A descoberta de uma obra desconhecida de Leonardo Da Vinci será sempre um acontecimento; uma gravação inédita de John Coltrane, também. Sem comparar a importância de cada um, vamos considerar que um fanático pelo saxofonista, falecido em 1967, e nem um pouco interessado em artes plásticas, deve estar babando a ouvir sem parar “Both Directions at Once: The Lost Album”.
O título é uma brilhante sacada. Aquele dia de março de 1963 foi único: não foi o anterior nem o posterior, mas aponta para o passado e o futuro ao mesmo tempo. O agora é único e foi descoberto por Juanita Coltrane, sua primeira mulher. Era uma fita que tinha ficado com o artista daquela sessão. Foi oferecida à Impulse, sua gravadora à época e, atualmente, do grupo Universal.
No pouco tempo de vida – morreu com 40 – Coltrane, de sideman de Miles Davis, virou figura de proa, depois que passou a gravar como líder para o selo Prestige, Blue Note e, principalmente, para o Atlantic. São considerados jazz standards, dessa fase, “Naima”, “Giant Steps”, “Spiral”, “Countdown”, “Cousin Mary”, “Central Park West”, e é um clássico a sua interpretação de “My Favorite Things” ao sax soprano, pouco utilizado no jazz, à exceção de Sydney Bechet.
Quando Coltrane passou a explorar novas formas, mestre na improvisação das formas modais, como havia demonstrado em “Kind of Blue”, de Miles Davis, e em seus álbuns como líder, foi considerado “anti-jazz”. Tocou com o avant garde Eric Dolphy, ficara impressionado com John Gilmore, saxofonista da banda de Sun Ra, e interessara-se pela música indiana.
Com um pé no passado e outro no futuro, que nem ele sabia no que podia dar – deu em “A Love Supreme” –, fez das inúmeras apresentações no Village Vanguard, em Nova York, seu laboratório de experimentações, como ficou bem demonstrado no álbum ao vivo gravado lá em 1961. O futuro estava esboçado, mesmo com a predominância dos improvisos modais cheio de cores e texturas melódicas, com uma formação única, com McCoy Tyner, Jimmy Garrison e Elvin Jones, acrescidos de Eric Dolphy, no sax alto e clarineta baixo, Garvin Bushell, no oboé e fagote, e Ahmed Abdul-Malik no oud. Mais tarde, foi lançada uma edição expandida com 4 CDs das apresentações de 1961 e fica evidente que explorava novos rumos.
Saíram matérias com destaque em jornais brasileiros, coisa rara em se tratando de jazz, gênero de baixa popularidade, vamos dizer a verdade, sobre “Both Directions at Once: The Lost Tape”. Bom, assim como Miles Davis, dentre os mortos, ou Keith Jarrett, dentre os vivos, e nunca Vijay Iyer ou Cécile McLorin Salvant, imagino que ainda causem algum interesse ao leitor não especializado. Em “O Estado de S. Paulo”, o título da matéria é “Grande Achado do Jazz”. Na Folha de S. Paulo, o título da matéria assinada por Carlos Callado, é menos bombástica: “Pequeno tesouro, novo disco de John Coltrane soa perturbador”. Menos triunfal, escreve: “Mesmo que soem aquém de consagradas obras-primas do músico, gravações ainda causa grande impacto.”
Na minha opinião, interessam mais àqueles referidos no primeiro parágrafo. Imagino que Coltrane ficou com as fitas em casa e esqueceu dela. Algumas faixas são conhecidas, como os vários takes de “Impressions”. É interessante ouvir para comparar as diferentes abordagens em cada um. Das faixas sem nome, identificadas por números, e inéditas, consequentemente, uma delas se destaca. É a “11386 - take 5”. É muito boa. Infelizmente, a única disponível é o “take 2’. Ouça.
Ouça um dos takes de “Impressions”.
O único standard é “Nature Boy”. Ouça.
Os diretores da Impulse certamente desejavam uma continuidade do que estava fazendo na Atlantic Records. Alguns álbuns, como “Ballads”, John Coltrane & Johnny Hartman” e “Duke Ellington & John Coltrane” seguiam pela seara mais mainstream, pelo seu “gentle side”, mas o saxofonista, mesmo na Impulse, enveredava por novas sonoridades.
