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terça-feira, 30 de junho de 2020

Lee Konitz é mais uma vítima da Covid-19

Miles Davis e Lee Konitz em foto de 1951

Com certo atraso, escrevo sobre Lee Konitz. Efeitos da quarentena forçada. Dispersei. Apenas agora, afinal, o saxofonista morreu em 15 de abril, o post está sendo publicado.

Um álbum de Lee Konitz, “The Lee Konitz Duets”, serve de exemplo de seu estilo. Produzido por Dick Katz, para o selo Fantasy, foi gravado em setembro de 1967. Nessa época, o jazz era um gênero em risco de extinção. O rock, que emplacou seus primeiros sucessos em meados da década de 1950, explodiu de vez com as bandas inglesas, como os Rolling Stones e os Beatles, acabou com a era das grandes bandas como as de Duke Ellington e Count Basie.

Fora a última, os outros sete temas são com Konitz e um outro instrumentista. Eventualmente tocava outros tipos de saxofone, mas sua especialidade sempre foi o alto. O primeiro dueto — “Struttin’ with Some Barbecue” — sola com o trombonista Marshall Brown. Na clássica balada “You Don’t Know What Love Is”, no estilo “pergunta/resposta”, é ele com o saxofonista tenor Joe Henderson. De todos os números, o mais interessante é “Variations on Alone Together”. Numa longa faixa de 15 minutos, os duetos vão se alternando, uma hora com a bateria de Elvin Jones, o vibrafone de Karl Berger, o contrabaixo de Eddie Gomez, e, finalmente, com todos eles tocando juntos no trecho final. Outra faixa que merece ser destacada é “Erb”, com Jim Hall que, como ele, no início de suas carreiras, fizeram parte do combo de Jimmy Giuffre.

Para alguém que viveu tantos anos — 92 —, passou por muitas fases. Querido como era, generoso, gravou muitos álbuns mundo afora com músicos pouco conhecidos do mercado americano. Como exemplo, um deles é “Lee Konitz in Rio” (1989), gravado com Luis Avellar, Victor Biglione, Nico Assumpção, Carlos “Bala” Gomez e Marçal, bem fraquinho, por sinal.

O começo
Em todos os obituários destacou-se que Konitz foi um dos músicos do álbum “The Birth of the Cool”, considerado um marco no jazz. São mais importantes — ou tanto quanto —, no entanto, sua participação em gravações com o lendário Lennie Tristano, dono de um estilo único, um mestre no uso da técnica do contraponto, inédito até então na linguagem do jazz, de harmonias ricas e ritmos complexos. Seu piano contribuiu na forma de tocar de Konitz. Esses registros estão em “The Complete Atlantic Recordings of Lennie Tristano, Lee Konitz & Warne Marsh (1954-1958)”, lançado em 1997.

Foi importante também ter tocado com o clarinetista e saxofonista Jimmy Giuffre, outro grande do cool jazz. Ambos gravaram, em 1959, “Lee Konitz Meets Jimmy Giuffre”

Em sua longa carreira foi cool, bebop, hardbop, avant garde, mas o que melhor o classifica é que criou um estilo único, que foi moldado nos anos 1950 e cristalizou-se nos anos seguintes. O sopro sem vibratos, solos que privilegiavam as harmonias e a originalidade, que pode ser avaliada principalmente em standards, que permitem comparações com outras interpretações. Foi um saxofonista discreto. Não impactou o jazz como Charlie Parker, o maior saxofonista alto da história. Não deixou uma marca, digamos, como Johnny Hodges e seu sax “açucarado”, o sopro redondo e melodioso de Paul Desmond, ou a agilidade estratosférica de Phil Woods. Konitz correu por fora, como um fundista. A idade não pesou, como pesou paraoutros, como Woods, que nos anos derradeiros executava solos cada vez mais curtos.

Como líder
“Subconcious-Lee” (1950) é um clássico. Algumas parcerias renderam bons álbuns: “Lee Konitz & Warne Marsh” (1955) e “Konitz Meets Mulligan” (1953). Os dois tinham tocado juntos antes, em “Birth of the Cool”.

Tendo gravado mais de uma centena de álbuns, fica difícil destacar os melhores, até porque não ouvi todos. Porém, dos que conheço, destaco “Solitudes” (1988), com o ótimo pianista Enrico Pieranunzi. É uma boa amostra da originalidade de Konitz em improvisar sobre standards como “When I Fall in Love”, “The Shadow of Your Smile”, “Solitude” e outros.

Ouça “The Shadow of Your Smile”.




Nada como bons parceiros. Michel Petrucciani, por exemplo. Pena que tenha morrido tão cedo. Tinha o que chamam de “a doença dos ossos de vidro”. Morreu com 36 anos. Em 1981, participou de uma turnê com o saxofonista. Essa brilhante parceria está registrada em “Toot Sweet” (1982). Os dois se revezam em solos belos e originais. Em “‘Round Midnight” genial, assim como na clássica “Lover Man”, o saxofone de Konitz voa por rotas únicas.

Ouça “‘Round Midnight”.




Aliás, essa é a grande qualidade de Konitz. É a sua capacidade de aliteração em temas tão conhecidos, pelo menos, do público que ouve e gosta de jazz. Por essa razão, os álbuns que ele gravou em formato trio, com Brad Mehldau e Charlie Haden, são bem interessantes. Ele arrumou o parceiro ideal. Mehldau é o exemplo ideal do instrumentista que possui essa capacidade de ir além do imaginável. São dois os álbuns existentes: “Alone Together” (1997) e “Another Shade of Blue” (1999), ambos captados em apresentações no Jazz Bakery, em Los Angeles.

Ouça a brilhante interpretação dos três em “Alone Together.




Outro álbum interessante é “Three Guys” (1999), em que o trio é completado por Steve Swallow e Paul Motian. Ambos, velhos conhecidos pelos que estão familiarizados com lançamentos da ECM Records, são considerados mestres em seus instrumentos, o primeiro, por ter trocado o contrabaixo acústico pelo elétrico, criador de uma sonoridade única, e o segundo, baterista por muito tempo do quarteto americano de Keith Jarrett, e iniciado e do lendário trio de Bill Evans, que tinha Scott LaFaro como contrabaixista, cuja maior propriedade era a sutileza e musicalidade com que manejava as baquetas.

Desse álbum, ouça “Luiza”, uma das últimas obras primas de Antônio Carlos Jobim.


Como gravou muito, teria que fazer um post enorme. Paro por aqui.Há uma quantidade razoável de álbuns de Lee Konitz no Spotify, caso interesse alguém.


