quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Alguns destaques da 61ª Critics Poll, da Downbeat

Maria Schneider, sempre entre as melhores
Já está sendo lançado o número de setembro da Downbeat e, com certo atraso, continuo a comentar sobre os melhores segundo a crítica. Lista são sempre interessantes. Que o diga o ficcionista inglês Nick Hornby. Em Alta Fidelidade, uma das personagens vive a fazer listas, de namorads, de músicas preferidas, etc. Algumas delas podem servir de orientação e também para discordar-se ou não das escolhas.

Faço aqui uma lista parcial.

1. Melhores “jazz group”. Wayne Shorter Quartet, Joe Lovano Us Five e Vijay Iyer Trio. Dos três, só Iyer não tem nenhum álbum na lista, mas seu Accelerando foi considerado o melhor no ano passado. Não lançou nada como líder depois. Sobre Accelerando, de Vijay Iyer, leia http://bit.ly/RG8H15.

2. Big Band. Empate, com 145 votos cada, da Darcy James Argue»s Secret Society e Maria Schneider Orchestra. Os dois grupos lançaram discos excepcionais. Serão assuntos no futuro. Nem Winter Morning Walks, em que Schneider toca com a mezzo soprano Dawn Upshaw, e nem Brooklyn Babylon, de Argue estão na lista dos 30 melhores. Injustiça. (Sobre Darcy James Argue, leia http://bit.ly/16yrhx8).

Veja e ouça Phobos, em apresentação no Lincoln Center.




3. Trompete. Dave Douglas, Wadada Leo Smith e Ambrose Akinmusire. Douglas lidera a lista há anos. Destaca-se como bom compositor e ótimo instrumentista. O disco de Smith ficou em segundo lugar na lista dos melhores. É muito bom.

4. Trombone. Wycliffe Gordon, Steve Turre e Trombone Shorty. A novidade é o surgimento de Shorty, bom trombonista e autor de uma música contagiante, na lista dos últimos anos.




5. Sax soprano. Wayne Shorter, Dave Liebman e Branford Marsalis. Todos velhos de guerra. Shorter ganha por antiguidade.

6. Sax alto. Rudresh Mahanthappa, Ornette Coleman e Tim Berne. Ornette, como Shorter, é uma lenda viva. Essa é a razão de estar melhor colocado que Tim Berne e Miguel Zenón.

7. Sax tenor. Joe Lovano, Sonny Rollins e Chris Potter. Aqui a lenda é Rollins, que está para fazer 83 anos e participou de vários momentos do jazz e até do rock: tocou até com os Rolling Stones. Lenda por lenda, prefiro Charles Lloyd, que em sua fase “pop” tocou com os Beach Boys, de Brian Wilson.

Ouça La Llorona, com Charles Lloyd.




8. Sax barítono. Gary Smulyan, James Carter e Ronnie Cuber. Três grandes saxofonistas. Durante anos o reinado foi do inglês John Surman. Ficou em nono.

9. Clarineta. Anat Cohen, Don Byron e Ken Peplowski. Anat está reinando. É ótima no sax tenor também. Don Byron entrou por uma vereda menos jazzística, mas é ótimo instrumentista. Peplowski é mais velho e mais mainstream. Técnica impecável.

Ouça Anat tocando a brasileiríssima Um a Zero. Sobre ela, leia http://bit.ly/1cutCgE.




10. Flauta. Nicole Mitchell, Charles Lloyd e Henry Threadgill. Mitchell é ótima flautista e lançou um belo disco: Aquarius. Lloyd vai por sua musicalidade. É melhor na sax tenor. Threadgill, além de ótimo na flauta, lança um disco ótimo atrás do outro.

11. Piano. Jason Moran, Vijay Iyer e Brad Mehdau. Qualquer um entre os dez melhores mereceria estar em primeiro. Vai mais pelo gosto de cada um.

12. Teclados. Robert Glasper, Chick Corea e Herbie Hancock. Os dois últimos lideram a lista sempre. A novidade é Glasper. Bom no piano e nos teclados eletrônicos. Seu Black Radio foi muito bem recebido pela crítica.

