnica roxa, com fios dourados.

Ao sair da FAU, tive que mudar um pouco, para adequar-me aos lugares em que fui trabalhar. Mas o vestir não fazia parte das minhas principais preocupações.

Trabalhando com design gráfico, meus esforços iam em direção às artes plásticas. Tinha participado de uma coletiva de gravura no MAC-USP e do Salão Paulista de Arte de Santos e de São Paulo. Meu estúdio era em um dos quartos da casa dos meus pais. Lá passava as noites pintando e desenhando até a chegada do sono. 

Um amigo de minha irmã, imagino que, para impressionar a paquera, que cursava artes plásticas na FAAP-SP, resolveu trazê-la para conhecer o meu ateliê. Era uma moça muito chique. Vestia um jeans justíssimo e uma blusa fina de seda. Dentro do meu universo cotidiano, era a primeira mulher que eu conhecia que se maquiava e usava batom. O encontro foi bem formal. Afinal, pelo que imaginei, ela estava saindo com o amigo da minha irmã e devia ter algum interesse dele por ela.

Não lembro mais de como tudo aconteceu, porém, a história é que um mês depois, estávamos namorando. Era fim de inverno. Minha preocupação com o vestir era simplesmente funcional. Nos dias de frio usava um casaco de náilon creme que tinha herdado da minha irmã, da Samira, que não o queria mais e ia jogar fora. Detalhe: ela tinha 1,50 de altura, e eu, 1,70. Ficava um pouco justo, mas cumpria sua tarefa de deixar o meu corpo quente. 

Em uma das primeiras vezes em que saímos, usei o casaco. Imagine o contraste: ela chique, perfumada e super maquiada, e eu de Samira de náilon. O namoro firmava. Adivinhe qual foi a primeira coisa que ganhei de presente? Um casaco. A partir de então, resolvi me preocupar com o que vestir. É desse tempo a primeira camisa da Richards que comprei e também do meu primeiro paletó na Tweed, na época, uma referência na moda masculina.

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Nijinsky. Ou ter uma certa capacidade de abstração

 


 “Nijinsky” foi um espetáculo montado por Naum Alves de Souza. Foca na breve carreira do russo de origem polonesa que logo foi chamado de “o deus da dança”, após suas primeiras apresentações em Paris, na companhia de Sergei Diaghilev.

O início do século 20 foi o das vanguardas, termo que caiu no lugar comum depois, mas tiveram razão de serem assim chamadas por serem verdadeiramente revolucionárias e até consideradas iconoclastas. O balés serviram como um caldeirão em que se juntavam a expressão teatral, por meio da dança, a visual, com os cenários e figurinos, e a música. Nesse contexto, Paris conheceu o Ballets Russes, de Sergei Diaghilev. Obtiveram enorme impacto “Petrouchka” e “Sagração da Primavera”, criadas a partir de composições de Igor Stravinsky. Não apenas bailarino, Nijinsky chocou a cena parisiense com sua coreografia para “A l’après-midi dun faune”, de Claude Debussy.

A peça
Alguns nomes eram destaques na dança, em São Paulo, na década de 1980: Ivaldo Bertazzo, Ruth Rachou e J.C. Violla. Este último tinha um curso de dança de salão, muito frequentado pelos descolados daquela época.

Evidentemente, “Nijinsky” teria que ser representado por um bailarino. O escolhido foi J.C. Violla.

“Nijinsky” foi encenado no Teatro da Cultura Artística, muito tempo antes do incêndio. Lembro que era um sábado. Tinha uma sessão às 18h e outra às 20h.Fomos em um grupo de umas seis pessoas na última sessão. No caminho do teatro, encontrei com o jornalista e crítico do “Jornal da Tarde” Edmar Pereira, que acabado de ver a peça. Edmar era um sujeito com tiradas peculiares. Sem o objetivo de serem uma crítica, eram por outras vias. Convocado para cobrir um dos dias do “Hollywood Rock”, no estádio do Morumbi, encontro com ele na apresentação de Bob Dylan. Pergunto para ele se está gostando. Responde: “A gente só consegue descobrir qual é a música que ele está cantando na hora do refrão. Ainda bem que o jornal me passou o setlist.”

No caso de “Nijinsky”, perguntei se ele tinha gostado. “Imagine uma mulher de poucos atributos físicos, enorme, representando Carmen, da ópera do Bizet. A gente tem que imaginá-la como a mulher irresistível que leva Don José ao desespero. A gente tem que achar que é o Nijinsky que está dançando.”

Observação: em 1986, quando estreou “Nijinsky”, não existia o que ficou conhecido como “politicamente correto”; portanto, o termo “gordo” não era ofensivo.

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Chifrada


Dona Luzia, isso mesmo, dona – era como a tratávamos – foi empregada da minha família por um bom tempo, por cinco anos talvez. Era alcoólatra, fumante inveterada, negra, de tez bem escura, cerca de 1,80 de altura, muito magra, sem nenhum atributo de beleza, digamos que era feia, bem feia. Mesmo assim, não lhe faltavam homens. Tinha borogodó. Com cerca de 40 anos, aparentava 60.
Na minha casa ninguém bebia. Meu pai tinha uma ou outra garrafa de whisky para os amigos, devidamente escondidos, porque dona Luzia era daquelas que bebia até perfume e loção de pós-barba. Meu pai a aturava, quase não a via. Minha mãe sempre foi compreensiva e bondosa. Inclusive, exigia que tratássemos qualquer um de nossos semelhantes com respeito, pobres ou ricos. Acho que, por isso, o ‘dona’
Luzia”.
Sendo alcoólatra, de vez em quando, nem conseguia levantar e dar conta das tarefas domésticas. Minha mãe nasceu pobre e nunca foi de fugir do batente. Cozinhava e até auxiliava dona Luzia, quando ela não se encontrava em suas melhores condições de trabalho.
Anualmente, dona Luzia viajava para a Bahia no período de suas férias. Em uma delas, passado um mês, não voltou. Desapareceu. Não tivemos mais notícia. Cerca de cinco meses depois, ressurgiu do nada. Minha mãe nunca deixaria alguém desamparado. Dona Luzia voltou a trabalhar conosco, sem que a outra fosse despedida.
Contou-nos que ficara hospitalizada. Tinha uma cicatriz bem visível na testa. Disse que estava em um descampado e nisso, perseguida por um touro, bateu de cara em uma cerca de arame farpado.
A única parente que dona Luzia tinha em São Paulo era uma sobrinha, que, de vez em quando, aparecia e a levava para passear em fins de semana. Enquanto se arrumava para sair, a sobrinha acabou contando o que realmente acontecera. Estava em um bar, bebendo, é claro, e engraçou-se com um rapaz. Só não contava que a sua mulher estava junto. As duas brigaram e dona Luzia acabou levando uma facada na testa. Aquela marca não foi em decorrência de ter tentado se livrar de uma chifrada.
 
(publicada em 3 de maio de 2020 no Facebook)

Olho de vidro

Dentre as empregadas domésticas que passaram pela casa da minha família, algumas se destacam por suas peculiaridades: dona Neusa, alcoólatra, que não voltou das férias por ter levado uma facada na testa, uma outra de peitos enormes que andava com um radinho de pilha encaixado no sutiã, uma pernambucana que dizia que era fácil de arrumar um matador por 200 reais, mas a de quem escrevo nesse momento, é por uma lembrança bem mais banal, mais ou menos banal.

Nem lembro do nome dela e nem por quanto tempo trabalhou na casa de meus pais. Devia ter uns 16 anos ou um pouco mais. Depois de um tempinho, percebi algo de estranho em seu olhar. Inicialmente achei que era estrábica. Conversando com ela um dia, por curiosidade, devo ter perguntado se tinha algum problema na vista. Disse que sim. Teve que colocar um olho de vidro.

Diziam que David Bowie tinha um olho de vidro, porque uma de suas pupilas não dilatava e os olhos ficavam de cores diferentes. Mas parece que tinha um problema por ter levado um soco em uma briga com um amigo por causa de uma amiga. Quem viu “O Homem Que Caiu na Terra” (1976), filme de Nicolas Roeg, protagonizado pelo inglês, deve ter percebido a diferença do tamanho das pupilas nos closes.

