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quinta-feira, 27 de abril de 2017

Coisas do fado

A bela Amália Rodrigues
Ao assistir a um documentário sobre Marisa, um dos destaques atuais do fado, descubro que o gênero tem sua origem na música afro-brasileira, por meio de fala de um pesquisador. A outra descoberta: Mariza é filha de uma moçambicana e um português. É apenas uma curiosidade esta. Vamos ao fado de fato.

Segundo o tal historiador, com a mudança da Corte para o Brasil, expulsa pelas tropas de Napoleão Bonaparte, os papéis, praticamente se invertem: Portugal vira uma “colônia”, governada a partir do Rio de Janeiro. Com a volta de D. João VI para a terrinha, alguns valores da cultura brasileira se agregam à portuguesa. Afinal, junto com o rei, voltaram ou foram para lá, 4 mil pessoas. Foi um pedaço do Brasil.

O que o historiador diz, no entanto, imagino não ser uma unanimidade. Em textos sobre as possíveis origens do fado, aventa-se que pode ter surgido sob influência dos mouros, o que muitos consideram improvável, e, dizem até que sua origem pode ser escandinava. A maioria concorda de que pode ter nascido das modinhas, gênero popular nos séculos 18 e 19, influenciados ritmos de origem africana, mais especificamente, de Angola. Essa teoria é bem mais assemelhada à do historiador. Muito da música brasileira foi influenciada pela modinha trazida pelos nossos colonizadores.

A música trazida da África é a raiz de gêneros diferentes que floresceram no continente americano, como o samba e o blues. Não deve ter sido diferente com o fado, na Península Ibérica, por meio da cultura dos países colonizados. Como aconteceu no Brasil, nos países da América Central e Estados Unidos, esses gêneros se desenvolveram no meio das camadas mais pobres. O fado era a música de marginais, marinheiros, e eram cantadas em becos, vielas, bares, prostíbulos e casas de meia porta, assim chamadas as habitações simples, muito comuns em que elas eram divididas ao meio.

Altos e baixos
O fado é essencialmente urbano. Ao contrário do blues, assim como o samba e o tango, desenvolveu-se nas áreas urbanas. Suas temáticas estavam ligadas ao ambiente em que habitavam, narrando agruras e acontecimentos do cotidiano. Havia antes um componente social muito forte nas letras de fado. Por serem cantados em tabernas e bordéis localizados em regiões em que grassava a violência e as orgias, era condenado pela Igreja. Até por isso, as letras eram críticas à Igreja, ao nacionalismo e ao militarismo. Algumas eram francamente de cunho marxista e pregavam a revolução.

Sob a égide de militares, as três palavras de ordem foram substituídas por três de cunho mais suave e hedonista: guitarras, mulheres e vinhos. Os fados de temática social passaram a ser censurados depois que António Salazar se tornou o homem forte de Portugal. Era permitido falar de temas mais amenos, como amor, ciúme, paixão, nostalgia e saudade. As letras poderiam conter violência, como brigas, assassinatos, mortes, mas relacionados aos motivos citados.

O gênero chega ao apogeu com Amália Rodrigues. Ela estreou em 1939 e foi o maior nome da música portuguesa de todos os tempos, e responsável pela popularização do gênero pelo mundo. Uma conjunção de fatores favoreceram para que ficasse tão famosa, respeitada pelos mais pobres e pelos mais intelectualizados. 

Nasceu pobre. O pai foi tentar arrumar trabalho em Lisboa e, não conseguindo, voltou para a sua cidade e deixou-a com os avós. Sem condições também, não conseguiu mantê-la na escola. Com doze anos, foi trabalhar de bordadeira. Com quinze anos, vendia frutas no Cais da Rocha. Um participante da tradicional Marcha Popular de Alcântara, parte das festividades de Santo António de Lisboa e convenceu-a inscrever-se em um programa de calouros. O resto é história, diz o lugar comum.

Nascer pobre é destino. Ser burro não é privilégio dos pobres. Amália era uma mulher inteligente. Cercou-se de bons músicos. Musicou clássicosde Luís de Camões, Alexandre O’Neill e outros importantes poetas portugueses. Elevou o fado a outro patamar.

Um fator que ajudou muito para a sua difusão do gênero e da fama de Amália, foi a criação da RTP – Rádio e Televisão de Portugal. O país inteiro a ouvia. Três “F”s simbolizavam a glória do país sob o regime salazarista: fado, futebol, Fátima (Nossa Senhora de Fátima).

A fama de Amália foi fenomenal. Fez enorme sucesso fora de Portugal. Apresentou-se nos melhores teatros americanos. Chegou, inclusive a gravar discos com clássicos como “Summertime”, “All the Things You Are”, “Blue Moon” e “The Man I Love”.

Veja Amália a cantar “Estranha Forma de Vida”.



“Nem às Paredes Confesso” é um clássico rodrigueano.


Com a queda do regime, em 1974, o fado sofreu outro revés. Por ter ficado muito associado ao salazarismo, a nova geração que emergia com a Revolução dos Cravos desprezou o gênero. Sobrou até para Amália, próximo ao ocaso da ditadura. Diziam que era próxima da elite salazarista. Redimiu-se ao cantar o hino da Revolução dos Cravos. Soube-se que a cantora tinha dado dinheiro clandestinamente para o Partido Comunista.

Parecia o fim. Passada a tempestade pós-revolucionária, contudo, o fado voltou a ser valorizado. Os portugueses, sob os efeitos da globalização, perceberam o gênero como uma forma de afirmação da identidade nacional. Uma nova geração de fadistas estava nascendo, depois da Revolução dos Cravos.
Hoje
A intérprete mais famosa do fado, hoje, é Mariza. Para se ter uma ideia de como o gênero ressurgiu com força renovada, nasceu quatro meses antes da Revolução dos Cravos. A citação no primeiro parágrafo sobre ela não é totalmente gratuita. Tendo nascida em Lourenço Marques, Moçambique, de mãe negra e pai português, simbolicamente, representa a influência dos ritmos afros na origem do fado.

Mariza faz um sucesso enorme na Inglaterra. Veja-a a cantar “Barco Negro”, clássico antigo do fado.




Ana Moura, Camané e Carminho
Outros destaques são Ana Moura, Carminho, Cristina Branco e Joana Amendoeira. O menos versado no fado, achará que o gênero é exclusivo das mulheres, devido a Amália Rodrigues, principalmente. Engano. Há homens fadistas. O nome mais importante, e o mais velho, é Carlos do Carmo, nascido em 1939, ano em que Amália se apresentava pela primeira vez. Está na ativa ainda.

Quando fui a Portugal pela última vez, em Sintra, conversava com uma atendente de uma loja de bugigangas para turista. Era uma moça bonita e simpática. Perguntei-lhe sobre alguns nomes do fado. Queria saber de além dos que conhecia. Devo ter perguntado sobre intérpretes do sexo masculino. Ela disse-me que o melhor chamava-se Camané. Esclareceu-me que Camané era uma junção de “Carlos” com “Manuel”, ou “Mané”, Carlos Manuel Moutinho Paiva dos Santos. Comprei um CD coletânea do rapaz. Voltando ao Brasil, descobri que dois de seus irmãos, mais novos que ele, são também músicos: Pedro Moutinho e Hélder Moutinho. Além deles, outro – bem conhecido por nós brasileiros, por ter gravado com Zé Renato, Roberta Sá e Ivan Lins – que deve ser citado é António Zambujo.

Apesar de associados ao fado, nem todos cantam exclusivamente esse tipo de música. Cristina Branco tem um repertório bem variado e é bem conhecida na França. Carminho, Ana Moura e António Zambujo possuem fortes ligações com a música brasileira. Ana Moura chegou até a apresentar-se com os Rolling Stones. Sinal de que os portugueses vivem em um mundo globalizado e estão abertos a outras influências.

Zambujo canta o clássico “Nem às Paredes Confesso”.




Carminho canta “As Pedras da Minha Rua”.




Ana Moura canta “Fado Loucura”.




Camané canta “Ai Margarida”.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Elisa Rodrigues, a portuguesa que não canta fado

Pense em uma cantora portuguesa. Qual é o primeiro nome a lhe ocorrer? Amália Rodrigues? Natural. Era o máximo. E por ter levado o fado ao mundo, a impressão é a de que Portugal é isso e nada mais. A tradição é tão forte que perdura até entre os mais jovens. Carminho e Ana Moura, dois nomes bem conhecidos no Brasil, têm pouco mais de 30, a primeira, 31, e a segunda, 36. Nem tão jovens quanto elas, destacam-se António Zambujo (39), outro bem conhecido por nossas bandas, Marisa, Carmané, Pedro Moutinho e Carlos do Carmo são outros destaques. Temos também, nem tão fadistas, Teresa Salgado, ex-Madredeus, Cristina Branco e a veterana Maria João.