13. Orgão. Os Hammond B3 voltaram à moda. Depois da partida de Johnny Smith, não tem ninguém para Joey DeFrancesco. O grande, no tamanho também, Joey é um craque. O veterano Dr. Lonnie Smith está na ativa e lançou The Healer, um disco ao vivo muito bom. O terceiro, Larry Goldings, é bom organista com discos irregulares.

14. Guitarra. Bill Frisell, nos últimos tempos tem lançado bons discos e bem diversificados. O último foi Big Sur, em que conta com um trio de cordas – violino, viola e violoncelo – e um baterista. Pat Metheny é outro com projetos diferenciados. Além do álbum com seu quarteto, o Unity Band, desenvolve o que ele chama de Orchestrion (sobre isso, leia http://bit.ly/13NTY4W).

Veja a engenhoca do Orchestrion funcionando.




14. Contrabaixo. Aqui também, não tem ninguém para Christian McBride. É uma baixista excepcional e manda muito bem no baixo elétrico também. Dave Holland, o segundo, é outro instrumentista excepcional. Começou na cena inglesa e depois foi para a banda de Miles Davis. Lançou muitos discos como líder pela gravadora ECM e mantém um nívelde excelência. Ron Carter? Mesma coisa.

15. Baixo elétrico. Stanley Clarke, Marcus Miller e Christian McBride. Clarke começou com Chick Corea bem jovem. Miller tem um estilo peculiar de manejar o contrabaixo. É ótimo, apesar de não lançar grandes discos. McBride é o que disse no item anterior. O quarto, Steve Swallow, poderia muito bem ser considerado o melhor. Velho de guerra, marido e parceiro de Carla Bley, possui estilo único e seu mais álbum mais recente – Into the Woodwork – é ótimo.

16. Bateria. Há bom tempo Jack DeJohnette encabeça a lista. Merecido. Brian Blade é outro excepcional baterista. É um mestre nas sutilezas. É outro estilo. Eric Harland, que toca na banda de Charles Lloyd, merece estar entre os primeiros. Arrasou quando se apresentou, no ano passado, com o saxofonista, e neste ano, com o James Farm, de Joshua Redman, Aaron Parks e Matt Penman. (sobre a apresentação, leia http://bit.ly/15bIU0Q)

Veja James Farm interpretando Chronos.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Os melhores álbuns de 2012/13, segundo a Downbeat

A votação dos melhores da crítica, na revista Downbeat, sai no meio do ano. no número de agosto. Por conseguinte, os lançados até o fim do ano anterior devem ter sido ouvidos. Vou listar os dez melhores álbuns melhores colocados neste primeiro post. No seguinte, escrevo sobre alguns intérpretes que se destacaram.

Without a Net, de Wayne Shorter é o melhor do ano

1. Wayne Shorter Quartet, Without a Net (Blue Note)
2. Wadada Leo Smith, Ten Freedom Summers (Cuneiform)
3. Sam Rivers/ Dave Holland/ Barry Altschull, Reunion: Live in New York (PI)
4. Joe Lovano, Cross Culture (Blue Note)
5. Charles Lloyd & Jason Moran, Hagar’s Song (ECM)
6. Ryan Tuesdell, Centennial: Newly Discovered Works of Gil Evans (ArtistShare)
7. Branford Marsalis Quartet, Four MFs Playin’ Tunes
8. Kurt Rosenwinkel, Star of Jupiter (WomMusic)
9. Christian Scott, Christian aTunde Adjuah (Concord)
10. Neneh Cherry/ The Thing, The Cherry Thing (Smalltown Supersound)

Dos 30 listados, alguns destaques:
Anat Cohen, Chiaroscuro (Anzic)
Fred Hersch Trio, Alive at the Village Vanguard
Pat Metheny, Unity Band (Nonesuch)
Lee Konitz, Bill Frisell, Gary Peacock, Joey Baron, Enfant Terribles (Half Note)
Chick Corea, Gary Burton, Hot House (Concord)
Chris Potter, The Sirens (ECM)
Return to Forever, The Mothership Returns (Egle Rock)
Theo Bleckmann, Hello Earth (The Music of Kate Bush) (Winter & Winter)

