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quinta-feira, 22 de outubro de 2020

Norah Jones é sempre ela mesma

 

Com o tempo, passamos a dar importância cada vez menor ao que um dia nos impressionou ou nos deixou apaixonados. E, pensando bem, por que? E se esse encanto esquecido, um dia, retorna?

Há algo de perenal quando ouço um novo trabalho de Norah Jones. Calma! Não a colocaria no pedestal dos gênios, como o que ocupa Billie Holiday ou Miles Davis. Quem sabe, melhor que não seja um gênio, que seja alguém que lhe traz esse sentimento de encantamento, sem que percebamos, como um amor suave, sem arroubos de ame-o ou deixe-o.

Comigo acontece de forma original.Ressurge sem que ao menos perceba.Cada novo álbum dela me provoca isso. Esqueço, e quando vem o outro, volta o mesmo sentimento. Por que?

Lançada sob a égide de um mega esquema de marketing como a nova voz do jazz. pela gravadora Blue Note, “Come Away with Me” vendeu como água em dia de verão. Até hoje, são 27 milhões de cópias vendidas. Passei a infância em Minas, portanto, sou desconfiado. Não caí na conversa da Blue Note. Mas sou curioso. Ouvi e concluí que de jazz não tinha nada. E achei bem normalzinho.

A mudança de opinião em relação à sua música aconteceu por vias tortas. Veio ao assistir “My Blueberry Nights”, no Brasil, intitulado “Um Beijo Roubado”. No filme dirigido por Wong Kar-Wai. Lizzie, ou Elizabeth, abandonada pelo namorado, vai curtir a for de cotovelo no café de Jeremy que fica perto de onde mora e lá permanece até ser a última cliente. A origem do título é justamente o último pedaço de torta de blueberry, oferecido pelo personagem protagonizado por Jude Law. Acho que nessa cena captei a tônica da música de Norah. Imagino que Kar-wai, cineasta com gosto apuradíssimo para a música, deve tê-la convidado por ter captado essa conexão. No seu olhar de abandono, à procura de algum conforto, creio que descobri o que era a sua música. 

Outra evidência da conexão de Kar-Wai com a cultura pop é ter Chan Marshall, mais conhecida como Cat Power, fazer uma aparição breve como Katya.

Não sou de prestar atenção em letras, acho que por ouvir mais jazz e música erudita. Mas quando me atenho ao seu teor, percebo que são confessionais, quase sempre. Uma boa descrição sobre as composições de Jones é a de Damien Morris, em “The Guardian” (21.6.2020):

“A música foi definida para não perturbar, mas Jones encontrou uma maneira matizada e emotiva de discutir perdas, mentiras, arrependimento, indecisão e depressão.”

Nesse momento anômalo em que vivemos, versos como “não parece tão triste, não é tão ruim assim/ Ou é?/ Pode ser hoje.” encaixam-se perfeitamente. Jones está isolada, como a maioria da população, com seus dois filhos, mas não para de compor. Algumas faixas da edição especial são de registros feitos no isolamento imposto pela pandemia.

É por isso: quando “esquecemos” dela, chega com uma música que toca nossos corações e almas. Não é pouco. “Pick Me Up Off the Floor” é um grande álbum.Os destaques, para o meu gosto são “Heartbroken, Day After”, “I’ll Be Gone”, “Trying to Keep Together”, “It’s Gonna Be” e “I Am Missing You”. As duas últimas estão na edição especial recém lançada.

Assista a um vídeo de Norah Jones na sua casa: “That’s the Way the World Goes Round”.

 

Ouça.

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Madeleine Peyroux, Anthem e Brasil



Agora, no mês de setembro, Madeleine Peyroux estará mais uma vez no Brasil, dessa vez, apresentando seu último álbum “Anthem”, lançado no ano passado. Começa em Porto Alegre, passa por Curitiba, Belo Horizonte, São Paulo e Rio de Janeiro.

No início, ficou conhecida por ter uma voz muito parecida com a de Billie Holiday. Por esse fato, foi automaticamente associada ao gênero jazz, apesar de nunca ter sido de fato. É mais country-folk americana que qualquer coisa. Além da boa voz, talento, ficou bem conhecida pelas belas interpretações de algumas canções de Leonard Cohen.

Aliás, “Anthem” é de Cohen e um dos melhores números desse álbum. Ao contrário de “Secular Hymns”, o anterior, em que não há nenhuma de sua autoria, este é de uma maioria composta por ela, com David Baerwald, Brian MacLeod, Patrick Warren e Larry Klein, seus músicos. Este último toca contrabaixo é mais uma vez seu produtor. Klein comprovou a sua competência nesse mister em álbuns de Joni Mitchell, Luciana Souza, Herbie Hancock, Julie Fordham, Curtis Stigers, Norah Jones, Walter Becker, Till Brönner, Holly Cole, Tracy Chapman, Lizz Wright, Melody Gardot, dentre outros e outras.

Em relação à “Secular Hymns”, “Anthem” é um pouco inferior, na minha opinião. Mesmo assim, destaco algumas, além da música título, muito boa mesmo: “All My Heroes”, “Lullaby”, meio hipnótica, mas não exatamente uma canção de ninar,e “Liberté”, a partir de versos de Paul Éluard. Ela manda bem em francês e em inglês.

Ouça o disco via Spotify.




Caso você tenha dificuldade por esse compartilhamento, vá direto ao Spotify: https://open.spotify.com/album/3a6ln2VwpNL5Nve4QDyzRo?si=FdS3tGXqQuun6FmNdMgtxw


quinta-feira, 12 de abril de 2018

O muito e o um pouco menos conhecido de Leonard Cohen

A música de Cohen mudou com Jennifer Warnes
Depois de “Death of a Ladies’ Man”, um tanto chato, fruto de sua parceria com Phil Spector, Leonard Cohen lançou “Recent Songs” (CBS 1979). Representa um retorno às raízes folk, que o tinham tornado razoavelmente conhecido nos EUA e é também o início da colaboração de Jennifer Warnes, fazendo a segunda voz.

O próximo LP saiu apenas em 1984: “Various Positions”. O hiato de cinco anos serviu para reoxigenar sua carreira. Dois clássicos atuais estão nesse disco: “Dance Me to the End of Love” e “Hallelujah”. Outra coisa também tinha mudado. Segundo ele, depois de “50 mil cigarros e várias piscinas de whisky”, sua voz era agora a de um baixo-barítono.

Há duas gerações de fãs de Leonard. A maioria é da “fase 2”. Estes, depois de ouvirem “Hallelujah” e “Dance Me to the End of Love”, descobriram que antes tinha composto músicas geniais, como “Susanne”, So Long, Marianne”, “Sisters of Mercy” e “Hey, That’s No Way to Say Goodbye”, todas lançadss em um único LP: “The Songs of Leonard Cohen” (1967). Quando ficou conhecido tinha, 33 anos, idade um tanto avançada para a revelação de um pop star.

Nessa altura, Cohen, com alguns livros de poesia publicados, era razoavelmente conhecido no Canadá, sua terra natal. Queria mais, no entanto. Foi para os EUA, aventurando por outras searas. A cantora Judy Collins gravou Collins gravar “Susanne”. Foi o primeiro grande passo. Comparado à Bob Dylan, mas diferente, a não ser pela pouca extensão da voz, suficiente para dar voz a sua poesia “cantada”, virou o que chamam de cult.

Um novo Cohen
Na “fase 2”, a voz de Cohen tornou-se mais dark e sua música, mais light. Perdeu um pouco daquela aridez que combinou tão bem com as paisagens invernais de “McCabe & Mrs. Miller” (“Onde os Homens São Homens” no cinema, e “Jogos e Trapaças” em sua versão para DVD), belo filme de Robert Altman, de 1971, estrelado por Warren Beatty e a gloriosa Julie Christie, em que poderia se apostar que aquelas canções foram sido feitas sob encomenda como trilha sonora. Mas tinham sido compostas antes.

Sobre “McCabe & Mrs, Miller” leia no post O bardo canadense Leonard Cohen

Cohen gravou mais discos depois do retorno do que na primeira fase. É provável que, mais em paz, de bem com o sucesso, e menos atormentado por dramas interiores, tenha ficado mais prolífico, ou com menor rigor autocrítico. É o preço que se paga pela felicidade. Em vez do bardo doidão a fazer o discurso de paz e amor, como na apresentação no festival da Ilha de Wight, em 1970, sob o poder kármico de algumas drogas ilícitas, tornou-se uma representação de si mesmo, como um homem vestido com os ternos encomendados em alguma alfaiataria da Savile Row sóbrios e elegantes e legítimos panamás, e não mais o mal barbeado com sobretudos negros ou cáquis e cabelos sebentos, que combinava bem com a figura do artista dos anos 1970. Afinal, o mundo transformou-se e ele resolveu ser “outro”. Não é uma crítica, pois não virou uma caricatura de si mesmo, e ainda tinha talento suficiente para surpreender seu público. Menos atormentado e rodeado de mulheres a lhe dar suporte vocal, trovejava – tanto no sentido sonoro como no de trovador – mais um punhado de belos versos.

Das grandes composições da “fase 2”, além de “Hallelujah”, “Take This Waltz”, “I’m Yor Man”, gosto muito de “The Letters”. É uma das que está em “Dear Heather” (2004). Este álbum é um dos mais interessantes e não muito comentado. Neste, várias delas são em parceria com outros, como Sharon Robinson e Anjani Thomas, que participam nos vocais. A voz grave dos “50 mil cigarros e uma piscina de whisky” soa bela como nunca. Em várias, não canta, recita, e, fora do usual, seus parceiros são Lord Byron (“Go No More A-Roving”) e Frank Scott (“Villanelle for Our Time”). Sua voz soa sublime neste último. Ouça.




Ouça “The Letters”.


terça-feira, 25 de abril de 2017

O que é jazz em “Day Breaks”, de Norah Jones

Recebi um e-mail de um amigo dizendo que uma das suas preferidas de “Day Breaks”, de Norah Jones, é “Fleurette Africaine”. Fiquei o tempo todo batendo na tecla de que o que ela faz não é jazz e acabei por deixar passar batido dois temas considerados jazz standards: a citada pelo Carlos G., de Duke Ellington, e Peace, de Horace Silver.

Quase todas, com exceção de “Don’t Be Denied”, que é de Neil Young, as restantes são de Norah, só, ou em parceria com Sarah Oda, e uma com Peter Remm. “Peace” foi composta em 1959 e faz parte de “Blowin’ the Blues Away”, lançado pelo mesmo selo Blue Note. Parece que a letra é do próprio pianista, cujo nome real é Horace Ward Martin Tavares Silver. O Conde dizia que o “Silver” era “Silva” e de que era filho de portugueses. Pelos dados biográficos, consta que o pai nasceu em Cabo Verde, antiga colônia portuguesa. O Conde quase acertou.

Ouça “Peace”.




“Fleurette Africaine” é de 1962. Saiu pela primeira vez em “Money Jungle”, em formação pouco comum na discografia de Duke Ellington. Neste álbum, ao piano, toca com Charles Mingus e Max Roach, duas feras. Parece que Duke a compôs pensando em Mingus.

Ela fecha o álbum e é instrumental, com a discreta e bela bateria de Brian Blade, o sax soprano de Wayne Shorter, contrabaixo de John Patitucci, e ela ao piano e nas vocalizações.

quinta-feira, 26 de maio de 2016

As velhas novidades de Eric Clapton e Bob Dylan

Na semana passada foram lançados I Stiil Do, de Eric Clapton, e Fallen Angel, de Bob Dylan. São duas estrelas que estão na estrada desde a década de 1960, o que significa que estão há muito tempo. São remanescentes de uma década rica em revoluções musicais e de costumes. Clapton quase submergiu devido ao consumo de drogas mais pesadas, ao contrário de Dylan que, de mais grave aconteceu, adepto contumaz da marijuana, foi o acidente de motocicleta que o obrigou a se afastar do business da música por um tempo. A quarentena foi boa: Dylan voltou eletrificado, para a tristeza de seus fãs mais puristas.

No dia 24 deste mês, Bob Dylan comemorou o aniversário de 75 anos e continua na estrada. Faz em média cem apresentações por um ano, número significativo para alguém que já pode ser chamado de ancião. E para o recente Fallen Angel, está programada uma turnê com a também veterana Mavis Staples abrindo os shows. O negócio é que Bob, para o bem ou para o mal, gosta de ser original: nunca interpreta seus sucessos como são conhecidos em disco. O finado jornalista do Jornal da Tarde, Edmar Pereira, dizia, que, com um pouco de sorte, reconhecia-se o que o bardo americano cantava na hora do refrão. Aqueles que gostam de um bom espetáculo não sentem o mínimo prazer de verem Dylan em um palco. É ele e uma pequena banda, sem projeções em laser ou iluminações extravagantes.

EC pela mãos do mestre Peter Blake
Eric Clapton é um pouco mais novo e parece não se interessar mais em fazer grandes turnês. Assim mesmo, não vesitu o pijama e acaba de colocar na internet e nas poucas prateleiras das lojas de discos o seu I Still Do. É um aviso: “I still do.” O que ele faz, aliás, muito bem. São canções que pendem para o blues, gênero preferido desde os tempos em que começou tocando com John Mayall.

Clapton nunca fez um álbum ruim. Consegue manter uma média boa, ou melhor, são sempre, no mínimo, bons. I Still Do é o retrato disso e por isso é um título revelador. Aqui, não quer mostrar que já foi considerado Deus, o melhor guitarrista do mundo etc. Simplesmente, mostra que não tem que ficar se mostrando, o que é sinal de bom equilíbrio mental. O que pode ser um pouco decepcionante é a constatação de que nunca é genial como foi nos tempos em que era um “drug and alcohol Addict”.

Ouça o álbum na íntegra. Há sempre a possibilidade de, por conta de direitos autorias, de esse “youtube” ficar indisponível.




Um dos destaques é Stones in My Passway, de Robert Johnson. Esta é a versão do álbum que foi dedicado exclusivamente ao bluesman.




Outra a destacar é Cypress Grove, de Skip James. Essa versão é a de uma apresentação ao vivo.




A face Sinatra de Dylan
Em seu penúltimo álbum – Shadows in the Night –, Bob Dylan resolveu encarar o repertório de standards. Completando 75 anos, quase coincidindo com o aniversário, lançou Fallen Angels, centrado novamente nos standards do cancioneiro americano. É de se esperar que não dê uma de Rod Stewart e passe a gravar álbuns assim um atrás do outro.

Erradamente, alguns fazem referência a Frank Sinatra quando Dylan recorre ao repertório Tin Pan Alley. Nesse álbum, o número mais associado ao “ol’ blue eyes” é All the Way. As restantes, como Polka Dots and Moonbeams, Skylark, All or Nothing at All ou It Had to Be You e Come Rain or Come Shine, e até Young at Heart foram cantadas por Sarah Vaughan, Ella Fitzgerald e por uma infinidade de outros intérpretes, e com muito mais competência. A diferença é que Dylan não é Sinatra, nem Fitzgerald e nem pretende sê-lo, é o que imagino. Como cantor, sempre foi sofrível. É um grande, isso sim, bom intérprete de si mesmo. Em Come Rain or Come Shine e Neverthless desafina bem. O mesmo acontece em Skylark, por exemplo, brilhantemente interpretada no passado por Willie Nelson, outro country-folk singer que aventurou-se pelos standards na década de 1970.

