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terça-feira, 10 de setembro de 2013

O mundo de Pixinguinha segundo Hamilton de Holanda

Um disco com um instrumentista acompanhado de diferentes músicos em cada faixa é como um panaché de sobremesas. Experimenta-se o doce, o levemente amargo, o ácido, o exótico, etc. É o caso de Mundo de Pixinguinha, de Hamilton de Holanda. O outro álbum lançado quase ao mesmo tempo, O Que Será, comentado na semana passada (http://bit.ly/17xkvIv), é só ele e Stefano Bollani. Este, além do italiano, que participa de duas faixas (Canção da Odalisca e Seu Lourenço no Vinho), conta com o português Mário Laginha e de mais três pianistas: Chucho Valdés, Omar Sosa e André Mehmari.

Holanda pensou no projeto por achar que “a música de Pixinguinha é agregadora por natureza” (o que está entre aspas são da matéria “Hamilton com Wynton”, de Roberto Nascimento em O Estado de S.Paulo, set. 2013). O melhor foi que agregou músicos de diferentes lugares. A referência ao panaché de sobremesas (tem um ótimo no restaurante do hotel Unique, SP) não é casual, pois o que ele nos proporciona são sabores diversos como a ginga cubana de Valdés e Sosa, temperos mediterrâneos do francês Richard Galliano e Bollani, ibéricos de Laginha, jazzísticos de Wynton Marsalis, sem faltar a brasilidade de Mehmari, Carlos Malta e da francesa/brasileira Odette Ernest Dias. O universo da música se circunscreve no “mundo Pixinguinha”. Muito boa a ideia dele: uní-los em volta de um dos maiores compositores do mundo.

O bandolinista está, com esse disco, semeando a obra de Pixinguinha. “Você precisa ver como o Chucho Valdés ficou. Toquei a primeira parte e, quando modulou para a segunda, ele disse: ‘Meu deus do céu. Que gênio!’”, conta. O cubano participa de duas faixas: Benguelê e Lamentos. Belíssima. Pixinguinha foi pioneiro ao apresentar-se com seus Batutas, em 1922, fora do Brasil. Os Oito Batutas ou, como diziam os franceses, o “Les Batutás, apresentaram-se por quase seis meses nos palcos do Sheherazade, Chez Duque e La Reserve Saint-Cloud. Não foi o sucesso que previam, apresentados como um conjunto exótico de negros (lembre-se do sucesso de Josephine Baker), nem o fracasso como desejaram seus detratores. Pixinguinha já era internacional, quem sabe, sua bela música se torne também, até a partir do trabalho de Hamilton de Holanda.


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Lamentos é a que vem depois de Naquele Tempo. Esta é um solo de Holanda. Richard Galliano participa de Ingênuo e da pouco conhecida Agradecendo. Pouco conhecida também é Canção da Odalisca, executada com Stefano Bollani. A outra colaboração é em Seu Lourenço no Vinho. Os outros pianistas são Omar Sosa, em Yaô, e Mário Laginha com grande solo em Rosa.


Veja Hamilton e Sosa tocando Dos Caminos. Não está no disco e não é de Pixinguinha.





Wynton e Hamilton tocam Pixinguinha
Hamilton e Wynton

Uma interpretação a se destacar é a de Wynton Marsalis em Um a Zero. Segundo Hamilton, o único que não conhecia Pixinguinha, nem de ouvir falar, era ele. "A música que gravamos é fantástica, solidifica as harmonias e a maneira que se toca a melodia, como no ragtime. É uma das mais difíceis para o trompete que já toquei”, disse o trompetista sobre a música de Pixinguinha e comparou-o a Scott Joplin. E sobre Hamilton, afirma: "Ele é a personificação de tudo que queremos num grande músico. Tem bons reflexos, tem uma maneira natural de tocar, tem profundidade de alma e sentimento. Ele é um tesouro nacional".
Caprichos de Pixinguinha, com André Mehmari, e Carinhoso são as únicas em que toca com brasileiros. Aqui, Hamilton toca com Carlos Malta e Odette Ernest Dias. Nada como terminar com a música considerada a melhor de todos os tempos, segundo pesquisa de O Estado de S.Paulo, de uns quatro anos atrás.

Ouça Um a Zero com Hamilton e Wynton.


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Alguém ouviu o CD Samba do Avião, de Hamilton de Holanda?

Como tantos outros discos de música instrumental, Samba do Avião, lançado em 2008, encontra-se esgotado. Descobri casualmente pesquisando a discografia de Richard Galliano. É possível baixá-lo pela iTune Store por US$ 9.99. Foi o que fiz. Só não entendi por que paguei um dólar a menos por Mundo de Pixinguinha, que é mais recente. O CD físico pode ser comprado na loja da Amazon americana.

