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quinta-feira, 9 de julho de 2020
Morre Johnny Mandel, o mestre dos arranjos
Coincidência ou não, muitos arranjadores iniciaram suas carreiras como trombonistas, caso de Bill Holman, Glenn Miller, Melba Liston, e até Ray Conniff. Johnny Mandel, morto em 30 de junho tocava trompete e trombone. Um caso de trompetista que acabou mais famoso como arranjador é Quincy Jones.
Tanto Mandel como Jones ficaram muito conhecidos como compositores de trilhas sonoras. Este último, começou tocando em bandas de jazz e ambicionava muito mais. Sua participação como arranjador em um álbum de Dinah Washington, em 1955, lhe trouxe fama e prestígio. Foi o grande parceiro de Ray Charles, no início de sua carreira, e também arranjador de Count Basie, Frank Sinatra, Sarah Vaughan e outros nomes da música. As gerações mais novas o conhecem por ter sido o artífice da transformação de Michael Jackson em super estrela da música pop.
Johnny Mandel não chegou a tanto e, provavelmente, não tinha a ambição de Jones. O mais próximo da popularidade pop que atingiu foi com a gravação de “Unforgettable”, por Natalie Cole, em que faz um dueto virtual com seu pai Nat King Cole.
Como compositor de trilhas para filmes, alguns temas compostos por ele são standards do cancioneiro americano: “Emily”, “The Shadow of Your Smile” e “Suicide Is Painless”, este, tema de “M*A*S*H.”, filme de Robert Altman. É autor de dois clássicos supremos também: “Here’s to Life” e “Close Enough for Love”.
Como arranjador, citando seus trabalhos menos antigos, trabalhou com Shirley Horn e Diana Krall.
Nesses tempos de pandemia pelo Covid-19, vários músicos, principalmente do jazz, foram suas vítimas — Lee Konitz, Wallace Roney e Ellis Marsalis—, comentados neste blog. Johnny Mandel morreu com 94 anos, em 29 de junho. Não foi revelada a causa.
Ouça “Here’s to Life”, com Shirley Horn. Preste atenção no arranjo. É maravilhoso.
Ouça também “A Time for Love”, composição de Mandel.
Ouça “Close Enough for Love”, interpretada pela genial Shirley Horn.
Ouça “The Shadow of Your Smile”, com Tony Bennett.
E, finalmente, “Suicide Is Painless”, em interpretação do gênio do piano Bill Evans.
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017
A primeira de um milhão de interpretações de “Wild Is the Wind”
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| Shirley Horn, grande cantora e pianista. |
“Wild is the Wind” é o nome de um filme dirigido por George Cukor, lançado em 1957, com Anna Magnani e Anthony Quinn. No Brasil, o título foi “Fúria na Carne”. Os portugueses foram mais literais: “Selvagem É o Vento”. A música tema foi composta por Dimitri Tiomkin, com letras de Ned Washington..
Depois de Mathis, a primeira a gravar pode ter sido Nina Simone, em “Nina Simone at Town Hall” (1959). Sua versão mais conhecida, no entanto, é a que está no álbum “Wild Is the Wind” (1966). Apesar de muitos intérpretes tê-la cantado, ficou quase indissociável a ela, tanto que é a referência de músicos pop, como David Bowie e Cat Power.
Uma das melhores interpretações é de Shirley Horn, de 1961.
Jeff Buckley (leia “O morto Jeff Buckley”) adorava Nina Simone. Em outra encarnação, possivelmente, sonharia em nascer na pele dela. Um dos grandes covers dele, além de “Hallelujah”, de Leonard Cohen, é “Lilac Wine”. Existe, se não me engano, um registro dele cantando “Wild Is the Wind”. É pena que não tenha uma gravação de boa qualidade. Jeff tinha uma atração fatal pelos estados de dor e melancolia. Combinava bem com torch songs.
Menos obcecado por Simone, David Bowie canta “Wild Is the Wind” de forma menos dramática.
Menos obcecado por Simone, David Bowie canta “Wild Is the Wind” de forma menos dramática.
A melhor das releituras modernas de “Wild Is the Wind” é de Cat Power. É outra que se dá bem em canções tristes. Ouça.
Leia também sobre outro clássico que ficou conhecido na voz de Nina Simone: “Breve história de Lilac Wine”.
Leia também sobre outro clássico que ficou conhecido na voz de Nina Simone: “Breve história de Lilac Wine”.
quinta-feira, 25 de agosto de 2016
Toots e o Brasil
Rildo Hora, tido como o maior gaitista brasileiro, em certa ocasião, foi procurado por um astro roqueiro da música, nos anos 1960 ou 70, não lembro agora, porque queria aprender a tocar esse instrumento. Disse que queria tocar como Bob Dylan. Rildo falou então que se fosse por isso, nem precisava de professor. É essa a imagem mais comum que se tem da gaita.