Estávamos na cozinha quando me contou do olho. Devo ter feito mais alguma pergunta. Prontamente, ela disse: “Quer ver como é o olho de vidro? Eu posso tirar para você ver.” E nisso, levou a faca que estava usando para cozinhar em direção a ele. Devo ter gritado ou apenas me assustado. Só me lembro que disse: “Não, não precisa!”

sábado, 5 de setembro de 2020

Vinho envelhecido

Passado o período de experiência – três meses –, chegou o dia de ser apresentado ao futuro possível sogro, em grande estilo. Não sei se em grande estilo, mas com certo estilo. O lugar do encontro seria em um sítio distante uns cem quilômetros de São Paulo..

Saímos, programados de chegar perto da hora do almoço. Há sempre uma expectativa nesses encontros. O lugar era simples, despojado e agradável. Sentamos na varanda e perguntou-me se bebia algo. Educadamente, respondi que podia ser qualquer coisa. Fiquei sentado na varanda, observando a vegetação um pouco ressecada, ouvindo o som resultante do vento que atravessava uma plantação de eucaliptos à minha esquerda.

Logo veio “seo” José com uma taça de vinho e o depositou sobre a mesa ao lado da minha cadeira. Não era de muitas palavras. E eu, “abandonado”, com alguém que conhecera há poucos minutos, senti um certo constrangimento no ar. Mas, aprendi, com o tempo, a lidar melhor com essas situações. Hoje, se alguém puxar uma conversa, consigo falar sobre qualquer assunto, desde o mais banal, como futebol (que mal acompanho), sobre o tempo (é o quebra gelo mais habitual), e tenho um conhecimento além da média quando o assunto é música, literatura e artes plásticas.

Porém, não foi fácil achar assunto com ele. Era um sujeito calado e, se imperasse o silêncio por alguns minutos, principiava a cochilar. Era o primeiro encontro, afinal. Com um pouco de dificuldade, conversei sobre amenidades, tentando causar boa impressão.

Depois de mais ou menos meia hora, percebeu que eu mal tocara no vinho. O que me servira estava vinagre puro. Levantou-se e trouxe uma outra garrafa e outra taça. Experimentei. Mesma coisa. A marca era Gatão, bem popular no fim do século passado. Os vinhos da Península Ibérica não tinham a fama nem a reputação de hoje. Eram considerados de segunda, e eram mesmo, pelo menos os que vinham para o Brasil. A exceção eram os vinhos do Porto.

Chateado, disse: “Puxa, vou ter que jogar uma caixa inteira, que tinha comprado há quinze anos!” Com o convívio mais amiúde, descobri que tinha o hábito de comprar tudo em grandes quantidades. Chegou, em certa ocasião, a comprar um saco de um quilo de orégano, suficiente para abastecer um rede de pizzarias por mais de uma ano. Bom, mas essa é para uma outra história.

quinta-feira, 27 de agosto de 2020

Rei ou rainha, Teddi King, é cult



Teddi King nasceu Theodora King, em Boston, em 1929. Ganhou uma competição em sua cidade natal em um programa estrelado pela apresentadora e (boa) cantora Dinah Shore. O jornalista Sergio Augusto, em um artigo antigo, escreveu que Shore foi uma espécie de Hebe Camargo americana. Forçada. Cantava muito bem, ao contrário da emblemática apresentadora brasileira, que entrou na carreira artística participando de programas de calouros.

King gravou o primeiro disco em 1949, com Nat Pierce e excursionou por dois anos com o inglês George Shearing. Nat e George foram figuras importantes do meio musical anglo americano.

Teddi, sem ter chegado ao estrelato, tem fãs fanáticos. Como Irene Kral, outra cantora (uma das minhas preferidas), é uma cantora cult, ou seja, é pedante dizer, mas é venerada por um grupo seleto. Não lançou muitos títulos.

King desenvolveu uma enfermidade rara e complicada, lúpus, que a obrigou a se afastar do business da música, ainda no início dos anos 1960. Essa é a razão de ser pouco conhecida. Não fosse por isso, seria considerada uma das grandes. Uma sinalização de que seria, foi a de que foi empresariada pelo prestigiado George Wein, criador do Newport Jazz Festival.