Em Shadows in the Night, o fator novidade funcionou. A busca pelo passado era um bom pretexto. Fallen Angels é uma continuação piorada. Em bom artigo, Fernando Navarro dá uma luz em “O belo outono de Bob Dylan” sobre as referências relativas à velhice. Talvez, cantar o repertório Tin Pan Alley tenha alguma relação com isso. Faz sentido, de repente, Dylan abordar esse repertório.

Ouça a faixa promocional All the Way.



Ouça Melancholy Mood outra disponível.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Madeleine Peyroux com traje a rigor

Peyroux na capa do mais recente álbum
Está anunciado para 5 de março o lançamento do novo álbum de Madeleine Peyroux. Chama-se The Blue Room. É o quarto (dela) produzido por Larry Klein (leia http://bit.ly/XTTWnO). O baixista virou “o” produtor das cantoras. Estão na “lista” Luciana Souza (sua mulher, atualmente), Melody Gardot e Joni Mitchell (ex-mulher). Tem homens também, em minoria: produziu Rio, álbum agradabilíssimo do vocalista e trumpetista Till Brönner. (leia em http://bit.ly/VLOOCN e http://bit.ly/TZiTlO)

Depois de ouvir The Blue Room por umas três vezes, fica-se a impressão de que é um tanto morno; não empolga. Não é uma crítica. Às vezes, uma orquestra “engessa” os solistas, mesmo que os arranjos sejam de Vince Mendoza, um craque. É uma Madeleine vestida a rigor. Até a capa transmite essa sensação.

The Blue Room foi concebido tendo-se como referência Modern Sounds in Country and Western Music, disco clássico lançado por Ray Charles em 1962. Larry afirma que esse disco foi importante na vida dele, porque fundia vários gêneros musicais americanos como o rhythm’n’blues, country music e jazz. Na época foi considerado transgressivo e causou boa celeuma.

Quando apresentou o projeto de gravar um disco que tivesse como referência esse álbum de Ray Charles, pensou logo em Madeleine por achar que o repertório dela se caracteriza por essa “mistura”. Madeleine “vestiu a camisa” – ou foi o smoking? Sugeriu algumas outras que poderiam se encaixar no projeto: Guilty (Randy Newman), Desperadoes Under the Eaves (Warren Zevon), Gentle on My Mind (John Hartford), e como não poderia faltar, mais uma de Leonard Cohen. A escolhida foi Bird on a Wire e é um dos destaques, junto com o clássico I Can’t Stop Loving You, a mais conhecida do LP de Ray Charles. As outras que ela regravou desse disco são Bye Bye Love, You Don’t Know Me, Born to Lose e I Love You So Much It Hurts.

Ouça Bird on a Wire.




Veja o vídeo de Changing All Those Things, composição de Buddy Holly.


quinta-feira, 26 de abril de 2012

O disco triste de Norah Jones

Norah gostou do cartaz (direita) e se inspirou para a capa do CD
Um início melancólico, etéreo, notas repetidas num teclado à exaustão, o violão, instrumentação minimalista, um som parecido ao de um glockenspiel, a voz triste de Norah, tudo é tão belo, as cordas em contínuo, a música se chama Good Morning, mas é melhor que não seja aquela que tocará nos despertadores à primeira hora, a acordá-lo. É muito triste, e se você prestar atenção na letra, é bem capaz que seu mundo desabe logo de manhã: “Good morning/ Why did you do it?/ I couldn’t sleep/ I knew you were gone/ Our loving is all I was after/ But you couldn’t give it/ So I’m moving on”. “Bom-dia, por que você fez isso, não consegui dormir. Sabia que você tinha ido; nosso amor era tudo o que eu desejava, mas você não pôde me dar; então estou seguindo em frente.” Se isso aconteceu mesmo com Norah, que infelicidade deve ter sido.

