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sexta-feira, 28 de junho de 2013

Morre Bert Stern

Bert Stern é mais conhecido por ter sido o autor das últimas fotos de Marilyn Monroe. Algumas semanas antes da morte da atriz por overdose de drogas, Bert fez milhares de fotos para a revista Vogue. Stern dizia que foi uma “experiência única ter estado com Marilyn Monroe em um quarto de hotel.”

Fotógrafo de profissão, foi ao Newport Jazz Festival “tirar algumas fotos”. Em vez disso, acabou fazendo um documentário. Foi sua única aventura no cinema. Não precisou mais: fez o melhor documentário de jazz da história. Jazz on a Summer’s Day é um clássico. O olhar de fotógrafo capta os músicos, mas, principalmente, o público, cenas de Newport em um belo dia de verão. Pena que não esteja disponível no youtube. Mas alguns trechos estão. Há uma performance inesquecível de Anita O’Day. Veja.




Veja o trailer do documentário e um pedacinho da apresentação de Thelonious Monk.




A abertura do filme. É uma maravilha, com fundo musical de Jimmy Giuffre.




Louis Armstrong.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

A noite enluarada de Ella Fitzgerald, Margaret Whiting e Claude Williamson

Claude Williamson, em 1956
De bons pianistas, boas cantoras e boas intenções o mundo está cheio. Milhares de pianistas ganham admiradores quase particulares, como um troféu, um segredo pouco compartilhado (senão, deixa de ser segredo). Existe uma expressão perfeita para esses músicos no mundo do jazz: são os “underrated”.

Um deles — conheço alguns que gostam muito — é Claude Williamson. Lançou poucos discos. Iniciou no jazz depois de cursar a New England Conservatory, em Boston, EUA, acompanhando Charlie Barnett. Mudou-se para a California e tocou com muita gente associada ao som “west coast”. Acompanhou Art Pepper, Bud Shank, Red Norvo e, por dois anos, a gloriosa cantora June Christy, antiga crooner da orquestra de Stan Kenton. Substituiu Russ Freeman, outro egresso da banda de Kenton, na Lighthouse All Stars. Afastou-se do jazz e, contratado da rede de TV NBC, tocou no programa de Andy Williams e, como empregado tem de ir para onde o dono manda, no da dupla Sonny & Cher. Gerações mais recentes conhecem Cher por seu jeito extravagante de se vestir (uma periguete sênior dos States), mas ela começou em dupla com o antigo marido bigodudo. Sonny Bono despareceu. Cher é um exemplo, comoTina Turner, das mulheres que deram certo depois que saíram do jugo de seus homens.

Mesmo não fazendo parte da “panelinha” dos que têm Williamson como “segredo”, possuo dez registros em disco dele. De quando em quando, me ponho a ouví-lo no meu iPod ligado no falante Altec Lansing que fica no meu quarto. Há duas noites, serviu para embalar o início do meu sono. Entre desperto e naquele átimo da sensação de não se saber acordado ou dormindo, notas de piano me chamaram a atenção e, sem saber se era sonho ou realidade, pensei comigo: conheço esse tema. Nessa hora, já me sentia desperto. Era Claude Williamson e a música, Moonlight in Vermont.

Claude deveria, por obrigação, tocá-la. Nasceu em Vermont, um dos menores e menos populosos estados norteamericanos. Localizado na ponta leste que divide fronteira com a região de Quebec, Canadá, chama-se Vermont, em razão dos verts monts que compõem a sua paisagem. É, guardadas as proporções, algo como a versão brasileira da região da serra da Mantiqueira que divisa Minas Gerais e São Paulo. Temos até uma cidade chamada Monte Verde (faz parte de Camanducaia). Como aqui, Vermont é uma região turística; é a Campos do Jordão dos novaiorquinos.

Moonlight in Vermont foi composta por Karl Suessdorf e a letra é de John Blackburn. Ganhou o primeiro registro na voz de Margaret Whiting, em 1945 (segundo a Wikipedia, foi em 1944). Muitos intérpretes gravaram Moonlight in Vermont. São imperdíveis as gravações de Betty Carter, Sarah Vaughan e, principalmente, a de Ella Fitzgerald com Louis Armstrong.