Do primeiro disco citado, ouça “Variations on Alone Together”, citado no início do texto.

















quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Quando Diego Figuueiredo toca com Ken Peplowski



Somos, no fundo, preconceituosos, por razões frívolas. Tal cara é de direita e, por isso, não lemos. Ou, vice-versa. No fundo, é bem bobo isso. Por que alguém de direita não pode escrever algo interessante. Por conta disso, leio de tudo. Se elogio alguém de direita, como João Pereira Coutinho, recebo respostas como “não gosto e não leio”. Cabe bem no que significa “pré-conceito”. O hífen, que não existe, separa aquele que, por não concordar, recusa-se a lê-lo. Na música acontece coisa semelhante. “Não ouço Anitta, porque é brega”. Bom, já entrei nessa classificação, o que quer dizer que sou preconceituoso. Não vou ouvir Belo nem Ivete Sangalo. Desculpe, é preconceito, e admito, se não tenho em relação à João Pereira Coutinho, meu filtro não me permite gostar de Leandro e Leonardo ou Chitãozinho e Chororó.

Depois dessa quase longa digressão, terei de confessar que não dava valor aos artistas que gravavam pela Concord Jazz. Se o disco era desse selo, nem ouvia. Estavam incluídos Scott Hamilton, Warren Vaché e Ken Peplowski. Se fosse para ouvir mainstream, preferia os velhos Count Basie, Duke Ellington e Dave Brubeck.

Mas meu amigo Alberico, um dos maiores conhecedores do jazz, junto com o também amigo Carlos Conde, um dia, colocou um CD do Ken Peplowski. Que belo clarinetista! Na época, nem ligava muito para esse instrumento. Tinha ouvido Buddy De Franco, Benny Goodman, alguns da banda de Duke Ellington. Com o tempo, passei a gostar de alguns como Jimmy Giuffre, Don Byron e, mais recentemente, a genial Anat Cohen.

É aquela coisa: o Natal não mudou, mudei eu. “Mainstream” deixou de ser palavrão. Todas as pedras que tinha guardadas para lançá-las em Wynton Marsalis, por exemplo, ficaram pelo caminho. Bem, devo confessar que ainda não estamos em um “relacionamento sério”. Prefiro o irmão Branford.

Bem, devo falar de outro músico: Diego Figueiredo. Por Cyrille Aimée, conheci um belo violonista que, de quebra, era brasileiro. Tive o prazer de conversar com ele por alguns minutos em uma apresentação que fez no clube Blue Note, de São Paulo. Muito simpático, disse que iria apresentar-se com Aimée, em São Paulo, em outubro. Por enquanto, não sei onde vão tocar. Mesmo apresentando-se em vários lugares desse vasto mundo, conserva o jeito caipira de quem nasceu em Franca, interior do estado de São Paulo. Fora isso, toca violão como se estivesse em um boteco. Não tem aquela pose de violonista clássico, nem a de roqueiro. É do jeito dele, usando uma das pernas para apoiar o instrumento, mal recostado nas cadeiras.

Fora do Brasil, não é o caipira de Franca; é um músico cuja linguagem associa-se ao jazz, mesmo sendo o mais brasileiro dos brasileiros em termos de sonoridade. Pois não é nenhuma surpresa que seja um dos parceiros de Cyrille Aimée e que tenha acabado de gravar um álbum em duo com Ken Peplowski.

Mesmo que o nome de Peplowski venha em primeiro lugar na capa, o álbum é mais brasileiro que qualquer outra coisa. Vamos combinar: faz muito tempo que as composições de Tom Jobim, Baden Powell e Luiz Bonfá fazem parte do repertório dos músicos de jazz do mundo inteiro. São universais.

Um outro dado da brasilidade é o título: “Amizade”. Fora “Caravan” e “Stompin’ at the Savoy” e o medley “Quizás, Quizás / Besame Mucho”, dois clássicos latinos incorporados ao cancioneiro americano, as restantes são composições de Diego, de Diego e Ken; o resto são temas dos já citados Jobim, Baden Powell e Luiz Bonfá. Há uma perfeita combinação entre os dois, tanto Peplowski tocando clarineta ou saxofone. Não é pouco não.

Veja os dois em “Caravan”, numa apresentação em Portland.




No medley “Quizás, Quizás / Besame Mucho”. Preste atenção no violão de Figueiredo.





Um dos destaques é “Pro Paco”, composição dos dois. Belíssima. Acho que a referência é Paco De Lucia. Ouça.






quinta-feira, 4 de julho de 2019

A dor mais bela, por Adam Page

Há sempre algo a nos surpreender. E é melhor quando vem do nada, do inesperado. Melhor ainda: vem de longe, muito longe, pelo menos, geograficamente. Esse algo tem nome: Adam Page. De Adelaide, Austrália.

Sinto atração por coisas tristes e belas. Minha curiosidade, por exemplo, um tanto mórbida talvez, é despertada por um título como “The Colours of Grief”. Fico a imaginar que o luto tem apenas cores sombrias. Para o músico, pianista, saxofonista e compositor Adam Page, existem outras. É o que penso ao ver uma sucessão de linhas horizontais: vermelho, cinza, preto, violeta, laranja, marrom e verde, nessa ordem. Cada cor é um estado do luto. Estados são abstratos e, nada melhor do que a música para representá-los, como pinturas de sons.

Vermelho é a cor do sangue. Uma nota se repete, como o anúncio da imobilidade eterna, como o fim dos tempos, o tempo como uma entidade suspensa. Cinza: deixo de ser corpo físico para tornar-se imaterial. Sou espírito.O preto é a cor essência do luto. Vi várias pessoas que só se vestiam de preto depois da morte de algum ente próximo. Na minha infância, a diretora da minha escola, em Passos, MG, dona França vestia-se apenas de preto. Foi uma figura marcante, uma senhora de cabelos totalmente brancos, sempre de preto.

Por sinal, é uma das faixas mais interessantes. Começa com ostinatos, ao piano de Brenton Foster, e linhas solenes de contrabaixo e violoncelo. Termina abruptamente. O piano continua, com uma variação da faixa anterior, em “Purple”. O roxo é outra cor que associamos ao luto. É a única faixa em que Page toca piano.

Laranja. Por que laranja? A faixa é linda, com tons solenes do piano e pizzicatos no violoncelo, belo solo de Page, e sons do violoncelo, dessa vez, no arco. É um trechinho o solo, sublime. Será a morte tão bela? Ou será a lembrança do que que parte? O tom luminoso é tingido pelo marrom e o ritmo me lembra uma passacaglia, pelas notas que se repetem ao saxofone, contrabaixo e guitarra.

O verde significaria esperança, para mim, pelo menos. Como é o título da última faixa, imaginei sons que a representassem. Os instrumentos se alternam, o fim é inconcluso. Existe um fim? Ou tudo continua, como mais um capítulo de nossa existência?

Ouça “The Colors of Grief”.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

O tenor quente de Eric Alexander


Está muito certo Jack Bowers, em sua resenha de “No Regrets”, álbum lançado em 2017, de Eric Alexander. “Um dos pontos fortes de Alexander, e talvez o que o levou a ser tão subestimado, quando nos referimos aos mestres contemporâneos, é que ele faz tudo tão implausivelmente fácil. A técnica e a fluência são tais que não há literalmente nada que não possa fazer no saxofone tenor.”

