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quinta-feira, 18 de abril de 2019

Sobre Richard Strauss e saudades da Edgar Discos



Lembro que, por recomendação de alguém, conheci uma pequena loja de discos que ficava espremida entre a Cultura Inglesa e a delegacia do bairro. Na rua Lacerda Franco gastei boa parte da minha mesada em LPs na Edgar Discos. Era uma dessas casas de bairro cuja frente resumia-se à janela do quarto da frente e uma entrada lateral que possuía um portão baixo de ferro. Quatro ou cinco degraus acima, passava-se pela porta e pelo quarto da frente e, logo depois, à direita, chegava-se a um cômodo que não devia ter mais que quatro por quatro metros, entulhado de discos novos e usados. O “filé” eram os de segunda mão, principalmente para alguém que recebia uma mesada “na conta”. Economizava no lanche e no cinema para poder comprá-los.

Era uma família estranha. O Edgar usava um óculos de armação pesada, preto, que ampliava seus olhos e sua roupa não denotava que tinha sido alfaiate antes de ter a loja: calças mal ajambradas, meio largas, que iam descendo e deixava à mostra sua cueca “samba-canção”, daquelas que, antigamente, eram de ilhoses – sem elástico na cintura – e, por vezes, revelavam o que hoje chamam de “cofrinho”. Quase sempre sua mãe estava sentada numa cadeira vestida com camisolas de malha suedine branca com estampas coloridas e chinelos com meias soquete, geralmente cinzas, de lã. Tinha os cabelos grisalhos bem crespos, sempre puxados para trás e presos. Conversava de vez em quando com os clientes. Tinha o rosto comprido e suas bochechas saltadas marcavam a região da boca, dando-lhe uma aparência meio canina, meio “guarda” do pedaço. Sua esposa era uma senhorinha pequena de lábios bem finos e boca característica de quem usava dentaduras mal ajustadas, voz esganiçada de sotaque indefinível e seu indefectível “Edegar”. Tinha uma filha também, que quase sempre estava na loja. Usava uns óculos meio fora da moda e, como devia ter hipermetropia, como seu pai, seus olhos ficavam ampliados através das lentes e parecia um pouco com aquela moça que trabalhava no programa humorístico ‘Chaves’ que, até hoje é exibido na emissora do senhor Silvio Santos.

Fora essa estranheza toda, no setor dos discos novos, Edgar sempre tinha as últimas novidades. O bom era que sempre recebia discos promocionais com um selo em hot stamping onde se lia “Produto Invendável”. Custavam quase sempre a metade de um novo. Como recebia poucos desses, a tática era passar pela loja com frequência, o que no meu caso, era umas três vezes por semana.

Os discos usados ficavam nas prateleiras inferiores, cuidadosamente separados por gêneros. Ia direto nos setores de jazz e de música clássica. Lá estavam as “joias”, aqueles discos importados “detestados”, avant-garde demais, atonais demais, que não batiam com o gosto “normal” e eram uma pechincha. Formei boa parte de minha discoteca no Edgar. Além dos avant-garde como o Art Ensemble of Chicago, Anthony Braxton e Cecil Taylor, garimpei meus primeiros Art Tatum. Até hoje é um dos meus pianistas preferidos.

Alimentou também minha discoteca de música clássica. Tinha uns poucos discos de Bela Bartók, Debussy, Stravinsky e Mahler, comprados na loja Bruno Blois. No Edgar, arriscava mais. Se a aposta fosse errada, não teria custado muito dinheiro. E a oferta era bem razoável. Nessa busca pelo “desconhecido” comprei um disco com canções de Mahler, cantadas por um barítono de quem não me lembro mais o nome. Foi uma revelação. Paixão à primeira vista. Desde então, adoro os lieder cantados em alemão, principalmente. A voz humana é fascinante.
Richard Strauss, autor de “Vier Letzte Lieder”

Um outro disco que comprei lá e me marcou foi o “Vier Letzte Lieder” (“As Quatro Últimas Canções”, de Richard Strausss, cantada pela espanhola Montserrat Caballé e regência de Alain Lombard, da gravadora francesa Erato. Foi um impacto. Não tornou-se a minha peça de cabeceira apenas porque dificilmente ouço música deitado na cama. O primeiro lied, “Frühling” (“Primavera”) é fascinante. Seu início é impactante. É tensa, de beleza dramática e, ao mesmo tempo, transmite uma sensação de paz crepuscular. Não é à toa que são as últimas peças completas compostas por Strauss. O compositor de “Also Sprach Zarathustra” deve ter ido para o céu depois desse “testamento”.

