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quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Jesse Belvin, aquele teria sido. Ou, não.

Mr. Belvin
Até o mês passado, não conhecia Jesse Belvin. Disse que voltaria a citar Jorge Cravo, o Cravinho (leia http://bit.ly/SOPR5Q), colecionador de discos e autor de O Caçador das Bolachas Perdidas (Editora Record, 2002). O apreciador de um gênero tem suas preferências específicas. Um fanático de rock pode adorar os Beatles e odiar o punk, por exemplo. Percebe-se, por meio do livro, que Cravinho tem predileção por cantores e cantoras. Nas páginas finais, em “Grandes, grandes discos – um guia para colecionadores”, escreve sobre alguns e, como ninguém é obrigado a conhecer tudo, fiquei curioso sobre alguns sobre quem nunca tinha ouvido falar. O bom dessa lista são as referências a intérpretes que fogem dos consagrados como Frank Sinatra, Billie Holiday e companhia.

Um, em especial, me deixou na maior curiosidade: Jesse Belvin; principalmente, em razão do subtítulo: “O disco perfeito e único”. E começa dizendo que “não são muitos discos em que todas as faixas são imperdíveis. É raro que o repertório, os arranjos e o cantor se combinem tão bem que, para o ouvinte, torna-se quase impossível preferir esta ou aquela faixa (o jeito é ouvir o disco de cabo a rabo, sem parar). Um dia, encontraram a fórmula mágica, envolvendo o cantor Jesse Belvin, o arranjador e regente Marty Paich e o produtor Dick Pierce.” Bom, depois do que o Cravinho escreveu, faça o que eu fiz: entrei na Apple Store e adquiri por US 9.99 Mr. Easy – Jesse Belvin, o único disponível na loja..

Mas, se o cara era tão bom, por que apenas esse disco? A resposta é que, algumas semanas depois de ter gravado esse disco, morreu em um acidente de carro, em fevereiro de 1960. Lembra-se da sina dos 27 anos? Jimi Hendrix, Amy Winehouse, Jim Morrison, Kurt Cobain e Janis Joplin são os que morreram com essa idade. Antes, bem antes deles, morreu o bluesman Robert Johnson, num distante ano de 1938. Belvin tinha 27, também. Não é sina exclusiva de roqueiros.

O autor do texto da contracapa (antigamente, não podia faltar aquele longo texto em letras minúsculas de algum crítico ou conhecedor) “especula a que ponto chegaria a carreira de Jesse Belvin se não tivesse morrido tão cedo”. Cravinho arremata: “Não tenho bola de cristal, mas, também especulando, acho que, pelo demonstrado nesse disco, ele teria easily (botar em itálico) uma brilhante carreira. E arrisco um palpite: como cantor, Jesse Belvin talvez se tornasse um novo Nat ‘King’ Cole.”

Depois disso, você ficou tão curioso quanto eu? Pois aqui está uma pequena amostra daquele que poderia ter sido, ou não. Ouça Blues in the Night. O arranjo bacana é de Marty Paich.




A face pop de Belvin, em Guess Who, em uma apresentação disponível no YouTube. Muito bom. E a música é belíssima.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

O craque Joe Mooney

Mooney em foto de William P. Gottlieb
A fila de músicos sobre os quais gostaria de falar é enorme; é maior que a dos que foram assunto neste blogue. Chegou afinal a vez de Joe Mooney, que estava lá esperando a sua vez. Não é sujeito muito conhecido, mas vale, e muito, conhecê-lo, digo para os que não sabem quem é ele ou nunca o ouviu. É do time de George Shearing, de Ray Charles e Art Tatum. Têm em comum o fato de todos serem (foram) tecladistas. Tem outra coisa mas, deixa pra lá. Se você quiser saber, leia em http://bit.ly/WFWP0h.

Diferentemente dos três citados, Mooney acabou optando pelo órgão e pelo acordeom. Foi relativamente popular nos anos 1940, pelo menos é o que se diz em sua biografia. Órgão é um instrumento bem específico. Os nomes mais conhecidos são os da turma da Blue Note – John Patton, Jimmy Smith, Larry Young e Jack McDuff (este gravou mais pela Prestige). O estilo de Mooney é diferente porque tocava e cantava ao mesmo tempo. A importância, nesse caso, está na simbiose entre voz e instrumento saindo dos mesmos nervos cerebrais. No caso dos que tocam, exclusivamente, os estímulos se direcionam para as mãos e para os pés, que fazem soar as notas mais graves; é por isso que muitos organistas prescindem de um contrabaixista.