Fora desse universo, dois nomes despontam no cenário português: Luisa Sobral e Elisa Rodrigues. Relaciono até aqui, apenas vocalistas. A primeira inclina-se ao pop; canta em português e em inglês e deve almejar um público maior que o da península. Já apresentou-se no programa de Jools Holland, na BBC, e em There’s a Flower in My Bedroom, seu mais recente CD, conta com a participação de Jamie Cullum em uma das faixas. Já o negócio de Elisa é o jazz.

Atrás de Elisa existe uma tradição com nomes respeitáveis. Quem já foi a Portugal sabe disso; e aqueles que gostam de jazz, também. Além de bons clubes em que ouve-se boa música instrumental, um dos selos de jazz contemporâneo de maior prestígio é de lá. O Clean Feed não grava apenas músicos portugueses como a fenomenal trompetista Susana Santos. Em seu catálogo encontram-se gravações da nata dos músicos de vanguarda.

Portugal é generoso em nos proporcionar a beleza do som de ótimos pianistas. Temos Mário Laginha, Bernardo Sassetti (mais sobre ele em “A morte trágica de Bernardo Sassetti”)), e mais recentemente, Júlio Resende. Aliás, é ele quem toca em Heart Mouth Dialogues, álbum recém lançado de Elisa Rodrigues.

Pouco se tem dela na internet, a não ser que, no ano passado, foi convidada a participar das gravações da banda inglesa These New Puritans. Mas pelo disponível, sabe-se que é formada em estilismo e era o que pretendia fazer. Circunstâncias, no entanto, levaram-na a cantar. E é uma surpresa. Seu destino é tornar-se conhecida além dos limites de Portugal.

Um destaque é a escolha das músicas de Heart Mouth Dialogues. Canta desde standards como You Don’t Know What Love Is, Blame It on My Youth, Cry Me a River em leituras contemporâneas, assim como temas do pop como Ain’t No Sunshine, de Bill Withers, God Only Knows, de Brian Wilson (Beach Boys), Roxane, de Sting (The Police), By Your Side, de Cocorosie, e Dumb, do Nirvana, e até um tema do pop (quase brega) como Sonhos, de Peninha, canta a capella.

Veja Elisa em duo com Júlio Resende em Ain’t No Sunshine. Esta versão é um pouco diferente da que abre o disco.





Bonito, não? Agora, ataca de Nirvana.





Elisa canta um standard: You Don’t Know What Love Is.




Elisa canta Peninha.




O ponto alto é God Only Knows. Veja e ouça a moça.




Ouça a do disco, com Júlio Resende, Cícero Lee e Joel Silva. Maravilhoso.




Veja Elisa e Júlio em O Sapo. Apresentam vários números que estão no álbum em formato duo. Ela canta God Only Knows, Ain’t no Sunshine, e Sonhos, de Peninha, a capella, dentre outros. Acesse http://videos.sapo.pt/rJaqDjwPRhYfHsZ427zO

quinta-feira, 18 de julho de 2013

As portuguesas Ana Moura e Cristina Branco gostam de Joni Mitchell

Cristina Branco (esq.) e Ana Moura
Um dos mais belos discos de Joni Mitchell chama-se Blue. É de 1971. Já era conhecida, pelo menos por Woodstock, uma das faixas de Ladies of the Canyon. Não foi ao festival, mas seu namorado foi. Era Graham Nash, um dos componentes do lendário Crosby, Stills & Nash que, aliás, gravaram-na em Déjà Vu (Atco, 1970).

Inicialmente, Joni teve seu nome ligado ao folk americano. Não apenas pelas composições, mas pelas companhias profissionais e pessoais, encaixava-se perfeitamente no rótulo. Em Blue, os músicos que dele participam podem assim ser considerados, caso de Stephen Stills, Russ Kunkel, Sneeky Pete e James Taylor. A base do folk era o violão acústico. Joni era aquela cantora que chegava com o violão debaixo do braço. Era suficiente. Se tivesse um pianinho, ótimo: sentava-se e batucava algumas notas e acordes. Simplicidade enganosa: suas composições eram sofisticadas.

