quinta-feira, 23 de maio de 2013

Joshua Redman com mel

Dewey (esq.) grava com o filho Joshua Redman
A primeira vez em que ouvi falar de Joshua Redman fiquei, como se diz por aí, “meio assim”. Filho de Dewey Redman? Dewey era um dos meus ídolos. Conheci-o pelo quarteto americano de Keith Jarrett. E, tocando o mesmo instrumento? O saxofone tenor? Perigo: filho de artista bom está arriscado a ser… filho de artista.

Vida de artista é uma coisa complicada. Veja o caso de Gonzaguinha, filho adotivo de Gonzagão, como era conhecido o rei do baião Luiz Gonzaga. Ser filho de um gênio é complicado, principalmente se é adotado o nome com o acréscimo de “Filho” ou “Júnior”. É o caso de Thelonious Monk, Jr. Pelo menos, não resolveu ser pianista. Fez um bom disco, era um cara muito simpático, baterista canhoto. Apresentou-se aqui em São Paulo no Teatro Municipal. Sumiu.

Dentre as coisas complicadas que, costumeiramente acontece, é o pouco convívio de pais e filhos. O que é uma vida de artista, como diria Sueli Costa? Responderia Gonzagão: “Minha vida é andar por este país.” O músico é um nômade: mora em hotéis e sofre assédio incessante de fãs e admiradoras que querem, a qualquer custo, dormir com seus ídolos. Enquanto isso, filhos ficam com mães ou babás.

Joshua é um exemplo típico. A mãe, Renee Shedroff, bailarina, como verdadeira “jewish mama”, propiciou-lhe boa educação e cultura. Estudou em Harvard. Ia virar advogado pela Yale University, mas acabou músico. É imprevisível o componente genético ou de como age na mente de um filho a questão do pai, de sua aceitação ou rejeição. Um exemplo a ser usado de parâmetro é o de Bebo e Chucho Valdés, pai e filho, ambos pianistas. Bebo era músico conhecido em Cuba. Com a chegada da revolução, emigrou. A grande contradição, ou a “sinuca”, foi a de que no período ditatorial e corrupto de Fulgencio Batista, floresceram as casa de jogos e boates em Havana. Cuba era tido como “quintal” dos Estados Unidos. Mais ou menos como no caso do Rio de Janeiro, na época de Getúlio Vargas em que dinheiro corria solto, mulheres bonitas sentavam nos colos dos poderosos, belas vedetes levantavam suas pernas, a partir do momento em que o jogo tornou-se ilegal, a classe artística se viu na rua. A queda de Batista correspondeu ao fim do sustento de muitos músicos como Compay Segundo, Ibrahim Ferrer e Bebo Valdés. Os dois primeiros ficaram em Cuba trabalhando em subempregos, Bebo preferiu sair. O filho Chucho ficou em Cuba. Por dom ou por querer ser igual ao pai, virou pianista. Fez sua carreira por caminhos independentes. Encontraram-se quando tinha a carreira consolidada e Bebo andava meio esquecido. Outro cubano expatriado, Paquito D’Rivera, foi o responsável de tirá-lo do limbo. Eles, filho e pai, reencontraram-se décadas depois (leia http://bit.ly/106sxaA)

Caso análogo é do Joshua e Dewey. O pai tocou com Ornette Coleman, fez parte de um dos melhores quartetos de Keith Jarrett, brilhou com solos instigantes e selvagens no Old and New Dreams (com Charlie Haden, Don Cherry e Ed Balckwell), liderou sua banda em ótimos álbuns como The Ear of the Beahearer (Impulse, 1973), The Struggle Continues (ECM, 1982), Living on the Edge (Black Saint, 1989), e In London (Palmetto, 1996).

Em nenhum momento parece ter sido um peso o talento imenso do pai. É como se ele nem tivesse existido na vida de Joshua. Lançou o primeiro disco em 1993 pela Warner Bros. No mesmo ano, saiu Wish. Faziam parte do quarteto Charlie Haden, Pat Metheny e Roy Haynes, músicos de peso. Começou lá em cima, vendendo bem e sendo prestigiado pela crítica e admiradores do jazz..

O seguinte, Moodswing (1994), disco com apenas composições de sua lavra, um quarteto de sonhos: Brad Mehldau, Christian McBride e Brian Blade. Produtivo, lançou praticamente um álbum por ano. Em junho, Joshua estará no BMW Jazz Festival com sua banda James Farm. Participam dela ele, Aaron Parks, Matt Penman e Eric Harland. o nome “James” corresponde às iniciais de seus nomes “J”, de Joshua, “A”, de Aaron, “M”, de Matt, e “E”, de Eric.

Ouça a irresistível I Got You (I Feel Good), de James Brown.


Nota: todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.


Seguramente, é um dos melhores saxofonistas da atualidade. Não tem mais a sombra física do pai, que faleceu em 2006. Sopro preciso e robusto solista criativo, bom compositor, além do tenor, é muito bom no sax soprano. Por tocar os dois instrumentos, foi comparado a John Coltrane, mas livrou-se logo do estigma.