Margaret é menos conhecida do que as citadas acima, mas está no panteão das grandes cantoras americanas. Filha de Richard Whiting, compositor de Hooray for Hollywood, Too Marvelous for Words e Sentimental and Melancholy, as duas últimas em parceria com Johnny Mercer, tornar-se cantora foi um passo natural. A casa dos Whiting era frequentada por Maurice Chevalier e Al Jonson e um dos melhores amigos foi Johnny Mercer, compositor também, que, mais tarde, fundou a gravadora Capitol. É uma pena que tenha Richard morrido cedo – 46 anos. Orfã, muito cedo, Maggie, como era chamada em casa e pelos amigos, teve o apoio de Mercer para tornar-se uma das grandes intérpretes da música americana.

Depois desse blah blah todo, melhor ouvir a gravação de Whiting. Minha discoteca tem falhas como a de nela não constar nenhum CD de Luan Santana (nem nunca ouvi a tal música famosa de Michel Teló), mas discos de Whiting fazem parte dela. Felizmente. E é por isso que tenho a gravação de 1945 e a de 1954. A disponibilizada é a mais antiga.




Não posso deixar de colocar a de Claude Williamson. É mais ou menos recente: é de 2000. Williamson, depois de ficar afastado do jazz, quando trabalhou na televisão, voltou a gravar jazz no fim dos anos 1970. Aqui é acompanhado por Bill Crow no baixo e David Jones na bateria. O CD é da Venus, gravadora japonesa que se especializou em registrar, principalmente, música no formato piano, baixo e bateria. É coisa fina.




Um registro excepcional, como disse, é o de Ella Fitzgerald e Louis Armstrong pelo selo Verve. Parece que estamos em Vermont, sem nunca termos ido para lá. Prestando-se atenção na letra (“Telegraph cables, how they sing down the highway/ And they travel each bend in the road/ People who meet in this romantic setting/ Are so hypnotized by the lovely// Evening summer breeze/ The warbling of a meadowlark/ Moonlight in Vermont”), temos essa impressão. Quando Ella, até ouvimos os trinados de uma cotovia.


quinta-feira, 28 de junho de 2012

Jack Kerouac e o jazz

Neal Cassady é o da esquerda, e Kerouac, o da direita
Pelo jeito, como se dizia antigamente, On the Road (Pé na Estrada, pela tradução de Antônio Bivar), está na crista da onda de novo, em razão da proximidade do lançamento do filme de Walter Moreira Salles Jr. baseado no romance de Jack Kerouac. Esse clássico beat (a expressão “beatnik”, inventada pelo jornalista Herb Caen, com a adição de “nik”, inspirada no nome do primeiro satélite artificial lançado no espaço pela ex-União Soviética, não era de agrado de Allen Ginsberg, um dos notáveis desse movimento) foi o livro de cabeceira de várias gerações no mundo todo. Aqui, foi lançado apenas em 1984. Foram quase trinta anos de espera até a primeira tradução em português, lançada pela Brasiliense Editora, em 1978. Quem não quis (ou não conseguiu) esperar leu no original em inglês ou na edição lançada pela editora argentina Sudamericana, intitulada Por La Carretera (tirei essa informação do excelente texto publicado em OESP, em 22/6/2012, de Ignácio de Loyola Brandão; leia em http://bit.ly/MWEJ0c). Posteriormente, em 2004, a L&PM lançou a versão integral, sem os cortes impostos pela Viking Press em sua edição original.

O jazz, mais particularmente, o bop, gênero em voga no período pós-guerra, que teve protagonistas geniais como Bud Powell, Charlie Parker, Dizzy Gillespie e Miles Davis, era a música tocada nos bares, clubes, nas rádios, em casa e também nos alto-falantes dos automóveis. O jazz está entranhado em On the Road. Por curiosidade, procurei por essas passagens. A pesquisa foi feita na primeira edição do livro e não na lançada pela L&PM e traduzida por Eduardo Bueno. Tive a ideia de fazê-lo ao lembrar da paixão de Jack Kerouac por George Shearing.

