O que chama atenção, para começo de conversa, é a bela capa de colorido intenso, em que dois protagonistas da música brasileira estão numa pedra a pescar na Baía de Guanabara. Caymmi, vestido com uma camiseta de listras rubro-negras e cabelos precocemente brancos, e Ary Barroso de chapéu, com uma vara de pescar e calças arriadas à “pula brejo”, como convém: vai que vem uma onda e lhe molha as calças. O baiano tem um porte físico de pescador; se pescou alguma coisa em vida, é outra história. Ary, mineiro, pode ter sido pescador de rio, pois seu estado natal, como a Bolívia, não tem mar, mas pelo jeito, a coçar a cabeça com a vara na mão, não parece do ramo.
Em 15 de setembro de 2010, faleceu Caetano Rodrigues, um dos maiores colecionadores de discos de bossa nova. Muitos desses títulos de sua enorme discoteca estão disponibilizados no blogue Loronix (www.loronix.blogspot.com). Foi lá que encontrei esse disco de 1958, em que Ary toca Caymmi ao piano e Caymmi canta Ary com seu violão.
Algumas evidências vão-se delineando para que o pianista americano de origem indiana Vijay Iyer seja considerado o melhor pianista da nova geração pelos críticos de jazz. Em 2010, seu disco em formato trio, Historicity (sobre ele leia o que escrevi em http://bit.ly/9jHaME), foi considerado o melhor do ano, desbancando medalhões como Keith Jarrett e Joe Lovano. Os citados, reconheça-se, são capazes de surpreender registros renovadores.
Solo, lançado em meados de agosto, pelo selo ACT, é excepcional. Segundo Vijay, sua “dívida” musical é com Thelonious Monk, Andrew Hill, Duke Ellington, Muhal Richard Abrams, Randy Weston, Cecil Taylor e Sun Ra. Um disco solo proporciona – ou desvela – as influências que teve de outros músicos, mais até do que tocando com os outros. É como um desnudamento: é você e o piano.
Se no álbum anterior em que foi acompanhado por Stephan Crump e Marcus Gilmore é notória a forma enérgica e rica, lembrando o estilo do pianista Andrew Hill, em Solo, Iyer “estica a corda” e em alguns momentos soçobra a forma atonal do teclado de Cecil Taylor. Em outros momentos, consegue criar uma atmosfera etérea na digitação das notas graves, como em Fleurette Africaine, de Duke Ellington, uma das faixas mais belas do disco.
É impressionante a sua capacidade improvisativa e de propiciar novo olhar em composições tão batidas como Human Nature, conhecida na interpretação de Michael Jackson e gravada também por Miles Davis. É brilhante a interpretação de Epistrophy, de Thelonious Monk, desconstruindo-a em ritmo frenético em uma tempestade de notas que passeiam pelos agudos e graves, sobre um tema tocado à exaustão por zilhões de músicos. Faz a mesma coisa com Darn That Dream, de Jimmy van Heusen e Eddie DeLange. Um último destaque é Desiring, de sua própria lavra.
A forma de como desenvolve temas alheios e próprios se esclarece nas notas internas escritas por Iyer: “Autoscopy refere-se a um tipo de experiência fora do corpo no qual você lhes observa as ações de fora (normalmente acima) de seu corpo; tocar música, ocasionalmente, proporciona essa experiência. Num sentido diferente, um álbum solo proporciona isso.” Autoscopy é o nome de uma de suas composições.
Roberto Menescal é um dos nomes mais importantes da bossa nova. Virou executivo da Philips e distanciou-se do violão. Em 1985, por insistência de Nara Leão, acompanhou-a em uma excursão ao Japão. Interrompeu-se a carreira de executivo e retomou-se a de músico. Montou, um tempo depois, com o filho, a Albatroz. Produziu discos próprios e dos outros.
A capa do CD “punky-bossa” de Menescal
No esteio da popularidade imensa da bossa nova no Japão, Menescal deve ter ido pelo menos umas trinta vezes à terra do sol nascente. Além de apresentar-se com frequência, várias criações de sua produtora têm sido lançadas por lá. Um projeto interessante é o de adaptar gêneros musicais diversos transformando-os em “bossa nova”. Lançou Beatles ’n’ Bossa, Bossa Elvis, Sinatra in Bossa Nova – um lembrete: ouça Sinatra cantando Change Partners ou Baubles, Bangles and Beads; pura bossa nova –, Bossa Bolero… conseguiu fazer “bossa” até com o Sex Pistols, em Never Mind The Bossa – Punky Bossa. Depois dessa, só falta fazer “bossa” com música javanesa.
E, como nada é impossível, alguém imaginou o Coldplay no ritmo da terra outrora comandada pelo barbudo Fidel? Então, ouça Clocks.
