quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Jeff Beck no Brasil

Esse texto foi publicado no blogue do jornalista Paulo Moreira Leite, no ano passado, e, aproveitando a vinda de Jeff Bek ao Brasil – apresenta-se hoje no Via Funchal, São Paulo – estou republicando no meu blogue. Os comentários são mais em cima de sua breve aparicão em Blow Up, de Antonioni.


Em uma cena do filme Blow Up, de Michelangelo Antonioni, o fotógrafo protagonizado por David Hemmings, vai parar num bar em que a banda de rock Yardbirds está tocando a música Stroll on. Dois de seus componentes, além de Eric Clapton, transformaram-se, mais tarde, em ícones da guitarra no rock. Os ingleses Jimmy Page, Jeff Beck e Clapton formam o grande trio da guitarra e, por coincidência, ou porque o mundo é muito pequeno, tocaram na mesma banda, os Yardbirds. Por conta do destino, Jimi Hendrix, aquele que é considerado o melhor guitarrista de todos os tempos, iniciou sua carreira na Grã-Bretanha, apesar de ser americano de Seattle. Todos moravam na mesma cidade em meados da década de 1960.

Jeff Beck, um ego do tamanho de sua habilidade
Por outra obra do destino, dos três ingleses, o mais prestigiado naquela época, ficou para trás. Clapton, que foi “Deus”, e Jimmy Page, que se consagrou no Led Zeppelin, ficaram mais famosos que Jeff Beck. Várias razões contribuiram para que isso acontecesse. Uma delas, provavelmente, foi o ego “gigante” de Beck e, consequentemente, sua dificuldade de trabalhar com pessoas que pudessem concorrer com ele. Em Blow Up, o amplificador Vox da guitarra de Jeff Beck começa a “chiar”. Ele se irrita, esmurra o amplificador, arrebenta a guitarra e a lança em direção à plateia. O público briga avidamente para pegar a guitarra destruída. O fotógrafo consegue pegá-la. Thomas – que deve ter sido inspirado no grande fotógrafo da “swinging London”, David Bayley – sai com ela e depois, joga-a no lixo. É claro que, sendo Antonioni, aquele objeto fetichizado tem um significado: jogá-lo fora é desprezar as idolatrias ou seus objetos. Numa entrevista, anos depois, Beck disse que odiou Antonioni, dizendo ser ele um cara “metido a intelectual” ou qualquer coisa parecida. Vejam, a “subversidade contracultural” de Antonioni não foi entendida pelo jovem Beck.

Depois desse filme, lançado em 1966, Antonioni dirigiu outro grande filme “contracultural” no seio dos Estados Unidos. Zabriskie Point, produzido pelo marido de Sofia Loren, o produtor Carlo Ponti, é a própria síntese daquele tempo, retratando revoltas estudantis, intermináveis assembleias, movimentos libertários contra a segregação racial. Zabriskie tem um dos finais mais impressionantes do cinema. Um palacete construído no alto de uma montanha, em que capitalistas discutem sobre um grande projeto imobiliário, explode em bilhões de partículas que voam pelos ares em camera lenta acompanhado pela música “psicodélica” de Pink Floyd. Antonioni era um cara antenado, atento aos movimentos do mundo. Ao mesmo tempo em que Godard fazia sua A Chinesa do outro lado do oceano, num discurso caracteristicamente na tradição europeia do pensamento, o italiano Antonioni foi à América para tentar entender o movimento contracultural americano in loco.

A “aparição” de Jimi Hendrix foi “mortal para o “Deus” Clapton. Eric ficara tão impressionado com Jimi, que quase desistiu de continuar a tocar guitarra. O alcool e as drogas não conseguiram destruí-lo e está até hoje na ativa. Deus foi bondoso com ele, pois sobreviveu a Jimi e a tudo. Deus também tem sido bondoso com Jimmy Page. Ele continua inteiro e ainda é referência para várias gerações de novos guitarristas. Jeff Beck, que era o grande do meio dos anos 1960, não teve a glória de seus conterrâneos britânicos e não é, por isso, menor. Continua um grande guitarrista, mas tem uma carreira, por vezes, errática. Tem grandes discos e um deles é o instrumental Blow by Blow, de 1975.

