Mostrando postagens com marcador Música Latina. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Música Latina. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

O mar e Alfonsina

A inspiradora Alfonsina Storni
A primeira gravação de “Alfonsina y el Mar”, de Ariel Ramirez e letra de Félix Luna, é de 1969. Saiu em compacto simples, e depois no álbum “Mujeres Argentinas”. É hoje um dos grandes clássicos do cancioneiro latino americano. Foi interpretada por inúmeros músicos, com letra ou não. A referência, no entanto, é de sua intérprete original: Mercedes Sosa.

A Alfonsina da música existiu realmente. Foi a poeta Alfonsina Storni. O autor do clássico “Missa Criola”, uma das grandes expressões da música regional, com centenas de clássicos, não a conheceu, mas seu pai sim. Foi sua aluna e Ariel deve ter ouvido relatos do triste fim de Alfonsina.

O mar, na vida de Alfonsina, está representado em três momentos. Nasceu na Suiça e atravessou-o para ir morar em uma cidade do interior da Argentina. Posteriormente, mudou-se para Buenos Aires, tornou-se professora e foi uma das primeiras mulheres a frequentar os círculos literários, essencialmente masculinos, no fim do século 19 e início do 20. Em 1935, banhava-se no mar quando uma onda a derrubou e deixou-a desacordada. Quando recobrou a consciência, percebeu que um nódulo em seu peito doía muito. Era um tumor maligno na mama. Ao extirpá-lo, eram duas cicatrizes: a física e a emocional. Alfonsina, que antes revelara sintomas de depressão e paranóia, isolou-se mais ainda.

Com seu filho, Alfonsina hospedou-se em um hotel de Mar del Plata. Em 25 de outubro de 1938, de madrugada, saiu do hotel e foi à praia de Perla. Segundo alguns biógrafos, jogou-se de um quebra-mar. Ariel preferiu a versão romântica de que ela foi caminhando lentamente mar adentro. “Cinco sereias te levaram/ Por caminhos de algas e de coral/ E cavalos marinhos fosforescentes farão/ Uma ronda ao teu lado/ E os habitantes da água vão jogar/ Logo ao seu lado”, são os versos finais da canção.

O suicídio esteve sempre a rondar a vida de Alfonsina. Teve uma relação estreita com o escritor uruguaio Horacio Quiroga, a quem dedicou um poema após sua morte ingerindo cianureto. Quando inscreveu-se em um concurso literário, em 1938, perguntou: “¿Y si uno muere, a quien le pagan el premio?”

 “Alfonsina y el mar” tem centenas de registros, inclusive em versões instrumentais.

Ouça-a com Mercedes Sosa.




Outra versão muito boa é a do espanhol El Cigala.




“Alfonsina”,  pelo seu compositor, Ariel Ramirez.




A portuguesa Cristina Branco é outra a cantar “Afonsina”.




Até de intérpretes da música erudita cantaram a canção de Ariel Ramires. Veja José Carreras, com a Vienna Symphonic Orchestra.







quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Agora, Natalie Cole também canta em espanhol

A “espanhola” Natalie Cole
Quem é espírita ou acredita em coisas como reencarnação, deve ter jurado que Nat King Cole tinha ressucitado em 1991. Nesse ano fora lançado um dueto de Natalie Cole e seu pai cantando Unforgettable. Era tão perfeito que poderia jurar-se que Nat estava entre nós, novamente. Não sei se Natalie foi pioneira nesse tipo de “truque”. O certo é que ficou banal, tal o número de gente que veio do além e sem direito de levar seus royalties para o céu ou para o inferno.

Infelizmente, Nat está morto desde 1959, em consequência dos três maços de cigarro que fumava diariamente. Era um cara especial. Grande pianista, influenciou muitos, como Oscar Peterson, com seu trio pioneiro composto de piano, guitarra e contrabaixo. Revolucionário, em sua maestria ao piano, tornou-se popular – e bote popular nisso – como cantor com sua voz de barítono cantando baladas como Mona Lisa e Nature Boy. Tão popular que foi o primeiro negro a ter um programa só seu na NBC. Mesmo fazendo sucesso, durou apenas uma ano por falta de patrocinadores. Na América racista, ninguém tinha coragem de anunciar seus produtos no The Nat King Cole Show. Era um boa praça carismático, sempre a sorrir, mas sofreu na pele o fato de ser preto. Campeão de vendas, ganhando muito dinheiro, comprou uma casa em Los Angeles. A vizinhança não gostou nenhum pouco e a Ku Klu Klan, muito menos: fincaram uma cruz em chamas na frente dela.

