sexta-feira, 1 de abril de 2011

Jeff Beck provoca comoção e emociona

Pode-se dizer que o CD Emotion & Commotion vai por três vertentes conceituais. Uma serve como homenagem a Jeff Buckley, morto precocemente em 1997, a segunda, voltada a alguns clássicos do jazz e do blues (Over the Rainbow, I Put a Spell on You, de Screamin’ Hay Hawkins), e à música erudita (Nessum dorma, ária “carne-de-vaca”, mas uma das mais belas do repertório operístico, de Turandot, de Puccini). Há uma quarta vertente, na verdade, que são as composições próprias com Jason Rebello, tecladista da banda faz um bom tempo.

O cabelo e a energia de Jeff Beck continuam iguais
Antes de conhecer esse álbum mais recente de Beck, que estava sem gravar há sete anos, li uma crítica comparando-o com outros lançamentos ditos “crossover”. A partir da amostragem da ária de Puccini ou a composição de Britten, fica longe dessa classificação, pelo menos da forma de como entendo o que chamam de “crossover”. Tal rótulo cabe melhor em alguns álbuns gravados por Elvis Costello e Sting para o selo Deutsche Grammophon. Elegy for a Drunkirk, composição de Dario Marinelli, que fecha o disco, é o que tem mais essa “coloração crossover” por conta da base orquestral imponente sob a bela interpretação vocal de Olivia Safe e um solo pungente do inglês.

Emotion & Commotion, se não é páreo em relação a Blow by Blow, é um disco que não pode ser ignorado. A banda ajuda: Vinnie Colaiuta na bateria, Rebello nos teclados, e a ninfeta genial Tal Wilkenfeld no baixo. Ajudam as participações especiais de Joss Stone, Olivis Safe e Imelda May (será que a mãe era uma admiradora de Imelda Marcos).

A inclusão de Corpus Christi Carol, do conterrâneo Britten, é mais por conta do “referencial Buckley”, que a gravou em Grace. A outra é Lilac Wine, conhecida originariamente na voz de Nina Simone. A de Buckley, em Grace também, é excepcional. A de Beck, na voz de Imelda May é ternamente bela. O inglês acerta na escolha de Joss Stone interpretando I Put a Spell on You, outro clássico cantado por Nina Simone, apesar dos esgares que, por vezes, soa como diluição da forma “soul” de cantar. Over the Rainbow, original de E.Y. Harburg e Harold Arlen, na minha opinião, nesse disco, se não subtrai, tampouco soma.

O momento “power” fica com Hammerhead, em que Jeff faz uma introdução “Hendrix” e entra um arranjo orquestral “rocker”, e com There’s No Other Me, novamente, com Joss Stone, e belas intervenções de baixo.

Leia também: http://bit.ly/g3jMAqhttp://bit.ly/e8vsNEhttp://bit.ly/hYiXbX. Sobre Jeff Buckley, leia http://bit.ly/goVlXb, e http://bit.ly/g3BROn

Veja a performance de Jeff Beck interpretando Nessum dorma.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Uma certa “urgência” na voz de Jeff Buckley

