Uma das mais importantes influências de Miles Davis foi Clark Terry, apesar da pequena diferença de idade entre eles – o primeiro nasceu em maio de 1926, e o segundo, em dezembro de 1920. Terry ficou conhecido por ter feito parte, por um bom tempo, da big band de Duke Ellington, e também por ser um dos responsáveis pela popularização do flugelhorn. Miles o admirava não apenas como músico. Terry era um negro bonito, simpático e ainda tocava com Duke Ellington. O lado frívolo de Miles sempre apreciou a beleza, não apenas a das mulheres. Era tremendamente vaidoso e gostava de roupas caras e carros esportivos.
Por conta de ter ficado muito tempo com Ellington, Terry passou a gravar como líder um pouco tarde. Em 1955, quando lançou seu primeiro disco pela EmArcy, Davis já era bem conhecido. Em 1945, passara a tocar com os maiorais Charlie Parker e Max Roach, participando da revolução do bebop e, pouco tempo depois, do nascimento do cool jazz.
Por ser de uma geração que nem tinha nascido quando Miles já era músico importante, seus primeiros álbuns que conheci foram os de sua fase elétrica, como Bitches Brew, Agharta, Filles of Kilimanjaro, Jack Johnson e Get Up With It. O trompetista foi um dos meus primeiros ídolos do jazz. Como bom fã de carteirinha, passei a querer conhecer seus álbuns anteriores.
Passando a gostar de Charlie Parker, conheci os registros que ele gravou pela Dial Records. Em boa parte, o trompetista era Miles. Comprei uns discos de Davis lançados no Brasil pelo selo Prestige. Daí então, um dos meus objetivos passou a ser o de comprar tudo o que encontrava dele. Ainda na era dos LPs, cheguei a ter cerca de 50 títulos. E, Clark Terry? Nem sabia que ele existia.
A obsessão tem um preço: você quer conhecer cada vez mais, e dá-lhe dinheiro para comprar mais CDs. Mesmo assim, até hoje, o único álbum que tenho de Clark Terry é Orbit; e a razão de tê-lo deve ter sido por causas da participação de Thelonious Monk, outro ídolo, que passei a admirar ouvindo-o em discos de Davis. Por essa razão, pouco ouvi Terry. Conheço-o mais pelas fotografias em publicações de jazz em que sempre aparecia com sorriso largo e o bigode que o acompanhou desde a adolescência. Minha simpatia por ele é a de vê-lo como um sujeito… simpático. Clark, cujo apelido era Mumbles, morreu outro dia. Tinha 94 anos, pelo jeito, bem vividos.
Veja uma apresentação dele ao flugelhorn e nos scats. Bom e engraçado.
Ah, lembrei que tenho mais um: The Songs Ella & Louis Sang (Concord Jazz, 1997); mas é dele e de Carol Sloane. Relembram as famosas de performances de Ella e Satchmo lançadas pelo selo Verve nos anos 1950. Aqui, Terry mostra sua faceta de cantor. Mais uma vez: não comprei por causa de Terry.
A exemplo de Miles Davis e Gilberto Gil, Dexter Gordon não nasceu em berço pobre como a maioria dos músicos negros. O pai de Miles era dentista em Saint Louis e os de Gil e Gordon, médicos. Aliás, Frank Gordon, pai de Dexter, teve Duke Ellington e Lionel Hampton entre seus clientes. Não deve ter sido por essa casualidade, mas, no começo da carreira, tocou por três anos na banda comandada pelo vibrafonista. Nesse início promissor, tocou com Louis Armstrong, Nat “King” Cole, Harry “Sweets” Edison, Fletcher Henderson e participou de outra banda que revelou muitos talentos, como a de Hampton: a de Billy Eckstine.
Depois de sair da banda de Eckstine, mudou-se para Nova York e foi morar no Harlem.“Não havia lugar mais excitante de estar”, disse uma vez. A cena noturna fervia em Nova York na área em que ficavam os bares e clubes de jazz. A poucos metros de distância, em uma mesma noite, concentravam-se Charlie Parker, Bud Powell, Thelonious Monk, Miles Davis, Bud Powell e Charles Mingus. tocando na mesma noite Os músicos apresentavam-se impecavelmente vestindo belos costumes e gravatas de seda. Dexter Gordon encantou-se. Tornou-se um deles.
Álcool e drogas faziam parte natural desse ambiente, das mais leves, como a maconha, às mais pesadas, como a heroína. O barato, o estar alto, fazia parte do fazer música e da vida noturna. A polícia de Nova York não perdoou o hedonismo das noites musicais. Vários músicos foram presos e não foram poucos. Dessa lista fizeram parte Charlie Parker, Lester Young, Bud Powell e Dexter Gordon. Alguns amargaram temporadas longas na cadeia, como Hampton Hawes, Joe Pass, Chet Baker e Art Pepper. Ser preso fazia parte do negócio. Era consequência, mas a cassação de suas licenças para tocar em clubes e teatros era uma sentença de morte.