O vento vindo do lago Michigan, bop-jazz no Loop, longas caminhadas ao redor de South Haisted e North Clark e, na madrugada silenciosa, uma longa jornada pela selva de pedra, quando uma râdio-patrulha me seguiu como suspeito. Nessa época, 1947, o bop enlouquecia a América. Os rapazes no Loop seguiam soprando, mas com um ar melancólico, porque o bop atravessava um momento indeciso entre o período ornitológico de Charlie Parker e a nova era que começou com Miles Davis. E enquanto eu sentava ali ouvindo esse som noturno que o bop tinha vindo representar para todos nós, pensei nos meus amigos espalhados de um canto a outro da nação e em como todos eles viviam frenéticos e velozes, dentro dos limites de um único e imenso quintal. Na tarde seguinte, segui para o Oeste pela primeira vez na minha vida. Era um lindo dia ensolarado, perfeito para cair na estrada. Fugindo da impossível complexidade do tráfego de Chicago, peguei um ônibus até Joliet, Illinois, cruzei pela penitenciária de Joliet, escapei em direção à periferia da cidade depois de uma caminhada por suas minúsculas ruas frondosas e deixei que meu dedo apontasse o caminho. (pág. 16)

Ouça o gênio Charlie Parker, com Miles Davis. “A Night in Tunisia”.



Parker e Dizzy Gillespie. “Hot House”.




[…] Eu tiritava no vento frio e chuvoso e observava tudo através dos tristes vinhedos de outubro deste vale. Eu estava com a cabeça nesta grande canção que é Lover Man, cantada por Billie Holiiday; curti meu próprio concerto entre os arbustos. “Someday we’ll meet, and you’ll dry ali my tears, and whisper sweet, little things in my ear, hugging and a-kissing, oh what we’ve been missing, lover Man, oh where can you be...” Não era tanto a letra mas a incrível melodia harmônica e o jeito que Billie canta, como uma mulher acariciando o cabelo de seu homem sob a luz suave do abajur. Os ventos uivavam. Fiquei com frio. (pág. 116)

Billie Holiday canta Lover Man.




Eles comiam vorazmente enquanto Dean, com um sanduíche na mão, pulava em frente a uma grande vitrola, escutando um disco de bop muito louco que eu havia comprado naqueles dias, chamado The Hunt; Dexter Gordon e Wardell Gray soprando seus trumpetes [está assim no texto, mas deve haver algum engano, pois ambos eram saxofonistas] numa performance magnífica perante a uma audiência delirante que transmitia ao disco um volume fantástico e frenético. A parentada sulista se entreolhou. surpresa, balançando a cabeça. “Afinal, que tipo de amigos Sal tem?”, diziam para meu irmão. Ele foi desafiado a lhes dar uma resposta. Os sulistas não gostam nem um pouco da loucura, principalmente feito essa do Dean. Ele simplesmente nem olhava para eles. A loucura de Dean havia desabrochado como uma flor exótica. Eu não tinha percebido isso até que ele, eu, Marylou e Ed Dunkel saímos para um breve giro de Hudson quando ficamos finalmente sozinhos pela primeira vez e pudemos falar o que bem entendíamos. Dean se grudou no volante, mudou de rota em um segundo, refletiu por um minuto e, numa decisão furiosa, fez o carro despencar estrada abaixo, a toda a velocidade. (pág. 119)

Tudo nesse mundo, todas as caras do mundo amontoavam-se dentro de um mesmo quarto úmido. Na casa de lan MacArthur a festa prosseguia. Ian MacArthur é um cara maravilhoso e gentil que usa óculos e espia a vida com paixão por detrás deles. Começou a aprender a dizer “Sim” para tudo, exatamente como Dean nessa mesma época, e não parou desde então. Sob o furioso som de Dexter Gordon e Wardell Gray soprando The Hunt, Dean e eu brincamos de pega-pega com Marylou por cima do sofá; ela já não era nenhuma boneca indefesa. Dean circulava sem camisa, apenas de calças, pés descalços, até que já era hora de pegar o carro e ir buscar mais gente. Aconteceu de tudo. (pág. 133)


Dexter Gordon e Wardell Gray. Eram comuns na época os chamados “sax battles”. “The Hunt”.




Encontramos o louco, extasiante Rollo Greb e passamos a noite em sua casa em Long Island. […] Fiquei imaginando como ele conseguia morar com ela dessa maneira. Ele tinha mais livros do que eu jamais havia visto em toda a minha vida — duas bibliotecas, dois quartos repletos de livros do rodapé ao forro em todas as quatro paredes, e livros como apócrifos da Bíblia ou qualquer coisa assim, em dez volumes. […] “Este Rollo Greb é o maior, o mais incrível de todos. É isso que to tentando te falar — é assim que eu quero ser. Quero ser como ele. Ele nunca se atrapalha, é capaz de entrar em qualquer uma, põe tudo pra fora, saca qual é a dá vida, não tem nada a fazer senão seguir o ritmo. Cara, ele é o máximo! Saca só, se você agir como ele, você finalmente vai conseguir.”

