quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Os melhores discos do ano, segundo a revista Downbeat

O mês de agosto é quando sai, na Downbeat, a lista dos melhores segundo a crítica. Em dezembro sai o “Readers Poll”. Primeiro, vou listar os dez melhores discos:

1. Vijay Iyer Trio, Accelerando (ACT) - 115 votos
2. Sonny Rollins, Road Shows vol. 2 (Doxy/EmArcy) - 69
3. Keith Jarrett, Rio (ECM) - 68
4. Gregory Porter, Be Good (Motéma) - 56
5. Miguel Zenón, Alma Adentro: The Puerto Rican Songbook (Marsalis Music) - 54
6. Brad Mehldau, Live in Marciac (Nonesuch) - 52
7. Matt Wilson’s Arts & Crafts, An Attitude for Gratitude (Palmetto) - 40
8. Corea, Clarke White, Forever (Concord)
9. Terri Lyne Carrington, The Mosaic Project (Concord) - 38
10. Tim Berne, Snakeoil (ECM) - 33



Vijay Iyer (© ACT / Jimmy Katz)
Com tantos lançamentos, é impossível acompanhar tudo, mesmo que meus ouvidos passem os dias a ouvir música. Dos dez listados, ouvi seis, e desses, o que mais gostei mesmo foi o de Keith Jarrett (escrevi sobre esse álbum duplo em http://bit.ly/MF8xTz). Sobre o disco de Chick Corea e seus companheiros do Return to Forever, faço menção quando da apresentação deles no BMW Jazz Festival, edição 2012 (http://bit.ly/SSSvGE). De vez em quando me enjoo de Corea, mas é gênio; acho que isso acontece um pouco por sua prolixidade e por, a cada hora, gravar discos de gêneros tão diferentes. No último ano (2011-2012) foram lançados seis discos, sendo dois com os companheiros do Return to Forever (Forever e The Motherships Returns), dois duos (Hot House, com Gary Burton – veja: http://bit.ly/L3cXmz –, e Orvieto, com o pianista Stefano Bollani), outro em trio, com Eddie Gomez e Paul Motian (Further Explorations, 2012), e um último (The Continents, 2012), erudito, lançado pela Deutsche Grammophon.

Vijay Iyer é a bola da vez, assim como Jason Moran foi na votação do ano passado. Além de ter seu disco Accelerando considerado o melhor do ano, ficou em primeiro lugar nas categorias “Jazz Artist”, “Jazz Goup”, “pianista”, e foi até lembrado na categoria “Rising Star”, ficando em segundo lugar. Nessa categoria, ganhou, com 2% de votos a mais, Robert Glasper, possível candidato a ser a “bola da vez” em anos vindouros na categoria principal.

Accelerando é um bom disco. Está no nível dos anteriores. Filho de indianos, Iyer passou pela Yale University e pela Columbia, estudante de matemática e física, e o título de sua dissertação de mestrado era Microstructures of Feel, Macrostructures of Sound: Embodied Cognition in West African and African-American Musics. Alta cultura, não? Não é possível uma simples transposição do conhecimento científico para as habilidades musicais, no entanto, percebe-se uma tremenda sofisticação no que toca; e, para arrematar, seus discos são belamente ilustrados por obras de um dos melhores artistas atuais: Anish Kapoor. Quem mora em São Paulo, Brasília ou Rio de Janeiro deve ter visto a bela exposição promovida pelo Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), em 2006.

Veja uma das obras de Anish Kapoor (Ascension), no CCBB. Kapoor é gênio. Veja também uma entrevista sobre Leviatan, exposta no Grand Palais, em Paris, no YouTube (http://www.youtube.com/watch?v=12Ni0c4D27Y&feature=fvwrel). É uma obra impressionante. Pena que não estava em Paris em no segundo quadrimestre de 2011.





Ouça Mmmhmm (Steve Ellison, Stephen Bruner), do álbum Accelerando. Iyer toca com Stephen Crump no baixo e Marcus Gilmore na bateria. É uma das faixas mais interessantes. Vijay imprime uma melodia meio estranha em acordes repetitivos nos graves, com predominância de acordes nos médios e agudos em tons dramáticos, enquanto a “cozinha” parece tocar outra música.




Nota: Todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.


Basicamente, o som de Iyer é tenso. Toca sempre em um ritmo em que há poucos espaços de respiração, quase sem silêncios, em ritmos quebrados.