O melhor caminho para a subsistência desses músicos foi o aeroporto. Por razões diversas que não apenas a proibição de tocarem, muitos se mudaram para a Europa. O racismo severo dos americanos brancos foi outra razão. Na Europa eram tratados como reis, eram respeitados como músicos e pessoas. Além da França, outros países como a Dinamarca, Holanda e Bélgica apreciavam muito o jazz.
Gordon morou por 15 anos, principalmente, em Paris e Copenhagen. Continuou representado por selos americanos como a Blue Note e a Prestige, mas muitos dos bons álbuns do saxofonista da década de 1970 foram lançados pelo selo dinamarquês SteepleChase, tendo em seu cast grandes músicos “expatriados” como Kenny Drew, que saiu dos EUA em 1961 e nunca mais voltou, Kenny Clarke, e europeus como o catalão Tete Montoliu, o dinamarquês genial Niels-Henning Ørsted Pedersen, Pierre Michelot e muitos outros.
O retorno
Dexter Gordon conheceu Maxine Gordon, que mais tarde se tornaria sua mulher, e manifestou-lhe seu desejo de voltar para os Estados Unidos. Só não sabia como. Ela pensou em várias possibilidades e teve a ideia de conversar com Max Gordon (nenhum parentesco com ela), dono do Village Vanguard. Disse-lhe: “Max, eu ouvi Dexter Gordon e ele se encontra em grande forma e quer voltar. O que você acha de marcar uma apresentação?” Ao contrário do que imaginava, ficou desapontada com a resposta: “Não. Não posso marcar. Todos já esqueceram dele. Ele está fora há muito tempo.” “Mas você tem de marcar uma apresentação. Se você não fizer, nunca mais falo com você”, retrucou Maxine. “E daí? Eu não me importo”, disse Max. No dia seguinte, ela ligou e voltou ao assunto. Max respondeu: “Ok, eu farei a apresentação, mas sem garantias. Se der um dinheiro, dou-lhe o dinheiro. Caso contrário você terá de pagar os custos da banda.”
Deu tão certo que as apresentações de Gordon com Woody Shaw (trompete), Ronnie Matthews (piano), Sttaford James (contrabaixo) e Louis Hayes (bateria) ficaram registradas e lançadas no álbum duplo Homecoming: Live at the Village Vanguard. Não havia mais Ben Webster, Coleman Hawkins, mas tinha um gigante que encontrava-se meio adormecido na memória dos apaixonados pelo jazz. Gordon era um ícone que precisava ser “resgatado”, principalmente por uma geração mais nova que não o viu tocar.
Sophisticated Giant, o seu primeiro álbum de estúdio pela Columbia, foi celebrado pela crítica, pelos antigos e novos fãs de jazz. Eu estava entre os novos. Na minha galeria, que tinha Coleman Hawkins, Ben Webster e Lester Young, um novo deus passara a existir e ele se chamava Dexter Gordon. A sofisticação dos arranjos do trombonista Slide Hampton era a pedra de toque. O sopro volumoso, o modo preguiçoso de tocar do saxofone eram irresistíveis. Já na primeira faixa – Laura – ficava claro que era um grande disco. Era um gigante no tenor e em Insensatez deixava claro que era também no saxofone soprano.
Ouça Laura em versão estúdio.
E veja Gordon tocando Laura com seu quarteto: George Cables (piano), Rufus Reid (baixo) e Eddie Gladden (bateria).
Ouça Insensatez. É espetacular.
No ano seguinte, Gordon lançou Manhattan Symphonie. E era melhor ainda que o anterior. Acompanhado apenas por um quarteto – George Cables (piano), Rufus Reid (baixo) e Eddie Gladden (bateria) – gravou versões excepcionais de As Time Goes By, Moment’s Notice, de John Coltrane, Tanya, de Donald Byrd, Body and Soul e dois originais: o primeiro – I Told You So –, de seu pianista, e LTD, de sua lavra.
Os dois momentos altos são As Time Goes By e Body and Soul.
Ouça a primeira.
Mas a melhor mesmo é Body and Soul. Gordon finaliza com um solo de 2:45 minutos que é uma das joias da música instrumental. É de se ouvir suspendendo a respiração.
Gordon gravou ainda pela Columbia: Gotham City, em 1980. Os outros foram An American Classic (WEA, 1982) e ’Round Midnight (Columbia, 1986), mas este pode ser considerado mais como um soundtrack do filme do mesmo nome, dirigido por Bertrand Tavernier e protagonizado pelo saxofonista. Gordon participa de apenas cinco das onze faixas.