A batida de Motian era diferente, cheio de pausas, um ritmo que não associaria ao mainstream. Tomei gosto pela música instrumental e meus primeiros interesses se direcionaram ao jazz-rock, ou jazz progressivo, como você preferir. Minhas primeiras aquisições foram I Sing the Body Electric e Mysterious Traveller, do Weather Report, No Mystery, da banda de Chico Corea, Extrapolation, de John McLaughlin, e Third, da banda inglesa Soft Machine. Keith Jarrett entrou na história porque tinha tocado com Miles Davis, outra referência seminal. Um amigo de meu pai trouxe Agharta, Get Up with It e Big Fun, do trompetista de quem fã mor. Cheguei a ter cerca de 70 LPs dele. Depois de conhecer seus discos de sua fase elétrica, comprei os da década de 1960, quando a banda era com Wayne Shorter, Herbie Hancock, Ron Carter e Tony Williams. “Regressivamente” fui comprando os seus primeiros gravados na Prestige Records. Em algum momento Bill Evans entrou na história, por causa de Kind of Blue. Esse maravilhamento pelo estilo de Evans fez com que comprasse tudo o que encontrava dele. Em Sunday at the Village Vanguard (Riverside 1960), além de impressionado com o baixista Scott LaFaro, descubro que baterista era Paul Motian. Pois então: era mainstream e ao longo do tempo foi criando o “estilo Motian”.
Vi duas vezes, o que considero um privilégio, como morador do Brasil, uma vez aqui em São Paulo, e outra no Village Vanguard, Nova York, apresentando-se com Joe Lovano e Bill Frisell. Os três têm registros na ECM, JMT e Winter & Winter.
Além do trio, o que acho mais me interessou foram as formações heterodoxas, em que “dobrava” alguns instrumentos, como dois saxofonistas, dois ou três guitarristas. Alguns fui conhecer justamente em seus álbuns: Kurt Rosenwinkel, Ben Monder, Steve Cardenas e Jakob Bro.
Nessas formações “dobradas” acho especialmente bons Paul Motian on Broadway III (JMT, 1993) e Garden of Eden (ECM 2006). No primeiro, os dois saxofonistas são um exemplo da arte da improvisação. A riqueza das linhas sonoras de ambos em seus solos são para pensarmos que paraísos existem, com sonoridades transcendentais. Sempre tive uma admiração imensa por Lee Konitz. Tocou com deus e o mundo. Ele é o mestre da beleza calma, apolínea no sue modo de tocar. Joe Lovano é um tenorista e soprano que foi revelado um pouco mais tarde. Quando passou a ser mais conhecido já tinha uma experiência que o jogou no topo das listas dos melhores. É outro com uma sofisticação enorme nos seus solos.
No “jardim do paraíso”, Motian escolhe um repertório com composições próprias, de Steve Cardenas, um dos guitarristas – os outros são Ben Monder e Jakob Bro –, de Chris Cheek, um dos saxofonistas – o outro é Tony Malaby –, clássicos de Jerome Kern, Charlie Parker e Charles Mingus, Thelonious Monk. Este último foi gravado pelo baterista de origem armênia em muitas ocasiões. Aliás, é de se pensar nas semelhanças de estilo. São duas sonoridades que se distinguem pelos seus modos idiossincráticos de executarem seus instrumentos.
Ouça Garden of Eden.