Without a Net é o primeiro álbum do retorno de Wayne Shorter à gravadora que o revelou, a Blue Note. É um registro ao vivo em que tem como parceiros Danilo Perez no piano, John Patitucci no baixo e Brian Blade na bateria. Shorter gravou o primeiro solo em 1959 e passou por fases importantes do jazz. Fez parte do lendário quinteto de Miles Davis, que tinha Herbie Hancock, Ron Carter e Tony Williams. Criou, com Joe Zawinul, uma das melhores bandas de jazz fusion da história. Depois do fim do Weather Report, como líder, gravou alguns álbuns pela Verve, mas nenhum é de fato marcante. O penúltimo, lançado em 2005, Beyond the Sound Barrier, é um disco meio estranho, apesar da crítica tê-lo recebido bem. Without a Net é meio parecido, no entanto, é mais coeso. Uma coisa é ser considerado o melhor do ano e outra é ser um dos melhores. No show, a plateia não sabe a hora que pode aplaudir, enquanto os músicos soltam “ais” e interjeições demonstrando prazer em tocar. Blade é um baterista diferenciado: menos percussivo é o baterista das sutilezas, de toques abstratos. Perez e Pattitucci são bons e com bastante estrada e Wayne, desse nem se fala: passou por grandes fases.

Há uma certa benevolência com músicos mais velhos que continuam na ativa. São muitos até: Charles Lloyd, Sonny Rollins, Houston Person, Phil Woods e Frank Wess (com 91 anos, atualmente, gravou seu último disco em 2009 com Hank Jones, falecido dois meses antes de completar 92), citando apenas os saxofonistas. É compreensível e, os citados acima, por exemplo, se têm menos fôlego, como Woods, são como os sábios. Esta é a razão, a meu ver, de Without a Net ter sido considerado o melhor.

Ten Freedom Summers, de Wadada Leo Smith, que ficou em segundo, é mais interessante que o disco de Shorter. É um álbum conceitual, um projeto ambicioso com mais de quatro horas de música; mesmo o que ficou em terceiro: a reunião estelar de Sam Rivers, Dave Holland e Barry Altschull, em Nova York. Mas é aquela história: lendas são lendas. Shorter ainda surpreende. Prestes a completar 80 ano, executa uma música quase free em interessantes improvisos. É difícil comparar o que faz agora com o que fez antes com tanta genialidade e criatividade. Outro muito bom, mesmo não sendo superior aos de sua banda, é Hagar’s Song, de Charles Lloyd, em duo com o pianista Jason Moran.

Do restante, até o décimo, muito bom é o do trompetista Christian Scott com seu Christian aTunde Adjuah (deve ser o novo nome dele). Tem uma instrumentação interessante, com a guitarra discreta e belos achados sonoros de Matthew Stevens e Lawrence Fields no piano, no cravo e no Fender Rhodes. Cross Culture, de Joe Lovano e seu US Five é bom, mas não tanto quanto o anterior Bird Songs. O mesmo se aplica a Four MFs Playin’ Tunes, do quarteto de Branford Marsalis. O de Ryan Tuesdell – Centennial: Newly Discovered Works of Gil Evans – é bom e é prato cheio para os fãs do arranjador que ficou célebre quando gravou com Miles Davis. O de Kurt Rosenwinkel – Stars of Jupiter – é meio chato, com vocalises um tanto irritantes. O guitarrista já fez coisa melhor. Finalmente, The Cherry Thing, de Neneh Cherry. O dado relevante é que Neneh tem esse sobrenome por ser enteada de Don Cherry, que se revelou na banda de Ornette Coleman. Nasceu na Suécia, e o pai biológico também era músico, natural de Serra Leoa. Tem a música no sangue. Ficou conhecida com o interessante Raw Like a Sushi. Apesar do pai e do padrasto, seguiu uma trilha mais voltada ao pop. Em The Cherry Thing, canta com músicos escandinavos. É um álbum com base jazzística – saxofone, baixo e bateria. O destaque é o saxofone barítono de Mats Gustafsson. Como o de Shorter, em primeiro, o de Cherry é o décimo, mas entre os que listei como destaques dos vinte restantes, muitos poderiam estar em colocação melhor do que o dela: Siren, de Chris Potter, e Chiaroscuro, de Anat Cohen são bem melhores.

Veja uma performance do quarteto de Wayne Shorter.



Ouça Plaza Real, composição da época do Weather Report.



Ouça Stary Night.