Parece que todo músico solista de jazz, um dia, precisa gravar seu álbum com orquestra de cordas. Desde Charlie Parker, que não fez o seu “with strings” por injunções comerciais, músicos como Clifford Brown, Chris Botti (esse sim deve ter feito o seu por essas razões) e outros gravaram o seu. Chegou a vez de Joshua de fazer o seu disco “com mel”. Com arranjos de Patrick Zimmerli, Brad Mehldau e Dan Coleman, Walking Shadows é um álbum com infalíveis standards: The Folks Who Live on the Hill, Lush Life e Stardust. Além de temas próprios como Final Hour e Let Me Down Easy, registrou “modernidades” como Doll Is Mine, da banda multinacional Blonde Redhead, Stop This Train, de John Mayer, e Let It Be, de Lennon e McCartney. Dois destaques são Adagio, da Toccata em Dó para Órgão, de Johann Sebastian Bach (já tocou em apresentações, por exemplo, uma versão muito bonita do 2º movimento da 7ª Sinfonia, de Beethoven), sem cordas, acompanhado por Larry Grenadier no baixo e Brian Blade na bateria, e Infant Eyes, de Wayne Shorter. É um bom disco. Não faz o queixo cair, mas é sempre bom ouvir Joshua Redman.

Ouça Stardust.



Ouça Final Hour.

quarta-feira, 22 de maio de 2013

O lugar comum de João Donato

Quando converso com meu amigo Alberico Cilento, uma das pessoas que mais conhece de música em São Paulo, vira e mexe o João Donato surge no meio dos assuntos. Uma vez estavam lá ouvindo música, conversando e Donato perguntou se podia fazer um café. E lá foi ele para a cozinha. Voltou com um bule numa das mãos e a xícara na outra. Ao notar que tinha um Steinway de quarto de cauda na sala, aproximou-se e viu que sobre ele estavam algumas partituras de música italiana. Uma delas era a de Parlami d’amore. Sentou-se, começou a tocar Parlami… e ficou improvisando sobre o tema. Alberico comentou que não revelava esse gosto por música italiana aos amigos, basicamente, amantes do jazz. Disse que, desde criança, gostava de um pianista daqueles que a gente chama de “piano cascata”, “flamboyant” etc, que tocam floreado, Carmen Cavallaro, americano de ascendência italiana. Donato disse que gostava dele também: “quem toca como ele é gênio.” Lembraram do filme Melodia Imortal (The Eddy Duchin Story, de 1956, direção de George Sidney e protagonizado por Tyrone Power e Kim Novak), em que o Cavallaro “dublara” Power no piano (foi lançado em DVD no Brasil).

Na semana passada, João apareceu novamente numa conversa por telefone com Alberico. Disse que, em certa ocasião, Donato dissera que suas músicas preferidas eram Invitation, de Paul Webster e Bronislaw Kaper, e Speak Low, de Kurt Weill. Resultado: fui ver se tinha algum registro delas. E nessa, fiquei a ouvir João Donato o dia inteiro.

Retrato do artista quando jovem
Em Lugar Comum, gravado em 1975, tem um texto do próprio, muito bom, explicando que era seu segundo álbum com letras. Uma passagem marcante é quando fala justamente da música título: “A origem da primeira música, Lugar Comum, que dá nome ao disco, é um assobio de um homem descendo a canoa no Rio Acre, em Rio Branco. O rio passa bem no meio da cidade. Ao cair da tarde, eu estava lá, pequenininho ainda, com uns sete ou oito anos, não me lembro bem. Passou uma canoa com o cara assobiando, e eu fiquei melancólico pela primeira vez na minha vida, um sentimento até então desconhecido para mim. Fiquei pensando, ‘por que eu fiquei assim?’, mas eu sabia que esse sentimento vinha daquele assobio e eu guardei a melodia.” Bacana, não? Revelações ou iluminações transformam nossas vidas. Quem imaginou que aquele acreano se transformaria no grande músico que é inventando aquela batida suingada meio latina tão única.

Nos anos 1970 João estava em contato estreito com Gil e Caetano. Os dois colocaram letras em várias composições antes apenas instrumentais. João também acompanhou Gal nos shows de lançamento de Cantar. Aliás, é nesse disco que estão uma das melhores interpretações de A Rã, feita em parceria com Caetano Veloso, e o estupendo Até Quem Sabe, em parceria com o Lysias Enio. O piano de João Donato é para nocautear até o mais insensível dos trogloditas. Flor de Maracujá é outra que está neste disco e tem letra do mesmo Lysias, seu irmão. Aliás, Cantar é um dos melhores de Gal Costa: Canção Que Morre no Ar (Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli), com um arranjo maravilhoso de Perinho Albuquerque é daqueles da gente cair duro. Outra, Lágrimas Negras, de Jorge Mautner e Nelson Jacobina, é uma das mais belas canções brasileiras de todos os tempos.