É sempre difícil ser filho de gênios. Ou você é um perfeito idiota que não vai importar-se com isso, ou é aquela velha questão do desejo de ser melhor que a geração anterior. Não deve ter sido fácil para Natalie Cole. Nove dias depois de completar 15 anos, o pai morreu. Abusou no consumo de cocaína, heroína e alcool. A consequência, descobriu em 2008: tem hepatite C.

De hoje em dia há uma profusão de atores que são filhos de atores, cantores filhos de cantores, jogadores filhos de jogadores, mas experimente contar quantos conseguem ser melhor que seus progenitores. Mercer herdou a orquestra do pai Duke Ellington e não conseguiu nem ao menos ser uma sombra. E Frank Sinatra Jr? E Nancy? Bom, Nancy até conseguiu certa projeção. E o filho de Pelé? O vício de Natalie Cole bem que pode ter sido pelo peso imenso de ter o pai que teve o “King” acrescentado ao nome, tal a sua genialidade. Mas ela tinha voz e capacidade e perseverou. Sem o peso do nome, porventura tivesse sido mais fácil.

A bela negra de olhos cor de mel, aos trancos e barrancos, erigiu uma carreira respeitável e hoje é contratada da Verve Records, uma das majors especializadas em jazz. Está na estrada desde 1975 e tem mais de vinte discos lançados. O último chama-se Natalie en Español. Um disco em “espanhol”, com certeza. Fãs de King Cole devem conhecer Cole Español (1956), A Mis Amigos (1959) e More Cole Español (1962). No primeiro tem até música brasileira: Suas Mãos, de Antonio Maria, Caboclo do Rio (a única interpretação que eu conheço é a de Inesita Barroso) e Não Tenho Lágrimas, cantadas em nossa língua. E mais: Nadie Me Ama. Advinhe de quem é? É aquela mesma, o Ninguém Me Ama, de Antonio Maria, “en español”. Ouça.




As músicas hispânicas mais conhecidas são as do gênero que, antigamente, chamavam de “mela cueca”, o bolero. O nome vem do tempo em que se dançava coladinho, corpos se tocando, sussurros nos ouvidos. Era a chance dos casais ficarem se roçando longe das vistas dos pais. Nos três álbuns de King Cole, temos clássicos desse tipo, como Perfídia, Noche de Ronda, A Media Luz e Solamente Una Vez.

Natalie Cole se acerca de alguns convidados, como Andrea Bocelli (esse não podia faltar; deve ser campeão de parcerias) e Juan Luis Guerra, e instrumentistas como os trumpetistas Arturo Sandoval e Chris Botti, e claro, seu pai. Ouça Acércate Más, com os dois.




A parte boa do álbum de Natalie são algumas músicas mais recentes, como Oye Como Va e Yo Lo Amo. Esta é a conhecida And I Love Her, de Lennon e McCartney. Uma curiosidade é uma versão de Manhã de Carnaval, de Luiz Bonfá, em espanhol.

Confira.

Nota: todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.


Ouça Besame Mucho, com Andrea Bocelli.




Ouça o medley de Voy Apagar la Luz e Contigo Aprendi.




Ouça a bela El Dia en Que Me Quieras.




segunda-feira, 2 de maio de 2011

A força da voz de Xiomara Laugart

Duas músicas em sequência justificam a compra do CD La Voz, de Xiomara: Fue e Escandalo, a oitava e a nona, são exemplos de excelência dessa cantora. Isso não quer dizer que o resto seja ruim, Pelo contrário, todas as faixas gravadas pelo produtor David Chesky são, no mínimo, interessantes, até para aqueles que torcem os narizes para a música latina.

Pois Xiomara é latina por nascimento e natureza. A cubana é a perfeita ponte entre o contemporâneo e o antigo dos conhecidos Ibraim Ferrer, Omara Portuondo e Compay Segundo. Nada mais perfeito que o título La Voz. Econômico no uso dos instrumentos, por vezes, acompanhada apenas por um baixo acústico ou por percussões, o que fica ressaltada é simplesmente, a voz.

Xiomara Laugart não é muito conhecida, mas é uma veterana. Jovem ainda, nos anos 1980, ganhou prêmios em concursos musicais, apresentou-se em palcos russos, poloneses e na antiga República Democrática Alemã (Dresden). Devido aos horizontes restritos que vislumbrava em sua terra natal, foi para Roma e, mais tarde, se mudou para Nova York. Apresentou-se em bares e gravou com o pianista Jacky Terrasson, excursionou por vários países, e assim, cada vez mais, se torna conhecida.

Não conheço os outros discos que gravou, mas pelo que está disponível na internet, seu mais recente CD representa um salto na carreira, principalmente pela idealização e produção de David Chesky (também dono da gravadora), dela e do pianista Axel Tosca Laugart. É um álbum fincado nos ritmos latinos, mas sem ter a ver com a “profusão instrumental” costumeira dos músicos originários da América Central. Ou seja, não são aquela parafernália sonora de percussões, pianos “rumbáticos” e vozes em registro alto.

Além do filho Axel ao piano, acompanham-na Chris Smith e John Benitez (baixo), Pedro Martinez (percussão), Yosvany Terry (saxofones), e Tamer Pinarbasi, tocando canu (harpa turca). Dentro dessa concepção minimalista, interpreta um belo Besame Mucho, apenas acompanhada pelo contrabaixo; em Manisero, é acompanhada pelo baixo e pela percussão e, imagino, pela harpa turca; Añorado Encuentro, com o piano de Axel, é uma bela canção contidamente romântica; Son de la Loma e Longina são interessantes músicas em que a voz de Xiomara  tem a companhia de econômicas notas do sax tenor de Yosvany Terry.

Infelizmente, poucas das músicas desse CD estão disponíveis na internet. Ouça as duas citadas no primeiro parágrafo, e se interessar, o disco pode ser comprado no site da Amazon.

Fue; em seguida, Escandalo. Ouça em sequência.




segunda-feira, 4 de abril de 2011

Por que gosto tanto de Siboney?

Sem medo de ser feliz, entre as minhas “14 Mais” – essa referência é muito antiga e só alguns irão se lembrar que uma gravadora (a antiga CBS, se não me engano) lançava, semestralmente, um LP de vinil contendo as 14 preferidas ou melhores (era o que cabia em um LP) –, está a música Besame Mucho. João Gilberto cantou, os Beatles cantaram, informalmente, é certo, sem gravarem. Os boleros têm seus fãs incondicionais.

Quando a mexicana Consuelo Velazquez compôs Besame Mucho, era menor de idade – 15 anos, presume-se – virgem e nunca tinha beijado alguém. Tendo estudado piano desde criancinha, inspirou-se – é o que se diz – em uma peça do espanhol Granados: “Quejas, o la maya y el ruiseñor”, do ciclo Goyescas. Consuelo faleceu há seis anos, em 2005, com 84 anos. Besame foi composta em 1940. São 71 anos. Longa vida para um clássico.

Ernesto Lecuona é, por algumas semelhanças com o americano compositor de Summertime na formação musical, considerado o “Gershwin cubano”. Ambos transitaram entre os formatos do popular e do erudito. Nasceu em 1895 e veio a falecer distante da terra natal por conta da instauração do governo revolucionário de Castro, em 1963, e enterrado em terras americanas; e deve ser trasladado a Cuba após o fim do regime vigente. Pelo menos, é a vontade de Lecuona, registrada no testamento. O treinamento clássico no piano o levou a estudar brevemente com o franco-basco Maurice Ravel. Compôs música para teatro, cinema, além de peças eruditas para o piano; são cerca de 600 composições no total. Lecuona, porém, é um dos reis da época de ouro da música latina.

Apesar de israelense, Anat Cohen adora música latina
Há um contingente enorme de fãs do bolero, apesar de outro tanto de pessoas considerá-lo um gênero, usando termos que caíram em desuso, “brega”, ou “kitsch”. Mesmo para um público menos habituado ou que desconhece o bolero, que mal ouviram falar de Gregorio Barrios, Angela Maria, Lucho Gatica, ou Miguel Aceves Mejía, devem ter escutado clássicos como Malagueña, Besame Mucho e, menos, Siboney. Certamente terão pouco ouvido falar de intérpretes como Trini Lopez ou Concetta Rosa Maria Franconero. Os dois, americanos de nascimento, tinham origem hispânica e foram propagadores da música latina em terras ianques. Sei de um bocado de gente fã de ambos.