“Conseguir o quê?”

“ISSO! ISSO! Mais tarde te digo — agora não, agora não temos tempo.” Dean correu de volta para curtir Rollo Greb um pouco mais.

George Shearing, o grande pianista de jazz, Dean falou, era justamente como Rollo Greb. Dean e eu fomos assistir Shearing no Birdland no meio deste fim de semana longo e louco. O lugar estava às moscas, éramos os primeiros fregueses, às dez da noite. Shearing apareceu, cego, com alguém conduzindo-o pela mão até o piano. Era um inglês distinto e bem apessoado, com o colarinho branco duro, levemente bofe, loiro, envolto por uma suave brisa noturna de verão inglês que se tornou evidente no primeiro número suave e murmurante, que ele executou enquanto o baixista se curvava reverencialmente para ele enquanto marcava o ritmo. Denzil Best, o baterista, permanecia sentado e imóvel, exceto por seus pulsos estalando as baquetas. E Shearing deu início ao embalo; um sorriso aflorava de seu rosto extasiado; ele começou a suingar no banquinho do piano, para a frente e para trás, a princípio lentamente até que o ritmo esquentou e ele começou a balançar mais rápido, seu pé esquerdo marcando o ritmo de cada batida, seu pescoço acompanhando tortuosamente em loucos meandros, ele baixando a cara até os teclados, levando o cabelo para trás, seu penteado se desmanchando, e ele começando a suar. A música esquentou. O baixista arqueava surrando as cordas, mais e mais rápido, quer dizer, parecia ir cada vez mais rápido, apenas isso. Shearing começou a tocar seus acordes; eles ressoavam a cântaros pra fora de seu piano em incríveis tons suntuosos. Chegava-se a pensar que o homem não conseguiria alinhá-los. Eles deixavam o som rolar e rolar, como ondas do mar. A rapaziada gritava “Vai” para ele. Dean estava todo suado, o suor escorria pela sua gola. “Aí está ele! Ele é esse aí! O Pai de Todos! Shearing é o Pai de Todos!” Só é! Sim, é ele!” E Shearing já se apercebera do louco às suas costas, ele podia ouvir cada uma das exclamações e sussurros de Dean, não podia vê-lo mas podia senti-las. “É isso aí!”, disse Dean. “Legal!” Shearing sorriu; ele balançava. Shearing levantou-se do piano, suando em bicas; esses eram seus grandes dias de 1949, antes de ele ficar frio e comercial. Quando ele se foi, Dean apontou para o banco desocupado do piano. “O trono vazio de Deus”, disse. Sobre o piano repousava um trumpete; sua sombra dourada provocava um estranho reflexo na direção da caravana do deserto pintada na parede, atrás da bateria. Deus se fora, restava o silêncio de sua retirada. Era uma noite chuvosa. Era o mito da noite chuvosa. Dean estava abobalhado e reverente. Essa loucura não iria conduzir a lugar nenhum. Eu não sabia o que estava acontecendo comigo, e de repente percebi que era apenas o chá que estávamos fumando; Dean tinha comprado um pouco em Nova Iorque. Ele me fazia pensar que tudo estava prestes a acontecer — aquele momento em que você sabe tudo e tudo fica decidido, para a eternidade.
(pág. 133–135)

[…]

Eles entraram no clube da Anita 0’Day e ficaram tocando até as nove da manhã. Dean e eu estávamos lá, entre cervejas.

De repente, Dean encarou fixamente um canto escuro atrás do palco e balbuciou: “Sal, Deus acaba de chegar”.

Olhei. George Shearíng. E, como sempre, estava com a cabeça cega apoiada em sua mão pálida, com todos os poros do ouvido bem abertos, como o ouvido de um elefante, sempre escutando os sons da noite americana e rearranjando-os à sua maneira inglesa e notuma. Era preciso que ele começasse imediatamente. Ele tocou. Soprou milhares de refrões e estribilhos, uma quantidade inumerável deles, com acordes encantadores cada vez mais elevados, até que seu suor gotejasse sobre o piano e todos o escutassem com reverência e temor. Depois de uma hora o conduziram fora do palco. Ele retornou para seu canto escuro, o velho Deus Shearing; os rapazes comentaram, desiludidos: “Já não resta mais nada, depois dele.” Mas o líder da banda, aquele sujeito esbelto e esguio, franziu as sobrancelhas e sentenciou: “Vamos tocar um pouco, mesmo assim”.