Teve um breve retorno e gravou dois álbuns pela Audiophile, com o pianista Dave McKenna, que foram lançados postumamente. Teddi King morreu em 1977. Tinha apenas 48 anos.

Do repertório de King, evidentemente, destacam-se standards como “Porgy”, “You Don’t Know What Love Is”, “Our Love Is Here to Stay”, “You Go to My Head”, mas também, menos conhecidas, mesmo que gravadas por Frank Sinatra, Ella Fitzgerald e Ray Charles, como This Love of Mine, de Sol Parker.




Ouça “You Don’t Know What Love Is”.




Ouça “That Old Feeling”.




quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Daniel Herskedal. Com a boca na tuba

Daniel Herskedal e a tuba

Numa cena de um dos primeiros filmes de Woody Allen, ele é o violoncelista de uma “marching band”, aquelas tradicionais que se exibem em público pelas ruas em datas comemorativas. A parte cômica é da impossibilidade de se tocar tal instrumento em pé. Executa um trechinho, interrompe, vai em frente, senta e toca mais um pouco.

A parte da instrumentação de base, o que dá consistência rítmica e espaço para os solos, é constituída pelo contrabaixo e a bateria, chamada de “cozinha” pelos músicos do jazz. Nas bandas de rua, os dois são substituídos por uma grande variedade de instrumentos percussivos, o sousafone — tem esse nome por ter sido criado justamente por um dos pioneiros das “marching bands’, John Philip Sousa — e a tuba.

Pouco representado no jazz, tem, entre seus poucos destaques Howard Johnson, Bob Stewart, o francês Michel Godard — que toca também um instrumento conhecido como serpente —, o jovem Theon Cross e Daniel Herskedal, tema dessa postagem.

Um novo polo
Depois do fim da Segunda Guerra Mundial, o interesse pelo jazz cresceu bastante na Europa. Abriu-se um mercado para os músicos americanos por várias razões: uma, o racismo arraigado na cultura americana. Podiam ser talentosos ou brilhantes, mesmo assim eram segregados, proibidos de frequentar os mesmos lugares que os brancos — hotéis ou restaurantes. A outra foi a de que vários músicos, por terem sido presos por problemas com drogas ilícitas, tiveram suas licenças cassadas, necessárias para apresentações públicas. Encontraram um ambiente receptivo.

A França foi o primeiro país a recebê-los com o respeito que mereciam. Um exemplo foi a a acolhida dada a Miles Davis. Os clubes eram frequentados por intelectuais como Jean Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Albert Camus e Boris Vian. O jovem cineasta Louis Malle, aproveitando a sua estada, convidou-o para fazer a trilha sonora de “Ascenseur pour l'échafaud” (1958). Miles, de quebra, namorou com Juliette Gréco.

No final da década de 1950 e início dos 60, Dexter Gordon, Kenny Drew, Ben Webster, Bud Powell, Mal Waldron, Chet Baker e Stan Getz estavam tocando ou morando na Europa.

O fenômeno da cultura do jazz espalhou-se para outros lugares, como a Holanda, Bélgica e Dinamarca — onde até hoje existe o Café Montmartre, em Copenhaguen — e a Suécia, país que abrigou Stan Getz, Don Cherry e Bebo Valdés. Até em países que viviam sob ditaduras como a Espanha e Portugal, o jazz foi ganhando público crescente.

O interesse pelo gênero jazz cresceu para os outros países da Escandinávia e até para os da Cortina de Ferro. Um deles foi a antiga Tchecoslováquia, além da Polônia e Hungria em menor escala. Gábor Szabó e Miroslav Vitous, dois artistas formados nesses países emigraram e fizeram bastante sucesso no mercado americano.

O som que vem do frio
O produtor Manfred Eicher, dono e produtor da ECM Records foi um dos responsáveis pelo lançamento de inúmeros músicos escandinavos. O primeiro a ficar conhecido foi Jan Garbarek, quando este fez parte do quarteto europeu de Keith Jarrett. Junto com ele, emergiram na cena musical seus conterrâneos Arild Andersen e o brilhante guitarrista Terje Rypdal. Fizeram parte de sua banda os suecos Jon Christensen e Palle Danielsson. A outra gravadora que revelou bons nomes da Escandinávia e dos países do Leste Europeu foi a ACT Records. Aproveitando do título de um livro conhecido de John Le Carré, era o “jazz que veio do frio”.

