John Lewis, Milt Jackson, Percy Heath e Kenny Clarke, e depois, Connie Kay, eram uns “coxinhas” com todas as letras. Apresentavam-se vestindo ternos bem cortados, impecáveis, quando não, formais tuxedos. Não foram os pioneiros nesse quesito. Na verdade, o jazz sempre foi elegante. É que o quarteto elevou isso a um patamar inédito. E não eram apenas na aparência. A música deles era a representação dessa elegância.
John Lewis, admirador de Johann Sebastian Bach, acreditava que a linguagem da música erudita era compatível com a do blues. Juntou o contraponto das composições do alemão com a improvisação do jazz. Era algo que, pela falta rótulo, inventaram um: jazz de câmera. A música deles emanava uma sobriedade que não combinava com lugares barulhentos como bares e clubes em que seus clientes enchiam a cara. Era música para sala de concerto.
O quarteto teve vida longa. Criado em 1951, durou até a saída de Milt Jackson, em 1974. Reuniram-se esporadicamente até 1993. O MJQ criou um estilo e este morreu com o fim da banda.
Aaron Diehl passou a ser conhecido depois de participar do concurso Jazz at Lincoln Center's Essentially Ellington, de onde saiu reconhecido como “outstand soloist”. Foi convidado por Wynton Marsalis para fazer parte de seu septeto. Não tinha 18 anos na época. Depois de gravar dois álbuns, assinou contrato com a Mack Avenue Records e lançou, em 2013, The Bespoke Man’s Narrative.
Neste disco, a formação instrumental é igual a do Modern Jazz Quartet. Aaron é admirador de John Lewis, mas afirmou que não é um tributo à banda. Mas, é impossível dissociá-los quando ouvimos o vibrafone de Warren Wolf tocando com Diehl. Há também outro dado que remete ao MJQ: o título. O sinônimo de “bespoke” é “tailored”. Deve ser uma referência aos ternos bem cortados de John Lewis & cia.
Mas o que Aaron diz é verdadeiro. Evidente que quando tocam The Cylinder lembraremos logo do MJQ; afinal, esta composição é um dos temas mais conhecidos da banda. Stop and Go, que vem depois de The Cylinder, também. Mas as restantes, não. Ou melhor, é possível que Forlane, de Le tombeau de couperin, de Maurice Ravel, lembre, mas por razões prosaicas: por ser um tema da música erudita.
Ouça o tombeau no belo arranjo de Aaron. O original tem cerca de seis minutos; o dele tem onze.
Dentre as composições de Diehl, o destaque é Generation Y.
Dos standards, os destaques são Moonlight in Vermont e A Single Petal of a Rose, um clássico ellingtoniano. Veja-o tocando essa música em apresentação no Dizzy’s Club.
Veja também em Moonlight in Vermont.
Diehl admira John Lewis. Compôs Three Streams of Expression em sua homenagem. Não está no álbum, mas veja-o tocando One Never Knows, um clássico do MJQ.
Aaron Diehl acaba de lançar mais um álbum: Space, Time, Continum. É muito bom, mas fica para uma próxima vez.
Bem entendido: os melhores da revista Downbeat são escolhidos por críticos de vários países e correspondem ao que acontece e é lançado de março, mais ou menos, presumo, até o março seguinte. Assim, alguns álbuns recentíssimos entram na lista com outros que saíram no ano passado.
A opinião da crítica nem sempre corresponde com a dos leitores. Imagina-se que os primeiros são mais “cultos” que a segunda turma. Estou neste grupo, portanto, menos informado, mas curioso. No texto de hoje, listo apenas os que foram considerados os 10 melhores álbuns do ano e alguns comentários..
Aos 10:
1. Rudresh Mahantappa, Bird Calls (ACT)
2. Steve Lehman Octet, Mis en abîme (PI)
3. Jason Moran, All Rise: A Joyful Elegy for Fats Waller (Blue Note)
4. Wadada Leo Smith, The Great Lakes Suites (TUM)
5. Chick Corea Trio, Trilogy (Stretch/Concord)
6. Kenny Barron/Dave Holland, The Art of Conversation (Impulse)
7. Vijay Iyer, Break Stuff (ECM)
8. José James, Yesterday I Had the Blues: The Music of Billie Holiday (Blue Note)
9. Brian Blade & The Fellowship Band, Landmarks (Blue Note)
10. Fred Hersch Trio, Floating (Palmetto)
A curiosidade – ou coincidência – é que Rudresh Mahantappa e Steve Lehman tocam saxofone alto. A música deles é sem concessões. Não é tão avant garde quanto Cecil Taylor, mas não é o tipo de som que vai agradar alguém que não está tão acostumado a ouvir música instrumental de improviso. O mesmo ocorre com as últimas incursões de Wadada Leo Smith. Com uma produção intensa, o trompetista anda compondo temas longos que podem ser consideradas “suites”. Esta última é até menos ambiciosa do que The Freedom Summers, composta de quatro CDs.
Ouça Lake Superior, de Leo Smith.
Ouça Segregated and Sequential, do octeto de Lehman.O vibrafone de Chris Dingman e alto de Steve nos lembra Eric Dolphy. A formação da banda, no entanto é diferente e conta com mais membros.
Entre os três, em terceiro na votação, está Jason Moran, considerado um músico também associado ao que designam genericamente como post-bop. Excelente compositor, não privilegia tanto composições próprias como os outros. É considerado um dos melhores pianistas da atualidade. Foi considerado “artista do ano” em 2011, e Ten foi eleito o melhor lançamento. Este All Rise é um tributo, e um complemento a um projeto em que está envolvido, ao grande Fats Waller. Como se percebe pelo título, Moran privilegia a alegria. Assim, a música é mais “fácil”. Não toca apenas o piano. Em várias faixas pilota um Fender Rhodes e também conta com vários cantores. E, para confirmar que o mundo é pequeno, Lehman é o saxofonista alto em All Rise.
Veja um pequeno trecho, em Montreal, relacionado ao Jason Moran's Fats Waller Dance Party.
O quinto lugar, para a nossa felicidade, ou seja, a de nós, menos “eruditos”, foi concedido a Trilogy, de Chick Corea. Com tanta coisa sendo lançada nos últimos anos deste pianista, ainda não ouvi este álbum. Aliás é o único que não conheço dos dez. Mesmo assim, acho que deve ser bom. Pelo que leio agora, toca com Christian McBride e Brian Blade, o que já é uma recomendação.
É deste baterista o álbum que ficou em nono lugar. A primeira vez em que me chamou a atenção foi em um show em DVD de Joni Mitchell. Fiquei fascinado com a sutileza do seu modo de tocar um instrumento em que, normalmente, privilegiam a força bruta e o barulho. Quando conheci seu primeiro solo – Brian Blade Fellowship (Blue Note, 1998) – fiquei mais impressionado ainda. A sua música é sofisticada e densa, rica em matizes sonoros. Um dos responsáveis por esse colorido é o pianista Jon Cowherd, muito bom. Blade nunca excede no volume. Deve ser a bateria mais tonal do planeta.
Ouça Friends Call Her Dot, de Landmarks.
Vijay Iyer é o pianista da vez. É o “artista do ano” de 2015 pela Downbeat. Merecido. Grande músico, é um dos xodós da crítica. Tem grandes discos no currículo: Raw Material, duo com Rudresh Manhatappa, Historicity (ACT, 2009), Solo (ACT, 2010), Accelerando (ACT, 2012), considerado por muitos críticos o melhor naquele ano, e os mais recentes Mutations, o primeiro na ECM, e Break Stuff, o mais recente, que ficou em sétimo.
Assista ao vídeo promocional da ECM.
Kenny Barron é um dos melhores pianistas atuais. Sem o protagonismo de Keith Jarrett e nem tão associado à avant garde como Jason Moran e Vijay Iyer, inscreve-se na história dentro da tradição que nos legou Hank Jones, Wynton Kelly, Ray Bryant e Hank Jones. O que não o torna tão incensado é o fato de preferir executar composições próprias e menos batidos standards.
Mesmo daqui a 50 anos, Dave Holland vai estar entre os dez grandes baixistas da história. É também grande compositor. Inglês, portanto, um pouco fora do circuito principal, tocou com Miles Davis, na mesma época de outro conterrâneo: John McLaughlin. Fora da banda elétrica de Miles, construiu sólida carreira com ótimos álbuns pela gravadora ECM.
Pois Barron e Holland se juntaram para fazer um dos grandes discos do ano: The Art of Conversation. Os dois juntam talento, elegância e beleza. A harmonia entre eles é algo especial. Na minha lista, estaria entre os três melhores do ano.
Veja uma apresentação deles no La Villette.
O álbum que ficou em oitavo, ficaria facilmente dentre os meus três melhores. José James é o melhor cantor da atualidade. Mais uma vez, a crítica não acha o mesmo. O primeiro foi, de novo, Gregory Porter (sobre ele, leia http://bit.ly/UjCi2R). Yesterday I Had the Blues é o melhor álbum lançado em homenagem aos 50 da morte de Lady Day. Sobre ele leia: http://bit.ly/1NHLW4i, http://bit.ly/1DkXQRS e http://bit.ly/1Are1GR.
Quer a prova? Ouça Body and Soul com ele.
Ouça Strange Fruit. Genial.
Ouça também Tenderly.
Bom, não posso deixar de falar do décimo. Fred Hersch é um sobrevivente. Literalmente. Portador do vírus HIV, em 2008, ficou dois meses em coma, e sobreviveu. Mesmo acometido pela doença, nunca parou de tocar. É um tanto impressionante ver aquela criatura frágil aproximar-se do piano. Fui espectador por uma vez. Mas quando senta-se e toca as primeiras notas, agiganta-se. É um dos bons acompanhantes de cantores da atualidade; e é craques no formato trio. A enfermidade é um detalhe na sua vida. Gravou quase uma centena de discos. Floating, que ficou em 10º, é o mais recente.