Três registros novos que relaciono são interessantes de serem vistos/ouvidos. Uma delas abre o filme “Moulin Rouge”, de Baz Luhrman, que junto com Chicago, de Rob Marshall são os dois melhores musicais da década passada. Esta versão de David Bowie é muito boa, como a maioria das coisas que faz, imprimindo sempre a sua marca. A outra, bem diferente – não vou dizer por quê –, que não existe em CD, é a de Jamie Cullum. Imperdível. A terceira é de uma cantora muito boa, que merece ser “buscada” na Internet para quem não a conhece: Lizz Wright. Existe uma versão no YouTube que deve ser vista.
Além das versões cantadas, existem alguns registros apenas instrumentais. Para os que desejam as mais tranquilas, recomendo a de Art Pepper, grande alto-sax, que teve uma carreira um tanto atribulada devido ao seu problema com drogas. Ela está no álbum “Straight Life” e tem como sidemen o pianista maior Tommy Flanagan, Red Mitchell no baixo e Billy Higgins na bateria. Outra muito boa, que está em “Blue Moods”, é a de Miles Davis. O trumpete em surdina tem aquele tom melancólico é apenas dele. Acompanhado por Charles Mingus no baixo, o destaque é o vibrafone de Teddy Charles. A do guitarrista Joe Pass – esse é outro que andou um bom tempo preso por conta de consumo de drogas pesadas – e do trombonista “mais rápido do oeste” J.J. Johnson é excepcional. J.J. inicia com o tema em “surdina” e Joe a finaliza com um rápido solo de sua guitarra semi acústica fenomenal. A música é curta e faz com que fiquemos com aquela sensação de que “tiraram o doce da boca da gente”.
Ouça a de Miles.
A de John Coltrane – a que designaria como a versão “amalucada” – é uma longa faixa de oito minutos. Ele apresenta o tema no sax tenor sobre uma colchão bem caracteristicamente coltraneano com o piano “cheio de notas” e arpegiado de McCoy Tyner, notas de baixo no arco e a bateria brilhante e enérgica de Elvin Jones. Após um começo dramático e lento, Coltrane se lança naqueles solos contínuos, ricos e intensos. No fim da faixa, Art Davis faz um breve solo meio atonal no arco. Tudo que é dele é imperdível.
Temos uma versão bossa nova, de outro sax tenor do primeiro time, mas menos conhecido. Falo de Zoot Sims. Esta faixa está no álbum “The Bossa Nova Sessions”. Muita gente, na década de 1960 sucumbiu ao gênero mais exportado do Brasil. Não foram apenas Charles Byrd e Stan Getz.
Ouça.
A versão que designaria de “desconstruída” é a do pianista Jacky Terrasson. Sua maior característica é a de nunca começar com o tema: lá no meio da música você fica sabendo o que ele está tocando. Muito bom.
Todos os CDs citados não foram prensados no Brasil. Para aquele que deseja tê-los a opção é importá-los. A outra é a de procurar pela Internet, fazer um download “piratão” ou comprá-las pelos sites de venda de música.
Bela versão de Bowie:
A de Lizz Wright, citada logo no início. É uma ao vivo.
O nome de kd lang – atualmente usam pontos, k.d. – é grafado sempre em caixa baixa (é a forma de que designers gráficos e editores se referem às minúsculas). Ela não é a primeira do universo musical a optar por essa forma. Seu predecessor mais famoso é eden ahbez, pseudônimo de George Alexander Aberle, autor de “Nature Boy”.
eden ahbez proibiu em contrato de que seu nome fosse grafado em maíúscula
eden foi o que se poderia chamar de proto-hippie, ou seja, era hippie antes que esse movimento surgisse. Gostava de vestir-se com batas e usava barba e cabelos longos que o fazia parecer com Jesus Cristo. Em 1947 conseguiu se aproximar do empresário de Nat “King” Cole querendo mostrar uma música para o cantor/pianista.O título era “Nature Boy”. Bom, o resto é história: “King” Cole gravou e o single ficou por oito semanas em primeiro lugar nas paradas. Na esteira, Sarah Vaughan e Frank Sinatra a gravariam também. Ele não teve nenhum outro sucesso apesar de outras composições terem sido gravadas por Doris Day, pelo grupo vocal Ink Spots, Eartha Kitt e até pela roqueira Grace Slick. Hoje é conhecido por ser autor de uma música só. Dentre todas as excentricidades a mais conhecida foi a da imposição de que seu nome teria de ser grafado apenas em letras minúsculas; maiúsculas, só Deus. Durante muito tempo isso foi respeitado. Com o passar dos anos esqueceram dessa “obrigatoriedade” e seu nome hoje é grafado com maiúsculas e minúsculas.