Como Garbarek, Daniel Herskedal é norueguês. Nasceu em 1982, em Molde. Estudou na tradicional Conservatório de Trondheim. Começou tocando trompa (french horn) e passou para a tuba, instrumentos da mesma categoria. Seu caminho natural seria o de toacar em alguma orquestra, mas acabou por direcionar-se à música de improviso e à composição. Classificado no gênero erudito, o norueguês tem um álbum com sua música executada por Elin Torp Meland (oboé), Kjell Magne Robak (cello) e Gro Merete Hjertvik (piano): “Behind the Wall” (Naxos, 2019).

Tem seis álbuns sob seu nome. O mais recente é “Call for Winter” (2020), em gravação com overdubs dele tocando tuba e trompete baixo. Merece ser ouvido em sua íntegra. É brilhante.

Ouça.




quinta-feira, 16 de julho de 2020

O solo mais bonito de Joe Farrell

Joe Farrell no saxofone soprano. Foto: Jan Perssons

Alguns músicos nunca foram considerados os melhores do planeta, geniais como Miles Davis e John Coltrane e, mesmo assim, em algum momento, deixaram suas marcas. Até o mais comum dos humanos, em algum lugar, na perfeição em que pintou uma parede, nas palavras que podem ter significado muito para alguém, em uma atitude de bondade que nunca imaginou ter, pode tê-la deixado. Qualquer um é capaz de um ato de grandeza, mesmo sendo o mais mesquinho e miserável ser da Terra, sem perceber. Sim, podemos ser geniais, sem, de fato, sermos.

Joe Farrell, sem ser genial, foi um saxofonista e tanto; e bom flautista. Morreu jovem: 49 anos. É, por isso, pouco conhecido e um estranho para aquele com menos de 50. Brasileiros que ouviram Airto Moreira e Flora Purim sabem de quem escrevo, ou, quem ouviu o álbum “Return to Forever”, de Chick Corea, lançado em 1972, com o casal brasileiro, Farrell e o baixista Stanley Clarke.

No mesmo ano, em outubro, gravaram o LP “Light As a Feather”, que acabou saindo em 1973. Os álbuns seguintes, a partir de “The Hymn of the Seventh Galaxy”, Chick Corea consolidou o que ficou conhecido como “jazz progressivo”, usando outros teclados além do piano elétrico Fender Rhodes, na esteira da eletrificação do jazz, cujo pioneiro foi Miles Davis, e intitulou o grupo com o nome do disco citado no parágrafo anterior.

Mas o assunto aqui é Joe Farrell e de sua brilhante interpretação de “Crystal Silence”, de “Return to Forever”. Ouça.




Veja Joe Farrell em uma apresentação ao vivo, na flauta transversal, com Chick Corea.




Chick Corea, além da banda elétrica, seguiu gravando sob o seu nome. Um dos álbuns é “The Leprechaum” (Polydor, 1976), e o outro foi o duplo “My Spanish Heart”. Foi, num certo sentido, uma forma de abrir espaço para a cantora Gayle Moran, com quem acabou casando. Em “The Leprechaum”, Joe Farrell participou. Apresentaram-se na época, no Free Jazz Festival, no Brasil. Eu estava lá. Foi a única vez em que vi Joe Farrell.





quinta-feira, 9 de julho de 2020

Morre Johnny Mandel, o mestre dos arranjos


Coincidência ou não, muitos arranjadores iniciaram suas carreiras como trombonistas, caso de Bill Holman, Glenn Miller, Melba Liston, e até Ray Conniff. Johnny Mandel, morto em 30 de junho tocava trompete e trombone. Um caso de trompetista que acabou mais famoso como arranjador é Quincy Jones.

Tanto Mandel como Jones ficaram muito conhecidos como compositores de trilhas sonoras. Este último, começou tocando em bandas de jazz e ambicionava muito mais. Sua participação como arranjador em um álbum de Dinah Washington, em 1955, lhe trouxe fama e prestígio. Foi o grande parceiro de Ray Charles, no início de sua carreira, e também arranjador de Count Basie, Frank Sinatra, Sarah Vaughan e outros nomes da música. As gerações mais novas o conhecem por ter sido o artífice da transformação de Michael Jackson em super estrela da música pop.

