Preciso verificar de que ano é o show de Graham Nash que vejo nesse momento. Mas, em um trecho, Nash diz ao público que Joni Mitchell está bem, saiu do hospital e está em casa. Em seguida, adivinhe, canta “Our House”. Na apresentação, é só ele e Shane Fontayne na guitarra a acompanhá-lo. Ao terminar, faz um comentário sobre como surgiu a inspiração para uma das composições mais românticas dele. Bem humorado, reforça as diferenças entre eles. “Eu gosto do fogo”, ao referir-se à lareira acesa, e sobre as flores que Joni tinha comprado. Mas tudo faz parte de uma passado distante. São mais de trinta anos. O romance terminou; ele e Joni continuam bons amigos. [leia sobre “Our House”: Joni Mitchell e seus amores]
Há coisas muito estranhas. Uma é de como algumas de nossas convicções da juventude ficam presentes a vida inteira. Isso não significa que seremos eternos nostálgicos. Nash envelheceu, como todos nós, e até aqueles que nasceram quando Nash foi convidado por David Crosby e Stephen Stills para montar um dos grandes trios do que classificavam como country-folk-rock. Nash é inglês e fez parte do The Hollies, portanto, está distante das raízes musicais dos dois primeiros.
As principais bandeiras de luta de Nash continuam as que defendia nos anos 1960: anti-belicista, preocupa-se ainda com a ecologia e com o clima.
Algumas relações duram anos, algumas alguns instantes, como diz Nash, mas há algo de perene e é o que importa. É delicioso ver que algumas amizades são para a vida inteira, e o mesmo se pode dizer de algumas paixões, como as lembranças que surgem a cada audição de uma canção que ouvimos quando tínhamos 12 ou 13 anos. Não é nostalgia. É aquela emoção que nos arrebatou quando éramos jovens e perdura.
Ao assistir a um show de Nash, de 2016, vemos um septuagenário, bem, vamos abstrair um pouco; algo faz sermos eternamente jovens. Na minha imaginação o “maluco beleza” era David Crosby, Stephen Stills e Graham os certinhos. Sabe-se das várias internações de Crosby. Neste “An Evening with Graham Nash”, em que entremeia música e explicações de como foram gestadas, descubro o tanto das que foram inspiradas em “viagens”, de ácido lisérgico, principalmente. Fala, por exemplo, da bela “Cathedral”. Apesar de inspiradas por drogas, são sempre em cima de fatos e situações. Nesse caso, a letra é inspirada nas ruínas de Stonehenge, que resolveu visitar em um dia de folga, quando estava em excursão em Londres. Em sua “viagem”, às sete da manhã, está indo para Stnehenge. “Estou voando na catedral de Winchester/ A luz solar atravessa o início do dia./ Tropeça pela porta e entra na câmara/ […] / E agora estou de pé no túmulo de um soldado que morreu em 1799/ E o dia em que ele morreu foi um aniversário/ E notei que era meu./ E minha cabeça não sabia exatamente quem eu era.”
Ouça “Cathedral”, com Crosby, Stills & Nash.
Se as composições de Nash, musicalmente são sempre belas e melódicas, ficam mais quando percebemos que suas inspirações acontecem tendo como gatilho fatos ocorridos na sua vida, como o de “Our House” – o ponto de partida foi um vaso que Joni Mitchell viu em uma loja de antiguidades – , ou “Cathedral”. Sua outra face visível nos mostra seu envolvimento com as lutas políticas e sua posição antibelicista. São de sua autoria “Military Madness”, “Immigration Man”, “Prison Song” e “Soldiers of Piece”.
“Chicago” é uma das grandes composições e foi inspirada nos tumultos ocorridos na Convenção Nacional Democrata de 1968, em Chicago, e a prisão de oito manifestantes acusados de incitar uma revolta. Nash termina a canção com os versos “We can change the world/ rearrange the world.” Não é tão fácil mudar o mundo, mas a força de “Chicago” é impressionante.
“Chicago”, do show “Daylight Again”, com Crosby, Still & Nash.
Há algumas semanas, mais uma vez, “mataram” Joni Mitchell. Em 31 de março saiu a notícia de que tinha sido encontrada desacordada em sua casa. Em seu twitter oficial, foi publicado que Mitchell encontrava-se na UTI de um hospital de Los Angeles. Não é de hoje que surgem notícias sobre o estado de saúde da cantora.
Joni sofre de uma misteriosa enfermidade conhecida como Síndrome de Morgellons. Discute-se se é uma doença física ou psicológica. Entretanto, pesquisas médicas associam-na ao uso de drogas. Ela cita uma excursão, a Rolling Thunder Revue, em 1975, com Bob Dylan e Joan Baez, em que consumiram muita cocaína. A única a não entrar na onda foi Baez.
Mas os problemas de saúde são bem anteriores e podem ter resultado em outros por consequência. Quando tinha dez anos, teve poliomielite, que a deixou paralisada. Em entrevista ao Daily Mirror, disse que alguns sintomas da pólio voltaram na época em que namorava o baterista e percussionista Don Alias que, muito ciumento, agrediu-a mais de uma vez. Na biografia recém lançada, “Reckless Daughter: A Portrait of Joni Mitchell”, de David Yaffe, conta também que, uma vez, acompanhou Alias a uma jam com Miles Davis. Sendo tão ciumento, não fez nada quando o trompetista pulou em cima dela, estranhamente. A sorte é que ele estava tão chapado de cocaína, que conseguiu escapar. No histórico de violências, teve outro namorado violento: John Guerin, por coincidência, também baterista.
