Fosse seu nome “Torn”, aí estaria um bom gancho para descrever algo da música de Tracey Thorn. Mas há um “H” no meio do caminho. Assim, muda bem: “espinho”.
O que caracteriza uma das partes de Everything But the Girl? E sua contraparte? É uma dupla complementar, tanto na vida musical e na vida cotidiana, já que são casados e parecem inseparáveis, como seres siameses. Mas tanto Ben Watt como Tracey têm gravado álbuns sob seus nomes e não mais como EBTG. Há, no entanto, algo de indissociável.
A voz de Thorn é inconfundível. Em colaborações com o Massive Attack, o Working Week (We Will Win, aka “Venceremos”), Style Council, sua voz dá aquele “plus” mais que especial.
No lançamento mais recente, Thorn é a voz e compositora de temas para o filme The Falling, da diretora Carol Morley. O drama é sobre um estranho fenômeno ocorrido no fim dos anos 1960: em uma escola inglesa estritamente feminina acontece um surto de desmaios inexplicáveis. Seria um bom tema para David Lynch. Lembra também Piquenique na Montanha Misteriosa (Picnic at Hanging Rock, 1975),de Peter Weir, autor de A Testemunha, de sua fase australiana. Meninas saem para uma excursão. Elas saem para explorar o lugar. Todas desaparecem, menos uma, que não lembra o que aconteceu. Como em The Falling, acontece algo inexplicável, como um surto coletivo.
Com um tema como esse, a cabeça de Thorn deve ter viajado. E é o que acontece. Sem ao menos ter visto o filme, compôs oito temas que não totalizam mais que 20 minutos. E o resultado é algo mágico, hipnótico, “weird”, como diriam no hemisfério norte. Tracey Thorn nos propicia momentos de magia e estranheza com sua voz sempre melancólica e enigmática.
Um bom programa para amanhã, 10 de junho, é a apresentação de Avi Avital, na Sala São Paulo. É parte da programação da Série TUCCA de Concertos Internacionais. Esta entidade existe há 15 anos e dedica-se à pesquisa e à assistência de crianças e adolescentes carentes com câncer.
Fora o belo trabalho que desenvolvem, essa associação é responsável por um dos melhores programas de concerto do Brasil, mais interessantes até do que o da Osesp, por ter um foco também em outros gêneros, além da música erudita. Para se ter uma ideia, depois de Avi Avital, estão programadas apresentações de Miloš Karadaglić (9 de setembro), um dos melhores violonistas da atualidade, Alice Sarah Ott e Francesco Tristano (14 de outubro), pianistas que acabam de lançar o belo Scandale (Deutsche Grammophon, 2014), e, em 11 de novembro, a do quarteto de Gerald Clayton, com Cyrille Aimée e Sachal Vasandani, dois cantores “rising stars”.
É evidente que o foco dos programadores da série da TUCCA é outro, pois o da Osesp é mais específico. Essa liberdade propicia ao público conhecer novos nomes. Avital, Karadaglić, Ott e Tristano não são estranhos àqueles que acompanham a música clássica, pois são contratados de Deutsche Grammophon, que há muito vem apostando em repertórios mais ecléticos, misturando o popular com o erudito.
Avi AvitalO mandolin – ou bandolim, como é conhecido no Brasil – surgiu por volta de 1750 e, apesar de razoavelmente popular, nunca foi muito utilizado na música erudita. Do pouco que se conhece, a obra mais conhecida que o utiliza, é o Concerto de Mandolin, RV 425, de Antonio Vivaldi. Conforme publicações especializadas, foi usado também, nunca como solista, por Beethoven, Mahler, Schoenberg e Mozart. Na conhecida Canção da Terra (Das lied von der Erde), de Mahler, o bandolim é utilizado brevemente.
Na esfera do popular, ele e suas variantes, como o banjo e o mandolim elétrico, são populares nas músicas country e folk americanas e acredito que também na Europa Central. No Brasil é o instrumento muito usado no choro. Cooperaram para a sua popularidade Jacob do Bandolim, Joel Nascimento e Déo Rian. Dentre os atuais, o grande nome é Hamilton de Holanda. É um dos músicos brasileiros com maior prestígio internacional atualmente. O Que Será?, com o italiano Stefano Bollani, lançado pela ECM, mereceu elogios empolgados tanto dos críticos como do público apreciador da música instrumental. (leia e ouça em http://bit.ly/1MgoefE)
O israelense Avi Avital, nascido em Beersheba, cidade do sul do país, começou a tocar o bandolim com sete anos e logo foi estudar em Jerusalém e depois, em Pádua, escolha lógica, pois a Itália é o berço desse instrumento. Em razão de poucas peças compostas para ele, seus estudos voltaram-se às transcrições, principalmente de obras para o violino.
Seu primeiro álbum lançado pela Deutsche Grammophon, intitulado, simplesmente, Bach, é composto por três concertos e duas sonatas do alemão. São transcrições muito interessantes e perfeitamente adaptadas ao bandolim. Ouça o Concerto BWV 1052R.
Veja Avital executando o Primeiro Movimento da Cello Suite nº1. Acho que não há nenhum registro em disco dessa peça.
Ano passado, Avital lançou o álbum Vivaldi, dedicado ao veneziano, compositor das peças mais conhecidas da música clássica e também autor de uma das poucas para o bandolim, o Concerto em Dó maior, RV 425. E nada melhor do que ser acompanhado pela Venice Baroque Orchestra ao homenagear o “il prete rosso”.
Pode-se dizer que Avi é uma estrela, guardando-se as proporções e não se comparando aos ídolos do rock. É jovem, carismático e transita pelo crossover, algo entre o clássico e o pop. Ser indicado ao Grammy atesta o quanto é conhecido. Ser popular tocando música erudita significa que você está no nível de um André Rieu? Errado. Em muitos casos, o aumento da popularidade está relacionada a um empobrecimento musical. Mas não é esse o caso, nem de Avi, nem de outros como Daniel Hope. O perigo, no entanto, pode estar próximo.
Veja Avi com a Venice Baroque Orchestra no Concerto para Bandolim.
Um destaque, devido a sua popularidade, é Quatro Estações. Ouça um dos movimentos de Verão.
Pelo mundo O álbum mais interessante, no entanto, considerando-se que a seara de Avital é o crossover, até por conta de o bandolim não ser um instrumento de concerto muito utilizado, é Between Worlds (DG, 2014). Ele explora o repertório erudito, tocando composições de Manuel De Falla, Vittorio Monti, Heitor Villa-Lobos e Béla Bartók. Mais interessante, no aspecto “world”, são as execuções de composições da Geórgia, Bulgária, não deixando de incluir uma composição de sua conterrânea Ora Bat Chaim. Dos “exemplares” étnicos, uma bem interessante é a búlgara Bučimiš.
Avital fala sobre Czárdás, de Vittorio Monti, que é executada com Richard Galliano.