O segundo melhor do ano

Rollins. Até no visual, inova
Coube a Sonny Rollins, com seu Road Shows, vol. 2, com, praticamente, metade dos votos. Este e o primeiro volume são de gravações de shows no Japão e do Beacon Theatre em comemoração aos seus 80 anos ocorridos em setembro de 2010. Esse mês é emblemático na vida do saxofonista. Rollins morava a quatro quadras do World Trade Center. No dia 11, em 2001, teve de sair às pressas de seu apartamento levando apenas seu saxofone. Tinha, na agenda, uma apresentação em Boston marcada para cinco dias depois. O show virou CD. O nome? Without a Song: The 9/11 Concert. Rollins nasceu em 7 de setembro de 1930.

A voz está fraca. Percebe-se quando fala para apresentar os músicos ou anunciar os temas. Quando começa a tocar, aí, é outra história; mantêm vigor invejável. Não parecem ser a mesma pessoa. Na votação dos críticos, no sax tenor, foi considerado o melhor do ano, com 20 % de votos a mais que Joe Lovano. Justiça? Deve ser mais por aquele sentimento de reverência aos mais velhos. Rollins é o último de uma geração posterior à de Coleman Hawkins, Ben Webster e Lester Young. São seus contemporâneos, John Coltrane, Dexter Gordon, Stan Getz e Johnny Griffin. Todos estão mortos. Dos que estão vivos – Houston Person e Charles Lloyd –, ambos são mais novos que Rollins; nasceram, respectivamente, em 1934 e 1938.

O set de Road Shows vol. 2 consiste de temas conhecidos. Valorizam o disco convidados especiais como Jim Hall (In a Sentimental Mood), Ornette Coleman – com um longo solo –, e o baixista Christian McBride e o baterista Roy Haynes, em Sonnymoon for Two, e, finalmente, o trumpetista Roy Hargrove, em I Can’t Get Started e Rain Check. A música que fecha o CD é St. Thomas, o tema mais conhecido de Rollins. Dos músicos acompanhantes, o destaque mesmo é a guitarra delicada de Russell Malone.

Ouça Sonnymoon for Two.



Um gênio como o sax tenorista só deve ser reverenciado, mas é um exagero Road Shows vol. 2 ser considerado o segundo melhor do ano.

A carreira de Sonny Rollins passou por algumas oscilações, algumas provocadas por ele mesmo. Em 1950, foi detido por roubo à mão armada. Antes disso, já tinha tocado com Babs Gonzalez, Jackie McLean e Kenny Drew. Apesar de condenado a três anos de cadeia, Dez meses depois saiu e ficou em liberdade condicional. Violou-a ao ser preso por porte de heroína. No total, passou três anos detido. Conseguiu se livrar do vício por meio de tratamento à base de metadona. Foi a sua sorte.

Antes de fazer parte da legendária banda de Clifford Brown e Max Roach, havia tocado com Miles Davis e Thelonious Monk. Em 1956 lançou o disco que é considerado um dos melhores de todos os tempos, não dele, mas da discografia do jazz: Saxophone Colossus. Estava sendo considerado o melhor saxofonista tenor pela crítica, mas na mesma época John Coltrane começava a se firmar como líder. Foi eclipsado, porém não deixou de lançar discos muito bons, principalmente nos que era acompanhado apenas pela bateria e pelo baixo, sem piano.

A década de 1960 foi um tempo de grandes transformações sociais, e Rollins não iria ficar “fora” dessa”. Foi fazer ioga e ligou-se, como muitos, a certas práticas orientais. Na música, incorporou instrumentos eletrônicos como a guitarra e o baixo elétrico e também absorveu influências do R&B, do funk de Sly and The Family Stone e até do pop. Sonny não foi o único. O mesmo aconteceu com Charles Lloyd e muitos outros intérpretes do jazz.

Um solo de Rollins é reconhecível de longe. Waiting on a Friend é uma das faixas em que participa no disco Tattoo You (1981), dos Rolling Stones. As outras duas são Neighbours e Slave.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Não confunda Etta Jones com Etta James

Etta James

Pior que nomes parecidos são nomes iguais, principalmente se se é um virtuose do piano dos bons, como Stephen Bishop, e surge um gajo que resolve se lançar com o mesmo nome na música popular. O talentoso teve que se curvar ao medíocre; por causa do homônimo “pop” trocou de nome. Ficou Stephen Bishop-Kovacevich. Passado um tempo, decidiu tirar o “Bishop” e tornar-se apenas Stephen Kovacevich. É americano de origem croata. Quis o destino que tivessem nascido em cidades “santas”: o pianista é de San Pedro e o outro, de San Diego.

