Hoje, Porter tem uma voz potente, aquela voz tão característica dos negros, um registro muito especial que parece ser destinado apenas aos dessa raça, como uma impressão digital. E, não adianta dizer que as vozes de Joss Stone, Amy Winehouse ou Janis Joplin são “negras”. É algo próximo, no máximo, o que não depõe contra o enorme talento com que as duas últimas foram abençoadas..
E, pelos dois discos que lançou até agora – Water e Be Good –, Gregory Porter é o próximo “next big thing” entre os cantores. Não sei se irá destronar o longo reinado de Kurt Elling, mas o cara é muito bom.
Como Porter é negro, as associações naturais serão com as vozes de Joe Williams, registro de barítono poderoso, com “King” Cole, seu ídolo desde criancinha, ou com a de Donny Hathaway, pelo seu lado “soul” e modo interpretativo. Mas Porter tem um registro próprio. Parece até que nasceu pronto.
Be Good, seu mais recente, foi considerado o quarto melhor disco do ano, na votação dos críticos para a revista Downbeat. Bom que tenha um disco não instrumental entre os melhores. (sobre os melhores pela Downbeat, leia: http://bit.ly/RG8H14, bit.ly/Quyty2).
Water, de 2010, foi um grande disco de estreia. Não poderia deixar de faltar alguns standards servindo de showcase dos seus dotes vocais. São elas Skylark e But Beautiful. Na primeira é acompanhado por Chip Crawford. O piano é discreto e realça sua interpretação contida e segura. Em But Beautiful, Porter estraçalha. É uma revelação o surgimento de um cantor que demonstra essa segurança logo no primeiro disco. E mostra que também é bom compositor. De sua lavra ouvimos baladas belas como Lonely One, em belíssimo arranjo de Crawford, e Water, que evoca esse elemento com seu ritmo flutuante em desenhos, ora evocativos, ora dramáticos do piano, único instrumento a acompanhá-lo. O disco fecha com um Felling Good cantado à capella. Maravilhoso.
Ouça Lonely One.
Bom, comecei pelo fim. Termina com Feeling Good e começa com Illusion, composição dele. É um início apenas com a voz e o piano. A segunda – Pretty – é mais jazz. Belo arranjo com naipe de sopros. Magic Cup é uma faixa em que há maior espaço de improvisos de saxofone e trumpete. 1960 What? é a faixa política, que segundo a publicação All About Jazz, foi inspirada em experiências suas e de seu amigo e mentor Kamau Kenyatta.
Um dos grandes méritos do segundo CD – e do primeiro também – é a qualidade dos arranjos. Na primeira audição, não “pega”. Quanto mais se ouve, é possível perceber como Porter é bom cantor e, em um repertório em que a maioria das canções é de autoria própria, é preciso ir se acostumando com elas. Se fossem, como têm sido os álbuns de cantores do jazz, cheio de standards, acostumados que estamos com temas tão repetidos, tendemos a compará-los tendo como referência outros cantores. Ao ouvirmos All the Way de um novo cantor, certamente, temos a de Frank Sinatra para nos balizar, ou, se alguém canta What a Wonderful World, impossível não ter como referência Louis Armstrong. Quando a canção é desconhecida ou nova é impossível uma empatia imediata; fazemos uma avaliação dupla, primeiro com a qualidade dela como composição e depois, nos atemos à interpretação.
Para que, aos poucos, nos acostumemos, as duas primeiras canções são baladas melancólicas com belos solos de sax soprano e naipes de sopros na exata medida. On My Way to Harlem, a seguir, é uma explosão rítmica no piano de Chip Crawford e sax alto de Yosuke Sato, eletra que alude ao Harlem, às suas raízes (“Você não pode me manter longe de onde eu nasci”, ou “fui batizado pela corneta de meu pai”), em referências como à Duke Ellington (“que não mora mais por aqui/ ele se mudou daqui”), Marvin Gaye (“Eu sei que Marvin Gaye costumava cantar What’s Goin’ on por aqui), ou ao poeta Langston Hughes, rimado com a palavra “blues”, que se mudou de lá.
Veja Porter em On My Way to Harlem.
Veja também o vídeo oficial de Be Good (A Lion”s Song).
Veja Porter a cantar Painted on Canvas, deste CD.
Tudo se acalma com Real Good Hands, The Way You Want to Live, When Did You Learn, Imitation of Life (só ele e Chip ao piano, em uma das poucas composições que não são de Porter), Mother’s Song (belo arranjo!), e Our Love. A temperatura volta a subir com Bling Bling. É um número com aquela pulsação intensa, puro jazz, na batida e nos solos do sax alto em alta voltagem. É música para se levantar da cadeira. Worksong, de Nat Adderley, é maravilhosa, talvez a melhor do CD. É tudo: dramática, enérgica, riffs de sopros marcando o ritmo e Porter, simplesmente perfeito. E para fechar, Gregory Porter canta a capella (em seu álbum de estréia fez o mesmo) God Bless the Child. Esta é para cair da cadeira.
É o que você ouve aqui, em uma versão remix.