Johnny Mandel não chegou a tanto e, provavelmente, não tinha a ambição de Jones. O mais próximo da popularidade pop que atingiu foi com a gravação de “Unforgettable”, por Natalie Cole, em que faz um dueto virtual com seu pai Nat King Cole.

Como compositor de trilhas para filmes, alguns temas compostos por ele são standards do cancioneiro americano: “Emily”, “The Shadow of Your Smile” e “Suicide Is Painless”, este, tema de “M*A*S*H.”, filme de Robert Altman. É autor de dois clássicos supremos também: “Here’s to Life” e “Close Enough for Love”.

Como arranjador, citando seus trabalhos menos antigos, trabalhou com Shirley Horn e Diana Krall.

Nesses tempos de pandemia pelo Covid-19, vários músicos, principalmente do jazz, foram suas vítimas — Lee Konitz, Wallace Roney e Ellis Marsalis—, comentados neste blog. Johnny Mandel morreu com 94 anos, em 29 de junho. Não foi revelada a causa.


Ouça “Here’s to Life”, com Shirley Horn. Preste atenção no arranjo. É maravilhoso.




Ouça também “A Time for Love”, composição de Mandel.




Ouça “Close Enough for Love”, interpretada pela genial Shirley Horn.




Ouça “The Shadow of Your Smile”, com Tony Bennett.




E, finalmente, “Suicide Is Painless”, em interpretação do gênio do piano Bill Evans.





terça-feira, 30 de junho de 2020

Lee Konitz é mais uma vítima da Covid-19

Miles Davis e Lee Konitz em foto de 1951

Com certo atraso, escrevo sobre Lee Konitz. Efeitos da quarentena forçada. Dispersei. Apenas agora, afinal, o saxofonista morreu em 15 de abril, o post está sendo publicado.

Um álbum de Lee Konitz, “The Lee Konitz Duets”, serve de exemplo de seu estilo. Produzido por Dick Katz, para o selo Fantasy, foi gravado em setembro de 1967. Nessa época, o jazz era um gênero em risco de extinção. O rock, que emplacou seus primeiros sucessos em meados da década de 1950, explodiu de vez com as bandas inglesas, como os Rolling Stones e os Beatles, acabou com a era das grandes bandas como as de Duke Ellington e Count Basie.

Fora a última, os outros sete temas são com Konitz e um outro instrumentista. Eventualmente tocava outros tipos de saxofone, mas sua especialidade sempre foi o alto. O primeiro dueto — “Struttin’ with Some Barbecue” — sola com o trombonista Marshall Brown. Na clássica balada “You Don’t Know What Love Is”, no estilo “pergunta/resposta”, é ele com o saxofonista tenor Joe Henderson. De todos os números, o mais interessante é “Variations on Alone Together”. Numa longa faixa de 15 minutos, os duetos vão se alternando, uma hora com a bateria de Elvin Jones, o vibrafone de Karl Berger, o contrabaixo de Eddie Gomez, e, finalmente, com todos eles tocando juntos no trecho final. Outra faixa que merece ser destacada é “Erb”, com Jim Hall que, como ele, no início de suas carreiras, fizeram parte do combo de Jimmy Giuffre.

Para alguém que viveu tantos anos — 92 —, passou por muitas fases. Querido como era, generoso, gravou muitos álbuns mundo afora com músicos pouco conhecidos do mercado americano. Como exemplo, um deles é “Lee Konitz in Rio” (1989), gravado com Luis Avellar, Victor Biglione, Nico Assumpção, Carlos “Bala” Gomez e Marçal, bem fraquinho, por sinal.

O começo
Em todos os obituários destacou-se que Konitz foi um dos músicos do álbum “The Birth of the Cool”, considerado um marco no jazz. São mais importantes — ou tanto quanto —, no entanto, sua participação em gravações com o lendário Lennie Tristano, dono de um estilo único, um mestre no uso da técnica do contraponto, inédito até então na linguagem do jazz, de harmonias ricas e ritmos complexos. Seu piano contribuiu na forma de tocar de Konitz. Esses registros estão em “The Complete Atlantic Recordings of Lennie Tristano, Lee Konitz & Warne Marsh (1954-1958)”, lançado em 1997.