Três composições de Blue se tornaram standards: a música título, River e A Case of You. O folk era uma classificação muito pequena para a vastidão criativa de Joni. No decorrer do tempo foi se associando musicalmente e, de vez em quando, emocionalmente, com Wayne Shorter, Pat Metheny, Jaco Pastorius e Larry Klein. A essência continuou a mesma e o que mudou foi por um apuro instrumental cada vez maior. Em Hejira, um de seus melhores discos, ouvimos as primeiras contribuições do baixista Jaco Pastorius. No próximo álbum, um dos mais experimentais, a ele se somaram as contribuições de Wayne Shorter, Don Alias, Manolo Badrena, Alejandro Acuña e belíssimos arranjos orquestrais de Michael Gibbs.

Encontrou-se com Charles Mingus e gravou o antológico Mingus, com anuência e participação mais que especial em conversas gravadas que ficaram parte do disco. Pouco tempo depois o baixista, que já estava bem adoentado e preso a uma cadeira de rodas, veio a falecer.

Em 2007, Herbie Hancock lançou River: The Joni Letters (leia em http://bit.ly/10PtiCV), tendo convidados como Leonard Cohen, Luciana Souza, Corinne Bailey Rae (seu River é belíssimo: veja abaixo), Norah Jones e Tina Turner.




Joni Mitchell em releituras portuguesas

Por acaso calhou-me de ouvir cantoras portuguesas nos últimos dias. Se se fala de música da terrinha, é o fado o gênero que primeiro assoma em nossas memórias. Da primeira-dama Amália Rodrigues, passa-se por cantoras que seguem a tradição. Interessante que mesmo gerações mais recentes continuem a abraçar o gênero. Deve ser uma obsessão sebastianista. O fado não é o tipo de música para todos os gostos, assim como o bolero ou o tango, tidos como “coisas de velhos”, mas baixando-se a guarda dos preconceitos e dos conceitos pré-estabelecidos, encontra-se beleza onde menos se espera. O que intérpretes atuais como António Zambujo, Carminho, Cristina Branco e Ana Moura fazem não é simplesmente uma repetição ou diluição. São parte de uma gente que olha para a frente sem deixar de olhar para trás. Não estou citando Teresa Salgueiro, ex-membro de Madredeus, pois ela tem um percurso diferente.

A tradição conta bastante, mas esses cantores são cosmopolitas e não existe nenhum ranço nacionalista, Cantam na língua pátria e cantam em inglês ou francês e até português brasileiro. No álbum mais recente de Ana Moura, que deve ser a mais nova dos citados, três das faixas de Desfado, seu álbum mais recente, são cantadas em nglês. Na última excursão dos Rolling Stones, quando passaram em Portugal, Mick Jagger ouviu Ana em uma casa de fado. Gostou e convidou-a a participar de um dos shows. Cantou No Expectations.

Veja Ana Moura com os Rolling Stones.




Cristina Branco faz uma música com influências bem claras de outros gêneros latinos. Interpreta músicas francesas, argentinas, como Alfonsina y el mar, e brasileiras, como Soneto de Separação e O Meu Amor, de Chico Buarque..

Ouça Cristina Branco cantando a belíssima Alfonsina y el mar.




Pois então, estava esses dias a ouvir cantoras portuguesas e descobri que as duas cantam A Case of You, de Joni Mitchell.

Ouça A Case of You, com Cristina Branco, do CD Ulisses (2005).




Ouça A Case of You, com Ana Moura. A versão em estúdio está em Desfado (2013).

quinta-feira, 17 de maio de 2012

A morte trágica de Bernardo Sassetti

Sidónio Bernardino Cardoso da Silva Pais ou, simplesmente, Sidónio Pais, foi presidente da I República de Portugal no início do século XX, e era bisavô de Bernardo Sassetti.

Sidónio era bisavô, pois está morto e morto também está Bernardo e será tratado no passado, com exceção da frase seguinte. Sassetti teria caído acidentalmente de uma falésia na praia do Abano, em Cascais, quando estaria a fotografar. Aconteceu na quinta-feira passada, portanto, há uma semana, a 10 de maio. Tinha 42 anos.

Bernardo, menino, estudou piano clássico e notabilizou-se como um dos grandes nomes da cena jazzística local. Outros destaques são o saxofonista Rodrigo Amado, Maria João e Mário Laginha. Ao contrário dos dois últimos, deve ser pouco conhecido no Brasil; Rodrigo, menos ainda: faz um som bem avant-garde.

O único disco que conheço de Sassetti é Nocturno, lançado em 2002. Percebem-se grandes influências de Bill Evans. É a sina dos pianistas modais. Pode-se dizer, no entanto, que era um Bill Evans minimalista. Pelo jeito, Bernardo gostava de fazer música com o silêncio. Em afirmação à revista Blitz, de Portugal, sobre Motion, lançado neste ano, disse: “ Este disco vive muito do que eu chamo sons amnióticos, sons que aparecem e desaparecem, coisas estranhas”. Isso mesmo, os sons que tirava do piano pareciam estar em um lugar abstrato entre ser e não ser, num limiar da dissolução, algo que não é terra e não é água.

A Time for Love é a música que abre Nocturno. Ouvir esse clássico de Johnny Mandel pelas mãos de Sassetti é a minha homenagem a ele.



Quando se fala de A Time for Love, impossível não citar a gloriosa Shirley Horn. Confira.





Veja Sassetti tocando uma música composta para Alice, um filme de Marco Martins.


terça-feira, 11 de janeiro de 2011

A guia de António Zambujo

Pelo jeito, o alentejano chamado António vende bem no Brasil. Depois de lançado Outro Sentido (leia sobre esse CD em http://bit.ly/gyzkif), em 2009, no fim de 2010, pelo selo M,PB, da Universal, saiu Guia.

A capa do CD lançado no Brasil
As surpresas positivas continuam. Tem algo de minimalista em Zambujo. Tem algo de dramático, dolorido no fado. Não conheço tanto o fado a ponto de saber se ele segue uma – como diria Augusto de Campos – trilha evolutiva desse gênero. Guia é tão bom ou melhor que o anterior. São surpresas e mais surpresas.

Seu canto “lamenta e chora” distâncias a serem vencidas (“Atravessei o oceano/ Sem o teu amor de guia/ Só o tempo no meu bolso/ E o vento que me seguia// Venci colinas de lágrimas/ Desertos de água fria/ Tempestades de lembranças/ Mas tu já não me querias mais/ Tu já não me querias mais.” Guia, Pierre Ademe e Márcio Faraco), súplicas de arrepenimento (Meu amor não vás embora/ Vê a vida como chora/ Como é triste esta canção/ Não, eu peço/ não te ausentes/ Pois a dor que agora sentes / Só se esquece no perdão”  – Apelo, Vinícius de Moraes e Baden Powell); amores idealizados (“Queria ser teu namorado,/ Morar dentro dos teus olhos;/ Perder-me nos teus folhos/ Do teu vestido encarnado” – A Tua Frieza Gela, Maria do Rosário Pedreira e António Zambujo –, ou “A deusa da minha rua/ Tem os olhos onde a lua/ Costuma-se embriagar/ Nos seus olhos eu suponho/ Que o sol, num dourado sonho,/ Vai claridade buscar.” – A Deusa da Minha Rua, Jorge Faraj e Newton Teixeira); desencanto (O amor é inútil: luz das estrelas/ A ninguém aquece ou ilumina/ E se nos chama, a chama delas/ Logo no céu lasso declina.// O amor é sem préstimo: clarão/ Na tempestade, depressa se apaga/ E é maior depois a escuridão,/ Noite sem fim, vaga após vaga.” – Barroco Tropical, José Eduardo Agualusa e Ricardo Cruz).

Guia é um CD que, quanto mais se ouve, mais se quer ouvir. Ouça a belíssima Quase um Fado (Rodrigo Maranhão). A letra também é belíssima: “Trago no peito segredos, amores confessos, ocultos desejos,/ O tempo apressado, o beijo partido,/ Inteiro aos pedaços da vida, eu duvido./ Trago no peito um segredo dos mares que desafio.// Trago no peito meu mundo, fagulha, centelha, amor vagabundo/ Que bate calado o seu bate-fundo,/ E sempre navega pro mesmo lugar./ Trago no peito o segredo dos mares por navegar.”




Veja e ouça Guia.