O primeiro nome “Etta”, por questão de popularidade, nos faz lembrar, inicialmente, de Etta James. Faleceu em janeiro deste ano (2012). Pelas manifestações que vi no Facebook, tinha muitos fãs, bem mais do que imaginei. Não estava entre as minhas preferidas. No R&B – sigla para “rhythm’ blues” – ou na música soul, na minha opinião, tinha gente bem melhor. Gente, por favor: gosto é gosto. Ou, quem sabe, com tanta gente, impossível conhecê-los todos.

O fato pitoresco que descobri, na época de seu falecimento, é o de que seu nome de nascimento era Jamesetta Hawkins. Virou “Etta James” porque assim soava melhor. Do que sabia de James eram fatos externos à carreira: a obesidade mórbida (pesou quase 200 quilos) e problemas relacionados ao abuso no uso de drogas ilícitas. O mundo é ávido pelas desgraças alheias. Como no caso de Amy Winehouse, outros talentos diversos aos da autodestruição ficam em segundo plano.

É natural que tantos anos de abusos e a cirurgia báriatrica a que se submeteu tenha feito com que sua voz tenha perdido a característica “shouter” que a caracterizou. Ironicamente, aí reside a qualidade de seu último disco, lançado em 2006. Bem produzido, com a voz um tanto menos potente, timbre e bom acompanhamento instrumental e bom repertório, é um bom disco. O destaque, na minha opinião, é Cigarettes and Coffee (Eddie Thomas, Jerry Butler e J. Walker), clássico eternizado por Otis Redding. Por sinal, no disco de Etta James, o arranjo é o mesmo. Compare.

A de James.



 

A de Otis Redding.


 

A outra Etta

Etta Jones, a outra

Pela semelhança, Etta Jones é confundida com seu quase homônimo. Sim, à menção do primeiro nome, associa-se à “James”. O universo do jazz é bem mais restrito e assim pois, Etta Jones é pouco conhecida. Até nesse terreno não é uma cantora tão conhecida; culpa de “hiatos” discográficos.

Etta Jones não teve a notoriedade de Billie Holiday, Sarah Vaughan, Ella Fitzgerald e Carmen McRae. Não era tão boa quanto estas, quem sabe, mas o jazz tem um grande segundo time. Bem jovem, chamou a atenção em um concurso de novos talentos no Apollo Theatre, tradicional casa de espetáculos localizada no Harlem, em Nova York. Participou da big band de Buddy Johnson e cantou com Art Blakey, Barney Bigard, Stuff Smith e Earl “Fatha” Hines, nos anos 1940, mas na década seguinte, “desapareceu”. Voltou a gravar na Prestige Records em 1960. Seu maior sucesso foi Don’t Go to Strangers. Depois de 1965, finda a parceria com a Prestige, apesar de continuar na ativa, particpando de tours e apresentações em clubes, voltaria a gravar apenas em 1976, quando passou a ser representada pela Muse Records, e depois, pela HighNote.

Jones sempre teve ao seu lado colaboradores constantes e duradouros. Primeiro, foi Buddy Johnson, mas seu parceiro por mais tempo foi o saxofonista Houston Person, com quem gravou vários álbuns nas duas últimas gravadoras citadas.

Seu último disco foi lançado em 2001, no mesmo ano em que morreu. Em Etta Jones Sings Lady Day, cantou clássicos associados à Billie Holiday, acompanhada de Person no sax tenor, Richard Wyands no piano, Peter Bernstein na guitarra, John Webber no baixo, e Chip White na bateria. A voz de Jones lembra a de Billie Holiday, pelo fraseado, e o timbre nos remete ao cantor Jimmy Scott. Faz até uma brincadeira imitando Billie em Fine and Mellow. Tal como Etta James, a voz sofreu algumas mudanças. Presumo que, pelo fato de, frequentemente, ter sido comparada à Billie Holiday, deveras, a voz lembra a Billie da fase final, um tanto pesada, sem aquela vivacidade e leveza que Lady Day tinha nos anos 1930. Sei de muitos que gostam dessa fase “overdrugs”, mas é incomparável na fase em que gravou para a Columbia.

Ouça Etta Jones em Fine and Mellow.


 

Ouça But Beautiful e perceba a semelhança do registro de sua voz com a de Lady Day.