Cito outros registros que merecem ser ouvidos. Bananeira, letra de Gilberto Gil recebe tratamento jazzístico “samba jazz” no arranjo brilhante de um dos nossos grandes saxofonistas, J.T. Meirelles, e lembra um pouco a Banda Black Rio, com os naipes de sopros, o piano elétrico Fender Rhodes e a guitarra a la Steely Dan. E é cantada por Ed Motta.

Caetano Veloso, no álbum Cores, Nomes, canta Surpresa, breve e poética interpretação na música feita em parceria com Donato. Os temas lentos de JD têm sempre um clima de acalanto. Tem mais uma parceria com Caetano: Naturalmente.

Fim de Sonho, com letra de João Carlos Pádua, tem a interpretação precisa de nossa melhor cantora da atualidade – atenção, opinião minha –, a joão gilbertiana, Rosa Passos. Mais uma com Rosa: A Paz (João Donato e Gilberto Gil). Tudo na voz dela fica maravilhoso. Mais uma: Depois do Natal cantada pela bela voz de Djavan, mas a melhor é a de Nana Caymmi, lançado pela EMI-Odeon em 1979.

E tem mais: João toca trombone e bem. Em Olho d’Água, de Milton Nascimento, que está no Clube da Esquina 2 é dele o solo.

Vídeos:
JD/Bananeira




A belíssima “Amazonas”, de João Donato.


terça-feira, 21 de maio de 2013

Terence Trent D’Arby morreu

O agora Sananda Maitreya
Quem disse que Terence Trent D’Arby está morto é o próprio. Em entrevista para a revista Keyboard Recording, disse: “Matei Terence Trent D’Arby. Ele morreu e a única coisa que sobrou foi o instinto.” Em 4 de outubro de 2001, decretou legalmente a morte de Terence e o surgimento de Sananda Maitreya. Segundo ele, uma série de sonhos que teve em 1995 o levou a tomar a resolução.

Sananda nasceu Terence Trent Howard. “Matou” o pai Howard, ao escolher como nome artístico o Arby da mãe, acrescentando o “nobre” “d” seguido de apóstrofe. Em 1987, lançou Introducing the Hardline According to Terence Trent D’Arby, título bem pomposo para uma estreia. Estourou com Wishing Well.

Ouça Wishing Well.




Aparentemente, a Columbia, hoje Sony Music, pretendia “vendê-lo” como um novo Prince. A capa de Terence Trent D’Arby’s Neither Fish Nor Flash (1989) tinha um “quê” na imagem bem fechada nas mãos e no olhar penetrante. Em Vibrator (cortou os cabelos, deixando-os bem curtos e louro) foi fotografado mostrando o físico musculoso (chegou a pensar em ser boxeador) tendo uma asa de anjo nas costas, além de na contracapa estampar um logotipo muito bonito com as inicias “TTD”, com o formato de duas asas abertas e, no topo, um olho e cílios como se fossem chamas. Lembra um pouco aquele símbolo com o qual Prince queria ser “chamado” e não mais, simplesmente, “Prince”. Em termos de esquisitices, os dois podem competir.

Introducing … chegou ao 4º lugar nas paradas americanas, ganhou dois discos de platina. Na Inglaterra ficou em 1º, recebendo 5 discos de platina. Foi um daqueles começos excepcionais. Já com Neither Fish Nor Flash chegou apenas à colocação 61, nos EUA, e 12º na Inglaterra. Queda vertiginosa.

D’Arby foi uma das atrações do Hollywood Rock (era uma marca de cigarros; não se referia à meca do cinema), edição 1990. Tinha curiosidade de vê-lo no palco. Ficou uma impressão estranha. Sua voz, que só negros possuem, meio rouca, foi o chamariz para a minha curiosidade, e tinha gostado bastante de seu álbum de estréia. Rosto delicado, quase feminino, e olhos claros, mise-en-scène impecável no palco, físico moldado em academias de boxe, D’Arby era uma figura que chamava a atenção. Faltou, no entanto, aquela liga com o público. Passou uma imagem um tanto enigmática, distanciada.

Talvez esse enigma tenha se resolvido com a mudança de identidade. Era como se a imagem que o mercado queria vender não combinasse com sua persona. Desligou-se das “majors”, passou a gravar em selo próprio, mudou de nome depois. Não existe mais um marketing de vendas. Quem quiser que compre sua música no site dele. Depois de mudar-se para a Europa, passando pela Alemanha, país onde servira quando estava no exército americano, hoje reside em Milão, casado com uma italiana. Na entrevista para a Keyboard Recording afirma: “A minha personagem não foi criada pela indústria do disco. Foi criada por mim e por Deus.” Terence Trent D’Arby morreu e Sananda Maitreya está bem vivo. Acabou de lançar Return to Zooathalon. Lá está o velho D’Arby…, perdão, ele morreu; lá está Sananda. A voz continua a mesma: ótima. O álbum é desigual, com altos e baixos. Foi sempre assim; até nos três primeiros, os melhores de sua carreira.

Ouça Hurricane Me & You.