quarta-feira, 23 de setembro de 2020

Terje Rypdal, como nos bons tempos

Acaba de ser lançado “Conspiracy”, do guitarrista Terje Rypdal. É uma volta do norueguês à sonoridade com que o conhecemos em seus primeiros álbuns pela ECM. Ele não pode ser classificado no gênero “jazz”, se formos mais ortodoxos. É um músico que privilegiou, desde o início da carreira, o instrumental. 

Se for necessário um rótulo, diria que tem o rock como fonte para as suas aventuras sonoras. Antes de passar a gravar pela ECM, aí considerando a mão de seu dono e produtor, Manfred Eicher, montou a banda The Vanguards, inspirado na inglesa Shadows e The Ventures. Curiosamente, estudou piano e trompete no Conservatório mas a guitarra, foi autodidata.

As portas para gravar na ECM se abriram por meio de sua cooperação com Jan Garbarek e Jon Christensen. Com sua formação em conservatório, Rypdal compôs a 1ª Sinfonia, comissionado pela Televisão Norueguesa. No mesmo ano de 1975, gravou “Odissey”, álbum com a sonoridade do jazz-rock fusion. O produtor e dono da gravadora alemã explorou bem esse ecletismo musical dele. Cada álbum lançado explorava um viés diferente. Um ano antes, pela ECM, lançou “Whenever I Seem to Be Far Away”, peça belíssima e soturna, com orquestra e instrumentos eletrônicos como o mellotron. Cada disco explorava um caminho diferente. O comum em todos eles era a voz única de sua guitarra. Era e é inconfundível, sendo suas composições de cunho erudito ou não.

“Conspiracy”, tem Ståle Storløkken nos teclados, Endre Hareide Hallre no Fender Precision e no baixo fretless e Pål Thowsen na bateria, lembra muito os primeiros álbuns dele na ECM. Nem tão roqueiras, sua guitarra é climática, evocando paisagens desoladas. São sons que criam atmosferas, em distorções com notas longas que criam uma tensão dramática, melancólicas e por vezes pungentes. É muito bom ver que certas pessoas não sucumbiram ao tempo. Continuam com suas energias vitais altas. E pensar que Elvis Presley, por exemplo, morreu com 42 anos e tinha se tornado uma caricatura de si mesmo. Rypdal está com 73 e ainda é capaz de nos emocionar. “Conspiracy” tem algo de nostalgia, decerto. Faz-nos lembra de uma úsica que nos emocionou há quase 50 anos. Não é qualquer um que nos resgata essa memória. 


domingo, 20 de setembro de 2020

A prisão sem grades de Jafar Panahi



Por manifestar-se contra Mahmoud Ahmadinejad e apoiar o candidato adversário à presidência do Irã, Jafar Panahi, foi acusado de fazer propaganda anti-islâmica. Foi proibido de filmar e ficou em prisão domiciliar.

Panahi foi assistente de Abbas Kiarostami, o cineasta iraniano mais conhecido e reconhecido pelo Ocidente, premiado várias vezes no Festival de Cannes. Do mestre, herdou a capacidade de fazer cinema com poucos recursos. “Táxi Teerã” é um ótimo exemplo. Cria um microcosmo da realidade iraniana. É cinema de resistência.

Sem entrar em detalhes sobre o filme, sem spoilers, reproduzo a fala de uma advogada, amiga dele, no táxi: 

“Sabe, Jafar, fazem tudo para nós sabermos que estamos sendo vigiados. Conhecemos os métodos deles. Eles criam um histórico político. Você vira um agente da Mossad, da CIA ou do MI-5. Para completar, adicionam um escândalo sexual. Eles fazem a rua virar uma prisão. Você está livre, foi libertado, mas a rua virou uma grande prisão. Transformam seus melhores amigos nos seus piores inimigos, até você achar que a única saída é fugir do país ou se enfiar num buraco. Na minha opinião, é melhor deixar isso pra lá. É isso. E não coloque no filme isso que eu falei, senão vão dizer que você denegriu a realidade. Vai arrumar mais problemas ainda.”

Só esse trecho, que está no final, vale ver o filme. Tudo o que acontece dentro do táxi resulta na síntese do que é viver sob uma ditadura. O Brasil está perto disso. E, vamos combinar, nosso presidente é muito mais tosco e primário que os aiatolás. Precisamos enfrentar a ditadura dos ignorantes.

Disponível no Globoplay.