Estou com uma resoluta mania de ouvir repetidamente alguns discos. Em uma entrevista de três décadas atrás, certo diretor teatral dissera que sabia quando estava mal: punha-se a ouvir a mesma música o dia inteiro. Em minha atávica dificuldade de autoconhecimento, prefiro culpar à preguiça o fato de ficar apertando a tecla do “play” do controle remoto. Alguns dizem não conseguir ler enquanto ouvem música. Crendo estar perdendo tempo, se desse, faria uma terceira coisa ao mesmo tempo. Exemplo: fumar charuto, ler e ouvir música; ou, fumar charuto, beber um vinho, deixar a TV sintonizada em um “globo news da vida”, a repetir indefinidamente as mesmas reportagens, sem som, lendo um livro, um jornal, ou até um folheto de supermercado – é a compulsão de ler até bula de remédio com letras em corpo 4 –, e fazer o que, dentro de uma, repito, “dificuldade em saber quem sou”, imagino ser meu maior prazer: ouvir música. Houve uma teoria, era criança ainda, que se dizia que, mesmo dormindo, estávamos aprendendo alguma coisa. Surgiram então coisas como cursos gravados em fita cassete (era o CD da época) para serem ouvidos enquanto se dormia. Não sei se funcionava, mas já ouvi muitos discos – LPs – dormindo. Explico: o tempo médio de um lado do disco era de uns vinte minutos. Quando queria dar uma cochilada rápida, funcionava como despertador: punha um disco dos Rolling Stones, por exemplo, o Exile on Main Street – tinha verdadeira paixão por ele –, colocava-o numa altura razoável. Para quem não sabe como funciona um aparelho tocador de LPs, comumente conhecido como “pickup”, quando terminava o lado do disco, a agulha ficava passando “ad infinitum” pelo mesmo sulco. Alguns aparelhos possuíam um dispositivo automático que alçava o braço do pickup trazendo-o de volta, e o disco parava de rodar. Quando terminava, milagrosamente, despertava-me do breve cochilo.

A capa do disco póstumo
Tenho ouvido com frequência o disco póstumo de Jeff Buckley, Sketches for My Sweetheart Drunken (1998). O guitarrista/cantor não estava muito feliz com o resultado. Antes que pudesse concluí-lo morreu afogado de um jeito estranho (leia em http://bit.ly/gNNLlO). Em algumas interpretações de Jeff, nota-se, na falta de palavra mais adequada, certa “urgência” na entonação da voz e na base instrumental que parece não ser a definitiva. Posso estar sendo levado a imaginar isso por um fato posterior: a sua morte misteriosa e sua breve carreira. Existe alguma semelhança com a morte prematura do pai Tim Buckley que, às vezes, parecia um carro desgovernado prestes a cair no precipício.

Não é uma demonstração do que foi dito, mas Everybody Here Wants You me levou a pensar nisso. Ouça.

terça-feira, 29 de março de 2011

O caso de Michael Stipe com Marlon Brando

Semelhanças entre Brando e Stipe
O CD recentemente lançado pelo R.E.M. – Collapse Into Now – pode ser considerado “mais do mesmo”. Mas não é um “mais do mesmo” qualquer: é do R.E.M. Esse diferencial é relevante. Falar mal é fácil, então, falem mal, mas que tem muita gente elogiada pela crítica e não é um décimo da banda de Michael Stipe, ah, tem.

Dentre as participações especiais – uma é a de Eddie Vedder, do Pearl Jam –, a outra, de Patti Smith. Não é a primeira vez: canta em E-Bow The Letter com Stipe no CD New Adventures in Hi-Fi. Se você não conhece, corra atrás, pois é daquelas de matar… a voz de Patti é pura dor.

Mas há uma participação “extraterrena”. A penúltima música de Collapse Into Now, a que antecede Blue – em que a americana divide com Michael –, se chama Me, Marlon Brando, Marlon Brando and I. Alguém podia imaginar uma coisa dessas?

A letra da música:
We live and dream about the future/ Please ask me out, I need to pow-wow now/ So through the annals of our flavoured times/ Our heroes and all their fader thoughts.// Me, Marlon Brando, Marlon Brando and I, sing.../ Lay me down, down, down, down/ Lay me down, down, down, down, down.// Help me off to sleep/ And take me deep again.// We live and dream about our heroes/ I listened closely and I said/ "I'm not sure where to place myself here, friend./ Am I upon the gold rings and stand?"// The winners write the rulebooks, the histories and lullabies// Lay me down, down, down, down/ Lay me down, down, down, down, down.// Help me off to sleep/ (down, down, down)/ Take me deep again/ (down, down, down)/ I have watched you sing/ (down, down, down)/ I picture glass wings in your head/ (take me down, down, down)/ While golden broads and combines/ (down, down, down)/ Or brasses mixed with lead.