Descobri Eric Alexander por meio do Carlos Conde, que tinha um dos bons programas de jazz nas rádios brasileiras. Apesar da diferença de idade – uns 20 anos –, fiquei muito amigo dele, a ponto de ser convidado com frequência para assistir aos shows em clubes como o Bourbon Street, em São Paulo. A grande vantagem é que, sendo os seus convites de cortesia, sentávamos na mesa mais próxima ao palco. Enjoei de ver John Pizzarelli.

Conde tinha suas idiossincrasias. Não era grande fã de John Coltrane, para a minha frustração. Detestava Ben Webster, um dos meus tenoristas preferidos. O que eu apreciava, o sopro volumoso, segundo ele, era ar e não música. Acho que, pelo menos, não tinha aversão por Lester Young, Coleman Hawkins e Dexter Gordon, outros dos meus ídolos.

Da geração mais nova, de quando ainda estava vivo, gostava muito de Eric Alexander. Fomos juntos, com o Alberico Cilento, vê-lo em um festival de jazz em São Paulo. Passados tanto anos, ouço ainda Alexander com certa frequência, e concordo que é um dos bons saxofonistas da atualidade. Não tem a fama de Branford Marsalis, Joe Lovano ou Charles Lloyd, mas é craque.

Minhas noites com Eric
Ouço música o tempo todo, até antes de dormir. Além de me trazer um enorme prazer, é meu sonífero. Tenho uma boa caixa Altec Lansing ao lado da cama, com um iPod de 140 GB. Uma série, intitulada “Gentle Ballads”, de Alexander, tem funcionado como uma espécie de acalanto adulto.

Não sei se foram gravados mais, no entanto, são cinco os títulos, no período de 2004 e 2011. Todos são da Venus Records, gravadora que se especializou em lançar álbuns de jazz, com músicos consagrados, como Archie Shepp, Kenny Barron, Steve Kuhn, Sir Roland Hanna e Cedar Walton, e outros mais novos, como os italianos Massimo Faraò, Stefano Bollani, a australiana Nicki Parrott, e as cantoras Alexis Cole, Simone Kopmajer e Tessa Souter. O nicho da gravadora japonesa é aquele público menos afeito às experimentações vanguardistas e à instrumentação do jazz-rock. Até Archie Shepp apresenta-se mais “domesticado” em seus álbuns por essa gravadora.

Os álbuns de Alexender pela Venus vão então por essa seara mais “gentle”, bem diferentes dos seus registros pela HighNote, mais ousados e diferentes, mas dentro do espectro do jazz contemporâneo. Em comum, o que se destaca é o que Jack Bowers ressalta: a sua maestria no tenor.

Nas “gentle ballads” estão presentes os mais belos standards do cancioneiro americano, como “Midnight Sun”, “I’m a Fool to Want You”, “My Ship”, “Stormy Weather”, “Chelsea Bridge”, “Don’t Explain”, “Summertime”, “Little Girl Blue”, “Goodbye”, “You Don’t Know What Love Is”, “Nature Boy”, “Body and Soul”, “Tenderly” e “My One and Only Love”, dentre outras, não necessariamente executados em tempos lentos. O piano é de Mike LeDonne – nos discos da HighNote é Harold Mabern –, com John Webber no contrabaixo e Joe Farnsworth na bateria.

Destaco então, o Eric das minhas noites, começando com “Mona Lisa”. Que belo saxofone!




“Left Alone”, de Billie Holiday e Mal Waldron, é um dos melhores números da série, com o sax matador

 


“Nature Boy”. Nas baladas, vem a lembrança inevitável de John Coltrane, em “Ballads” (Impulse, 1965), e o belíssimo “Johnny Hartman e John Coltrane” (Impulse, 1965)




“Tenderly”.




Veja Alexander em um número que não está nessa série. É um original de outro grande saxofonista: Dexter Gordon. A música é “Cheesecake”.


quinta-feira, 11 de outubro de 2018

O encanto secreto de Dexter Gordon

Dexter Gordon, por Herman Leonard
A explicação para o fato de Dexter Gordon ser praticamente ignorado até meados dos anos 1970 é por ter morado por mais de uma década na Europa. Fez o mesmo que tantos outros músicos que tiveram problemas com drogas, prisões e, por conseguinte, terem suas licenças de trabalho cassadas. Outro fator, tão real quanto isso, foi a segregação racial. Como ele, por períodos maiores e menores, Ben Webster, Benny Bailey, Kenny Drew, Bud Powell, Slide Hampton, Bud Powell, dentre outros, foram muito bem acolhidos no Velho Mundo.

Entre Paris e Copenhagen, foram quatorze anos. Seus discos não deixaram de ser lançados nos EUA, pelo Blue Note e Prestige, e na Europa, lançou vários no selo Steeple Chase.

Os veteranos Ben Webster e Coleman Hawkins ainda estavam ativos e, apesar de não estarem mais no auge, mandavam muito bem. São clássicos os álbuns que gravaram juntos pelo selo Verve: “Ben Webster Encounters Coleman Hawkins” (1959) e “Ben Webster and Associates” (1961), Afinal, os dois e mais Lester Young, foram o trio de ouro da era do swing.

Na adolescência, Coltrane foi o rei para mim. Ao ouvir Webster em “Art Tatum & Ben Webster – The Tatum Group Masterpieces”, este passou a ser o meu ídolo no sax, com seu sopro cheio, terno e romântico na medida. Hawkins veio depois, junto com a descoberta dos discos de Lester Young com Oscar Peterson e Teddy Wilson. E como uma coisa leva à outra, percebi que aquele sax sublime e discreto dos velhos álbuns de Billie Holiday pela Columbia era dele.

Mal chegado à maioridade, descubro Dexter Gordon. Se não me engano, um dos LPs dele saiu em edição nacional, pela CBS, acho que “Sophisticated Giant” (1977). Nesse disco, toca com uma banda de onze elementos, em que se destacavam Slide Hampton, trombonista e autor dos arranjos, Bobby Hutcherson no vibrafone, George Cables ao piano, Frank Wess no alto e flauta, Howard Johnson na tuba e sax barítono e Benny Bailey e Woody Shaw no trompete e flugelhorn. A música, para mim, chegou em outro nível, superior, que, a partir daí, seria o meu parâmetro do que era a boa música. Claro que há um exagero nessa afirmação, mas para um jovem, uma paixão anula a outra. Com o tempo, aprendemos a balancear nossos ímpetos exacerbados.

