quinta-feira, 11 de julho de 2019

Um ilustre desconhecido de nome Chris Gillespie



Uma profissão que exige um bocado de abnegação é a de cantor ou músico de bares. Seus frequentadores normalmente vão para conversar, namorar, falar mal da vida alheia, enfim, tudo menos ouvir quem se apresenta. Bem diferente de locais como o Village Vanguard, Blue Note, em Nova York, ou o Cafe Montmartre, em Copenhagen, que, apesar de venderem bebidas e comidas, têm um público que está lá para, primordialmente, ouvir música. Em um nível intermediário, há o Café Carlyle, classificado como cabaré, onde por 36 anos, apresentou-se Bobby Short. Frequentado por celebridades, turistas e alguns verdadeiramente interessados em ouvir música, ainda é um lugar de entretenimento, antes de mais nada.

Vamos falar, no entanto, de bares ou clubes em que o frequentador vai mesmo é para beber, comer, conversar e, por último, ouvir uma música ao vivo. Artistas que apresentam-se nesses lugares são heróis.

Em hotéis como o Carlyle, existem vários espaços onde pode-se beber e encontrar-se com amigos. Um deles é o Betelmans Bar. Não tem a aura do Café, mas é possível ouvir-se uma boa música ao vivo. É nele que Chris Gillespie apresentou-se durante anos, cinco vezes por semana, em duas sessões, a primeira ao piano, e a outra, com seu trio.

Chris foi tipicamente um músico da noite, como tantos outros. É uma boa razão de ser pouco conhecido. Merecia mais que os holofotes do Betelmans, com certeza. Lançou poucos discos, um deles, ao vivo no Carlyle, de 2007, muito bom, e um dedicado à Cole Porter — “Portraits of Porter” —, de 2013.

Outro dado para que seja pouco conhecido é ter morrido relativamente jovem: 52 anos, em dezembro de 2017. Esportista, participou de quatro maratonas em Nova York, jogava tênis e esquiava. Mesmo assim, teve um rompimento da aorta e morreu em casa.

Sendo Gillespie, a primeira associação que se faz é com o famoso trumpetista Dizzy Gillespie. Nenhum parentesco. Era alemão. Sendo negro, filho de pai holandês e mãe natural da Tanzânia, e com esse sobrenome — não sei se era apenas nome artístico —, passaria por um músico americano tranquilamente. Com aprendizado formal em música, começou tocando em Munique. Em 2002, resolveu tentar a sorte em Nova York. Além de cantar e tocar piano no Betelmans. Gillespie dava aulas de música e contribuiu para várias fundações de caridade.

Ouça uma seleção de Chris Gillespie. No ao vivo é acompanhado por Keith Loftis no saxofone, Frank Tate no contrabaixo e Vito Lesczak na bateria. As primeiras três faixas são de “Live at Carlyle” e as restantes, de “Portraits of Porter”.