No Brasil, chamado de gaita, fora é mais conhecido como harmônica. Os tipos mais comuns são a gaita diatônica e a cromática. A primeira é a consagrada pelos músicos de blues e em consequência, pelos intérpretes do rock – ou folk rock – como Bob Dylan e Neil Young. No jazz, o grande nome foi Toots Thielemans, falecido nesta segunda-feira, 22, aos 94 anos. Dentre os atuais, o mais conhecido é Gregoire Maret. Toots é o responsável por esse instrumento, que parece tão banal, atingir esse status. Como é possível um objeto tão pequeno e aparentemente limitado produzir sons tão belos? Esse é o legado de Thielemans. Mostrou sim, que era possível.
Jean Thielemans nasceu em Bruxelas em 1922. Começou tocando acordeão e depois passou para a guitarra. Foi com esse instrumento que iniciou sua carreira no sexteto de Benny Goodman. Em 1952, foi para os EUA e tocou na Charlie Parker’s All Stars e ficou com o pianista inglês George Shearing por seis anos.
Thielemans não foi apenas o mestre da harmonica. Elevou a outro status algo mais banal ainda: o assobio. Em 1961, quando gravou “Bluesette”, tocando guitarra e assobiando ao mesmo tempo, o sucesso foi estrondoso. Mas foi com a gaita que tornou-se o músico que mais ganhou prêmios na categoria “miscellanious instruments”. Foi o jeito de incluí-lo entre os grandes do jazz.
Veja Thielemans assobiando e tocando guitarra em sua “Bluesette”.
Brasil
A primeira vez de várias outras de Thielemans no Brasil foi em 1980, no Festival Internacional de Jazz. Veio várias vezes depois. Antes, havia gravado um disco com Elis Regina, em 1969, chamado “Aquarela do Brasil” e depois reintitulado “Elis & Toots”, com Antonio Adolfo ao piano, Roberto Menescal no violão e Wilson das Neves na bateria e percussão.
Veja Elis e Toots em “Wave”.
Como havia dito, Toots era um mestre no assobio. Veja-o na guitarra, com Elis. No fundo, é Menescal.
Outra aproximação de Toots com a música brasileira foram os dois álbuns de “The Brasil Project” produzidos por Miles Goodman e Oscar Castro-Neves, lançados em 1992 e 1993. Nas liner notes, o belga diz “sentiu-se como a cereja de um bolo brasileiro feito com os melhores ingredientes.” As canções são tocadas em parceria com os nomes bem conhecidos como Djavan, Caetano Veloso, Ivan Lins, Luiz Bonfá, Eliane Elias, Ricardo Silveira, Milton Nascimento, Edu Lobo, João Bosco, Gilberto Gil e Oscar Castro-Neves, dentre outros. São álbuns bem apropriados para a valorização da auto-estima do brasileiro.
Ouça “Fruta Boa”, com Milton Nascimento.
“Ouça “Joana Francesa”, com Chico Buarque.
Ouça “Manhã de Carnaval”, com Luiz Bonfá ao violão.
O melhor de Toots
Impossível conhecer toda a discografia do belga. Gravou bastante. Os citados abaixo são os meus preferidos.
• “For My Lady” (Gitanes, 1991). Toots toca guitarra, gaita e assobia com o trio de Shirley Horn, composto por ela ao piano e voz, Charles Ables no baixo elétrico e Steve Williams na bateria. Quer companhia melhor?
• “Only Trust Your Heart” (Concord, 1998). Mais uma vez, a companhia ajuda. É Fred Hersch ao piano, Harvie Swartz e Marc Johnson no baixo, e Joey Baron na bateria.
Ouça “Estate”, clássico italiano descoberto por João Gilberto.
No Brasil, chamado de gaita, fora é mais conhecido como harmônica. Os tipos mais comuns são a gaita diatônica e a cromática. A primeira é a consagrada pelos músicos de blues e em consequência, pelos intérpretes do rock – ou folk rock – como Bob Dylan e Neil Young. No jazz, o grande nome foi Toots Thielemans, falecido nesta segunda-feira, 22, aos 94 anos. Dentre os atuais, o mais conhecido é Gregoire Maret. Toots é o responsável por esse instrumento, que parece tão banal, atingir esse status. Como é possível um objeto tão pequeno e aparentemente limitado produzir sons tão belos? Esse é o legado de Thielemans. Mostrou sim, que era possível.
Jean Thielemans nasceu em Bruxelas em 1922. Começou tocando acordeão e depois passou para a guitarra. Foi com esse instrumento que iniciou sua carreira no sexteto de Benny Goodman. Em 1952, foi para os EUA e tocou na Charlie Parker’s All Stars e ficou com o pianista inglês George Shearing por seis anos.
Thielemans não foi apenas o mestre da harmonica. Elevou a outro status algo mais banal ainda: o assobio. Em 1961, quando gravou “Bluesette”, tocando guitarra e assobiando ao mesmo tempo, o sucesso foi estrondoso. Mas foi com a gaita que tornou-se o músico que mais ganhou prêmios na categoria “miscellanious instruments”. Foi o jeito de incluí-lo entre os grandes do jazz.