Sob o regime austero das mesadas, em uma viagem ao Rio de Janeiro para assistir ao Rio Monterrey Jazz Festival, em que as atrações eram Pat Metheny, McCoyTyner e Weather Report, comprei dois discos importados que até hoje são simbólicos para mim: “Manhattan Symphonie” (1978) e “Grazing Dreams” (1977), de Collin Walcott, percussionista e citarista do Oregon. Nesse período, todo o meu dinheiro, em vez de hambúgueres e milk shapes, eram revertidos em discos, e posso dizer que tinha uma pequena coleção de respeito, com Art Tatum, Duke Ellington, John McLaughlin, Miles Davis, Weather Report, Pat Metheny, Soft Machine, Oregon, Ben Webster, Coleman Hawkins, Billie Holiday e outros inclusos.

A volta
O ano de 1976 foi um grande ano. Apresentava-se depois de muito tempo em Nova York. Foi no Village Vanguard, com Woody Shaw, Ronnie Mathews, Stafford James e Louis Hayes. Gordon tinha se tornado um “forgotten man” para as audiências americanas. Seu reencontro com a América resultou no álbum duplo “Homecoming - Live at The Village Vanguard” (CBS, 1977). Os americanos o redescobriram e nós brasileiros, descobrimos, pois era, praticamente, um desconhecido e um “hidden treasure” dos fãs mais fanáticos do jazz.

Depois de “Homecoming”, com um bom orçamento disponibilizado pela Columbia, produzido por Michael Cuscuna, ensaiaram por quatro dias e gravaram em dois. “Sophisticated Giant” é uma obra-prima sob vários aspectos. Gordon estava no auge, não só no sax tenor, como no soprano, na brilhante “How Insensitive”, de Antônio Carlos Jobim, nos arranjos de Slide Hampton são um primor de sofisticação e energia, com uma banda de onze músicos. É difícil destacar-se o que é melhor, pois é um álbum inteiro. Aliás, convém prestar atenção nos arranjos. Os inícios de “Laura” e “The Moontrane”, de Woody Shaw, são espetaculares. O solo de Gordon, em “Laura”, meio arrastado é um primor. Emociona. Outro arranjo espetacular é o “Fried Banana”. O standard “You’re Blasé”, de Ord Hamilton, é especial também. O americano foi um grande intérprete de baladas, com seu sopro robusto, arrastado, entremeando cacos de outros standards em solos longos e belos.

Em 1978, com formação mais clássica, um quarteto composto por George Cables, Rufus Reid e Rufus Reid, sob produção do mesmo Cuscuna, lançou “Manhattan Symphonie”. Menos ambicioso que o anterior, a tônica está em bem interpretar. É outro álbum excepcional, abrindo com pompa interpretando o clássico “As Time Goes By”, em ritmo lento, explorando cada nota. Presta reverência à John Coltrane em “Moments Notice” em andamento rápido. As restantes são “Tanya”, “Body and Soul” e “LTD”. O grande momento é tocando o clássico de Johny Green. O final é espetacular, de tirar o fôlego.

Ainda, comemorando a “homecoming”, a Columbia registoru em álbum duplo a apresentação do saxofonista na casa de espetáculos mais tradicional de Nova York, em “Live at Carnegie Hall” (1978). É com o mesmo quarteto do anterior, com a participação especial de Johnny Griffin, rememorando as antigas “sax battles” dele com Wardell Gray. Foi o encontro de gigantes: do “Little Giant”, como ficou conhecido o baixinho Griffin, e o verdadeiro gigante, tanto no talento e no tamanho, com quase dois metros de altura.

Ouça uma seleção que fiz de Dexter Gordon.



quinta-feira, 9 de agosto de 2018

John Surman, Nelson Ayres, Marlui Miranda

John Surman, Marlui e Caíto Marcondes

Na noite de 1º de agosto, a melhor opção seria ficar em casa. Chuva, frio e a perspectiva de muito trânsito eram os melhores argumentos. Mas iria acontecer a única apresentação de John Surman, Nelson Ayres e Rob Waring em São Paulo, no teatro Sesi.

Não tenho a certeza se foi na época em que ganhou uma bolsa de estudos pela “The John Simon Guggenheim Memorial Foundation”, em 1986, que Marlui Miranda conheceu Jack DeJohnette. Acho, pelo que soube na única vez em que conversei com ela.

DeJohnette ficara encantado com o álbum “Txai”, de Milton Nascimento, e lembrava-se de seus vocais na faixa “Nozani”. O contato serviu para que, depois, fosse convidada para participar da formação que se chamou The Ripple Effect. Um pouco fora do universo do jazz, o projeto era o de unir a música eletrônica, a improvisação com o universo da world music. Ao baterista, a banda contou com Foday Musa Suso tocando kora, instrumento africano de 21 cordas, os produtores Ben Surman e Big Al e Marlui. Surgiu assim o álbum “Hybrids” (2005). Título perfeito: eletrônica, dubs que nos remetem ao reggae, sons tribais, por meio dos vocalises de Marlui, e ritmos africanos. John Surman, pai de Ben, participa de algumas faixas. Tanto ele como Jack tinham tocado juntos inúmeras vezes. “The Amazing Adventures of Simon Simonn” (1981), em que ambos se dividem em vários instrumentos, é um dos grandes discos lançados pela ECM. Foi quando Marlui e John devem ter se conhecido. Tinham algo em comum: a pesquisa e exploração da música de suas origens, ela pela indígena, e ele, pela celta.

O Brasil desconhece o Brasil. As pesquisas com a música dos índios, desenvolvida desde a década de 1970, mereceu reconhecimento internacional. Além da bolsa de estudos de The John Simon Gugenheim Memorial Foundation, foi professora visitante na Chicago University e na Darmouth College, artista residente na Indiana University, além de ter sido agraciada com o prêmio da Academia Alemã de Crítica (SchallplattenKritik) em 1996 pelo CD “IHU, Todos os Sons”. Atualmente, faz doutorado na ECA-USP.

Em 2013, Marlui gravou “Fala de Bicho, Fala de Gente” (Selo Sesc), acompanhada por Nelson Ayres ao piano, Rodolfo Stroeter no contrabaixo, Caíto Marcondes na percussão e John Surman no saxofone e clarineta. A distância física entre Oslo e São Paulo não foi empecilho para que Surman e Marlui trabalharem em parceria os arranjos.

Ouça o CD na íntegra.


 

Não foi a primeira vez de Surman no Brasil. Em 1991, por ocasião de um seminário organizado pela UnB contra a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte, apresentou-se com Marlui e, acho que deve ter sido quando conheceu Fortaleza, que o inspirou a compor “Pitanga Pitomba”, incluída em “Invisible Threads”, seu álbum mais recente, lançado no início pela ECM, em janeiro deste ano.

Uma coisa leva à outra. Marlui conheceu Jack DeJohnette, e assim conheceu John Surman, que ao vir gravar com Marlui, conheceu Nelson Ayres. Tempos depois, o inglês ligou de Oslo convidando o brasileiro a participar das gravações de um novo disco. Com o vibrafononista americano Rob Waring, há anos morando em Oslo, formou-se o trio de “Invisible Threads”. Como explicou Ayres no show em São Paulo, o conceito do álbum difere do padrão do jazz, em que os músicos vão alternando os solos. O título – “costuras invisíveis” – explica a estrutura do álbum. O diálogo entre os músicos são tecidos a três mãos.