Veja como os tempos mudam. Na década de 1960, um boa-pinta de olhos meio puxados, cabelo armado com gumex, e sempre de violão em punho (os americanos puros preferiam uma arma), provocou frisson entre as moças no Brasil. Vários LPs de Lopez foram lançados pela CBS (atual Sony). Um de seus sucessos foi La Bamba. Gerações que não chegaram aos 40 anos, certamente, conhecem essa música, muito em razão do filme sobre a vida de Richie Valens, contemporâneo do astro seminal do rock, Buddy Holly.

Não ligo nem um pouco para a música La Bamba (foi gravada pela banda Los Lobos nos anos 1980), mas Siboney está entre as 14 Mais, como Besame Mucho. É obra que sobrevive e gerações recentes continuam a gravá-la. Ouça uma interpretação da clarinetista israelense – é isso mesmo – Anat Cohen. A paixão dela por música latina demonstra que a música desconhece fronteiras.



Ouça também no piano sublime do cubano Ruben González. É a minha preferida, pelo menos, por agora.



Não se pode esquecer da interpretação de Connie Francis. Essa é para você, amigo SK.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Alguém sabe quem é Federico Britos?

Aquele que é considerado o melhor violinista de jazz de todos os tempos foi um autodidata. De família pobre, pai professor de filosofia e amante da música, instilou no filho esse gosto e comprou um violino ao menino de dez anos. Com quinze, estava tocando em sessões de cinema mudo. Ouvindo um grupo chamado Mitchell’s Jazz King descobriu: “Esse é o tipo de música que quero tocar.”

Em 1933, tocava num desses salões de chá e, quando foi trocar uma corda rompida de seu violino, conheceu aquele que se tornaria seu parceiro mais perfeito: Django Reinhardt. Lideraram o lendário Quintette du Hot Club de France. Começaram apresentando-se em bailes e ambos se sentiam descontentes de tocar para uma plateia barulhenta e desinteressada.

Em 1937, durante a Exposição Francesa conheceram uma mulher chamada Bricktop, que os convidou para se apresentarem em um nightclub. Cole Porter e Louis Armstrong ouviram Stephane Grapelli e Django Reinhardt. O violinista acompanhou Mabel Mercer ao piano. A guerra os separou e, após seu término, chegaram a se reunir, mas a química não funcionava mais. Reinhardt, com sérios problemas de saúde, não durou muito; morreu em 1954. Grapelli foi muito tempo depois, em 1997, pouco antes de completar 89 anos.

Alguns violinistas costumam frequentar as listas dos melhores das revistas especializadas em jazz, como Regina Carter – a mais conhecida atualmente –, Billy Bang, Mark Feldman (toca com Dave Douglas), John Blake e Jean-Luc Ponty. Em nenhuma delas consta o nome do uruguaio Federico Britos.

Federico Britos transita facilmente entre o erudito e o popular



Não é regra, mas é difícil um virtuose no violino, instrumentista de uma orquestra sinfônica, ser versátil a ponto de saber improvisar. Gidon Kremer é talvez, dos virtuoses do primeiro time, o de carreira menos convencional. Seus excepcionais álbuns calcados na obra de Astor Piazzolla são exemplares no propósito de ampliar o espectro da música, mas daí vai uma grande diferença entre interpretar um autor “popular” e ter capacidade de improvisar sobre um tema, como os músicos de jazz estão acostumados a fazer.

Britos é um dos poucos que transita entre as duas esferas – o erudito e a música de improviso. Não que essa versatilidade signifique que o uruguaio seja melhor que os outros. Britos, no entanto, é exemplar.

Comparando-o ao francês, há essa diferença de formações. Grapelli é, praticamente, um autodidata. Não era um músico que tocasse com partitura. Mesmo assim, é considerado o melhor violinista de todos os tempos.

É possível que existam exemplos parecidos aos de Britos espalhados por aí. Apenas não os conhecemos. No Brasil mesmo, existiu Fafá Lemos. Houvesse seguido carreira internacional, com certeza, o mundo o colocaria no olimpo dos grandes violinistas. Lemos teve formação clássica, “caiu na vida”, e foi tocar com Carmen Miranda. Esse ecletismo é raro entre os violinistas.