Ouça Me, Marlon Brando…



Veja e ouça E-Bow The Letter.



Ouça Blue, com Patti Smith. É uma quase continuação de E-Bow The Letter.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Algumas cenas de Os Amores de Maria, um belo filme de Andrei Konchalovsky

Os Amores de Maria (Maria’s Lovers, 1984) foi dirigido pelo russo Andrei Konchalovsky. Não tenho certeza se essa foi a sua primeira “incursão” em terras ocidentais. Logo depois, fez um thriller chamado Expresso para o Inferno (Runaway Train, 1985), baseado num script de Akira Kurosawa e protagonizado por Jon Voight, atualmente, mais famoso por ser pai de Angelina Jolie. Depois andou fazendo umas bobagens do tipo Tango & Cash (1989).

Konchalovsky, cujo nome real é Andron Sergeyevich Mikhalkov, é coautor do roteiro de Andrei Rublev, de Tarkovsky (começou bem), e vem de uma família russa de raízes aristocráticas muito antigas, enfim, se fosse brasileiro, seria considerado um “quatrocentão”, ou melhor, se já existe a expressão, “quinhentão”. Adotou o Konchalovsky da mãe. Seu irmão, que não trocou de nome, é outro cineasta de primeira grandeza: Nikita Mikhalkov, autor de Olhos Negros – maravilhoso filme com Marcello Mastroianni e Yelena Safonova, baseado em conto de Tchekov –, Urga (1992), O Barbeiro da Sibéria (1998) – que não vi e o amigo Victor Nozek diz ser obra-prima – e O Sol Enganador, que ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, em 1994.

Revi outro dia Os Amores de Maria (a primeira foi na época do lançamento), e não envelheceu. Ivan (John Savage, em bela atuação) volta da guerra em 1946 para sua cidade natal e reencontra Maria, sua namorada de adolescência. Nutre um amor tão intenso por ela (com razão: Maria é Nastassja Kinski), que, depois de casar, não consegue consumar o ato, ou seja,“broxa”, para usar uma expressão politicamente incorreta, mas não é impotente. Com a mulher feia, amiga do pai, faz sexo, sem problemas. Grosseiramente, explica-se a não consumação pela imagem de pureza e adoração que tem por ela.

As observações aqui são apenas para registrar algumas das belas imagens desse filme.

1. Ivan e Maria no campo depois que ele volta da guerra, em 1946. Ambos fazem parte de uma comunidade de imigrantes de origem iugoslava. Quando volta, descobre que Maria tem um namorado. Há um baile ou uma festa e Ivan e Maria “fogem” de lá na Harley-Davidson que o pai tinha mantido guardada na garagem. Ele a leva até o lugar em que tinha marcado pouco antes de ir para a guerra. Maria não foi. Debaixo da cadeira solitária, no meio do campo, ainda está a caixinha com os brincos que tinha comprado para presenteá-la.




2. A melhor cena. O pai de Ivan (Robert Mitchum) leva uma cômoda que tinha feito para Maria. Encontra-a lavando o chão da cozinha. Mitchum senta no sofá e fica admirando a cena. Desejo e sexualidade em alta voltagem: os olhos cansados do velho ardem em desejos inconfessos. Pede que sente do seu lado. Maria diz que quer casar com Ivan. Ele pede um beijo, um único, antes de se tornar seu sogro.




3. Desolado com a situação, Ivan sai da cidade e vai trabalhar num matadouro. Maria arde de desejos e vê relacionando-se sexualmente com Clarence Butts (John Carradine), um sujeito bonito, charmoso, “cafa” – enfim, o que muita mulher deseja num homem –, nômade, metido a cantor, que baixa na cidade. Engravida na única vez em que deita com alguém. Além do desejo incontido, assim Maria (não há nome mais apropriado para a personagem) deixa de ser pura. Tornando-se “impura”, torna-se “humana” para Ivan. A cena é quando Maria, “prestes a parir”, vai atrás de Ivan e diz que seu lugar é ao lado dela.