Obs: até hoje não consegui descobrir a razão de ser “à cubana” um filé acompanhado de farofa, abacaxi e banana à milanesa.
Se não é a mais linda, é a mais impactante. Saiu há algum tempo um dos grandes filmes da fase americana de Michelangelo Antonioni: Zabriskie Point. Todo ser normal com mais de 45 anos deve ter visto esse filme. Para os que não, é uma grande chance, agora que está disponível em DVD nacional. Se você tem mais de 15 anos, tem a obrigação de assistir e de ter uma ideia da “pré-história” dos movimentos libertários pós-Vietnã. Poucos devem saber quem foi Angela Davis, alguns podem ter ouvido falar de Cohn-Bendit, Malcolm-X e Marthin Luther King. Mas Felipe Belisario Wermus, o Brasil conhece. É um nome “un poco” estranho, mais ainda se alguém sabe que esse é o nome verdadeiro do ex-trotskista Luis Favre. Antigos trotskistas, hoje convertidos em elegantes críticos, jornalistas e professores, o conhecem muito bem. Outro francês – Favre é franco-argentino –, Regis Debray, é outro que andou por terras do Novo Mundo latino. Esse deve ser quase um desconhecido para a geração que tem menos de 45 anos. Encontrava-se na Bolívia quando Che Guevara foi morto. Anos mais tarde, integrou o governo socialista de François Mitterand.
Voltando ao diretor italiano, é responsável por grandes filmes na década de 1960 (A Aventura, Eclipse, A Noite, Deserto Vermelho). Como vários italianos que amealharam notoriedade além-mar, foi cooptado pelos estúdios americanos. Produtores como Carlo Ponti e Franco Cristaldi – respectivamente, srs. Sofia Loren e Claudia Cardinale – foram protagonistas desse “expansionismo” do cinema italiano. A primeira produção fora da Itália foi Blow Up, chamado no Brasil – não riam – Depois Daquele Beijo, em 1966. Grande filme, baseado num conto de Julio Cortazar, Las Babas del Diablo. Em 1970, foi lançado Zabriskie Point e, em 1975, The Passenger (Profissão: Repórter).
Bela Daria!
Zabriskie Point é um petardo sociopolítico da efervescente situação dos EUA. A cena de uma assembleia que ocorre entre estudantes, a tensão racial, a violência policial – e a dos jovens, também – compõem um painel agudo de um estrangeiro que tudo enxerga e coloca personagens em situações-limite. Mark Frechette é perseguido pela polícia por conta de uma morte acontecida num confronto dos estudantes com a polícia e cruza com a bela Daria Halprin, que secretaria um empreendedor imobiliário. Além do teor fortemente político, há uma atmosfera de psicodelia nas cenas que acontecem no deserto. A cena final, tendo de fundo musical, Pink Floyd, é antológica. Veja (ou reveja) no primeiro vídeo.
O filme seguinte, protagonizado por Jack Nicholson, no papel de um jornalista que assume outra identidade, e Maria Schneider, então conhecidíssima por ter feito O Último Tango em Paris, de Bernardo Bertolucci, tem uma cena antológica. Não vou contar. Assista e compreenda porque Antonioni é considerado um dos grandes nomes do cinema.
Será essa, a de Passageiro: Repórter, a melhor cena da fase “americana” de Antonioni?
Alguém ouviu falar de Sheila Landis? Pois sua carreira começou em 1973, portanto, há quase 40 anos. E mesmo assim, nem mereceu uma biografia na Wikipedia. Ser pouco conhecida não significa que seja ruim. Uma das explicações pode estar texto publicado no site AllMusic sobre ela: “Landis tem uma voz extremamente flexível e uma grande habilidade para usá-lo com grande vantagem. Ela faz scats, canta baladas, adora ritmos latinose tem balanço. Faz jazz, rock, o bebop, bem como a América com serenidade absoluta. Esta elasticidade multifacetada musical lhe permite participar em qualquer cenário de jazz com facilidade e com excelentes resultados. Landis optou por se considerar um artista de Detroit, fazendo a maioria do seu trabalho e em torno dessa cidade.”
Um disco de Landis parou nas minhas mãos pelo Carlos Conde, que comprava tudo. Como compro “quase tudo”, não resisti. Há uma atmosfera leve, nos arranjos que privilegiam a guitarrra de Rick Matle. Ouvimos um Hammond que parece “vir de longe”, um baixo discreto, como a bateria. Sheila tem uma bela voz, com boa extensão e não teme escalas mais altas. Se Sheila não é Sarah, assim mesmo, dá para ouvir e curtir.
Experimentem Fever (antigo clássico conhecidíssimo na interpretação de Peggy Lee)…
… e a instrumental Not to Worry (Rick Matle na guitarra).