Veja Thielemans assobiando e tocando guitarra em sua “Bluesette”.
Brasil
A primeira vez de várias outras de Thielemans no Brasil foi em 1980, no Festival Internacional de Jazz. Veio várias vezes depois. Antes, havia gravado um disco com Elis Regina, em 1969, chamado “Aquarela do Brasil” e depois reintitulado “Elis & Toots”, com Antonio Adolfo ao piano, Roberto Menescal no violão e Wilson das Neves na bateria e percussão.
Veja Elis e Toots em “Wave”.
Como havia dito, Toots era um mestre no assobio. Veja-o na guitarra, com Elis. No fundo, é Menescal.
Outra aproximação de Toots com a música brasileira foram os dois álbuns de “The Brasil Project” produzidos por Miles Goodman e Oscar Castro-Neves, lançados em 1992 e 1993. Nas liner notes, o belga diz “sentiu-se como a cereja de um bolo brasileiro feito com os melhores ingredientes.” As canções são tocadas em parceria com os nomes bem conhecidos como Djavan, Caetano Veloso, Ivan Lins, Luiz Bonfá, Eliane Elias, Ricardo Silveira, Milton Nascimento, Edu Lobo, João Bosco, Gilberto Gil e Oscar Castro-Neves, dentre outros. São álbuns bem apropriados para a valorização da auto-estima do brasileiro.
Ouça “Fruta Boa”, com Milton Nascimento.
“Ouça “Joana Francesa”, com Chico Buarque.
Ouça “Manhã de Carnaval”, com Luiz Bonfá ao violão.
O melhor de Toots
Impossível conhecer toda a discografia do belga. Gravou bastante. Os citados abaixo são os meus preferidos.
• “For My Lady” (Gitanes, 1991). Toots toca guitarra, gaita e assobia com o trio de Shirley Horn, composto por ela ao piano e voz, Charles Ables no baixo elétrico e Steve Williams na bateria. Quer companhia melhor?
Ouça Shirley Horn e Toots em um excepcional “Someone to Watch Over Me”.
Ouça a clássica “Willow Weep for Me”.
• “Only Trust Your Heart” (Concord, 1998). Mais uma vez, a companhia ajuda. É Fred Hersch ao piano, Harvie Swartz e Marc Johnson no baixo, e Joey Baron na bateria.
Ouça “Estate”, clássico italiano descoberto por João Gilberto.
• “Affinity” (WB, 1979). O álbum é de Bill Evans “featuring” Toots Thielemans. Não é unanimidade dentre os fãs do pianista, talvez porque ele ainda estivesse na fase (passageira) de tocar também o piano elétrico, mas é bom, inclusive pela presença de Toots na harmônica.
Ouça “Body and Soul”.
• “Toots Thielemans & Kenny Werner” (Verve, 2001). Grande álbum. Andei ouvindo esse disco por esses dias e pensava em postar alguma coisa sobre ele. Aí leio que Toots morreu.
Ouça “Body and Soul”.
• “Toots Thielemans & Kenny Werner” (Verve, 2001). Grande álbum. Andei ouvindo esse disco por esses dias e pensava em postar alguma coisa sobre ele. Aí leio que Toots morreu.
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
As últimas interpretações de Here’s to Life ouvidas antes do fim de 2011
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| Capa do CD-tributo a Shirley Horn, de Montcalm |
Here’s to Life é a primeira faixa do disco com o mesmo nome, de Shirley Horn, lançado em 1992, pelo selo Verve. Inicialmente, imaginei ter sido composta por Johnny Mandel, mais em razão desse disco ter sido produzido e arranjado por ele. Engano: foi composta por Artie Butler e a letra é de Phyllis Molinary.
Pelo jeito, apesar de ter sido gravada por Nancy Wilson, Joe Williams, Eartha Kitt e Barbra Streisand, coube a Shirley Horn “descobri-la” ou, pelo menos, torná-la conhecida. Sua interpretação é primorosa e o arranjo de cordas de Mandel é magnífico. Ele é um mestre e é compositor de primeira. Quem não se delicia com Suicide Is Painless, tema de M*A*S*H, clássico satírico de Robert Altman, ou com The Shadow of Yor Smile, Close Enough for Life, Emily e A Time for Love? Mandel é gênio nos andamentos lentos. Bem que Here’s to Life poderia ser de sua autoria: está à altura de suas composições.
Here’s to Life nasceu clássica na interpretação de Shirley Horn. Mesmo assim, é sempre um prazer escutá-la com outros. As três que ouvi recentemente são a do italiano Stefano Bollani, da polonesa Aga Zaryan e da canadense Térez Montcalm.
A de Térez Montcalm. Térez tem uma voz, realmente, diferente.
A de Stefano Bollani está no álbum Ma l’amore no.
A de Aga Zaryan.
É claro que não poderia faltar a de Shirley Horn e Johnny Mandel. É ouro puro.
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