Pelo interesse pela música cantada descobri a “Canção da Terra” (“Das lied von der Erde”), de Mahler – que comprei usado no Edgar, com regência de Bruno Walter –, depois, descobri os lieder de Schubert, Schumann, Canteloube, Poulenc e Duparc. Vi que mais atrás existiam as “Paixões” de Bach, sua “Missa em si menor”, o “Vespro della Beata Vergine” e “Orfeo”, de Monteverdi, as canções de trevas de Charpentier. É um universo sem fim.

Por conta de um tanto de obsessividade, quando gosto de uma peça, procuro ouvir várias versões para poder compará-las. Tenho várias versões do “Cravo Bem-Temperado”, das “Suites para Cello”, de Bach, do “Vespro della Beata Vergine”, de Monteverdi, e de “Vier Letzte Lieder”, de Richard Strauss. E, assim conheci Elisabeth Schwarzkopf, uma das minhas paixões musicais.


Veja e ouça Richard Strauss. “Im abendrot” com Kiri Te Kanawa, regência de Georg Solti.


Ouça as “Quatro Últimas Canções”, de Richard Strauss, com Elizabeth Schwarzkopf, minha nazista preferida, sob regência de George Szell. Pode ser um pouco exagerado o termo “nazista”. No fim da Segunda Guerra, ela foi morar em Viena, para ser “poupada” de alguma possível consequência de ter sido simpatizante do regime de Hitler. Outro simpatizante, Karl Böhm foi ser diretor do Teatro Colón, de Buenos Aires, pela mesma razão. Schwarzkopf nunca tocou nesse assunto, se não me engano. Casou com Walter Legge, um dos grandes produtores da música erudita, responsável pelo setor de clássicos da EMI. Tornou-se uma das cantoras mais prestigiadas e chegou a ter um programa de televisão.


terça-feira, 17 de junho de 2014

Os 150 anos de Richard Strauss e os músicos nazistas

Richard Strauss velho
Se vivo, o alemão Richard Strauss estaria completando 150 anos em 11 de junho passado. Bom, não se sabe de alguém que tenha vivido tanto. Se não fisicamente, ele está bem vivo com sua música executada e cantada em salas de concerto e nas residências dos amantes da música erudita.

É fácil falar mal dele assim como de muitos que viveram as grandes guerras do século XX, ainda mais de alemães, japoneses e italianos, no caso, os derrotados. É uma boa discussão se a arte deles deve ser menosprezada por alguns deles terem sido notórios fascistas ou nazistas. O genocídio dos judeus, não apenas pelos nazistas, e também pelos antissemitas de todos os matizes pode justificar o banimento de um compositor como Richard Wagner? Ou de um escritor como Céline? Não é fácil ser indulgente usando-se o argumento de que a arte está acima da politica. É a situação de Richard Strauss.

O grande pecado de Strauss foi ter permanecido na Alemanha no período em que Hitler estava no poder. Nunca filiou-se ao partido nazista. Joseph Goebbels, o “homem da cultura” do governo nazista, admirava a obra de Strauss, naturalmente. Apoiar o regime poderia implicar em algumas facilidades. Aceitou o posto de presidente da Kammermusikkamer. Segundo Alex Ross (O Resto É Ruído, Cia. das Letras, 2009), Strauss vivia um momento de insegurança na época da República de Weimar. Suas obras não encontravam a mesma repercussão de público. “Coincidência ou não, suas tendências políticas guinaram para a direita.” (pág. 351) Ainda segundo o autor, o jovem jornalista Samuel Wilder, que, no futuro ficaria conhecido como Billy Wilder, um dos maiores cineastas de todos os tempos, Strauss expressou sua admiração por Mussolini. Disse tê-lo encontrado mais de uma vez e compartilhavam a aversão pela arte moderna.

A convivência com os líderes nazistas, no entanto, não foi tão tranquila. Strauss não concordava com a perseguição aos judeus, a começar por um motivo caseiro: tinha nora e dois netos judeus. Estar próximo da cúpula do poder poderia ser uma forma de protegê-los. Não foi bem assim.

