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terça-feira, 7 de maio de 2019

Caixa alta, só Deus. Ou a história de Nature Boy

O nome de kd lang – atualmente usam pontos, k.d. – é grafado sempre em caixa baixa (é a forma de que designers gráficos e editores se referem às minúsculas). Ela não é a primeira do universo musical a optar por essa forma. Seu predecessor mais famoso é eden ahbez, pseudônimo de George Alexander Aberle, autor de “Nature Boy”.

eden ahbez proibiu em contrato de
que seu nome fosse grafado em maíúscula
eden foi o que se poderia chamar de proto-hippie, ou seja, era hippie antes que esse movimento surgisse. Gostava de vestir-se com batas e usava barba e cabelos longos que o fazia parecer com Jesus Cristo. Em 1947 conseguiu se aproximar do empresário de Nat “King” Cole querendo mostrar uma música para o cantor/pianista.O título era “Nature Boy”. Bom, o resto é história: “King” Cole gravou e o single ficou por oito semanas em primeiro lugar nas paradas. Na esteira, Sarah Vaughan e Frank Sinatra a gravariam também. Ele não teve nenhum outro sucesso apesar de outras composições terem sido gravadas por Doris Day, pelo grupo vocal Ink Spots, Eartha Kitt e até pela roqueira Grace Slick. Hoje é conhecido por ser autor de uma música só. Dentre todas as excentricidades a mais conhecida foi a da imposição de que seu nome teria de ser grafado apenas em letras minúsculas; maiúsculas, só Deus. Durante muito tempo isso foi respeitado. Com o passar dos anos esqueceram dessa “obrigatoriedade” e seu nome hoje é grafado com maiúsculas e minúsculas.

Além de “King” Cole
A gravação de “King” Cole é Unforgettable. Revolucionário pianista e inventor do formato trio piano, guitarra e bateria, sem o contrabaixo, é mais conhecido pelo público como cantor. Com uma voz aveludada emplacou sucessos como Mona Lisa, Unforgettable, Blue Gardenia e When I Fall in Love sempre acompanhado de orquestras, com arranjos de Frank DeVol, Pete Rugolo, Billy May e Nelson Riddle.

Outras gravações merecem ser conhecidas. Das vozes masculinas, dentre as que conheço, a minha preferida atualmente – a gente vai mudando de gosto, não? – é a de Kurt Elling, considerado o melhor cantor da atualidade. Outro cantor de voz grave e pouco conhecido, pelo menos no Brasil, tem uma versão impecável; é a de Jefferey Smith, acompanhado pelo piano estupendo de Shirley Horn. Dono de uma voz de contornos dramáticos, quase operístico, dá um tom melancólico e ao mesmo tempo grandioso. Belíssimo. Outro cantor de voz abaritonada, Johnny Hartman (lembram-se do filme As pontes de Madison, de Clint Eastwood; ele está lá), cujo álbum John Coltrane and Johnny Hartman, de 1963, é um dos clássicos do repertório jazzístico, tem duas gravações muito parecidas meio suingadas… chatinhas. Melhor ouvi-lo cantar Wave, do nosso querido Tom, acompanhado pela flauta de Frank Wess ou, preciosidade das preciosidades, Charade, tema de Henri Mancini para o filme de mesmo nome, protagonizado por Audrey Hepburn e Cary Grant. Das mais recentes, o jovem cantor da gravadora Concord, Peter Cincotti manda bem numa versão maravilhosa em que toca no piano o tema de The Fool on the Hill, de Lennon e McCartney e sobre ele, canta Nature Boy. Depois de dois bons CDs, talvez por motivos comerciais, Cincotti parece ter perdido o rumo e bandeado para um repertório mais “popular”. Uma pena. Está ameaçado de fazer o mesmo caminho de Harry Connick, Jr.

Dentre as mulheres, uma muito boa é a de Karrin Allyson. Excelente cantora, com repertório eclético em que destacam-se gravações de músicas brasileiras e francesas cantadas em suas línguas de origem – com muita classe –, é intérprete de primeira. É bem melhor que a de Ella Fitzgerald e Joe Pass: gênios também dão suas escorregadas de vez em quando.