Fiz um playlist em que estão incluídas as faixas de “Invisible Threads”.


 

Na noite fria de 1º de agosto, porque Marlui conheceu Jack, e assim, conheceu John, que conheceu Nelson, pude ver o meu ídolo pela primeira vez.

quinta-feira, 29 de março de 2018

O melhor está na ECM – lançamentos de fevereiro

Em relação aos primeiros lançamentos do ano da ECM, iniciei com comentários sobre álbuns em que bateristas aparecem como líderes. Era uma introdução para “Lucus”, de Thomas Strønen. Na segunda leva, um dos álbuns, novamente, é de um baterista, este, uma novidade para mim, a começar por ser de um japonês. Bom, para início de conversa, orientais têm a fama de serem péssimos ritmicamente. Não têm samba no pé, diriam os brasileiros. É um pouco injusto. Orientais podem ter dificuldades de captar a batida de um samba, mas é bem conhecida o taikô, do folclore japonês; é uma outra cultura da percussão.

Shinya Fukumori
, que faz sua estreia na ECM, pode ser inserido mais até dentro da tradição ocidental. A maioria dos temas é de autoria de Fukumori e quatro de conterrâneos seus, mas é impossível associar-se à música tradicional japonesa. Mais ou menos na linha de Thomas Strønen e Paul Motian, é um baterista menos pirotécnico, que prefere explorar as sutilezas sonoras do instrumento. É um álbum surpreendente: 4 estrelas e meia, na minha opinião; a Downbeat deu 3 e meia.

A banda é composta por Matthieu Bordenave (belo sax tenor), Walter Lang (piano) e Fukumori na bateria.

Veja o teaser. A animação é muito boa também.




Norma Winstone
Existem alguns pontos em comum entre o pacote de janeiro e fevereiro. Uma é dos bateristas. A outra, que pode ser apenas uma coincidência, é quanto aos títulos. Se no anterior, o nome do álbum de Bobo Stenson é “Contra la Indecisión”, neste, o novo de Norma Winstone chama-se “Descansado: Songs for Films”. O trio Norma, Klaus Gesing e Glauco Venier lançou “Distances” (2008), “Stories to Tell” (2010), e “Dance Without Answer” (2014), todos sublimes. No mais recente entrou um percussionista (Helge Andreas Norbakken) e um violoncelista (Mario Brunello).

Composto por temas de filme, como “The Thomas Crown Affair”, “Vivre sa vie”, “Malena”, “Amarcord”, “Il Postino”, e outros, decepciona um pouco, se comparado aos anteriores. É um disco “descansado”, meio carente de contrastes. Mesmo um tema romântico e dramático como o de “Romeu e Julieta”, de Nino Rota, soa um tanto frio. Mas é uma boa introdução para quem não conhece o trabalho da cantora veterana inglesa.

Como a ECM não disponibilizou algum teaser, para você conhecer a música do trio, veja-os em “Dance Without Answer”, de 2014.




Nicolas Masson
As capas dos discos da ECM são quase sempre de paisagens invernais, que de certo modo, representam visualmente o som produzido pelo cast de Manfred Eicher. “Travelers”, de Nicolas Masson, não foge à regra. É a excelência da pureza do som, tendo ao lado de seu sax ou a clarineta, Colin Vallon como pianista, Patrice Moret no contrabaixo e Lionel Friedli na bateria. Para quem gosta até de bolero e tango, como eu, sente falta de um pouco daquela “emoção”, da surpresa de descer uma duna em curva e em velocidade. Masson nos proporciona a beleza vista pela janela em um dia de inverno severo.

Veja o clip de “Gagarine”, a que abre o disco.

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Andy Sheppard
Como sempre, deixo por último o melhor do pacote. O inglês é um veterano da cena europeia, mais conhecido por ter participado de várias bandas de Carla Bley. Gravou o primeiro para a ECM “Movements in Colour” (2008), “Trio Libero” (2010), com Michel Benita e Sebastian Rochford, “Surrounded by Sea” (2015), e “Romaria”, que acaba de ser lançado. Nos dois últimos, que são os melhores, o quarteto é complementado por Elvind Aarset, na guitarra e efeitos eletrônicos, e os mesmos Benita, no baixo e Rochford, na bateria. Em “Trio Libero”, a não participação de Aarset representa uma boa diferença no conceito do som.

Bom, o título “Romaria” remete a alguma lembrança? Pois é a clássica composição de Renato Teixeira. Todas as restantes são do inglês. Não poderia deixar de ser um dos destaques do álbum. Ouça aqui. É muito bela. No álbum, houve uma inversão dos títulos, e a terceira é a quarta, e esta é a terceira. Muitos ouvintes vão pensar que chama-se “Pop”, inclusive quem postou no YouTube.




Sua apresentação na Fnac de Lisboa, que fica no Chiado é razoavelmente longa, com Sheppard solando com ele mesmo. Mais ou menos no minuto 15, toca “Romaria”. Bem interessante.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

World Saxophone Quartet foi pura inovação

Na adolescência, tinha amigos mais e menos caretas (essa é uma expressão demodé, mas quem não a conhece desconfia o que pode significar). Transigir faz parte do crescimento das pessoas, principalmente nesse período. É uma maneira de conhecer o novo. Por isso, pelo menos nos anos 1960/70, experimentar drogas leves como a maconha era considerado perigo supremo, assim como as moças não serem mais virgens. Era a forma de você ir contra o sistema.

Bom, não sei se tem a ver ou não, mas a minha turma não estava a fim de ficar a ouvir Chico Buarque ou MPB4. Queriam ouvir Emerson, Lake & Palmer, Rolling Stones, Led Zeppelin, King Crimson e outros mais. Até os Beatles eram um tanto certinhos para alguns. Ainda bem que as pessoas mudam e reavaliam suas opiniões. Pelo menos, aquele que não gosta de Chico pode ter argumentos mais racionais além do “não gosto e pronto”.

Por algum acidente e uma curiosidade enorme, meus interesses musicais se expandiram para o jazz, inicialmente por algumas bandas de membros oriundos dos anos elétricos de Miles Davis, como Weather Report, liderado por Joe Zawinul, Wayne Shorter e Miroslav Vitous, Return to Forever, liderado por Chico Corea, e, saindo desse espectro, a inglesa Soft Machine. Melhor: era o que via como jazz.

Com o tempo, parecido ao que aconteceu quando tinha 13 ou 14 anos, por curiosidade também e por ler bastante sobre o assunto – passei a assinar a revista Downbeat –, comecei a procurar conhecer o que era considerado “mainstream” e, portanto, careta e antiquado: Duke Ellington, Count Basie, Art Tatum e outros. Aliás, quando estava nos primeiros ano da faculdade, saíra uma leva de álbuns de Tatum. Gostei tanto que amigos que vinham em casa, eram obrigados a ouví-los. Um dos discos era do pianista com Ben Webster. Até hoje é um dos meus “desert island records”.

Apaixonei-me pelo saxofone tenor. Eram meus ídolos Ben, Coleman Hawkins, Lester Young, John Coltrane e, depois, Dexter Gordon. 

O quarteto original
Um quarteto de ases
Uma amiga, depois de um casamento frustrado, que não deve ter durado um ano, foi passar uma temporada na Califórnia. Voltou com vários discos na bagagem. Um deles era “Low Class Conspiracy”, de David Murray. Outro era “Steppin’ with The World Saxophone Quartet”. Peguei emprestado, aliás, todos os LPs, e gravei-os em fitas cassete, a mídia regravável mais comum à época.

A partir de então, outro saxofonista entrou na minha lista. Era um jovem de 21 anos quando gravou “Low Class Conspiracy”. Tinha a ferocidade de Albert Ayler, saxofonista avant garde morto seis anos antes deste álbum, aparentemente por suicídio, mas com um som menos áspero e mais palatável. Murray, com Fred Hopkins e Steve Wilson, os que tocaram com ele no disco, eram parte da linha evolutiva que teve Ayler como um de seus expoentes. Minha amiga não tinha gostado dele. Tentei fazer com que ela o vendesse para mim. Mas, não gostava de se desfazer das coisas, mesmo que não gostasse. “Low Class” apresentou-me outro veio a ser explorado. Assim, interessei-me por Anthony Braxton, Art Ensemble of Chicago, Air, belíssimo trio formado por Henry Threadgill, Steve McCall e Hopkins, o mesmo que tocou com Murray, e outros, membros da célebre AACM – Association for the Advanced of Creative Musicians.

“Steppin’” era tão inusitado quanto o segundo álbum de Murray como líder. Formado por ele, no saxofone tenor e clarineta baixo, Julius Hemphill, no sax alto, soprano e flauta, Oliver Lake no alto e soprano, e Hamiet Bluiett na clarineta alto e sax barítono, o World Saxophone Quartet fazia um jazz avant-garde sem a chatice de algumas outras formações e, além de tudo, tinham humor. Ao longo do tempo, a formação mudou e hoje é menos interessante. 

Ouça “P.O. Cairo”, do primeiro álbum da banda.



Óbvio que chega uma hora em que a fórmula se esgota e cansa até seus membros. Além da troca de alguns, por morte, inclusive, caso de Julius Hemphill, falecido em 1995, em alguns álbuns houve o acréscimo de outros músicos, como Jack DeJohnette e percussionistas africanos, em “Selim Sivad” (1998), tributo a Miles Davis, ou em “Breath of Life” (2006), em que contam com Fontella Bass nos vocais, Donald Smith ao piano, Amina Claudine Myers no órgão e piano, além de baixistas e bateristas, o que, na minha opinião, faz perder um pouco a graça de o ritmo das composições ser marcado pelos contrastes entre os registros da cada instrumento de sopro.

Ao longo do tempo, alguns outros saxofonistas fizeram parte da banda, como Arthur Blythe, Eric Person, James Carter e James Spaulding. Os melhores álbuns são os que foram lançados pelo selo italiano Black Saint. Posteriormente, foram para a Elektra Nonesuch. São bons ainda, dentre os quais, destacam-se “WSQ Plays Duke Ellington”, “Selim Sivad”, e “Rhythm and Blues”. Passaram para a canadense Justin Time, e “Yes We Can”, de 2010, pela Jazzwerkstatt, slogan da campanha do ex-presidente Barack Obama.

Ouça o clássico “In a Sentimental Mood”, de WSQ Plays Duke Ellington, de 1986.



Duke Ellington é um dos gênios do jazz. Deixou muitos belos temas. Ouça “Come Sunday”.



Outro bom álbum é “Rhythm and Blues”, com clássicos da música negra, como “Night Train”, Let’s Get It On”, “(Sittin’ in the) Dock of the Bay” e “Try a Little Tenderness”.



Gravaram também “Experience” (Justin Time 2004), tributo a Jim Hendrix. É menos interessante, mas vale ouvir e ver a banda tocando “Foxy Lady”. Nesse disco, contam também com Billy Bang no violino, Matthew Garrison no baixo, Craig Harris no trombone e Gene Lake na bateria. No lugar de Julius Hemphill, toca Bruce Williams.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

O encontro especial de Kurt Elling e Branford Marsalis

Kurt Elling. Outro fã do “soul patch”
Quando Kurt Elling esteve em São Paulo para apresentar-se no Bourbon Street Music Club, não lembro mais há quanto tempo, o Carlos Conde (desconfio que ele não gostava muito dele) ofereceu-me dois convites para o show. Normalmente me chamava para ir em apresentações internacionais de jazz quando Dora, sua mulher não estava a fim. Nessa altura, Kurt já era, disparado, considerado o melhor cantor de jazz; pela crítica, que seja dito.

Quase desconhecido no Brasil até hoje, acredito, depois de ser considerado o melhor pelos críticos da Downbeat por uns quinze anos seguidos, em 2013, foi “destronado” por Gregory Porter. Não sei se é justo. É provável que os britânicos estejam um pouco fartos da rainha Elisabeth, assim como, os cubanos, de Fidel, que acaba de falecer. Cansa, né. Chega uma hora em que desejamos uma mudança, por melhor que sejam os que estão no trono.

Um dos fatores responsáveis pela “queda” de Elling pode ser a de que seus dois últimos álbuns não acrescentem muita coisa em relação aos anteriores. Reverenciado pela crítica, não imagino que seja amado pela patuleia. Apesar de ser desse grupo, desde o começo, achei-o um cantor diferenciado, o melhor na minha opinião. Não tem o apelo popular de um Michael Bublé ou Jamie Cullum, o que, serve como elogio.

Terminada a apresentação no Bourbon, para a minha e a surpresa de outros, postava-se na saída para cumprimentar um a um os que saíam. Adorei o seu gesto. Simples e de extrema cortesia. Poderia ter trocado algumas palavras ou pedido um autógrafo, porém, devido a surpresa, apenas trocamos um cumprimento. Naquela época, Kurt tinha os cabelos compridos, em corte reto, que passavam um pouco da nuca e um montículo de barba logo abaixo do lábio que descubro agora chamar-se “soul patch”, como o de Dizzy Gillespie.

O tempo passou e Elling, de vez em quando cansa do “soul patch”, mas volta a usá-lo. Deixou a magreza para trás e a cabeleira, mais curta, continua impecavelmente cofiada.

Aproveitando a proximidade do Natal, acaba de lançar o seu “sings Christmas”. Diferente de qualquer disco de Natal, sempre com aqueles temas batidos tocados de maneira burocrática, é bem Kurt: há sempre um traço de originalidade e de ousadia. Quem sabe, essa pode ser a razão de não ser tão popular. Recusa-se a caminhar nas vias do meramente conhecido, mesmo quando interpreta standards. Em seus álbuns além de clássicos do cancioneiro americano, sempre há algum número fiferente. Canta músicas do repertório brasileiro, em português, geralmente – e não fica apenas na bossa nova –, espanhol, francês e até arrisca um lied, de Johannes Brahms, como no último “Passion World” (Concord Jazz, 2015), Além de algumas composições de próprio punho, gosta de ciscar em outros ninhos. Com aquela surpresa positiva, encontramos, por exemplo, uma música do King Crimson, ou alguma do Weather Report, com letras dele.

Branford e Kurt. O “soul patch” ficou branco
Branford Marsalis e Kurt
Se “Passion World” e o anterior “1619 Broadway” (Concord 2013) – referência ao endereço da Brill Building, local que abrigou estúdios e escritórios de gente ligada à música –, não são superiores aos seus CDs anteriores, o recente “Upward Spiral” (OKeh, 2016), de Branford Marsalis, “featuring Kurt Elling”, atende bem ao gosto daquele que queria vê-lo mais “jazz”, o que não significa dizer que deixe de explorar outros gêneros. Kurt e Branford subverteram ordens estabelecidas desde o início de suas carreiras.

O primeiro da família Marsalis a tornar-se conhecido foi Wynton. Pouco depois, foi a vez de Branford, que teve seu primeiro álbum lançado pela mesma gravadora, a Columbia. Aí descobriram que os dois tinham um tremendo pianista na família, o pai Ellis Marsalis Jr., cuja fama se circunscrevia aos limites de New Orleans. Ellis Jr., por sua vez, era filho de músico. Ellis Sr. tocava bateria. Não parou por aí. Mais dois filhos de Ellis são músicos: Delfayo (trombone) e Jason (bateria).

O nome de Wynton está ligado à turma que ficou conhecida como “young lions”. Surgiram vários músicos, jovens arrumadinhos que abraçaram a causa dos que pretendiam resgatar os “nobres valores” do jazz. Com boas razões, muitos devem ter achado um retrocesso. O mundo tinha mudado bem desde Fats Waller e Louis Armstrong, e o que era considerado jazz foi “contaminado” por essas transformações.

Branford Marsalis, um ano mais velho que Wynton, surgiu para o mercado logo depois. Ao contrário do irmão, parecia mais aberto musicalmente, mais permeável aos outros gêneros como o rock, o rap e o hip-hop. Estreou como líder pela mesma Columbia. Aparecia engravatado, mas mostrava que seu projeto não era resgatar a “pureza perdida”. Em suas incursões iniciais, ele e Kenny Kirkland, pouco mais velho que os “brothers”, mas pianista dos dois em alguns álbuns, foram tocar com o pop Sting, ex-Police. Por essas e outras coisas, Branford era o antagonista de Wynton. Por essas diferenças dizia-se que um era Caim, e o outro, Abel. Nada confirma. Aparentemente, sempre se deram bem.

Uma confirmação de suas diferenças foi a banda Buckshot LeFonque, bem fora do que se convencionou ser classificado como jazz. Enveredou-se por trilhas sonoras para o cineasta Spike Lee. Em seus movimentos, aos poucos, caminhou em direção a um jazz mais clássico, com o pianista Joey Calderazzo, parceiro constante nos últimos anos.

Movimentos ascendentes
O primogênito dos Marsalis, em seus últimos trabalhos, sem precisar mostrar ao que veio, em plena maturidade, tende aos climas melancólicos. No solo “In My Solitude” (OKeh, 2014), explora a acústica da Grace Cathedral, onde foi gravada, e as canções e improvisos são sempre em tom menor, até como forma de amoldar-se ao ambiente. No disco em duo com o pianista Joey Calderazzo, o título, por si, é uma boa pista: “Songs of Mirth and Melancholy” (2011).

Em “Upward Spiral” (OKeh, 2016), apesar de a primeira (There’s a Boat Dat’s Leaving’ Soon for New York”) e última (“The Return – Upward Spiral”) serem mais upbeat, Paul de Barros, em sua crítica na Downbeat, em que confere 4 estrelas e meia para um máximo de cinco, descreve o álbum como “um trabalho outonal que reflete sobre perda, dor e expectativas frustradas.”

Em um repertório “outonal”, não poderiam faltar “Blue Gardenia”, “I’m a Fool to Want You”, “Só Tinha de Ser com Você” e a soturna “Blue Velvet”, de Bernie Wayne e Lee Morris. Dois bons destaques são do repertório pop-rock: “From One Island to Another”, de Chris Whitley, e “Practical Arrangement”, de Sting, que, aliás, estão entre as melhores, a primeira, pela brilhante e enérgica interpretação da banda, com destaque para Joey Calderazzo, e a segunda, pelo canto emocionante de Kurt. Dentre as composições próprias, o ponto alto é “Cassandra’s Song”, de Marsalis e Elling.

Ouça “Cassandra’s Song”.



Dentre os standards, bela é “Blue Gardenia”. Traz na lembrança o brilhante álbum de John Coltrane com Johnny Hartman, ao se ouvir o sax de Marsalis.



Brilhante mesmo é “Practical Arrangement”. Elling arregaça.



Veja também os dois em “I’m a Fool to Want You”. 



Um preview do álbum.

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

James Carter e o mais belo de som de sax barítono

Acho que o som do saxofone tenor é o que mais se aproxima da voz humana – ou da alma, que seja. Não devo estar sendo original. É bem possível que alguém tenha dito a mesma coisa antes. Em entrevista do número de dezembro da Downbeat, em foi votado como o melhor saxofonista barítono no “readers poll”, James Carter disse a mesma coisa: “[O sax barítono] é um daqueles instrumentos que tem um grande alcance. O tenor é o que mais se aproxima da voz humana pela amplitude, e eu acho que o barítono é seu vizinho mais próximo.” Concordo.

Antecedendo-o, são vários os barítonos conhecidos; desde os mais antigos, como Gerry Mulligan, Harry Carney, Serge Chaloff, Pepper Adams e Cecil Payne, até os um pouco mais novos como Wycliffe Gordon, John Surman, Gary Smulyan, Joe Temperley, Clare Daily, Lisa Parrott, Roswell Rudd e Ronnie Cuber, é um instrumento bem presente no jazz e vital em formações maiores como big bands.

No tempo em que passei a gostar de jazz, Gerry Mulligan era o mais conhecido em razão de sua parceria com Chet Baker, mas o primeiro a me fazer passar a gostar do barítono, foi Harry Carney. Ao descobrir o som das big bands de Duke Ellington, foi o que mais me chamou a atenção.