Foi importante também ter tocado com o clarinetista e saxofonista Jimmy Giuffre, outro grande do cool jazz. Ambos gravaram, em 1959, “Lee Konitz Meets Jimmy Giuffre”

Em sua longa carreira foi cool, bebop, hardbop, avant garde, mas o que melhor o classifica é que criou um estilo único, que foi moldado nos anos 1950 e cristalizou-se nos anos seguintes. O sopro sem vibratos, solos que privilegiavam as harmonias e a originalidade, que pode ser avaliada principalmente em standards, que permitem comparações com outras interpretações. Foi um saxofonista discreto. Não impactou o jazz como Charlie Parker, o maior saxofonista alto da história. Não deixou uma marca, digamos, como Johnny Hodges e seu sax “açucarado”, o sopro redondo e melodioso de Paul Desmond, ou a agilidade estratosférica de Phil Woods. Konitz correu por fora, como um fundista. A idade não pesou, como pesou paraoutros, como Woods, que nos anos derradeiros executava solos cada vez mais curtos.

Como líder
“Subconcious-Lee” (1950) é um clássico. Algumas parcerias renderam bons álbuns: “Lee Konitz & Warne Marsh” (1955) e “Konitz Meets Mulligan” (1953). Os dois tinham tocado juntos antes, em “Birth of the Cool”.

Tendo gravado mais de uma centena de álbuns, fica difícil destacar os melhores, até porque não ouvi todos. Porém, dos que conheço, destaco “Solitudes” (1988), com o ótimo pianista Enrico Pieranunzi. É uma boa amostra da originalidade de Konitz em improvisar sobre standards como “When I Fall in Love”, “The Shadow of Your Smile”, “Solitude” e outros.

Ouça “The Shadow of Your Smile”.




Nada como bons parceiros. Michel Petrucciani, por exemplo. Pena que tenha morrido tão cedo. Tinha o que chamam de “a doença dos ossos de vidro”. Morreu com 36 anos. Em 1981, participou de uma turnê com o saxofonista. Essa brilhante parceria está registrada em “Toot Sweet” (1982). Os dois se revezam em solos belos e originais. Em “‘Round Midnight” genial, assim como na clássica “Lover Man”, o saxofone de Konitz voa por rotas únicas.

Ouça “‘Round Midnight”.




Aliás, essa é a grande qualidade de Konitz. É a sua capacidade de aliteração em temas tão conhecidos, pelo menos, do público que ouve e gosta de jazz. Por essa razão, os álbuns que ele gravou em formato trio, com Brad Mehldau e Charlie Haden, são bem interessantes. Ele arrumou o parceiro ideal. Mehldau é o exemplo ideal do instrumentista que possui essa capacidade de ir além do imaginável. São dois os álbuns existentes: “Alone Together” (1997) e “Another Shade of Blue” (1999), ambos captados em apresentações no Jazz Bakery, em Los Angeles.

Ouça a brilhante interpretação dos três em “Alone Together.




Outro álbum interessante é “Three Guys” (1999), em que o trio é completado por Steve Swallow e Paul Motian. Ambos, velhos conhecidos pelos que estão familiarizados com lançamentos da ECM Records, são considerados mestres em seus instrumentos, o primeiro, por ter trocado o contrabaixo acústico pelo elétrico, criador de uma sonoridade única, e o segundo, baterista por muito tempo do quarteto americano de Keith Jarrett, e iniciado e do lendário trio de Bill Evans, que tinha Scott LaFaro como contrabaixista, cuja maior propriedade era a sutileza e musicalidade com que manejava as baquetas.

Desse álbum, ouça “Luiza”, uma das últimas obras primas de Antônio Carlos Jobim.


Como gravou muito, teria que fazer um post enorme. Paro por aqui.Há uma quantidade razoável de álbuns de Lee Konitz no Spotify, caso interesse alguém.


Do primeiro disco citado, ouça “Variations on Alone Together”, citado no início do texto.