Strauss não compactuava com o banimento dos músicos e das obras compostas por judeus das salas de concerto. Não se conformava que a música de Mendelssohn, por quem nutria admiração, fosse proibida de ser executada, assim como a proibição sobre a obra de Gustav Mahler. Compôs uma ópera com libreto de Stefan Zweig. Teimou em fazer constar seu nome nos créditos de Die schweigsame Frau, atitude que provocou a ira de Goebbels e de Hitler. Como costuma acontecer em regimes autoritários, todo mundo fica sob supeita e a paranoia começa a guiar seus líderes. Chegou aos ouvidos das autoridades que ele e o maestro Wilhelm Fürtwangler não haviam feito a saudação tradicional em um evento público. Por esse e outros motivos fariam dele alguém não muito confiável.

Strauss vendera a alma ao diabo, algo parecido com o enredo de Mephisto, romance que Klaus Mann, escrito em 1936, e parecia que o negócio não valia tanto a pena. Aliás, os ataques virulentos ao pai de Klaus, Thomas Mann, que a essa altura, estava longe da Alemanha, serviram para fomentar ainda mais ainda a ira contra ele.

Sair ou ficar? Os maestros Arturo Toscanini, Otto Klemperer, Bruno Walter, os compositores Arnold Schoenberg, Kurt Weill, o arquiteto Walter Gropius, o artista plástico Josef Albers, Marlene Dietrich, os diretores de cinema Fritz Lang e Billy Wilder, os escritores Stefan Zweig e Thomas Mann, preferiram sair do país. Como Strauss, alguns ficaram: Wilhelm Fürtwangler, Alban Berg, Wilhelm Kempff, Karl Böhm, Elisabeth Schwarzkopf e o então jovem Herbert von Karajan. Destes, sabe-se que Berg, apesar de recusar a se encaixar na estética nazista, era ferrenho partidário de Hitler, assim como Böhm. Schwarzkopf foi outra que teve ligações mais que suspeitas, inclusive, diz-se que chegou ter um caso com Goebbels. Finda a guerra, permaneceu pouco tempo no limbo. Mudou-se para Londres, casou com o todo poderoso Walter Legge, chefão do setor de música da EMI, e sempre fugiu de comentar sobre seu envolvimento. Quem via aquela bela loura de voz sublime, muito educada, na televisão em programas musicais, jamais poderia imaginar que tivesse sido nazista de carteirinha. Aparentemente, os elos que ligavam esses músicos ao nazismo foram rapidamente esquecidos ou minimizados. Quem poderia imaginar que depois de tudo o que aconteceu na guerra um intérprete com essa mácula como Wilhelm Kempff fosse, anos depois, gravar com o judeu Yehudi Menuhim? Não é o único caso. Imagine-se Karajan ou Karl Böhm: a música é um mundo com uma presença judaica considerável.

Herbert von Karajan tornou-se o maestro mais conhecido de todos os tempos. Nunca se preocupou em desmentir os que o classificavam como nazista. Combinava bem com sua postura de todo poderoso da Berliner Philharmoniker. Quando a guerra terminou, Karl Böhm encontrava-se em Viena. Passou pelo processo de desnazificação, voltou a reger uma orquestra europeia em 1948 e tornou-se diretor musical da orquestra do Teatro de Colon, por dois anos, no país que melhor acolheu nazistas e criminosos de guerra e depois voltou para a Europa.

O fim da guerra e Strauss. Em 30 de abril, quando Hitler suicidou-se, Strauss estava morando em Garmisch-Partenkirchen, onde tinha uma casa de campo. Quando o destacamento foi à sua casa, ele se apresentou ao oficial encarregado, tenente Milton Weiss: “Sou Richard Strauss, o compositor de Der Rosenkavalier e Salomé.” Weiss, músico diletante, sabia quem ele era. Um outro destacamento, no mesmo dia, foi novamente até sua morada. Apresentou-se do mesmo modo. O major John Kramers era fã de sua música. Fincaram uma placa com os dizeres “Área Restrita”. Estava salvo. Teve melhor sorte que o dodecafônico Anton Weber, que se encontrava retirado em uma casa de campo em Salzburgo. Um soldado americano, comemorando a vitória, acertou acidentalmente Weber com um tiro.

