quinta-feira, 26 de março de 2015

O show acústico de Lou Reed, John Cale e Nico

Lou Reed, John Cale e Nico, no Bataclan
Quando Nico entra no palco, a coisa muda de figura. É um tanto triste saber que a alemã, não traindo a ascendência ariana de quem nasceu se chamando Christa Päffgen, tratava os judeus de maneira jocosa, não poupando até os amigos. E odiava negros também. Mas vamos dar um desconto. Ela era uma figura carismática, uma mulher bonita e tinha uma voz envolvente, sem ser grande cantora.

No show em 1972 no Bataclan, Paris, Lou Reed, John Cale e Nico encontram-se pela primeira vez após o fim do Velvet Underground. Circularam várias gravações do show em versões piratas até lançarem oficialmente como Bataclan ’72, em 2004.

Lou Reed e Cale abrem o espetáculo com I’m Waiting for the Man em versão acústica, só violão e o piano. Nada mal. As canções de Reed sempre combinaram com o acústico, pois são quase sempre melancólicas. Mesmo com toda a parafernália de guitarras ruidosas, como em Rock’n’Roll Animal (RCA, 1974), é o que predomina.
Veja em https://www.youtube.com/watch?v=5rhiqI6PlTo.

A seguir, Reed anuncia a “minha nova canção Barbra Streisand”: Berlin (veja em https://www.youtube.com/watch?v=4be4Az5BM-c). É uma de suas grandes composições. É do primeiro álbum solo, após a extinção do Velvet Underground, repetida em Berlin, lançado no ano seguinte. Em Black Angel’s Death Song, Cale troca o piano pela viola. As canções a seguir são Wild Child, do primeiro, e a conhecida Heroine.

John Cale canta Ghost Story; e as próximas também: The Biggest, Loudest, Hairiest Group of All e Empty Bottles. Aí, é chegada a vez de Nico cantar a hoje clássica Femme Fatale.

Ouça.




Veja a apresentação em https://www.youtube.com/watch?v=TSYdH4vKd6M

Nico é especial mesmo. A combinação de seu harmônio, cujo som lembra o acordeão mas é algo como um órgão de pobre (o som é gerado pelo ar produzido por meios mecânicos), e a viola de Cale é muito interessante em No One Is There.

Ouça.




A parte final é de Nico: Frozen Warnings e Janitor of Lunacy. Em I’ll Be Your Mirror, Reed e Cale fazem os backings. Sua participação final é cantando outro clássico do Velvet Underground: All Tomorrow’s Parties. Completam o álbum Pale Blue Eyes e Candy Says. Não fazem parte do show. São gravações dos ensaios. É o que parece.

terça-feira, 24 de março de 2015

Susannah McCorkle. Entre a arte e a vida

Quando estava no ensino básico, havia uma professora muito alegre e sorridente. Esqueci seu nome. Gostava de suas aulas de português. Andava animado depois de ter uma de minhas redações elogiada em aula. Mas essa alegria me parecia falsa. No meu início de adolescência, ficava com a sensação de que aqueles esgares, sua animação e jovialidade escondiam uma tristeza profunda. Nunca tive a confirmação de que era fato, porém.

Agora, no começo do ano foi lançado Adeus – The Berlin Concert. É a gravação de uma apresentação de Susanna McCorkle de 1996, descoberta pelo jornalista e escritor Siegfried Schmidt-Joos. É um show eletrizante e vemos uma Susannah animada, cheia de energia. Ficamos contagiados. É acompanhada por Kai Rautenberg (piano), Walter Gauchel (saxofone tenor), Dave King (baixo elétrico) Ned Irving (bateria). É um daqueles eventos que nos faz imaginar como deve ter sido bom ter estado sentado na plateia.

Aproximadamente cinco anos depois, McCorkle pulou para a morte do 16º andar de um prédio em Nova York. Tinha 55 anos. Deixou uma carta para os familiares cujo teor nunca foi revelado. Fica o mistério. Era uma cantora prestigiada pelos críticos, lançando discos por um grande selo de jazz; por qual razão teria cometido um ato extremo como o suicídio?

Susannah, como Stacey Kent, saiu dos EUA, onde nasceu, e foi estudar na Europa. Stacey foi fazer literatura comparada na Grã-Bretanha; ela foi estudar literatura italiana. Ao contrário da maioria de suas colegas de profissão, tinha base acadêmica suficiente para aventurar-se pela ficção e para escrever sobre intérpretes como Bessie Smith, Ethel Waters, atrizes (Mae West) e compositores (Irving Berlin). [leia mais em http://bit.ly/1H3uaWP]

Ela era fluente em quatro idiomas, inclusive em português. Tinha paixão por Billie Holiday e pela música brasileira. Em Adeus, lançado pela Sonorama, canta uma canção de Haroldo Barbosa que apenas os que conhecem muito a nossa música poderiam saber de sua existência: Adeus América. Canta em bom português e em inglês com versão dela mesma.

Ouça. Perfeito. E com balanço.




Outra boa performance é cantando Pra Machucar Meu Coração, de Ary Barroso. É mais uma que não faz parte do repertório costumeiro do cancioneiro brasileiro que os estrangeiros cantam.

Ouça.





A vibração de Susannah no show em Berlim era a alegria do comprometimento com a sua arte. Na vida, a realidade era outra. É reveladora a afirmação de que era solitária e introvertida e que tornar-se cantora a fez encontrar a sua tribo, que era igualmente assim, mas eram grandes músicos de jazz.


Um bônus. Não é de Adeus. Ouça Águas de Março, com McCorkle. Está no álbum From Bessie to Brazil (1983)