Aos poucos, com 50 anos de estrada, Federico Britos está merecendo atenção crescente da crítica e do público mundial. Tinha participado de Nocturne (Verve, 2001), CD “latino” do baixista Charlie Haden, mas apenas em três faixas (En la orilla del mundo, Yo sin ti, e El ciego). Com outro talento redescoberto – o pianista Bebo Valdéz –, gravou um disco espetacular: We Could Make Such Beautiful Music Together. Agora, pela Sunnyside, lançou Voyage (2010).

Nesse CD, em que toca alguns standards americanos como After You’ve Gone, Avalon e Moonglow, mescla-os com algumas composições de própria lavra como Vivian, Las Vegas Station, Lluvia de Colores, A Las Cuatro de la Mañana, Okey Paganini, Micro Suite Cubana, Tomatito & Federico e Vivian Flavia de las Mercedes (a repetição do nome Vivian não é casual: é sua mulher). Em várias faixas é acompanhado por alguns convidados especiais: Kenny Barron, Eddie Gomez, Michel Camilo, Ignacio Berroa, Carlos Franzetti, o brasileiro Antonio Adolfo, Giovanni Hidalgo, “Cachao” Lopez, o guitarrista Bucky Pizzarelli e o violonista espanhol Tomatito.

Devem ser destacadas After You’ve Gone (belíssimo solo de Barron), Moonglow (guitarra “relaxada” de Bucky Pizzarelli), e Tomatito & Federico (balada meditativa em maravilhoso duo). A composição de Britos para sua mulher, Vivian Flavia de las Mercedes, é uma declaração de amor, com início lembrando o tema da música Mona Lisa, e belos solos de violino e do piano de Michel Camilo.

Ouça Beautiful Music (Calle 54, 2003), duo de Bebo Valdés e Federico Bastos.

.

Ouça também Voyage (Sunnyside, 2010), que conta com participações especiais de Kenny Barron, Eddie Gomez, Michel Camilo, Ignacio Berroa, Carlos Franzetti, o brasileiro Antonio Adolfo, Giovanni Hidalgo, “Cachao” Lopez, Bucky Pizzarelli e Tomatito. Vivian Flavia de las Mercedes é um dos destaques.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

A bela Rosita

Dentre os tipos de saxofone, meu preferido sempre foi o tenor. Em escala descendente, os outros são o barítono, o soprano e, por último o alto, apesar de Charlie Parker ou Phil Woods, dois gigantes. Dos tenores, por muito tempo, os preferidos foram Ben Webster, Coleman Hawkins e Lester Young, nessa ordem.

A capa de um clássico
Seria inimaginável não ter os álbuns que meus ídolos gravaram juntos pela Verve Records. Em Coleman Hawkins Encounters Ben Webster, no meio de standards (It Never Entered My Mind, Prisoner of Love, simplesmente, maravilhosos) havia uma música chamada La Rosita. Quando tenho saudades de Rosita, procuro-a no meu iPod de 160 GB. Ouvi-la é um prazer e levanta meu humor, se estiver em baixa.

Coleman Hawkins tinha um som cheio, um tanto áspero, e o de Ben era veludo puro. O Carlos Conde não se conformava com que alguém pudesse gostar de Webster. Dizia que ele fazia “ar” e não som. Questão de gosto. Ele era incomparável tocando baladas. Quem conhece Time After Time (Ben Webster and Associates, Verve) tocado por ele sabe do que estou falando.

Mas La Rosita chegou por outras vias dessa vez. Não lembro de nenhum outro registro além desse de 1957. Qualquer coisa que ache do pianista Bebo Valdés, compro, desde Bebo y El Cigala, DVD duplo com show e documentário dirigido por Fernando Trueba. O cineasta espanhol é responsável pelo “renascimento” do cubano expatriado, que se encontrava meio esquecido. Pela gravadora espanhola Calle 54 foram gravados alguns CDs. Encontrei, casualmente, We Could Make Such Beautiful Music Together (2003), um duo com o violinista uruguaio Federico Britos num site. Adivinhem? Adorei. E mais, ainda, porque me fez lembrar de Rosita. É a quarta faixa de um disco em que se mesclam standards americanos, composições próprias, um Piazzola e um Jobim.