No disco, Hamilton toca desacompanhado na maioria das faixas, ou melhor, em algumas toca com ele mesmo, usando o recurso de overdubs. Apenas nas três últimas – Chorinho Pra Ele, Sertão e Sanfona –, toca com o acordeonista Richard Galliano. Impressionante como os dois instrumentos se combinam ou, pelo menos, impressionante a simbiose entre Hamilton e o francês. Confira em Chorinho Pra Ele, de Hermeto Pascoal.


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terça-feira, 12 de junho de 2012

A rosa e a mais bela pétala de rosa

Com tanta coisa para se ouvir! Ainda bem: temos belas surpresas nas quais tropeçamos. Para embalar minhas noites de sono, deixo meu iPod conectado nos falantes Altec Lansing a tocar. Temos nossas preferências e dentro de milhões de intérpretes, nunca prestei muita atenção nos discos solo de Greg Osby. Descubro St. Louis Shoes. Certamente, é um trocadilho com St. Louis Blues, famosíssima composição de W.C. Handy. Está lá: é a última faixa do CD. A que abre é East St. Louis Toodle-Oo, de Duke Ellington. Nenhuma música é de sua autoria nesse disco. Algumas são mais recentes, como Whirlwind Soldier, de Cassandra Wilson, e outra é de Jack DeJohnette (Milton on Elbony). Tem Summertime, Light Blue, de Thelonious Monk, Bernie’s Tune e Shaw Nuff, de Charlie Parker e Dizzy Gillespie. O que mais me chamou a atenção foi justamente outra composição de Duke Ellington: The Single Petal of a Rose.

Ellington, Billie Holiday e o crítico Leonard Feather (1945)
Duke. Ellington é um daqueles que pulverizou os limites do que é considerado erudito. A música assim chamada era o que Beethoven, Brahms e Bach fizeram, o que Debussy, Ravel e Stravinsky faziam no início do século XX, ou os americanos Charles Ives e Carl Ruggles compunham. George Gershwin foi um dos pioneiros a transpor esse limiar entre o erudito e o popular, principalmente com a ópera Porgy and Bess, Rhapsody in Blue e Concerto em fá maior para piano e orquestra. Duke Ellington não se pretendia um erudito. Importava-se em compor boa música e fazer belos arranjos para a sua banda. Inteligentemente, rodeou-se de grandes músicos que lhe foram fiéis. Alguns, como Harry Carney, grande saxofonista barítono e um dos artífices do “som ellingtoniano”, tem a carreira como músico, umbilicalmente ligada a ele. Outros, como Johnny Hodges ou Paul Gonsalves, também. Um dos grandes nomes do saxofone tenor – Ben Webster –, apesar da brilhante carreira como líder, deve crédito ao washingtoniano. Uma curiosidade que não tem muito a ver com o que se fala aqui: Duke Ellington gostava de excursionar pelos EUA, locomovendo-se de carro; o motorista “oficial” era Harry Carney. Segundo Geoff Dyer, autor de But Beautiful (Picador, 1996), um dos livros mais brilhantes jamais escritos tendo como assunto o jazz, diz que Ellington deve ter viajado o equivalente de três a quatro voltas ao mundo de automóvel.

É chover no molhado, citar Solitude, Take the “A” Train, Satin Doll, Sophisticated Lady, várias delas parcerias com Billy Strayhorn. Essas e várias suítes como Black, Brown & Beige o coloca no mesmo patamar dos maiores compositores do século XX – e, inclua-se aí, Bártok, Stravinsky, Ravel e Debussy.

The Queen’s Suite foi composto por Ellington, em 1959, em homenagem à rainha Elizabeth II (por sinal, está completando 60 anos de reinado neste mês de junho). A quinta suíte, The Single Petal of a Rose, é uma das mais belas composiçoes de Duke. Apenas ao piano, e o contrabaixo de Jimmy Woode, é uma pérola entre outras que compôs. Aliás, a rosa, a flor, digo, é motivo de inspiração de belíssimas músicas. No repertório brasileiro, não se deve deixar de citar Rosa, de Pixinguinha e Otavio de Souza, e As Rosas Não Falam, de Cartola.

Antes de ouvir The Single Petal of a Rose, com Ellington, vamos à Rosa, em interpretação sublime de Marisa Monte.




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A “Pétala”, por Ellington.




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A de Greg Osby, o pretexto para esse post faz uma releitura muito boa do clássico de Ellington. Greg toca sax alto, Nicholas Payton, trumpete, Harold O’Neal, piano, Robert Hurst, baixo, e Rodney Green, bateria. Ouça.



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