Aquele tecladinho continua na segunda faixa. O astral sobe um pouco quando canta Say Goodbye.

Nunca imaginei que pudesse gostar de Norah. Quando surgiu, parecia mais um daqueles lances de mercado, Os marqueteiros não podiam deixar de citar o que parece, aparentemente, Jones nunca fez a mínima questão de falar: o fato de ser filha de Ravi Shankar. Não fica claro também se a americana Sue Jones foi casada com o indiano (a Wikipedia diz que viveram juntos – ou namoraram – até 1986). Norah, nascida Geethali Norah Jones Shankar, em 1979, “extirpou” as pistas paternas legais. Desconheço se, pelas leis indianas, é legal a poligamia, mas Ravi tem uma filha com Sukanya Shankar, nascida em 1981, dois anos mais nova, portanto, que Norah. Anoushka Shankar é inglesa e é brilhante citarista – gravou até pela Deutsche Grammophon. Além da diferença de dois anos, uma nasceu nos EUA e a outra, na Inglaterra. Já vi Anoushka tocando com o pai; Norah, nunca.

Come Away with Me, lançado em 2002 pelo selo Blue Note, vendeu 23 milhões de cópias. Thriller, de Michael Jackson vendeu 110 milhões. Para um disco de estreante cantando algo soul/folk com pitadinhas de jazz, é bastante. Apesar das reservas, comprei (e gostei) o DVD Live in New Orleans. Na época em que a vi em My Blueberry Nights (leia: http://bit.ly/J9PJF9), de Wong Kar-Wai, em 2008, meu juízo sobre Norah tinha mudado; e seu doce olhar tinha me hipnotizado.

Little Broken Hearts, a terceira, é a música-título. A batida da bateria Joey Waronker se assemelha à de alguma antiga música do Fleetwood Mac, uma das guitarras lembra algum som de Marc Ribot e Lindsay Buckingham, e a voz de Norah lembra vagamente uma mistura de Christine McVie e Steve Nicks.

She’s 22 é mais um destaque desse disco que prioriza o lado escuro das tristezas que as relações de amor nos impõem. “You’ll just throw away/ Every word I say/ You can throw away” (“Você só vai jogar fora/ Cada palavra que digo/ Você pode jogar fora.”). Norah lembra que pode sofrer tanto quanto Cat Power (sobre ela, leia http://bit.ly/JGkGF2 e http://bit.ly/I5untw).

Take It Back, After the Fall, 4 Broken Hearts e Travelin’ On (esta, simples e bela, com um violão e um arco de baixo) seguem na mesma toada de She’s 22. O astral sobe em Out on the Road, em clima de música folk, e com Happy Pills. Mas não se anime tanto. São “up” em relação às anteriores. Miriam e All a Dream fecham o disco e não decepcionam.

Ah, as duas coisas mais comentadas sobre o Little Broken Hearts são sobre a capa e sobre Danger Mouse (ou Brian Burton), que formou o Gnarls Barkley com Cee Lo Green, que o produziu, além do último Black Keys (http://bit.ly/I1FkNW), o Gorillaz e The Good, The Bad & The Ugly. Danger Mouse possui uma coleção de cartazes de filmes de Russ Meyer (era um daqueles cineastas meio trash) nas paredes de seu estúdio. Um deles foi a inspiração para a capa do disco.


Ouça o Bom Dia mais triste do mundo.