Além de “King” Cole
A gravação de “King” Cole é unforgettable. Revolucionário pianista e inventor do formato trio piano, guitarra e bateria, sem o contrabaixo, é mais conhecido pelo público como cantor. Com uma voz aveludada emplacou sucessos como “Mona Lisa”, “Unforgettable”, “Blue Gardenia” e “When I Fall in Love”, sempre acompanhado de orquestras, com arranjos de Frank DeVol, Pete Rugolo, Billy May e Nelson Riddle.
Outras gravações merecem ser conhecidas. Das vozes masculinas, dentre as que conheço, a minha preferida atualmente – a gente vai mudando de gosto, não? – é a de Kurt Elling, considerado o melhor cantor da atualidade. Outro cantor de voz grave e pouco conhecido, pelo menos no Brasil, tem uma versão impecável; é a de Jefferey Smith, acompanhado pelo piano estupendo de Shirley Horn. Dono de uma voz de contornos dramáticos, quase operístico, dá um tom melancólico e ao mesmo tempo grandioso. Belíssimo. Outro cantor de voz abaritonada, Johnny Hartman (lembram-se do filme “As pontes de Madison”, de Clint Eastwood; ele está lá), cujo álbum John Coltrane and Johnny Hartman, de 1963, é um dos clássicos do repertório jazzístico, tem duas gravações muito parecidas meio suingadas… chatinhas. Melhor ouvi-lo cantar “Wave”, do nosso querido Tom, acompanhado pela flauta de Frank Wess ou, preciosidade das preciosidades, Charade, tema de Henri Mancini para o filme de mesmo nome, protagonizado por Audrey Hepburn e Cary Grant. Das mais recentes, o jovem cantor da gravadora Concord, Peter Cincotti manda bem numa versão maravilhosa em que toca no piano o tema de The Fool on the Hill, de Lennon e McCartney e sobre ele, canta “Nature Boy”. Depois de dois bons CDs, talvez por motivos comerciais, Cincotti parece ter perdido o rumo e bandeado para um repertório mais “popular”. Uma pena. Está ameaçado de fazer o mesmo caminho de Harry Connick, Jr.
Ouça a de Cincotti.
Assista à versão de “Nature Boy”, com Kurt Elling.
Dentre as mulheres, uma muito boa é a de Karrin Allyson. Excelente cantora, com repertório eclético em que destacam-se gravações de músicas brasileiras e francesas cantadas em suas línguas de origem – com muita classe –, é intérprete de primeira. É bem melhor que a de Ella Fitzgerald e Joe Pass: gênios também dão suas escorregadas de vez em quando.
Ouça a de Allyson.
Sem patriotada, o “Nature Boy”, de Caetano Veloso está entre as melhores de todos os tempos. Ele é estupendo cantando músicas em inglês. Vide seu “Lady Madonna”, “Help” e “For No One”, todas de Lennon e McCartney. A curiosidade é a versão de Vinícius de Moraes, acompanhado do violão preciso de Toquinho. Reproduzo a fala de Vinícius antes de cantá-la:
V: Eu quero fazer uma canção que sou vidrado nela. Eu estava em Los Angeles nessa ocasião, quando eu vi ela nascer, sabe?
T: Qual é?
V: É uma canção que se chama Nature Boy. Ah, você já…
T: Ah, claro. A gente cantou em Mar del Plata.
Veja Caetano cantando a música de ahbez.
Ouça a de Vinícius.
Relação dos álbuns
Nat “King” Cole – Nat “King” Cole (Capitol 1992 – 4 CDs)
Sarah Vaughan – “Nature Boy” (Golden Stars 2002 – 2 CDs)
Fran Sinatra – “The Best of The Columbia Years 1943-1952” (Sony 1995 – 4 cds)
Karrin Allyson – “I Didn’t Know About You” (Concord 1993)
Kurt Elling – Festival International de Jazz Montreal (DVD)
Jeffery Smith – Ramona (Gitanes/Verve 1995)
Johnny Hartman – The Tokyo Albums ( Gambit 1972) / For Trane (Blue Note 1973)
Ella Fitzgerald & Joe Pass – Fitzgerald & Pass… Again (Pablo 1976)
Peter Cincotti – Peter Cincotti (Concord 2003)