sexta-feira, 29 de abril de 2011

As “sophisticated ladies” de Charlie Haden

Um início como esse é infalível. Melody Gardot canta If I’m Lucky (Edgar De Lange e Josef Myrow). É uma intérprete que vai se firmando com muita propriedade. Tem uma voz envolvente, é dramática na medida certa, como algo prestes a explodir, mas não explode; contém-se. [sobre ela, leia em http://bit.ly/gkVOri]

A próxima é o que dá o plot do CD: Sophisticated Lady, instrumental. É pessoal: tenho algum problema em relação ao saxofone de Ernie Watts; confesso minha dificuldade de gostar de seu sopro; acho meio despersonalizado. As referências de juventude – paixões pela trinca Lester Young/ Coleman Hawkins/ Ben Webster – atrapalharam em avaliações posteriores quanto aos tenores. Preconceito é preconceito; quem não os tem? A outra “bronca” era com Norah Jones. Deixei de ter. A bronca, creio, foi mais pela forma de que foi “vendida” para o público. Norah tem aquela voz que parece cantada por alguém que está deitado do seu lado numa noite calma de meia-estação. Seu Ill Wind, em vez de ser “ill”, é suave. Sem ser uma crítica, Norah é um pouco monocórdica. É seu jeito de cantar e, pronto.

Charlie Haden começou tocando, em 1957, com o pianista Hampton Hawes, porém tornou-se conhecido tocando com o revolucionário Ornette Coleman. O baixista é um artista multidirecional: foi, ou é free, modal, country folk e – sem isso serem gêneros –, marxista, engajado (foi expulso de Portugal por ter falado mal do ditador António Salazar num Festival de Jazz em Estoril, quando este senhor governava com mãos de ferro), e nostálgico: tem a ver com alguma coisa ser nostálgico e ser marxista ao mesmo tempo? Desculpe-me pela ironia: ser marxista e nostálgico não é um pleonasmo?

O lado nostálgico de Haden é o Quartet West (CH, baixo; Alan Broadbent, piano; Ernie Watts, sax tenor; Larance Marable, bateria – no começo foi Billy Higgins), criado em1987. Para quem gosta de música dos anos 1930-50 é um prato cheio. Os discos lançados são aulas magistrais de bom gosto. Os arranjos de Broadbent mesclam o som do quarteto com o da orquestra. São, basicamente, baladas. Haden e o pianista inseriram trechos de registros antigos de cantoras como Billie Holiday e Helen Forrest, e os resultados são pra lá de interessantes. Com frequência, somos levados a montar um cinema imaginário noir ouvindo as músicas do Quartet West, visualizando louras de olhares esgazeados e homens com seus costumes impecáveis envoltos por névoas, em jogos visuais de claros/escuros.

Nos primeiros, as cantoras eram “ressuscitadas” e mixadas nas performances do Quarteto. Sophisticated Ladies é o segundo em que há cantoras vivas convidadas. O primeiro foi Art of the Song (1999), com as participações de Shirley Horn – já morreu – e Bill Henderson. No recente, além das duas citadas acima, há Cassandra Wilson cantando My Love and I; Ruth Cameron, mulher de Haden e cantora ocasional, com Let’s Call It a Day; Diana Krall (Goodbye); e a cantora lírica Renée Fleming (A Love Like This).

Reconheça-se que Art of the Song é mais estruturado, mas esse último não deixa de ser um belo disco. De um tempo para cá, resolveram falar mal de Diana Krall – muita gente odeia aquelas que ficam muito conhecidas e caem demais no gosto popular –, mas é ainda uma cantora classuda e, pronto. Outra classuda é Cassandra Wilson, convenha-se, apesar dos rompantes experimentalistas em seus discos solo. O tom grave de sua voz é pura presença e pede silêncio quando a ouvimos. A melhor surpresa, no entanto, é Renée Fleming. É ela que vamos ouvir.





Ouça Melody Gardot cantando If I’m Lucky.




Para a felicidade dos brasileiros, o CD foi lançado aqui.


quarta-feira, 27 de abril de 2011

Andam falando muito de The Vaccines

Andam dizendo que são os novos Strokes; e que o CD lançado se chama What Did You Expect The Vaccines? Não vi ainda nas lojas brasileiras. Porém, ouvindo esses ingleses no que está disponível na internet, pelo menos uma canção é candidata a uma das melhores de 2011. A música é Blow It Up.

Vejam os Vaccines em apresentação no Late Live, de Jools Holland.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Nunca é tarde para alguém como Denise Donatelli

Denise Donatelli
No universo coalhado de cantoras um recurso que pode diferenciá-las do resto é fugir um pouco do repertório repetido à exaustão dos standards. É um território conhecido que tem muitos apreciadores, mas devido a quantidade de intérpretes que resolvem trilhar por esse caminho, ser diferente em alguma coisa, ajuda. É o caso, por exemplo de Tessa Souter (sobre quem escrevi: http://bit.ly/gFpJBu), Cassandra Wilson (leia: http://bit.ly/eBVKcb, http://bit.ly/f1fEZg, http://bit.ly/fpHP6i) ou Lizz Wright. Esta última, contratada pela Verve Records, tem um repertório bem crossover, mas é presença constante em festivais de jazz.

Outro recurso interessante é diferenciar-se nos arranjos, fugindo um pouco do formato piano, baixo e bateria. É o caso de Denise Donatelli. Em seu terceiro disco, When Lights Are Low, para cada faixa gravada há um diferencial. O responsável, em parte, por isso, é a associação com Geoff Keezer (http://bit.ly/gY6cyA), pianista, arranjador e produtor desse disco. É o segundo álbum gravado pela Savant Records, e o segundo com Keezer.

Donatelli nasceu num lugar ermo, zona rural, fora da cidade, no estado da Pensilvânia. Graças à “família musical”, aprendeu piano desde criança. Os quinze anos de aprendizado são um bom background para uma das melhores qualidades dela: o senso rítmico, boa colocação de voz, entonação impecável. Tem um domínio do canto que encanta os músicos de jazz. E isso não é razão para ficar em scats desnecessários como o de algumas intérpretes que, para parecerem “jazzísticas”, usam desses recursos de forma equivocada. Ninguém é Ella Fitzgerald ou Betty Carter apenas porque faz scats.

Denise, antes de abraçar a carreira de cantora, foi dona de casa. Sem deméritos. Preferiu criar os filhos primeiro. Quando tinha resolvido se tornar uma cantora profissional, uma vez, quando já morava em Atlanta, arriscou cantar em uma apresentação do guitarrista Russell Malone (para quem não o conhece, antecedeu Anthony Wilson na banda de Diana Krall). Apresentava-se, três vezes por mês no Ritz Carlton. Freddy Cole era frequentador assíduo e tornouse amigo dela. Mais tarde, foi apresentada, pormeio de um amigo em comum, a Neal Hefti. Foi o empurrão que faltava. Gravou o primeiro disco: In the Company of Friends.

O “pulo” foi conhecer Geoff Keezer. Em When Lights Are Low (2010), alterna standards como It’s You or No One (J. Styne / S. Cahn), Don’t Explain (Billie Holiday / A. Herzog), I Wish I Were in Love Again (Lorenz Hart / Richard Rodgers), canções mais contemporâneas como Big Lie, Small World (Sting), e inclui os brasileiros Ivan Lins [Kisses (Cantor da Noite)], e Roberto Menescal (The Telephone Song), aliás muito boa e  uma amostra de que sabe cantar com balanço. Em Telefone, é acompanhada apenas pelo violão de Peter Sprague e Jon Wikan, no pandeiro.

Para cada canção, Keezer tem uma concepção diferente. A primeira – It’s You or No One – é básica, acompanhada por um trio mais a guitarrra, mas é uma boa introdução para mostrar as habilidades vocais de Donatelli e o piano de Geoff. A segunda faixa é um Don’t Explain excepcional. Entra a originalidade do arranjo. A música é tão conhecida e tão gravada que, fazer algo sobre o tão explorado, é o que faz Geoff, acrescentando o flugelhorn (Ingrid Jansen), três violas, um contrabaixo e um violoncelo.

Keezer tem outras cartas na manga: em Big Lie, Small World, Julia Dollison e Kerry Marsh fazem um belo vocal que lembra em muito as harmonias do Singers Unlimited. Forward, Like So tem a intervenção, novamente de Julia (compositora dessa canção) e Kenny Marsh, com o acréscimo de Keezer tocando o Fender Rhodes.

Vale conhecer Denise Donatelli. Veja o video disponibilizado por sua gravadora Savant.