Os anos finais. Durante o período da guerra, Strauss manteve uma espantosa produção. Viveu até setembro de 1949. Dentre essas obras, encontra-se uma maravilha chamada Vier Letzte Lieder (As Quatro Últimas Canções). Teve sua première depois de seu falecimento com a soprano norueguesa Kirsten Flagstad e Wilhelm Fürtwangler regendo a Philharmonia Orchestra, no Royal Albert Hall, Londres, em 22 de maio de 1950. Existe uma gravação de má qualidade dessa apresentação.

Nenhuma soprano que se preze não deve ter deixado de cantá-la. A gravação clássica, em minha opinião, é a da “nazista” Elisabeth Schwarzkopf, com orquestra regida por George Szell. Ouça.




Dentre as mais recentes, gosto das duas interpretações de Anja Harteros. Ouça o registro com o maestro Mariis Jansons e a Symphonieorchester des Bayerischen Rundfunks. Ouça o ciclo completo. O CD foi lançado em 2009. A outra gravação é de 2007, com a orquestra de Dresden e regência de Fabio Luisi.




Estrelas como Kiri Te Kanawa, Jessye Norman, Leontyne Price, Gundula Janowitz, Renée Fleming, e outras nem tanto mas intérpretes de primeira grandeza como Barbara Hendricks, Cheryl Studer, Lucia Popp, Felicity Lott, Karita Mattila, Montserrat Caballé, Deborah Voigt e Barbara Booney gravaram as Quatro Últimas Canções. Todas estão mais ou menos no mesmo patamar. Pessoalmente, gosto da suavidade da voz de Lucia Popp, a voz um pouco mais escura de Jessye Norman e a da americana Cheryl Studer com regência de Giuseppe Sinopoli. A de Booney é interessante porque é acompanhada apenas pelo piano. O problema é que a orquestração de Richard Strauss é fenomenal. É rica, colorida e crepuscular. Faz falta na versão de Booney. Frühling, September, Beim Schlafengehen e Im Abendrot tinham de ser das últimas composições de Strauss. É seu testamento..

Ouça a de Jessye Norman, com Kurt Masur regendo a Gevandhaus Orchester, Leipzig.




Veja Im Abendrot, a canção final, com Lucia Popp e regência de Georg Solti. A gravação de Popp que conheço em disco é com regência de Klaus Tennsted.




Veja a mesma canção com Renée Fleming. Como várias das citadas, há mais de um registro com a mesma intérprete com orquestras e regentes diferentes. Fleming possui uma de 1996, com Christoph Eschenbach, de 1996, e outra de 2008, com Christian Thielemann, pela Decca. Considero a primeira melhor.




Não poderia faltar a de Kiri Te Kanawa. As orquestras reagem muito bem com a energia do grande Solti. Esta gravação faz parte de um DVD maravilhoso em que, além da apresentação, tem os ensaios de Kiri vestindo agasalho de ginástica e Solti ao piano.







terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Os primeiros cinco minutos de Coração Selvagem

Lula (Laura Dern)  e Sailor (Nicolas Cage)
A experiência mais impressionante que tive no cinema, depois das cenas iniciais de Cidadão Kane – sei que é clichê dizer isso, mas é verdade –, foi ter visto Coração Selvagem (Wild at Heart, 1990) em um cinema com a tecnologia THX, criada por George Lucas, num cinema em Paris com os amigos Vânia, Márcio e a Magu.

Em uma tela enorme, depois da assinatura “azul” de Samuel Goldwyn, vemos a cabeça de um fósforo em “super zoom” no momento em que a pólvora se incendeia. É uma “explosão” sonora, mil vezes amplificada. A chama se torna incêndio e ocupa a tela inteira. O título “Wild at Heart”, palavra por palavra surge em zoom, acompanhadas por um som que que corresponde ao exato momento em que a pólvora vira chama. Uma das mais belas peças do repertório erudito, Im Abendrot – é parte integrante de Vier Letzte Lieder (Quatro Últimas Canções), assim chamadas porque foram as composições derradeiras de Richard Strauss – faz fundo para a longa sequência dos letreiros iniciais.