Jeff Beck é um estranho na seara do chamado jazz-rock,  jazz-fusion, jazz-progressivo, e outros “jazzis”. Nomes associados a esses gêneros são músicos de jazz que absorveram a linguagem do rock, como Chick Corea, Joe Zawinul, Herbie Hancock ou Miles Davis. Mesmo assim, Beck, músico nascido sob a influência do rhytm-blues americano, gravou um dos melhores discos fusion de todos os tempos. Acompanham Beck o tecladista Max Midleton, o o baixista Phil Chen e o baterista Richard Bailey. É um belo showcase das habilidades do guitarrista. Há uma química fenomenal com o Fender Rhodes de Middleton e os sons de Beck. A produção do mestre George Martin é perfeita. Abusa-se dos efeitos do estéreo nos sons que saem do piano elétrico: dançam nos canais esquerdo e direito, “etereamente”, flutuando sobre a marcação firme do baixo e da bateria. Beck tem um jeito diferente de tocar, recorrendo pouco da paleta, usando bastante o dedão (usa três dedos, incluindo o polegar) e, abusando da alavanca para distorcer o som, produzindo uma verdadeira miríade de sons possíveis. Além da infinidade de sons que Beck tira de seu instrumento, Blow by Blow é uma coleção de climas que se associam à sugestibilidade de títulos como Air Blower Scatterbrain e Freeway Jam. O momento mais belo, no entanto, é em ’Cause We’ve Ended as Lovers, de Stevie Wonder. É um clássico inesquecível. Para quem não conhece, creia, é um pedaço do paraíso.

Vejam Jeff Beck em ’Cause We’ve Ended as Lovers no Ronnie Scott. Pena que a baixista Tal Wilkenfeld não está mais com ele. Prestem atenção em sua performance.



quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O caminho difícil de Sharon Jones

Quando James Brown morreu, disseram 
que seu corpo tinha desaparecido do túmulo
Se dizem que este mundo é pequeno – e, realmente, são surpreendentes coincidências do destino –, imagine-se um encontro de James Brown preso por ter dado uma surra na sua mulher com a carcereira Sharon Jones. Brown está morto e, sabe-se lá se perdoado pelos pecados cometidos na terra, e Jones não trabalha mais na cadeia. Mas o encontro dos dois teria resultado num belo som.

Coisas do destino, minha nega
Jones nasceu em 1956 e quem a ouviu ou acaba de conhecê-la, achará estranho nunca ter ouvido falar dela antes, se é tão boa cantora. Como muitas pessoas pobres de ascendência negra, cresceu frequentando e cantando em corais de igrejas. E como tantas outras de sua idade, cresceu ouvindo músicas lançadas pelas gravadoras Stax e Motown, tendo como ídolos James Brown, Otis Redding e Sam Cooke.

Para não sair tanto do script, quis ser cantora. Além de cantar na igreja, fez backing vocals para diversos intérpretes. Mas quando imaginou que poderia gravar discos sob seu nome, ouviu coisas como “você é muito negra e gorda” ou “você não é bonita” etc.

O tempo foi passando e notou que aquilo de tornar-se cantora não era para ela. Foi pegar no pesado e, pelo seu porte físico, quem sabe, poderia trabalhar na polícia. Passou no teste e virou carcereira de uma penitenciária em Nova York (nascera na Geórgia, mas cedo mudara para essa cidade). Depois, ainda, trabalhou de segurança de carro-forte do tradicional Wells Fargo Bank.

Nem todos os Daps são negros
Gabriel Roth e Philip Lehman eram donos de um selo francês, a Pure Records. Em 1996, para o álbum que estavam gravando com o cantor soul Lee Fields, precisavam de três cantoras para os backing vocals. Uma delas era Sharon, que deixou os produtores impressionados com sua voz. Gravaram uma faixa apenas com ela intitulada Switchblade, que foi incluída em Soul Tequilla, disco da banda Soul Providers.

Sharon não caiu das nuvens. Tinha sido casada com um saxofonista componente do Soul Providers, que lembrou dela quando os produtores precisaram de vocalistas para os backings. Os donos da Pure resolveram montar uma nova gravadora nos EUA e chamaram-na de Desco. Dois membros da banda Mighty Imperials se juntaram ao Soul Providers e mudaram o nome para Dap-Kings, e a Desco  virou Daptones. Já como Sharon Jones & The Dap-Kings, gravaram dois álbuns, um em 2001 (Dap-Dippin’), e outro em 2005 (Naturally). Quando lançaram 100 Days, 100 Nights, em 2007, Sharon e a banda já eram muito prestigiadas por uma legião de fãs, bem como pela crítica especializada.

Não foi obra do acaso o som dos Dap-Kings chamar a atenção de Mick Ronson, produtor de Amy Winehouse. O som sessentista dessa banda não fazia feio comparado às que acompanharam Otis Redding, Wilson Pickett e outros reis do funk e do soul. Por obra do destino – ou das conjunções – Sharon Jones ficou conhecida, por tabela. Que eram os tais Dap-Kings. E assim cumpriu-se o destino de Jones, que quisera ser cantora e gravar um disco. Tardiamente, mas nunca é tarde. E quem a ouve, surpreende-se, pois parece que nasceu feita.

A primeira faixa do disco 2007, 100 Days, 100 Nights, é um aviso do que virá. A combinação dos sopros, trumpetes e saxes em riffs contagiantes e o sax-barítono fazendo o contraponto grave aos sons agudos é eletrizante. A voz vigorosa de Sharon tem personalidade e ela é a rainha. Até na pose da capa, com vestido dourado cintilante e sandálias idem, isso fica claro.