Há uma qualidade muito específica na instrumentação de Mooney, algo que acontece com muitos pianistas/cantores como Bobby Short, Dave Frishberg e Bob Dorough.

O motivo maior de lembrar de escrever algo sobre Joe Mooney se deve ao fato de ter “descoberto” o livro O Caçador das Bolachas Perdidas, de Jorge Cravo, o Cravinho, como é conhecido. Por falta de espaço ou por desorganização, livros relacionados à música e ao cinema estão em uma estante dentro do meu banheiro social, que fica bem frente ao vaso sanitário. Pois estava à procura de um determinado livro e me deparei com o de Cravinho, lançado pela editora Record, em 2002. O Carlos Conde e o Alberico Cilento viviam falando dele e do livro. Comprei não sei há quanto tempo. O certo é que esqueci, mas o que está por aí sempre estará à mão. Bom, iniciei a leitura e, em uma sentada (não foi na privada, é bom esclarecer), li metade dele. Agora, na parte final, quando fala dos seus intérpretes favoritos, há uma parte que é sobre Joe Mooney.

O baiano Cravinho, nascido na pequena Alagoinhas, junto com o irmão Mario Cravo Jr., foi fazer faculdade nos Estados Unidos, facilitado pela boa condição financeira familiar, exportador de café e tabaco. Bom, o Mario Cravo Jr., todo mundo deve conhecer; seu filho Mario Cravo Neto também. Tendo ido morar, primeiro em Syracuse e depois em Nova York, Cravinho assistiu ao vivo uma verdadeira constelação de astros do jazz: Nat “King” Cole, Billie Holiday, Stan Kenton, Anita O’Day, June Christy… bom, é melhor pegar o livro porque a relação é extensa. As edições devem estar esgotadas, mas vale a pena ir atrás de um sebo internético e adquiri-lo. É engraçado, instrutivo e delicioso, mormente aos que se interessam pelo jazz e pelos de bom gosto. Do jeito que é bom e é uma referência, com certeza, voltarei ao Cravinho em outras oportunidades.

Voltando ao Joe, vou dar uma de folgado e transcrever a parte que se refere ao grande cantor/organista/acordeonista. Para contextualizar, a partir de um intertítulo – “Um time invencível” –, Cravinho “monta” um time ideal, posição a posição. Vamos lá:

O meio de campo de minha seleção de pianistas cantores é de uma versatilidade incrível. São tão entrosados que, sem temer qualquer adversário, incluíram um cego! A fera se chama Joe Mooney e é um cego com tanta habilidade e percepção sensorial que desnorteia qualquer esquema inimigo. Joe Mooney atrai para si muita atenção porque canta e toca piano, órgão e acordeom. Ouvi pela primeira vez sua voz e bossa em 1949, no rádio do carro, viajando pelos Estados Unidos. Estava cansado, por vir dirigindo horas seguidas, e eis-me de noitinha ao volante, entre palmeiras enormes, numa avenida de Los Angeles. De repente, ouvi no rádio um cantor e um conjunto pra lá de moderno. O choque foi tanto que quase perdi o controle do carro. “Mas, que é isso?”, eu disse para mim mesmo, só que em voz alta. Meu irmão Mario, que ressonava a meu lado, no assento do carona, acordou sobressaltado e foi logo me advertindo: “Presta atenção no volante, você quase saiu da pista! É a sua falta de atenção quando está ouvindo música!” Aguentei o pito e, finalmente, o locutor deu a dica: “Ouvimos Joe Mooney e seu quarteto.”
Jamais esqueci Joe Mooney e, nos anos 50, fui reencontrá-lo como crooner da Orquestra Sauter-Finegan, cantando o antológico “Nina Never Knew”. Depois, lavei a jega com seus LPs You Go to My Head (Decca), Lush Life (na Atlantic, onde ele novamente castiga Nina Never Knew”), The Greatness of Joe Mooney e The Happiness of Joe Mooney (os dois últimos da Columbia). Todas essas joias já estão em CD e precisam ser ouvidas – são cada vez mais raros os cantores “originais”, e Joe Mooney foi um dos maiores.



Agora, só resta ouvir Nina Never Knew.


Nota: Todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.


E outra, bem conhecida: Crazy He Calls Me.


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