Havia ainda algo a escutar. Sempre há mais, um pouco além, nunca acaba! Eles se contorceram na tentativa de novas frases musicais depois das ousadas explorações do infinito universo sonoro de Shearing; isso exigia deles um esforço descomunal. Retorceram-se, se enroscaram, sopraram com paixão. De vez em quando um gemido preciso e harmonioso sugeria uma nova melodia que algum dia até poderia se transformar na única música do planeta Terra, enchendo de alegria os corações dos homens. Eles a encontravam momentaneamente, seguravam-na por frações de tempo e perdiam-na, contorcendo-se em busca do som puro e único, e voltavam a encontrá-lo, sorriam, gemiam — e Dean suando em bicas os incentivava vai, vai, vai. (pág. 253–254)


George Shearing toca Lullaby of Birdland, sua composição mais conhecida. Veja.




Peggy Lee canta, Shearing a acompanha ao piano. Veja.




De repente Dean ficou indignado com um disco que a pequena Janet estava escutando e quebrou-o no joelho: era um disco de música sertaneja. Na casa, também havia um disco de Dizzy Gillespie que ele realmente admirava — Congo Blues, com Max West na bateria. Eu o tinha dado de presente para Janet na minha primeira estada, e agora eu lhe dizia, enquanto ela chorava, que pegasse o disco e o quebrasse na cabeça dele. Foi exatamente o que ela fez. Dean cambaleou e entendeu tudo. Rimos todos. Estava tudo bem. Então mamãe Frankie quis sair para beber cerveja nos bares da estrada. “Vamos logo!”, gritou Dean. “Tá vendo que merda? Se você tivesse comprado aquele carro que te mostrei na terça-feira, não teríamos que caminhar.” (pág. 230)


Também jogamos basquete, e tão freneticamente que os meninos diziam: “Calma, não precisam se matar”. Eles saltitavam agilmente à nossa volta e nos venciam com a maior facilidade. Dean e eu suávamos. […] Ofegávamos, bufávamos na tentativa de tirar a bola das mãos dos meninos; eles davam um giro e saíam jogando. Outros imprimiam uma arrancada veloz e jogavam a bola sobre nossas cabeças. Pulávamos em direção à cesta como loucos, os garotos se limitavam a levantar os braços, tirar a bola de nossas mãos suadas e driblar-nos sem a menor dificuldade. Éramos como músicos de programas de calouros tentando jogar basquete contra Stan Getz e Cool Charlie. Pensaram que éramos loucos. (pág. 265)


Outrora fora Louis Armstrong, mandando ver nos lamaçais de Nova Orleans; antes dele, os músicos loucos que entravam nas paradas, aos feriados, e desfaziam as marchas marciais transformando-as em ragtime. Surgiu então o swing, e Roy Eldridge, vigoroso e viril, quase rebentando seu trumpete ao arrancar dele sonoras ondas de poder, sutileza, astúcia e requinte lógicos — inclinado, com os olhos radiantes e um sorriso encantador, fazendo gingar todo o universo do jazz. Chega então a vez de Charlie Parker entrar em cena, ele era apenas um garoto no casebre de madeira de sua mãe em Kansas City, soprando seu sax-alto todo remendado, entre as toras, praticando apenas nos dias de chuva, fugindo vez ou outra para assistir a banda do velho Basie e de Benny Moten, que tinha Hot Lips Page e todo o resto — e então Charlie Parker saiu de casa e foi para o Harlem encontrar o louco Thelonious Monk e Gillespie, mais louco ainda — Charlie Parker, que na mocidade movia-se em círculos enquanto tocava. De alguma maneira mais moderno, mais inovador do que Lester Young, também nascido em Kansas City, aquele bobalhão singelo e sombrio no qual está envolta toda a história do jazz — porque, ao erguer seu sax, retilineo e horizontal, sempre colado à boca seca e calejada, ele tocava melhor do que qualquer outro; e à medida que deixava o cabelo crescer ia ficando mais preguiçoso e desleixado, deixando o sax à meia altura; até que ficou definitivamente apontado para baixo e hoje, calçando seus sapatos de sola larga para não se desgastar nas calçadas dessa vida, Young sustenta debilmente seu sax, mantendo-o sempre de encontro ao peito, soprando notas fáceis — cool, ainda assim. São essas as crianças da noite bop americana. (251–252)


Ouça Lester Young, acompanhado pelo pianista Teddy Wilson, tocando Prisoner of Love.