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| Dewey (esq.) grava com o filho Joshua Redman |
Vida de artista é uma coisa complicada. Veja o caso de Gonzaguinha, filho adotivo de Gonzagão, como era conhecido o rei do baião Luiz Gonzaga. Ser filho de um gênio é complicado, principalmente se é adotado o nome com o acréscimo de “Filho” ou “Júnior”. É o caso de Thelonious Monk, Jr. Pelo menos, não resolveu ser pianista. Fez um bom disco, era um cara muito simpático, baterista canhoto. Apresentou-se aqui em São Paulo no Teatro Municipal. Sumiu.
Dentre as coisas complicadas que, costumeiramente acontece, é o pouco convívio de pais e filhos. O que é uma vida de artista, como diria Sueli Costa? Responderia Gonzagão: “Minha vida é andar por este país.” O músico é um nômade: mora em hotéis e sofre assédio incessante de fãs e admiradoras que querem, a qualquer custo, dormir com seus ídolos. Enquanto isso, filhos ficam com mães ou babás.
Joshua é um exemplo típico. A mãe, Renee Shedroff, bailarina, como verdadeira “jewish mama”, propiciou-lhe boa educação e cultura. Estudou em Harvard. Ia virar advogado pela Yale University, mas acabou músico. É imprevisível o componente genético ou de como age na mente de um filho a questão do pai, de sua aceitação ou rejeição. Um exemplo a ser usado de parâmetro é o de Bebo e Chucho Valdés, pai e filho, ambos pianistas. Bebo era músico conhecido em Cuba. Com a chegada da revolução, emigrou. A grande contradição, ou a “sinuca”, foi a de que no período ditatorial e corrupto de Fulgencio Batista, floresceram as casa de jogos e boates em Havana. Cuba era tido como “quintal” dos Estados Unidos. Mais ou menos como no caso do Rio de Janeiro, na época de Getúlio Vargas em que dinheiro corria solto, mulheres bonitas sentavam nos colos dos poderosos, belas vedetes levantavam suas pernas, a partir do momento em que o jogo tornou-se ilegal, a classe artística se viu na rua. A queda de Batista correspondeu ao fim do sustento de muitos músicos como Compay Segundo, Ibrahim Ferrer e Bebo Valdés. Os dois primeiros ficaram em Cuba trabalhando em subempregos, Bebo preferiu sair. O filho Chucho ficou em Cuba. Por dom ou por querer ser igual ao pai, virou pianista. Fez sua carreira por caminhos independentes. Encontraram-se quando tinha a carreira consolidada e Bebo andava meio esquecido. Outro cubano expatriado, Paquito D’Rivera, foi o responsável de tirá-lo do limbo. Eles, filho e pai, reencontraram-se décadas depois (leia http://bit.ly/106sxaA)
Caso análogo é do Joshua e Dewey. O pai tocou com Ornette Coleman, fez parte de um dos melhores quartetos de Keith Jarrett, brilhou com solos instigantes e selvagens no Old and New Dreams (com Charlie Haden, Don Cherry e Ed Balckwell), liderou sua banda em ótimos álbuns como The Ear of the Beahearer (Impulse, 1973), The Struggle Continues (ECM, 1982), Living on the Edge (Black Saint, 1989), e In London (Palmetto, 1996).
Em nenhum momento parece ter sido um peso o talento imenso do pai. É como se ele nem tivesse existido na vida de Joshua. Lançou o primeiro disco em 1993 pela Warner Bros. No mesmo ano, saiu Wish. Faziam parte do quarteto Charlie Haden, Pat Metheny e Roy Haynes, músicos de peso. Começou lá em cima, vendendo bem e sendo prestigiado pela crítica e admiradores do jazz..
O seguinte, Moodswing (1994), disco com apenas composições de sua lavra, um quarteto de sonhos: Brad Mehldau, Christian McBride e Brian Blade. Produtivo, lançou praticamente um álbum por ano. Em junho, Joshua estará no BMW Jazz Festival com sua banda James Farm. Participam dela ele, Aaron Parks, Matt Penman e Eric Harland. o nome “James” corresponde às iniciais de seus nomes “J”, de Joshua, “A”, de Aaron, “M”, de Matt, e “E”, de Eric.
Ouça a irresistível I Got You (I Feel Good), de James Brown.
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Seguramente, é um dos melhores saxofonistas da atualidade. Não tem mais a sombra física do pai, que faleceu em 2006. Sopro preciso e robusto solista criativo, bom compositor, além do tenor, é muito bom no sax soprano. Por tocar os dois instrumentos, foi comparado a John Coltrane, mas livrou-se logo do estigma.
Parece que todo músico solista de jazz, um dia, precisa gravar seu álbum com orquestra de cordas. Desde Charlie Parker, que não fez o seu “with strings” por injunções comerciais, músicos como Clifford Brown, Chris Botti (esse sim deve ter feito o seu por essas razões) e outros gravaram o seu. Chegou a vez de Joshua de fazer o seu disco “com mel”. Com arranjos de Patrick Zimmerli, Brad Mehldau e Dan Coleman, Walking Shadows é um álbum com infalíveis standards: The Folks Who Live on the Hill, Lush Life e Stardust. Além de temas próprios como Final Hour e Let Me Down Easy, registrou “modernidades” como Doll Is Mine, da banda multinacional Blonde Redhead, Stop This Train, de John Mayer, e Let It Be, de Lennon e McCartney. Dois destaques são Adagio, da Toccata em Dó para Órgão, de Johann Sebastian Bach (já tocou em apresentações, por exemplo, uma versão muito bonita do 2º movimento da 7ª Sinfonia, de Beethoven), sem cordas, acompanhado por Larry Grenadier no baixo e Brian Blade na bateria, e Infant Eyes, de Wayne Shorter. É um bom disco. Não faz o queixo cair, mas é sempre bom ouvir Joshua Redman.
Ouça Stardust.
Ouça Final Hour.