Quando fazia a escola de arte, em Calgary, Canadá, perdeu a virgindade com Brad McMath e engravidou. Muito jovem, entregou a filha para a adoção. Por muito tempo, foi um segredo. Mudou-se para Toronto, decidida a tentar a carreira artística. Conheceu o folk singer Chuck Mitchell e casou-se. Não durou dois anos. Chegou ao fim em 1967. Joan Anderson adotou Joni Mitchell como nome artístico. Assim ficou conhecida uma das mais talentosas compositoras e intérpretes do século passado.
California girl
A garota canadense dos cabelos dourados partidos ao meio, conquistou o coração de David Crosby, que a levou para a Califórnia e tornou-se, nas palavras de seu biógrafo, “uma elegante princesa boêmia”. Lançou seu primeiro álbum. “Song to a Seagull”, produzido pelo namorado Crosby, em 1978. Joni tinha composições gravadas por outros intérpretes, como “Both Sides Now”, por Judy Collins, “Chelsea Mornng”, “Eastern Rain”, “Urge for Going” e “The Circle Game”, mas preferiu apenas temas inéditos em sua estreia no mercado fonográfico.
Nossa casinha
Joni montou a sua casa na Lookout Mountain Road, em Laurey Canyon, bairro de Los Angeles, que, na época, servia de morada de um sem número de músicos: Frank Zappa, Carole King, membros do The Doors, Buffalo Springfield, Byrds e Canned Heat. Em um encontro na sua casa estavam Stephen Stills, David Crosby. Ambos tocavam “You Don’t Have to Cry”, música em que estavam trabalhando. Graham Nash, vocalista dos Hollies, que estava de férias da Inglaterra, era um dos convidados. Tocada várias vezes, Nash deu uma de “entrão” e fez a terceira voz, com sua bela voz de tenor. A combinação foi sublime. Era o que faltava para o que Stills e Crosby pensavam em montar. Assim nasceu a fabulosa Crosby, Stills & Nash, mais tarde acrescida do canadense Neil Young. Enquanto Nash estava se entendendo musical, em outra sintonia, entendia-se com Mitchell.
Em pouco tempo, estava morando na casa de Joni. Em certa ocasião, passeavam e viram um vaso em uma loja de antiguidades que a interessou. Era uma noite chuvosa. “Por que você não põe flores no vaso, que eu acendo a lareira?” Logo que disse isso, surgiu uma ideia. Foi ao piano. “Eu acendo a lareira/ E você coloca as flores no vaso/ Que comprou hoje.” Foram os primeiros versos da doce “Our House”, canção que retratava, de algum modo, a felicidade doméstica. Mas não era essa a felicidade que Joni queria para ela. “Clouds”, o segundo álbum, estava sendo gravado. O casamento acabou quando terminava o ano de 1969.
Amores musicais
Joni ama a música e os músicos. Teve casos com James Taylor e Jackson Browne, Don Alias e John Guerin, citados anteriormente, e Jaco Pastorius. Todos foram parceiros musicais também. Preferia os músicos. Rechaçou investidas de Warren Beatty e Jack Nicholson. Ela conta que conseguiu escapar do assédio deles porque estava com o carro dela.
“Wild Things Run Fast”, de 1982, é o primeiro que gravou pela Geffen Records e o primeiro com o baixista Larry Klein. Nesse mesmo ano casou com ele. O disco, mesmo com a participação de Wayne Shorter em três faixas, representa um afastamento de elementos do jazz, que tinha incorporado desde “Hejira”.
A juventude de Klein – tinha 25 anos e ela 39, quando casaram – deu um novo gás. Houve uma guinada para uma linguagem mais pop. Klein revelou-se ótimo produtor e parceiro musical. Cercou-se de bons músicos, incluindo Wayne Shorter, que nunca deixou de fazer suas participações especiais, o baterista Brian Blade, Vinnie Colaiutta e Greg Leisz.
Sem comparar, era uma nova Joni. Seus discos podem não ser tão importantes quanto os gravados no selo Asylum, mas Joni ainda era capaz de compor música de boa qualidade. O melhor é dentre esses é “Turbulent Indigo” (Reprise Records), com os destaques “Sex Kills” e “The Magdalene Laundries”.
Joni e Larry deviam se amar. O casamento durou doze anos e continuaram amigos após a separação. Mas ele deve ter projetado uma relação mais estável. Queixou-se que ela não mudou no seu estilo de vida: continuou a fumar muito, quase não dormia, consumia em boas quantidades cocaína e capuccinos. Sentia-se cada vez mais irritada e perdida financeiramente. Teve de indenizar em 250 mil dólares a sua empregada, que a acusou de tê-la agredido. No verão de 1985, quase foi atropelada por um adolescente bêbado na Pacific Coast Highway, em Malibu, e quando voltou ao mesmo lugar, semanas depois, quase aconteceu a mesma coisa. Se a vida de Joni continuava turbulenta, para Larry não devia estar sendo fácil. Separou-se e atualmente está com a brasileira Luciana Souza.
É um tanto triste ver Joni com problemas para se movimentar. Pela sua descrição, o mal que a acomete é bem complicado e assustador: “Eu tenho essa doença estranha e incurável que parece vir do espaço sideral. A síndrome de Morgellons é um assassino lento e imprevisível – uma doença terrorista: explodirá um de seus órgãos, deixando você na cama por um ano.”
Bom, chega de papo e vamos ouvir a clássica “Sex Kills”.