Corte. Outra música e início do filme. A câmera aponta para o teto de um teatro. O letreiro situa a cena: Cape Fear (será uma referência ao clássico filme de 1962 estrelado por Gregory Peck e um amedrontador Robert Mitchum?). Vemos Sailor Ripley (Nicolas Cage) – mais uma referência: dessa vez reporta-se a Thomas Ripley, personagem dos policiais de Patricia Highsmith – chegando para se encontrar com Lula Fortune (Laura Dern). Sailor chega vestido com um estiloso paletó bicolor (cinza gelo e preto) e tasca um beijo em Lula. É abordado por um negro que chega acusando-o de ter assediado Marietta (Diane Ladd), a mão de Lula, no banheiro, dizendo-lhe que o matará por causa disso. Bom, melhor que descrever a cena é vê-la. Terminada a contenda, Sailor acende um cigarro.

A cena:



Próximo take: o portal da penitenciára onde Sailor passará uma temporada, até conseguir liberdade condicional. Mas aí, é a continuação da história. Meu propósito é apenas narrar os primeiros cinco minutos do filme. Visto, hoje, ainda causa impacto.

Uma cena “Lynch”
Laura Dern não é exatamente bonita, mas exala sensualidade e certa vulgaridade, algo que, certamente, desperta fantasias masculinas, um pouco como outra atriz, Ellen Barkin (uma referência: coprotagoniza Sea of Love com Al Pacino). Sua “esquisitice” é perfeita para as esquisitices de Lynch. O mesmo se aplica a Cage e àquela sua eterna cara de bebê chorão.

Em liberdade condicional, Sailor foge com Lula e partem, de carro em direção à Califórnia, se não me engano. Em um motel de estrada, cenas de sexo se misturam a alguns flashbacks como o de Sailor sendo assediado no banheiro por Marietta e de um “estranho” incêndio. Sailor veste a sua roupa preferida – casaco e botas de caubói manufaturados em couro de cobra – enquanto Lula veste a sua de periguete (essa palavra não constava na linguagem da época, mas cabe bem hoje ao seu jeito de vestir, meio “putinha”, “aberta para o crime”).

Dançam freneticamente, com direito a coreografias e luzes rubras. Num momento em que estão separados, um rapaz puxa Lula para o seu lado. Sailor, enciumado, parte para cima dele. O diálogo, que acontece antes dos seus murros certeiros contra o rapaz, é impagável:

— Você parece um palhaço nessa jaqueta estúpida.
— É uma jaqueta de couro de cobra: um símbolo da minha individualidade e da minha crença na liberdade pessoal, responde Sailor.

Sobre as Vier Letzte Lieder
Pelo título já é possível de saber que são as canções derradeiras de Richard Strauss. Pelo fato de ter permanecido na Alemanha durante a 2ª Guerra Mundial, e ser uma celebridade, com razão, teve seu nome associado ao hitlerismo. No mínimo, foi conivente, assim como tantas pessoas que viveram essas guerras. O mesmo aconteceu com o, então jovem, Herbert von Karajan, que se aproveitou da debandada de grandes músicos, contrários ao regime. Essa “conivência” deve ter sido mais funcional que ideológica. Era amigo do judeu Stefan Zweig (emigrou para o Brasil) e parece que não nutria a mínima simpatia por Joseph Goebbels, o “cérebro intelectual” do 3º Reich. 

Terminada a guerra e recluso, em “desgraça”, foi reconhecido por um militar que amante da música clássica. Foi uma sorte. Poderia ter sido diferente. Morreu em 1949. Se tivesse sido morto ou preso, não teríamos essas Quatro Últimas Canções. O mundo seria menor sem ela.

Na minha opinião a melhor interpretação de Vier Letzte Lieder é a de Elisabeth Schwarzkopf, com regência de George Szell. É evidente que nem todo mundo vai concordar. “Todo mundo” gravou. Tem registros bem antigos como a da wagneriana célebre, Kirsten Flagstad, com regência de Fürtwangler, duas lendas; essa é considerada a “grande” por muitos, em razão de dizerem que Strauss pensou nela como intérprete quando as compôs. Esses lieder são tão sublimes que até aceitam pequenos “desaforos”. De memória, lembro as de Montserrat Caballé (a que me “desvirginou”), de Kiri Te Kanawa (há um registro belíssimo em vídeo da apresentação e dos ensaios com Georg Solti, imperdível), Renée Fleming (ótima), Gundula Janowitz, Jessie Norman, Lucia Popp, Leontyne Price, bom, já deu, não?

Ouça a de Elisabeth Schwarzkopf. Deu para notar que sou fã incondicional dela, não? Tenho dois textos relacionados. Leia em http://bit.ly/uoO9Fp, e http://bit.ly/tmYMyr.