Sem patriotada, o Nature Boy de Caetano Veloso está entre as melhores de todos os tempos. Ele é estupendo cantando músicas em inglês. Vide seu Lady Madonna, Help e For No One, todas de Lennon e McCartney. A curiosidade é a versão de Vinícius de Moraes, acompanhado do violão preciso de Toquinho. Reproduzo a fala de Vinícius antes de cantá-la:

V: Eu quero fazer uma canção que sou vidrado nela. Eu estava em Los Angeles nessa ocasião, quando eu vi ela nascer, sabe?
T: Qual é?
V: É uma canção que se chama Nature Boy. Ah, você já…
T: Ah, claro. A gente cantou em Mar del Plata.

Veja Caetano cantando a música de ahbez.




Ouça a de Vinícius.






Relação dos álbuns
Nat “King” Cole – Nat “King” Cole (Capitol 1992 – 4 CDs)
Sarah Vaughan – Nature Boy (Golden Stars 2002 – 2 CDs)
Fran Sinatra – The Best of The Columbia Years 1943-1952 (Sony 1995 – 4 cds)
Karrin Allyson – I Didn’t Know About You (Concord 1993)
Kurt Elling – The Messenger (Blue Note, 1997)
Jeffery Smith – Ramona (Gitanes/Verve 1995)
Johnny Hartman – The Tokyo Albums ( Gambit 1972) / For Trane (Blue Note 1973)
Ella Fitzgerald & Joe Pass – Fitzgerald & Pass… Again (Pablo 1976)
Peter Cincotti – Peter Cincotti (Concord 2003)

terça-feira, 1 de julho de 2014

O Brasil de Karrin Allyson



Em um universo em que a grande estrela é Diana Krall, há um número enorme de intérpretes do gênero feminino em todos os hemisférios. Temos boas cantoras no Japão, nos países escandinavos, em toda a Europa, mas encontram-se em maior número nos Estados Unidos por uma tradição em que despontaram Ella Fitzgerald, Billie Holiday, Carmen McRae, Dinah Washington, Stacey Kent, Anita O’Day e uma infinidade de outras de primeiríssima categoria. Acaba sendo o país que acolhe cantoras que almejam atingir um público maior, como as europeias Cyrille Aimée e Roberta Gambarini.

Dentro do imaginário, principalmente do masculino, mulheres são sereias de vozes irresistíveis. Essa é a “magia”. Se forem belas, mais ainda. É um predicado do qual muito bem se aproveitam as que o possuem. Basta observar as capas de álbuns de Diana Krall e de Eliane Elias. Não é uma adoração exclusivamente masculina. As mulheres também gostam. A canadense é o melhor exemplo. Mas ela e Elias não estão sós. Uma intérprete que poderia ser boa “concorrente” teria sido Karrin Allyson caso fosse melhor “vendida” como uma bela garota sensual. E vamos combinar: todas estão com mais de 40, algumas bem mais, como Eliane Elias.

Outra coisa em comum dentre as cantoras atuais é a inclusão em seus repertórios de músicas do cancioneiro popular brasileiro. E não se restringem ao óbvio de escolherem músicas de Antônio Carlos Jobim ou Luiz Bonfá. Dentre os eleitos estão Ivan Lins, Djavan, Marcos Valle e Dori Caymmi.

Além de Stacey Kent, Karrin é o destaque. No primeiro álbum da Concord – I Didn’t Know About You (1993) – há uma interpretação bem interessante em que Insensatez tem uma introdução com o Prelúdio no. 4, de Chopin. Em Sweet Home Cookin’ (1993), canta Samba de Uma Nota Só. Em Collage (1996), incluiu Faltando Um Pedaço, de Djavan, escolha nem um pouco habitual. Em Daydream (1996), as escolhas são mais comuns: Só Danço Samba e Corcovado. Em outro álbum, From Paris to Rio (1999), obviamente, são vários os temas brasileiros: Samba Saravah, O Pato, O Barquinho, Coração Vagabundo, Inútil Paisagem, Ária das Bachianas Brasileiras no.5, e Catavento e Girassol. Esta última é de Aldir Blanc e Guinga, item que deve ser pouco conhecido fora daqui.

Ouça Catavento e Girassol.