Com caras de homens maus, em costumes pretos e blusas vermelhas de gola olímpica, posam atrás de Sharon Jones que, mais uma vez, faz aquela pose de “eu posso”, altiva, queixo levantado, uma das pernas pouco a frente da outra, pouco mais gordinha do que no disco anterior, em I Learned The Hard Way. O título é perfeito para essa cantora que o destino e as circunstâncias revelaram. O disco é bom, mas não tão impactante como o anterior. Soa, às vezes déjà vu, lembrando ora Marvin Gaye; ora os Dap-Kings parecendo uma emulação da fabulosa banda que acompanhava Otis Redding. A música, no entanto, é uma realimentação do que já foi feito. As brancas Joss Stone e Amy Winehouse são exemplos. Mesmo assim, fazem boa música; que é o mais importante.

Ouça Money. Tem um pouco de Al Green, um pouco de Marvin Gaye. E daí? É da boa.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Submarino: Cruel Vinterberg

O rapaz responsável pelas legendas eletrônicas passou mal e o ar-condicionado não estava funcionando. Bom presságio não era. Com atraso de mais de meia hora, chegou a substituta para operar o computador das legendas. Ótimo, um problema a menos.

O filme, finalmente. As primeiras cenas parecem idílicas: duas crianças e um bebê. Logo se percebe que os dois cuidam sozinhos dele. Um deles prepara o leite para a mamadeira na cozinha, os dois vão ao supermercado e afanam alimentos. Uma pergunta provisória: será outro filme sobre filhos abandonados como o Ninguém Pode Saber, de Kore-eda?

Assoma à porta uma mulher bêbada e descontrolada. Deve ser a mãe dos três meninos. Grita e estapeia o mais velho porque não acha a garrafa de vodca. Escorrega na cozinha e, caída, assim fica. Os filhos a veem largada sobre a poça de sua urina. Numa travessura típica de crianças, deixam o aquecedor em contato com a urina e ligam. Mesmo com o choque, ela continua desmaiada.

Depois que a mãe some de novo, o mais velho pega a garrafa que havia escondido. Bebem até cair, ouvem música em altíssimo volume, dançam, fumam. Próxima cena: a sala desarrumada e os dois “desmaiados” no sofá. Um deles vai até o quarto ver o bebê. A quem os irmãos tinham batizado de Martin, está morto.

Nick (Jacob Cedergen) e o irmão (Peter Plaugborg)
Corte. Anos depois. Nick (Jacob Cedergren) mora num abrigo municipal, é um desocupado que se ocupa fazendo musculação, depois te ter ficado dois anos preso por agressão física. Bebe muito e sofre pela perda de Mona (Helene Reingaard Neumann). Ela tem um irmão amalucado e infantilizado – Ivan (Morten Rose). Lamuria-se por ser virgem. Gordo e abobalhado, não consegue se aproximar de nenhuma mulher. Recebe ajuda do ex-cunhado, que o “aproxima” da vizinha de quarto do abrigo, com quem tem relações íntimas casuais. A mulher é morta, pois, assustado com seus gritos e gemidos, Ivan a estrangula. Esse acontecimento representa a gota-d’água para Nick. Procura Mona e pede que Ivan não o procure. Nick é considerado suspeito e é preso. Não faz nada para se inocentar.

O irmão (Peter Plaugborg) vive num apartamento com um filho pequeno. Vive de algum subsídio que ampara dependentes químicos que tentam se livrar do vício. Inicialmente, mantém as responsabilidades básicas de um pai, como levar o filho para a escola, preparar a comida. Sem conseguir se livrar da heroína, droga-se em doses cada vez maiores. Martin, às vezes, tem de acordar o pai caído no chão para que o leve à escola. Envolve-se com o tráfico para sustentar o vício e o filho. Acaba sendo preso, como era previsto.

Ambos, por coincidência, encontram-se presos na mesma cadeia. Depois de tantos anos à procura do irmão, consegue trocar algumas palavras com ele, mas separados por grades. É o limite. Conseguir cuidar do filho era um jeito de se redimir do passado. Estando na cadeia, não mais seria possível. Mata-se.

A morte é a impossibilidade definitiva. O segundo “encontro” dos irmãos é na igreja onde é velado o corpo. O menino, órfão de pai e mãe, senta-se ao lado do tio. Este lhe diz que mais tarde irá explicar por que seu nome é Martin.

Não há redenção em Submarino, de Thomas Vinterberg, conhecido entre nós por Laços de Família e por ter sido, com Lars von Trier, um dos criadores do movimento Dogma 95. O mundo é cruel. Para alguns, mais, para outros, menos. É um pouco uma frase de James Joyce: “A história é um pesadelo do qual  estou tentando acordar.”

Ao final da exibição, percebe-se que a sala BNDES, da Cinemateca São Paulo, está realmente quente. O ar não estava funcionando mesmo.

O trailer de Submarino: