quinta-feira, 29 de maio de 2014

O delicioso clima retrô da música de Catherine Russell

Catherine Russell, cantora 5 estrelas
Há algo de encantador nos vocalistas de apoio, os chamados backing vocals, em shows. Algumas brilham pela beleza, como as de Bryan ferry, outras pela ousadia de suas roupas, como as de James Brown, “popozudas” que rebolavam muito. Fazem caras e bocas, ficam dançando e, ocasionalmente cantam. Quem não conhece Lisa Fischer, backing dos Rolling Stones desde 1969? A parte em que brilha é o duo sensual, lascivo e provocante com Mick Jagger. Está há tanto tempo repetindo o número, que lembramos dela ainda magrinha. Desde então, deve ter ganhado uns 15 quilos. Prestamos bem menos atenção em Bernard Fowler, o segundo backing da banda, e olhe que o rapaz é um bom cantor. Participou da banda jazzística de Chalie Watts, cantou também com Ryuichi Sakamoto, Bill Laswell, Herbie Hancock, e Yoko Ono, dentre outros. Mas as chances deles gravarem como frontman são raras.

Catherine Russell foi backing de dezenas de figurões: David Bowie, no tour de Heathen, Steely Dan, Paul Simon, Cindy Lauper, Jackson Browne e Michael Feinstein. Surgiu a chance de gravar um disco pelo selo World Village, da Harmonia Mundi, em 2006. Sua estreia mereceu elogios de Will Friedlander (“She is a fresh and original voice.”) e considerou-o um dos dez melhores lançamentos do ano. A boa recepção possibilitou que continuasse a gravar: Sentimental Break (2008), This Heart of Mine (2010), Strictly Romancin’ (2012), e agora em fevereiro, Bring It Back. Strictly Romancin’ havia angariado o Prix du Jazz Vocal pela Academia de Jazz da França.

Bring It Back segue a trilha do anterior, com um repertório eclético. Catherine não possui nenhuma característica vocal exponencial que nos faça pensar que estamos frente a uma nova Sarah Vaughan ou uma Janis Joplin. Será isso tão importante? Intérpretes podem se diferenciar por outras características. Uma delas é uma certa inteligência interpretativa. Não faltam vozeirões sem a mínima compreensão do que cantam.

Allen Morrison, da revista Downbeat, escreve que “por não tentar ser ‘moderna’, ela, paradoxalmente, cria algo novo, retrabalhando canções vintage com energia, vocais expressivos e novos arranjos marcantes que dão novo brilho e balanço, que é a base do jazz.”

Bring It Back é um título ideal, pois Catherine resgata um repertório antigo e nem tão conhecido. O entusiamo de Morrison, ao dar 5 estrelas para o álbum, está claro quando diz que “ela revigora canções de três eras - da era do jazz, da era do swing e da era do rhythm and blues – com igual fervor, acompanhada de um vibrante tenteto que transforma as músicas que são peças de museus em sonoridades modernas para a linguagem do jazz.” A classe com que Catherine Russell faz essa síntese vem da enorme experiência como backing e, mais ainda, por uma cultura musical absorvida com os pais. A mãe Carline Ray era baixista, cantora e membro original da International Sweethearts of Rhythm, e o pai Luis Russell, pianista e bandleader, foi diretor musical de Louis Armstrong.

Depois desse elogio, só falta ouvir algumas canções de Bring It Back. Ouça Aged and Mellow, música de Johnny Otis, de 1952.




Strange at It Seems, a minha preferida do disco.




Ouça After the Lights Go Low.




Veja Russell em ação cantando Romance in the Dark. A música faz parte do de Strictly Romancin’, penúltimo álbum.




Veja o vídeo promocional do lançamento de Bring It Back. Aqui faz referência à mãe e ao pai.

terça-feira, 27 de maio de 2014

A música brasileira por quatro belas mulheres

Foi lançado há pouco tempo um disco bem interessante com temas brasileiros interpretados por francesas, ou estabelecidas na França, já que uma delas nasceu em Tel Aviv (Liat Cohen) e outra em Bruxelas (Helena Noguerra). A parte surpreendente é que dois dos componentes são mais conhecidos no mundo do cinema e as outras duas, profissionais da música erudita. Mais crossover, impossível.

Agnes Jaoui é conhecida como atriz, diretora do ótimo O Gosto dos Outros (Le goût des autres, 2000) e roteirista com o ex-marido Jean-Pierre Bacris de Smoking/No-Smoking, de Alain Resnais. Com esse currículo, além de muito bonita, como diria uma amigo, só faltava cantar. E é o que ela faz, e bem. Agora, admiro-a mais ainda. Outro amigo, um tanto misógino, dizia que as mulheres bonitas nem precisam falar. Discordo, mas está registrado sua opinião.

Tão bela quanto Aoui é Natalie Dessay. Brasileiros que gostam de música erudita a conhecem muito bem: foi artista residente da Osesp, a melhor orquestra do Brasil. A imagem que temos de cantoras de lieder e óperas são aquelas figuras enormes, não muito privilegiadas pelas mãos de Deus esteticamente, como Birgit Nilsson, grande wagneriana, ou Montserrat Caballé, conhecida pela patuleia por ter cantado com Fred Mercury, aquele cantor de bigodinho de uma banda chamada Queen.

Outra da área erudita é Liat Cohen. Natural de Tel Aviv, cresceu na França e estudou em conservatórios e, segundo a Wikipedia foi a primeira violonista clássica a ganhar o prestigiado Prêmio Nadia e Lili Boulanger. Liat tem um dedilhado limpo. É um talento a ser observado.

Como Jaoui, Helène Noguerra é atriz; e é apresentadora na televisão belga. É a única que fala português, efetivamente; por uma razão bem simples: é filha de português. Deveria ser Nogueira, presumo, mas nascida em Bruxelas, virou Noguerra, tônica no “a” final.

Cantoras ou não – pelo menos, morando no Brasil, nunca imaginaria que Jaoui cantasse também –, o fato é que tanto Agnes e Helena não fazem feio. Bom, de Natalie nem é preciso falar; é um soprano das melhores da atualidade. Quer conferir? Que tal ouví-la cantando a Bachiana no. 5?




O que surpreende, descontando que Helène sabe o português, impressionante como as três moças viram-se bem em nossa língua encantada. Ouça Samba em Prelúdio, um dos clássicos de Vinicius de Moraes, com Agnes Jaoui e Helène Noguerra.




Nem citei o nome do álbum até agora. Sugestivamente, chama-se Rio Paris, lançado pelo selo Erato. O disco está à venda na Apple Store brasileira por USD 6.99. Cometi a besteira de comprear pela loja americana. O preço é maior: USD 9.99. Percebi depois. Vale a pena a compra.

Mais um pouco: ouça Liat Cohen solando Baden Powell em Choro lento.




Para finalizar, a faixa final com as quatro: Bidonville-Consolação.




Veja as quatro em Les eaux des mars. A loura é Dessay, a de vermelho, Jaoui, e a de preto, Noguerra.




Veja o filme promocional.