Depois de Wild for You (2004), em que privilegia temas mais recentes como Wild World (Cat Stevens), All I Want (Joni Mitchell), Don’t Let Me Be Lonely Tonight (James Taylor), The First Time Ever I Saw Your Face (Ewan McColl) e Sorry Seems to Be the Hardest Word (Elton John e Benny Maupin), dentre outros, e Footprints (2006), em que são acrescidas letras em temas do jazz como Jordu, Footprints e Con Alma, Allyson voltou à música brasileira em Imagina: Songs of Brasil. São 14 canções. Apesar de privilegiar composições de Antônio Carlos Jobim, o repertório inclui temas menos conhecidos, como Correnteza, Medo de Amar, Estrada Branca, Imagina e Estrada do Sol. De outros compositores, temos Outono, de Rosa Passos, É com Esse Que Eu Vou, de Pedro Caetano, e a genial Pra Dizer Adeus, de Edu Lobo e Torquato Neto. É essa que vamos ouvir.




Ouça também Só Tinha Que Ser com Você.




segunda-feira, 16 de maio de 2011

O interesse pela língua portuguesa não é só de Stacey Kent

Stacey Kent é a encarnação da empatia (simpatia, para ser mais exato). No ano passado, prometera que, em sua próxima apresentação no Brasil, falaria em português para a plateia. Feito. Entre um número e outro conta que há três anos, ela e Jim se inscreveram num curso de língua portuguesa, e a premissa inicial do aprendizado era não conversarem em inglês durante as primeiras sete semanas (não lembro, exatamente, acho que eram sete semanas mesmo). No início, era “bom dia”, “como vai?”, “te amo”, mas, pouco a pouco o repertório de frases aumentou.

O que, inicialmente, muito por conta de que celebrada é ela e não ele, parecia que o propósito de aprender português era dela. Engano. O interesse foi de ambos, aparentemente, pela música, pelo menos. Jim gravou Brazilian Sketches em 2003, até então, Stacey, que me lembre, nunca tinha registrado uma música brasileira em discos. Nos “desenhos brasileiros”, Jim gravou clássicos conhecidos de Jobim, Bonfá e Marcos Valle. Em The Lyric, lançado em 2007 por uma gravadora chamada Token. e foi relançado agora em 2011 pela Blue Note, bem maior e melhor distribuição, o amor pela música brasileira persistiu. Trocaram só a capa e corrigiram o “manha de carnival” (leia em http://bit.ly/m9Yu1j).

Mas Stacey não é a pioneira em cantar em português. Quem não se contorceu na poltrona ouvindo uma tonitruante “bonita” de Sarah Vaughan ou Ella Fitzgerald cantando Corcovado? Velha “tchama”, é ”têrrr” tempo para amar, o Cristo “Redêntor” e outros achados “portuguesísticos” doem nos ouvidos brasileiros. E quando canta Água de Beber? Veja, nada contra a grande dama do jazz que adoro (a propósito, tenho um texto sobre ela em http://bit.ly/mimlrz).

Cantar em português deixou de ser um desafio para intérpretes da língua inglesa. Antes de Stacey, Fleurine (mulher do pianista Brad Mehldau, ambos “fregueses” do Brasil), Susannah McCorkle (leia http://bit.ly/kRy8r2) e Karrin Allyson cantaram em português com muita propriedade.

O charme de Karrin Allyson é comparável ao de Diana Krall
McCorkle, à semelhança de Kent, aprendeu a língua portuguesa (era fluente em italiano) e era ligada nas letras (publicou como escritora vários livros). Stacey foi morar na Inglaterra para fazer um mestrado em literatura comparada e é amiga do nipo-britânico Kazuo Ishiguro.

O gosto pela música brasileira de Allyson está estampado em dois álbuns: From Paris to Rio – lançado em 1999, há onze anos, portanto – e Imagina: Songs of Brasil (2008). Em Imagina, título escolhido em razão de ter sido a primeira composição de Tom Jobim, que depois recebeu letra de Chico Buarque (isso segundo o que Karrin Allyson escreve nas liner notes), canta a maioria das canções em português, competente, registre-se. E, pelas mesmas notas, ficamos sabendo que a “professora” de português foi a jornalista Lúcia Guimarães. As duas se conheceram numa fila de autógrafos após uma apresentação de Blossom Dearie. Mundinho, não? Veja como as coisas vão se ancaixando.

Como o assunto principal não é exatamente Stacey Kent, ouça Susannah McCorkle cantando Manhã de Carnaval (acho que é a canção que mais postei, em português, inglês, espanhol, instrumental, só falta em russo), e Só Tinha de Ser com Você por Karrin Allyson.