Ouça She’s 22. Muito bela.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Apaixonado por kd lang

kd lang emociona cantando So in Love
Ouvir um belo So in Love com Philip Catherine, no CD Plays Cole Porter (Challenge, 2011), me faz pensar em outros “so in love”, não o estado emocional, mas na música. E a primeira de que me lembro é uma que não se insere em seu terreno “confortável” e natural, que é o jazz. Refiro-me à tocante interpretação de kd lang, que faz parte do projeto Red Hot & Blue.

Na década de 1980, uma parcela considerável de pessoas do meio artístico estava morrendo em decorrência do vírus da AIDS. John Carlin trabalhava em um escritório de advocacia especializado em negócios ligados à área do entretenimento. Como muita gente naquela época, percebendo o poder de letalidade da doença, queria fazer alguma coisa. Carlin começou a pensar em alguma coisa que pudesse “fazer o mundo prestar atenção e interromper essa coisa terrível que estava se espalhando silenciosamente. […] Um dia, então, tive uma ideia.”

Quando estava no escritório de advocacia, trabalhava em um contrato cuja proposta era a de se realizar um disco com cantores de ópera interpretando Cole Porter. No conceito de Carlin, Porter era um compositor da música popular, e não da música clássica. Ele começou “sonhando com David Byrne, U2 e Annie Lennox cantando essas músicas.” Para ele, a música de Porter era “um perfeito veículo” para um projeto voltado à causa da AIDS: “Porter era um homossexual que escondeu esse fato nos repressivos anos 1920 da América”.

Da ideia à realização, a distância é grande: “um projeto beneficente envolve muito mais do que sonhar com ideias”. No terreno das ideias, passou a ter a cooperação de Leigh Blake, uma “especialista em causas perdidas”, segundo ele. Ela propôs que se fizesse algo que combinasse músicos e cineastas. Na parte operacional, contou com Rick Papas.

Imagine um projeto em que, além de músicos como Neneh Cherry, David Byrne, Jimmy Sommerville, Salif Keita, Sinead O’Connor, Tom Waits, entre outros, contou com cineastas como Neil Jordan, Wim Wenders, Percy Adlon e Jim Jarmusch. Não foi fácil. O resultado ficou de acordo com a qualidade do projeto: venderam-se mais de um milhão de discos e o especial para a TV com os curtas rodou o mundo. A mensagem estava dada. Depois, vieram vários “filhotes” com o nome Red Hot + “alguma coisa” (Rio, Lisbon, Riot, Country, etc.)

Por sorte, temos o vídeo de So in Love, com kd lang, dirigido por Percy Adlon, no YouTube. Veja aqui.



segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Norah Jones canta Love Me Tender e, Love Me, simplesmente

Minha amiga querida, a Vania, leu, gostou e protestou em bom som: “adorei!!!!! Só não gostei que você nos considera como franceses................essa não, ESSA NÃO !!!!!!!!!” (quem não leu o post de ontem, está aqui: http://bit.ly/hSXHFc).

Volto ao tema “Norah Jones”, por duas razões.

O vídeo que a Vania tinha anexado no e-mail, tinha sido o da música Love Me, sem o “Tender”, de Jerry Leiber e Mike Stoleer, em que Norah canta com sua banda country Little Willies. Achei que tinha sido engano dela; troquei o vídeo por Love Me Tender, lembrando da paixão do Marcio por essa música. Alertou-me depois de ler o post e completou: “Mas o Elvis que a Norah canta que tá no disco que eu te comprei.”

Aqui entra a segunda razão: ela comprou o disco da Norah; apesar de ter dado a entender que não é das minhas preferidas. Muitas pessoas – mais as mulheres –, quando encasquetam que querem fazer uma coisa, nem Deus consegue demovê-las de seus propósitos. Querem e tem que ser do jeito delas. Não é uma crítica; é apenas constatação. E nem consideraria um defeito. É uma característica. Acho que ela é um pouco assim. E gosto dela como ela é.

Uns versinhos de Love Me: “Treat me like a fool,/ Treat me mean and cruel,/ But love me.” Forte, não?

E a música, é claro.