Mais ou menos na mesma época, foi lançado no Brasil o álbum “Extrapolation” (Polydor, 1969), de John McLaughlin, gravado na Inglaterra. Depois de emigrar para os EUA, tocou na banda de Tony Williams e na de Miles Davis. Ao seguir carreira solo, montou a Mahavishnu Orchestra. Era esse o trabalho de McLaughlin que conhecia. Ao ouvir “Extrapolation’, cujo partido era bem diverso de suas participações jazz-rock e/ou “esotérico-elétrico”, este álbum passou a ser um dos meus “dez mais”. E a razão, além da bela guitarra, foi o sax barítono de John Surman.

Poucos anos depois, foram lançados alguns LPs de uma nova gravadora alemã, que estava causando furor entre os “descolados”. Um deles era “Upon Reflection” (1979), do mesmo Surman. Foi a segunda vez que o ouvia. Além do barítono, tocava clarineta baixo e sax soprano. Todo o disco são solos em overdubs sobre bases tocadas em diversos teclados eletrônicos. Desde então, John Surman tornou-se o meu baritonista preferido.

Ouça “Edges of Illusion”, de Surman.



O primeiro álbum por um selo americano
James Carter gravou o primeiro disco como líder em 1994 pelo selo japonês DIW. Depois de “JC on the Set”, lançou “Jurassic Classics”. No mesmo ano, 1995, saiu “The Quiet Storm”, o primeiro por um selo americano. O álbum é um showcase de suas habilidades, não apenas no sax barítono, mas também no soprano, no alto, no tenor, na flauta baixo e na clarineta baixo. Em cada faixa, composta, em sua maioria, por jazz standards, como “You Never Told Me That You Care” (Sun Ra), “1944 Stomp” (Don Byas), “Born to Be Blue” (Mel Tormé e Robert Wells), “A Ballad for a Doll” (Jackie McLean), “Eventide” (Bill Dogett), The Stevedore’s Serenade” (Duke Ellington) e “Round Midnight” (Thelonious Monk), e duas composições próprias – “The Intimacy of My Woman’s Beautiful Eyes” e “Deep Throat Blues” –, Carter as executa em um instrumento diferente. Mestre nas várias modalidades de sopro, no barítono é genial.

Pela Atlantic, lançou mais quatro, na Columbia, apenas um – “Gardenias for Lady Day”, em homenagem a Billie Holiday – e, nos últimos tempos, imagino que não possua um contrato fixo, pois cada disco sai por um selo diferente. A formação mais frequente tem sido um organ trio e a música tende ao rhythm’n’blues e Carter tem preferido os sons mais rasgados e ásperos, que não fazem muito o meu gosto.

O James Carter que fica registrado é o de um show no Bourbon Street Music Club, em que, convidado pelo Carlos Conde, assisti na mesa mais próxima do palco. Sua presença, quase dois metros de altura, vestido impecavelmente com um costume caramelo claro, contrastando com a sua cor, e o saxofone dourado, às primeiras notas, foi impactante. E tocou muito. Mas a maior lembrança é de quando ouvi pela primeira vez “’Round Midnight” no barítono, duo belíssimo com Craig Taborn ao piano. Foi o que me fez interessar-me em ouvir outros discos dele.

Ouça. A impressão é a de que ele resolveu mostrar ao que veio ao público americano. Além do som hipnótico de seu sax, há uma passagem em que mantém uma nota em sopro circular por um tempo absurdo.




Ouça também “You Never Told Me That You Care”. É hipnótico também no tenor.



quinta-feira, 8 de outubro de 2015

A morte do mensageiro de Deus

No dia 4 de setembro, Phil Woods anunciou sua aposentadoria num show em Pittisburgh na qual, junto com a orquestra local, tocou temas do álbum Charlie Parker with Strings. Phil apresentou-se com um tubo de oxigênio ao lado. Brincou dizendo que era seu “amplificador”. Há muito tempo, os milhões de cigarros que consumiu afetaram-lhe os pulmões. A parte impressionante é que continuava a tocar apesar do enfisema pulmonar. Poucas semanas depois, mais exatamente em 29 de setembro, morreu.

Woods afirmava que, se “Charlie Parker era Deus, nesse caso, eu sou o o seu mensageiro.” Não era apenas uma frase de efeito. Era o que achavam os críticos: um legítimo herdeiro do legado de Bird. Um outro dado reforçou essa ligação: depois da morte do genial saxofonista alto, Phil casou-se com Chan Richardson, sua viúva, além de tocar o mesmo instrumento. Mantiveram o casamento por muito tempo.

Sua importância, descontando-se Parker, como altoísta é comparável a de outros dois grandes do instrumento: Cannonball Adderley e Art Pepper. Dois outros são considerados importantes, mas não tanto quanto estes: Johnny Hodges, eterno membro da banda de Duke Ellington, e Paul Desmond, conhecido até pelo gajo da esquina, por Take Five, em seus tempos do quarteto de Dave Brubeck.

Surpreende que Phil tenha morrido, fumando tanto, com 83 anos e, tocando. O enfisema o perseguia há muito tempo. Não lembro há quanto tempo foi que, comentário de quem o assistiu em São Paulo, de seus curtíssimos solos devido a falta de fôlego. Mesmo assim, como se diz por aí, continuava a mandar bem. Conseguia fazer bom uso do pouco ar que lhe sobrava nos pulmões, o que era uma façanha.

Tendo gravado álbuns de sucesso nos anos 1950 e 1960, Woods mudou-se para a França. Saiu um pouco dos holofotes por isso. Montou uma banda meio estranha chamada Phil Woods and His European Rhythm Machine, incorporando instrumentos eletrônicos como o piano elétrico e ritmos africanos. Mas a banda era boa e música também, apesar de não fazer o gosto de todo mundo. O pianista elétrico era Gordon Beck e os franceses da banda eram do primeiro time, como Henri Texier e Daniel Humair.

Ao voltar para o seu país natal, gravou vários álbuns para a Concord Jazz e a Antilles com o quarteto formado por Hal Galper, Bill Goodwin e Steve Gilmore. Outros como Tom Harrell, Jim McNeely e Bill Charlap participaram de outras formações. Um bom disco dessa época é Birds of a Feather (Antilles, 1982).

Um bom ponto de contato com a música brasileira é o álbum Astor & Elis (Chesky), de 1996, que conta com o pianista Bill Charlap e Duduka da Fonseca na bateria.

Ouça o bolero Dois Pra Lá, Dois Pra Cá, de João Bosco e Aldir Blanc, com Phil Woods.






Veja uma apresentação de Woods de 2005 com orquestra, no Festival de Marciac.




Phil e Michel Legrand, em Watch What Happens.




Veja os dois novamente na bela What Are You Doing the Rest of Your Life?, composição do francês. Ah, ele canta; o Michel.




As amostras aqui apresentadas são deste século. Phil já tinha sido diagnosticado com enfisema pulmonar. Não importava tanto o fôlego, porque ele sempre manteve a limpidez no som e a sutileza que sempre foram suas marcas no saxofone alto.