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quinta-feira, 11 de junho de 2015

A melancolia de Tracey Thorn

Fosse seu nome “Torn”, aí estaria um bom gancho para descrever algo da música de Tracey Thorn. Mas há um “H” no meio do caminho. Assim, muda bem: “espinho”.

O que caracteriza uma das partes de Everything But the Girl? E sua contraparte? É uma dupla complementar, tanto na vida musical e na vida cotidiana, já que são casados e parecem inseparáveis, como seres siameses. Mas tanto Ben Watt como Tracey têm gravado álbuns sob seus nomes e não mais como EBTG. Há, no entanto, algo de indissociável.

A voz de Thorn é inconfundível. Em colaborações com o Massive Attack, o Working Week (We Will Win, aka “Venceremos”), Style Council, sua voz dá aquele “plus” mais que especial.

No lançamento mais recente, Thorn é a voz e compositora de temas para o filme The Falling, da diretora Carol Morley. O drama é sobre um estranho fenômeno ocorrido no fim dos anos 1960: em uma escola inglesa estritamente feminina acontece um surto de desmaios inexplicáveis. Seria um bom tema para David Lynch. Lembra também Piquenique na Montanha Misteriosa (Picnic at Hanging Rock, 1975), de Peter Weir, autor de A Testemunha, de sua fase australiana. Meninas saem para uma excursão. Elas saem para explorar o lugar. Todas desaparecem, menos uma, que não lembra o que aconteceu. Como em The Falling, acontece algo inexplicável, como um surto coletivo.

Com um tema como esse, a cabeça de Thorn deve ter viajado. E é o que acontece. Sem ao menos ter visto o filme, compôs oito temas que não totalizam mais que 20 minutos. E o resultado é algo mágico, hipnótico, “weird”, como diriam no hemisfério norte. Tracey Thorn nos propicia momentos de magia e estranheza com sua voz sempre melancólica e enigmática.


Ouça Follow Me Down, primeira faixa.


Ouça Let Me in.



Se você quiser ouvir o EP inteiro:

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

O amor de Tracey Thorn que não está à venda

Everything But The Girl, vulgo EBTG
Muito breve: apenas três minutos e cinco segundos. É o tempo que dura This Love (Not for Sale). A letra é de Tracy Thorn, e a música, de Ben Watt. Juntos, formavam o Everything But The Girl. Estranho nome. Estranho também, no uso dos anglo saxões, de nomear com as iniciais. EBTG? Se duas dessas iniciais correspondem a palavras com apenas três letras?

Os derradeiros anos da década de 1970 e início dos 80 foram a época de pequenas gravadoras como a Blanco y Negro, a Factory e a 4AD abrigarem os nomes mais representativos da cena inglesa. Foi quando os The Smiths – algo que traduzido para o português poderia ser “Os Silvas” – explodiram e fizeram com que muitos concluíssem que “sim, a música inglesa não morreu”. New Order deu luzes dançantes ao som depressivo do Joy Division, antiga banda de todos os seus membros menos Ian Curtis, que se matara com 23 anos. O Echo & The Bunnymen, do cantor Ian McCullouch, a guitarra especial de Will Sergeant, o baixo poderoso e certeiro de Les Patinson e a bateria de Pete de Freitas lançaram, a partir de 1979, um disco genial atrás do outro. Em vertentes um tanto alternativas surgiram o Dead Can Dance, de Lisa Gerrard e Brendan Perry, Durutti Column, banda do excepcional Vini Reilly, o This Mortal Coil, A.R. Kane e o Cocteau Twins. Pouquíssimo tempo antes, abriam a seara da nova música britânica, a banda de Roberto Silva (Roberth Smith), The Cure, e Siouxsie & The Banshees. Em comum com a cantora Siouxsie, Smith tinha o gosto de exibir-se com os lábios lambuzados de batom vermelho.

Vi apresentações do New Order, Echo & The Bunnymen, Cocteau Twins, Dead Can Dance e do EBTG. Pagaria qualquer quantia pela banda (de um homem só), Durutti Column, a minha preferida. É o fascínio pela música considerada “para baixo”. Dá para escutar Tomorrow eternamente, mesmo com Reilly repetindo o refrão “Tomorrow never comes”. Dos citados, o melhor foi o do Echo & The Bunnymen (vi três vezes), em segundo, o do New Order – som dançante e presença de Peter Hook tocando o baixo, quase no chão, com os braços esticados. O de Dead Can Dance foi impressionante pela presença magnética de Lisa Gerrard, com sua pele de louça, meio etérea, como o som que produzia. As duas bandas que, na verdade, são duplas, Cocteau Twins e EBTG, são fracas de show. O som extremamente elaborado e cheio de efeitos perde magia num palco e o som produzido é inferior ao dos discos: saí antes do fim. O do Everything But The Girl, vi em um teatro londrino. Se o que percebi é a natureza do inglês, deve-se considerar a frieza e educação de centenas de espectadores sentadinhos e parcimoniosos nos aplausos. Bem, e se considerarmos que a fleuma inglesa é a mesma dos hooligans (os fanáticos torcedores de futebol)?

Tracey Thorn se vestia com roupas como terninhos e distribuía mechas e fios de cabelos em tufos turbinados por fixadores poderosos, e Ben Watts se parecia mais a um “reco” americano. Tracey não tinha a voz de Elizabeth Fraser, etérea e bela, era um tanto monocórdia, mas tinha seu encanto, uma certa melancolia que sempre me atraiu.

O acesso a qualquer informação na internet anulou um certo sentido de temporalidade das coisas. Um garoto, nos anos 1960, sabia da existência dos Beatles, dos Rolling Stones, de bandas como Renato e Seus Blue Caps ou The Fevers, que gravavam versões em português dos sucessos dos ingleses, ou se empolgava com um movimento chamado Jovem Guarda, porém via Elvis Presley e Jerry Lee Lewis como quase “dinossauros” do rock. Esse hiato de dez ou menos anos representava uma distância de tempo que, hoje, se dilui através de informações das quais temos acesso a qualquer hora.

É curioso ver a juventude cantando junto com Paul McCartney sucessos de quase cinquenta anos atrás sem isso parecer nostalgia. O garoto de hoje acha “fácil” gostar de Bob Dylan sem levar em consideração as circunstâncias que o levaram a se tornar conhecido. Ouvir bandas surgidas nos anos 1980, hoje, equivale àqueles que fizeram sucesso nos anos 1960. Assim, as “fronteiras” desaparecem e a sensação de que algo com 30 ou 40 anos tenha ficado velho se desvanece.

Pois, quando ouço o EBTG cantando This Love (Not for Sale), numa seleção de músicas que fazia em Minidisc (invenção da Sony, de vida curta) para ouví-los no carro no tempo em que o formato mp3 engatinhava, aflora certa emoção; não por nostalgia ou do fato de me fazer lembrar de algum momento específico; é, simplesmente, porque percebo a riqueza e sofisticação do arranjo para sopros, a bela introdução do órgão tocado por Ben, acompanhado por sons de prato da bateria de June Miles Kingston. A voz triste de Tracey Thorn – que coincidência ter “thorn” no nome! – se faz acompanhar por saxofones e trompetes, lindo e pungente; pena que dure apenas três minutos e cinco segundos.