quinta-feira, 15 de setembro de 2011

O “só tinha que ser com você” e o “tinha que ser você”

Dizer “it had to be you” é sintético e certeiro. É “você” e, pronto. Por associação, lembro-me do clássico brasileiro Só Tinha de Ser com Você. Na Wikipedia, dá que foi composta em 1974 (se não me engano, é de 1965; o dado está errado ), por Antônio Carlos Jobim e Aloysio de Oliveira. Será que os dois se lembraram de It Had to Be You, clássico de Isham Jones e letra de Gus Kahn, composição de 1924? Fica a pergunta.

A letra de It Had to Be You:
It had to be you, it had to be you/ I wandered around, and finally found/ The somebody who could make me be true/ Could make me be blue or even be glad/ Just to be sad just thinking of you/ Some others I've seen might never be mean/ Might never be cross or try to be boss/ But they wouldn't do/ For nobody else gave me the thrill/ With all your faults I love you still/ It had to be you/ It had to be you/ It had to be you.

A letra de Só Tinha de com Você:
É, só eu sei/ Quanto amor eu guardei/ Sem saber que era só prá você// É, só tinha de ser com você/ Havia de ser pra você/ Senão era mais uma dor/ Senão não seria o amor/ Aquele que a gente não vê/ O amor que chegou para dar/ O que ninguém deu pra você// É, você que é feita de azul/ Me deixa morar nesse azul/ Me deixa encontrar minha paz/ Você que é bonita demais/ Se ao menos pudesse saber// Que eu sempre fui só de você/ Você sempre foi só de mim.

Na letra de Gus Kahn, a “que tinha de ser você” é aquela que, como ninguém, mexeu com seus sentimentos, “apesar de todas as suas falhas”, continua a amá-la; poderia deixá-lo triste ou até se sentir feliz, apenas sentindo-se triste ao pensar nela. O “blue” de Kahn é diferente do “azul” de Jobim e Aloysio de Oliveira: “[…] você que é feita de azul, me deixa morar nesse azul”. O “blue” de Kahn é decorrência da falta que ela faz, da amada que, apesar dos “defeitos”, tinha de ser ela; o azul dos brasileiros é associada à tranquilidade, a um bem-estar.

Harry Connick, Jr: retrato do artista quando jovem
Outro dado interessante é certa semelhança na “atmosfera” (mood) da música. Ambas transmitem uma tranquilidade, uma paz, passíveis de acontecer quando a felicidade se associa ao sentimento do amor.

Centenas de intérpretes cantaram It Had to Be You. Funcionam tão bem, sonoramente, as rimas “you” / “true”, “around” / “found”, e “blue” / “you”, tornando esse clássico mais irresistível ainda. Ouça-a na interpretação de Harry Connick, Jr. Quando surgiu, rapaz de bela fachada, andaram dizendo que era o novo Frank Sinatra. É muita responsabilidade! Bom cantor e bom pianista, nascido em New Orleans, e crescido com seus companheiros musicais, os irmãos Marsalis; belo background! Mas, variou muito por conta de suas habilidades múltiplas: flertou com o trabalho como ator (é um dos tripulantes do avião “Memphis Belle”, no filme homônimo; nele, canta Danny Boy), quis deixar de ser o “garoto bonitinho” e enveredou por experimentações mais jazzísticas. Mas o hoje senhor Connick Jr. não deixou de ser o que é: quem é bom não deixa de sê-lo. Os marqueteiros da música sempre foram ávidos em lançar novos Sinatras. O exemplo mais recente é o de Michael Bublé.



O Só Tinha de Ser com Você no álbum Elis & Tom é irrepreensível, com o piano elétrico de César Camargo Mariano, mas nada melhor que com o seu autor. Jobim fez de suas limitações vocais uma qualidade idiossincrática (quem não gosta de Tom cantando Na Batucada da Vida?; é só ele, especialmente ele, quando canta o verso final no limite grave de sua voz). Que encantador o seu “você que é bonita demais”. A versão que você ouve é de 1967, com Nelson Riddle, o mesmo arranjador das melhores gravações de Frank Sinatra.



A de Elis e Tom.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Angel Eyes ou quem copiou quem

Duke Pearson
O mundo gravou Angel Eyes, clássico composto por Earl Brent e Matt Dennis. Frank Sinatra finalizou seu show de despedida com ela, em 1971, portanto, não foi a sua despedida final. A propósito da expressão “todo mundo”, não significa exatamente todo mundo. Passou de meia dúzia, é “todo mundo”. Em línguas mais literais, creio, como no português de Portugal, imagino que para “muitos” não se usa essa expressão.

Lembrei-me, outro dia, de Angel Eyes ouvindo uma belíssima interpretação de Duke Pearson ao piano, Thomas Howard no baixo, e Lex Humphries. É uma gravação de 1961. Columbus Calvi Pearson Jr. é o autor de um standard muito conhecido – Jeannine – e foi grande pianista. Ficou “atrás do balcão”, trabalhando como produtor e A&R na Blue Note Records, na década de 1960.



Mas, quando penso em Angel Eyes, a interpretação que me ocorre, em primeiro lugar, é a de Mark Murphy. O início dessa canção – é a primeira do álbum Rah (Riverside, 1961) – é inesquecível. Murphy repete “angel eyes” por duas vezes como um chamado desesperado antes de cantar os versos seguintes – “Try to think/ That love is not around/ Still it’s uncomfortably near”. No arranjo excepcional de Ernie Wilkins, um naipe de três trombones (Jimmy Cleveland, Urbie Green e Melba Liston) soam em tons misteriosos, e Murphy entra com os trumpetes. É difícil descrever; melhor ouvir.



Rugolo é autor da trilha de O Fugitivo, clássica série de TV
Para minha surpresa, ao ouvir Softly As in a Morning Sunrise cantada por June Christy, notei semelhança impressionante na introdução. A de Christy foi arranjada por Pete Rugolo, conhecido por sua cooperação com Stan Kenton. Grande arranjador, estudou composição com Darius Milhaud na Mills College, Oakland. A gravação de Christy ocorreu em 29 de dezembro de 1954, a de Murphy, em 1961. É bem provável que Wilkins a conhecesse. Ouça, para comparar. E fica registrado: que grande cantora era June Christy. Está entre as minhas cinco preferidas de todos os tempos. O álbum Something Cool, com arranjos de Pete Rugolo, é esplêndido.