Uma observação: a canção La Rosita foi composta por Allan Stuart (pseudônimo de Lester O’Keefe) e Paul Dupont (pseudônimo de Gustave Haenschen). Estranho, não? Em matéria de 2008 no Los Angeles Times (http://articles.latimes.com/2008/oct/23/world/fg-bebo23), assinado por Sebastian Rotella, Bebo diz: “que bela peça. É mexicana, você sabe, os mexicanos têm músicas melódicas.” Pelo jeito, nem Bebo sabe das origens de Rosita.

Ouçam e comparem.
Coleman Hawkins e Ben Webster:



Bebo Valdés e Federico Brito:

quinta-feira, 29 de julho de 2010

Drexler no Brasil

Jorge Drexler apresentou-se no Via Funchal, São Paulo, em 23 de julho, para lançar seu último CD. Um dia antes, disponibilizei um texto em que o assunto principal era a qualidade das letras de suas composições.
No site do UOL foram postados alguns vídeos. Veja Tres Millones de Latidos, a música que abre o CD Amar la Trama. Por esse link é possível assistir a alguns outros números.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

A poesia de Jorge Drexler registrada

Antigamente, existia a expressão “vira o disco”. Caiu em desuso depois da vinda do CD. É que existiam nos antigos discos de vinil dois lados: o “A” e o “B”. Ela significava algo como “muda de assunto!”. Uma outra é o “risco no disco”. Acontecia de, às vezes, num disco riscado a agulha não ir para a frente e ficava um pequeno trecho da música a repetir infinitamente. O HD do meu cérebro despertou nessa manhã a repetir um verso: “Estoy aquí de paso”. Acho que foi de tanto ficar ouvindo o último CD de Jorge Drexler, Amar la trama (WEA, 2010). O início de Tres millones de latidos lembra um pouco o de Bye-Bye Brasil, de Chico Buarque, mas com “acento” latino devido à percussão “bumbante”. Serve como introdução a um registro menos costumeiro de Drexler, mas anuncia-se como um “espere o que virá”. A segunda faixa, pelo meu gosto, é a melhor em tudo: letras e ritmo. Amar la trama más que el desenlace – belo verso – ou a dança dos encontros e desencontros: “Y sin planearlo tú acaso/ como quién sin quererlo va y lo hace/ te vi cambiar tu paso/ hasta ponerlo en fase/ en la misma fase que mi propio paso.” Bom demais! Ou, em La nieve en la bola de nieve: “ Una obsessión girando en su propia espiral/ de nubes de tormienta.// Tudo puede ser/ tan peligrosamente leve/como la nieve en la bola de nieve.”

Os arranjos têm seu papel em deixar os versos de Drexler mais belos. Xavi Lozano (sax barítono), Martí Serra (sax tenor), Roc Albero (trumpete), membros da banda catalã Xapola Trip Experiment, são o diferencial e combinam-se perfeitamente com os violões, a percussão e as guitarras ocasionais. Em Mundo abissal ouve-se o sax barítono como se o som estivesse se propagando dentro da água. Parece bobo, narrado assim, mas o efeito é bem interessante.

Transcrevo a letra de La trama y el desenlace:

Camino por Madrid en tu compañía,/ mi mano en tu cintura copiando a tu mano en la cintura mía/ a paso lento, como bostezando,/ como quién besa el barrio al irlo pisando/ como quién sabe que cuenta con la tarde entera,/ sin nada más que hacer que acariciar aceras.// Y sin planearlo tú acaso/ como quién sin quererlo va y lo hace/ te vi cambiar tu paso/ hasta ponerlo en fase,/ en la misma fase que mi propio paso.// Ir y venir,/ seguir y guiar,/ dar y tener/ entrar y salir de fase:/ amar la trama más que al desenlace.// Fue un salto ínfimo, disimulado,/ un mínimo cambio de ritmo apenas,/ un paso cambiado,/
y dos cuerdas que resuenan con un mismo número en distintos lados,/ o el paso exacto de dos soldados:/ como dos focos intermitentes/ subitamente así, sincronizados.// Dos paseantes distraídos/ han conseguido que el reloj de arena/ de la pena pare, que se despedace/ y seguir que el rumbo que el viento trace.// Ir y venir, seguir y guiar, dar y tener/ entrar y salir de fase/ amar la trama más que al desenlace// Ir por ahí como en un film de Eric Rohmer/ sin esperar que algo pase/ amar la trama más que al desenlace.

Confira: