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terça-feira, 23 de abril de 2013

Céu de brigadeiro na vida de Pat Metheny

Pat Metheny e Toninho Horta (ac Museu Clube da Esquina)
Pat começou a despontar no quinteto de Gary Burton. Participou de Ring (ECM, 1974) e Dreams So Real (ECM, 1975). São dois belíssimos álbuns de uma banda composta de duas guitarras, a dele e a de Mick Goodrick.
O rapaz era tão bom que lhe foi dado a chance de gravar um disco sob seu nome. Bright Size Life (ECM 1975) é um clássico. É excepcional em vários sentidos. Primeiro, pela qualidade dos músicos. A guitarra de Metheny é única e o baixista, bem, nem é preciso falar. Jaco Pastorius é outro que “reinventou” o som do baixo elétrico. Os dois gravaram juntos pela primeira vez acompanhando o pianista Paul Bley em disco lançado em 1974 pela Improvising Artists. A partir daí, foi só céu de brigadeiro. Ao sabor dos ventos, em cada disco lançado experimenta viajar por caminhos diferentes.

Ouça Bright Size Life na íntegra. Obra de arte.




Sendo o primeiro solo e tão bom, ficou a pergunta se conseguiria realizar outros com a mesma qualidade ou melhores. Quase chegou lá com Watercolors (1977). Diferentemente do anterior, solar, este é melancólico. É também o início de uma parceria profícua com o tecladista Lyle Mays. Nesse tempo em que ficou contratado pela ECM gravou um disco solo, só nos violões, guitarras e baixo (New Chatauqua, 1979), um duo com Mays e participação especial de Naná Vasconcelos (As Falls Wichita, So Falls Wichita Falls), outros como o Pat Metheny Group (1978), Offramp (1981), Travels (1983), First Circle (1984) e American Garage (1979). Este vendeu bastante e é o disco mais “roqueiro” de Pat.

Ouça As Falls Wichita, So Falls Wichita Falls, com Pat Metheny nas guitarras e baixo, e Lyle Mays nos teclados. É muito bom!




Além desses, gravou um duplo excepcional – 80/81 –, com Michael Brecker, Dewey Redman, Charlie Haden e Jack DeJohnette, e Rejoicing (1984), com Haden e Billy Higgins. Já na nova gravadora, a Geffen Records, com Haden, Ornette Coleman, Jack DeJohnette e Denardo Coleman, lançou o excepcional Song X. Naturalmente, as composições são do saxofonista, sendo quatro das oito em parceria com Pat. Atualmente, grava pela Nonesuch.

Muito ativo, Pat gravou muitos álbuns em que não é o líder sozinho. É uma constelação de nomes da primeira linha do jazz: Joshua Redman, Sonny Rollins, Michael Brecker, Charlie Haden, John Scofield, Jim Hall, Michael Brecker, Anthony Braxton, Herbie Hancock, Dave Holland, Dave Liebman e Brad Mehldau, dentre outros. Seu amor especial pelo brasileiro está impresso em gravações com Toninho Horta, Milton Nascimento, Ricardo Silveira, Túlio Mourão e Leila Pinheiro.

Ouça Prato Feito, de Toninho Horta e Ronaldo Bastos, com a participação de Metheny.



terça-feira, 9 de outubro de 2012

O “Duos III”, de Luciana Souza

Foto de Bob Wofelson, bela capa de Kiko Farkas
Sempre lembro de histórias do Carlos Conde. Não sei se a que vou contar já foi contada por mim. Como tantas que divertiam seus amigos por conta de suas idiossincrasias e particularidades, essa também tem seu lado engraçado. Em um dos festivais de jazz, em São Paulo, Luciana Souza estava dando sopa no saguão do teatro, depois de terminadas as sessões, muito simpática, autografando discos, conversando com os fãs. O Alberico Cilento, muito amigo do Conde, sabendo da “mania” dele de colecionar autógrafos, perguntou se não ia pedir um para ela. O Conde respondeu: “Mas ela é muito nova.”

Ele tinha uma infinidade de discos autografados, desde a época dos LPs. A dezena de discos com autógrafos foram conseguidos quando eu estava com ele. Normalmente, nos shows levava os LPs e os CDs em um envelope e, findas as apresentações, ia ao camarim conversar com os músicos e pedir autógrafos. Bom papo, sempre tinha do que conversar com eles devido ao enorme conhecimento que tinha do jazz. Eu, bem mais tímido que ele, passei a levar os encartes dos CDs dos artistas no bolso e, aproveitando da situação, pedia também.

A parte engraçada do “mais ela é muito nova” se devia a um motivo bem particular. Cliente dos bons da Jazz Record Center, o melhor lugar para se adquirir discos, cartazes, revistas e souvenirs relacionados ao gênero, descobriu que aqueles autógrafos poderiam se transformar em dólares. Como ia com frequência – umas duas vezes por ano a Nova York –, ficara amigo do dono, o Fred Cohen. Em uma das ocasiões em que fui à loja, que fica em um lugar escondido no Chelsea, no oitavo andar, o Fred perguntou pela saúde do Conde, sabendo que ele estava doente. Era um dos bons clientes do Fred.

Lembro dessa história, agora quandoé lançado o álbum Duos III, de Luciana. Estabelecida há muito tempo em Nova York, é um nome bem conhecido e consagrado. No último “Melhores do Ano”, da revista Downbeat, foi considerada a décima melhor cantora. Não é pouco. Num universo concorrido em que o que não falta é cantora, é uma boa classificação, principalmente por interpretar mais em português do que em inglês. Para se ter uma ideia, dentre as vinte melhores, quase todas são americanas, canadenses ou inglesas. As exceções são Roberta Gambarini – italiana –, e Claudia Acuña – chilena.

Em seu Duos III, os “outros” são os brasileiros Toninho Horta, Marco Pereira e Romero Lubambo. As atuações dos violonistas são divididas democraticamente em quatro num total de doze faixas. Toninho toca em Pedra da Lua, Tim Tim por Tim Tim, Inútil Paisagem e Beijo Partido; Marco Pereira em Chora Coração, Dona Lu, Eu Vim da Bahia e Mágoas de Caboclo; e Romero Lubambo em Doralice, As Rosas Não Falam, Lamento Sertanejo/ Maçã do Rosto e Dindi. O repertório bem conhecido.

Toninho Horta sempre imprime sua marca ao violão. Possui uma levada só dele, muito especial. É o único que participa nos vocais, fazendo um belo vocalise em Pedra da Lua. Participa com duas composições próprias: além desta, Beijo Partido. Pereira também tem uma sua, sem letra, apenas com vocal de Luciana, e a música se chama Dona Lu; acho que não é para dona Lu Alckmin. Marco, dos três, é o mais clássico. É da tradição dos grandes virtuoses do violão no Brasil. Lubambo, desde 1985, mora nos EUA e, além do trabalho solo, tocou e gravou com Paquito D’Rivera, Dianne Reeves, Astrud Gilberto, Dizzy Gillespie, Herbie Mann, Michael Brecker, Al Jarreau e Dave Douglas.

Duos III é um disco muito agradável de se ouvir, intimista. Ela é afinada, mas parece muito contida. Sempre foi assim. Não empolga, bom, essa é a minha opinião e nem todos precisam concordar. Mesmo quando canta mais “balançado”, como Maçã do Rosto, de Djavan, não é daquelas que nos faça sair dançando pela sala. Sem ser uma crítica e, já que comecei, acho que os americanos deviam conhecer Monica Salmaso.

Como sou fã de carteirinha de Toninho Horta, acho que você deve ouvir Pedra da Lua. (Sobre ele, leia O céu mais lindo do Brasil, TH, um talento pouco reconhecido? , TH e espinha de peixe)


Outro belo destaque é Mágoas de Caboclo, com Marco Pereira.

Nota: Todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.

Ouça Luciana e Toninho Horta em Pedra da Lua.

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Agora, bom mesmo é Mágoas de Caboclo, com Orlando Silva. Essa é imperdível.

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sexta-feira, 15 de abril de 2011

Toninho Horta e a espinha de peixe

Encerrado o evento de lançamento do CD Harmonia e Vozes (Minas Records, 2010) e do livro Toninho Horta - Harmonia Compartilhada, escrito por Maria Tereza R. Arruda Campos, na Livraria da Vila da rua Fradique Coutinho, SP, ambos foram jantar num restaurante das proximidades, o Pasquale. Lugar de comida sem muitas frescuras, italiana, naturalmente, tem de ótimos antepastos que podem ser pedidos em porções de 100 gramas, de contumazes frequentadores. Apesar de cheio, deram sorte, e sentaram-se numa mesa redonda, suficientemente grande para alojar os dois e mais umas doze pessoas.

Pediram uma rodada de cerveja para brindar o sucesso do evento. Toninho falava de suas viagens, da gravação que iria fazer em Nova York com o baixista Rufus Reid, do carinho que os japoneses tinham por ele. Mas a história mais curiosa foi a de uma certa espinha de peixe que lhe tirou uma noite de sono. Na última vez em que fora ao Oriente, passou por Bali, na Indonésia. O jantar aconteceu no fim de 2010, portanto, é possível que o relato peque por uma certa inexatidão.

Cape Horn foi lançado no Brasil e encontra-se esgotado
Em Bali, foi muito bem recebido e um senhor de lá, riquissimo, o levou a um restaurante localizado na praia de Jimbaran, bem próximo ao resort da rede Four Seasons. Era um grupo grande de pessoas. Esse senhor pediu um mundareu de pratos de lagosta e frutos do mar, especialidade do lugar. Toninho, mineiro cosmopolita, nunca gostou de moluscos e congêneres, mas adora um peixe; e era o que estava comendo. A conversa rolava solta, animada, e Toninho, subitamente parou de falar: tinha engasgado com uma espinha de peixe. O que poderia ser corriqueiro, deixou de ser. A espinha entalou. A dona do restaurante veio com miolo de pão e o aconselhou a engolí-lo; o outro batia-lhe nas costas; ele tossia, e nada da espinha sair. O jantar foi abreviado e seu anfitrião resolveu levá-lo a um pronto socorro. O médico de plantão deu uma examinada e diagnosticou que nada podia fazer pois a espinha não estava na garganta, e sim, pouco abaixo. Nem doía tanto, mas não conseguia falar, pois logo que soltava a voz, tossia desesperadamente, engasgado com aquele objeto estranho ao corpo humano.

Sem solução possível, pelo adiantado da hora, voltou ao hotel. A irmã Gilda, que o acompanhava na viagem o aconselhou: “reze para que a espinha saia e durma”. Foi o que tentou fazer, mas a espinha não o deixava dormir. Passou a noite desperto e, quando o dia estava a raiar, vencido pelo cansaço, dormiu, por muito pouco tempo. No primeiro acesso de tosse, milagrosamente, seu corpo venceu a espinha. Pegou-a na mão. Nem era tão grande. Hoje, a espinha anda junto dele, na carteira, guardado num pequeno invólucro de plástico transparente. É o seu souvenir de Bali.

Fique com Toninho, em parceria com Arismar do Espírito Santo, craque polivalente, em Beijo Partido, interpretação instrumental contida no CD fora de catálogo Cape Horn.



sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Beto Guedes, Danilo Caymmi, Novelli, Toninho Horta

Contracapa do Lp
Amparados pelo sucesso de Milton Nascimento e seu Clube da Esquina, alguns de seus membros gravaram um disco pela EMI, em 1973. Com o nome Beto Guedes / Danilo Caymmi / Novelli / Toninho Horta, algumas das composições que seriam novamente gravadas, foram registradas nessa produção: Caso Você Queira Saber, de Beto Guedes foi registrada com Norwegian Wood (Lennon & McCartney) num compacto simples (era o “EP” da época, mas em vinil), com Milton Nascimento, e depois, fez parte de Minas reeditado, com faixas bônus –, e Manuel, o Audaz, de Toninho Horta, entre eles. Deve ser difícil encontrar esse Lp, mesmo em sebos, e o pior, não foi lançado em CD. Uma ótima opção é baixá-lo pelo blogue Loronix – http://loronix.blogspot.com/2006/10/beto-guedes-danilo-caymmi-novelli-e.html.

Não é preciso dizer muito desse belo disco. Na primeira faixa – Caso Você Queira Saber – Beto Guedes toca violão – a guitarra é de Frederiko –, bateria e canta. Não é uma pena  esteja tão afastado da música? Toninho Horta e Danilo Caymmi continuam mandando, e o Novelli anda meio sumido. É interessante ouvir um disco de 1973 e ver o quanto a linguagem musical de cada um foi se transformando. Ouvimos uma flauta a la Ian Anderson, líder da banda de rock progressivo Jethro Tull. É de Danilo. Em Belo Horror, composição de Beto, Flavio Venturini, Marcio Borges e Vermelho, a flauta “psicodélica”, os teclados de Venturini e Vermelho, o baixo marcado junto com a bateria, a guitarra de Beto e as mudanças de clima que vão ocorrendo no decorrer dela, ajudam a criar uma atmosfera “viajante”. É bem sinal dos tempos em que foi gravada. É a faixa mais diferente.

Vamos de Belo Horror.