quarta-feira, 3 de novembro de 2010

34ª Mostra: o passado muito presente de Patricio Guzmán

Nostalgia da Luz (2010)
Um filme de Patricio Guzmán

Recentemente, no Chile, desabou uma mina. O desastre foi filmado e visto no mundo todo. Diariamente saíam notícias sobre a evolução dos esforços de resgate. Uma cápsula pintada com as cores da bandeira chilena desceria pelo túnel e traria os mineiros de volta. Alguns devem se lembrar do filme A Montanha dos Abutres (Ace in the Hole, 1951), de Billy Wilder. A diferença de que agora eram 33 os soterrados e no filme, um, a história tinha lá as suas semelhanças. O jornalista protagonizado por Kirk Douglas está numa pequena cidade americana, desempregado e pede trabalho no jornal local. Um homem queda soterrado e, logo, o jornalista enxerga uma oportunidade de explorar a ocorrência. A notícia do acidente se espalha e, com o passar dos dias, emissoras de rádio, televisão e jornais enviam seus repórteres e centenas de turistas e curiosos acorrem ao local para acompanhar o desenrolar da operação de “salvamento”. A região próxima fica coalhada de carros. Há um gosto mórbido das pessoas por tragédias e é isso que os veículos de comunicação exploram.

Ao contrário do previsto, em vez de dezembro, conseguiram resgatá-los em outubro. Mesmo assim, foram dois meses de agonia televisionada em cadeia mundial. Dramas de cada um deles, um que queria ver o filho nascer, outro que era esperado pelas duas esposas e, assim por diante, cada um deles tinha uma história a ser explorada. O presidente Piñera estava na noite do primeiro resgatado para ser fotografado e visto abraçando-o.

Não muito longe dali, em 1973, trinta e sete anos atrás então, aconteceu outra tragédia. em 1º de outubro, 16 homens foram mortos por soldados. Ao todo, foram assassinados cerca de 70 pessoas suspeitas de serem esquerdistas no episódio que ficou conhecido como Caravana da Morte, sob o comando do general Sergio Arellano Stark. Nos anos iniciais da ditadura Pinochet, um dormitório, outrora habitado por trabalhadores braçais, virou campo de concentração. Alguns mortos foram jogados no mar, muitos no entanto, foram enterrados no deserto.

Filmagem no deserto do Atacama
Visto do espaço, o planeta é uma combinação de manchas brancas, azuis e verdes. Uma grande área marrom se destaca. É o deserto do Atacama. Situada a mais de dois mil metros de altura em relação ao mar, é uma região árida em que quase nunca chove. É um dos melhores lugares para se estudar os astros. Por isso, possui os melhores observatórios. O último documentário de Patricio Guzmán é sobre essa região. Para quem não se lembra, ele é autor de A Batalha do Chile.

“Os astrônomos, através da astronomia, criaram um enorme telescópio para trazer duas coisas aparentemente irreconciliáveis: as origens de tudo, do passado e de tudo e todo o presente. São como duas situações diferentes. Estão recebendo hoje o passado. Ao mesmo tempo, estão recebendo o mais distante passado, que é a origem de todo o sistema. Eles estudam o passado e nós estudamos outro passado. Eles estão no presente recorrendo ao passado e têm que reconstruí-lo. Eles recebem pequenos sinais. Eles são arqueólogos como nós.” É a transcrição de um dos depoimentos constantes do filme. Serve como uma síntese do que trata o documentário: os astrônomos, como os arqueólogos, estudam o passado.

Logo no início, um astrônomo chileno afirma que não há presente. O que chamamos de presente é o tempo imediatamente acontecido. Os sinais desse passado estão na terra e no espaço. Quando anoitece os astrônomos observam os astros. Os arqueólogos pesquisam sinais ancestrais que foram registrados nas rochas. Há, no entanto, outra “arqueologia”: a procura pelos restos mortais de pessoas que foram mortas pelo regime de Augusto Pinochet. O elo entre essas buscas, simbolicamente, é a de uma jovem mulher, filha de pais mortos pela ditadura, criada pelos avós e que é astrônoma. Tem gratidão pelos velhos, mas considera que tem uma mácula em sua vida por não ter sido criada por seus pais.

Em Nostalgia da Luz, Patricio Guzmán, a exemplo de vários outros documentários de sua autoria, repassa o trauma causado pela pela queda de Allende e o governo militar de Pinochet. Mais de trinta anos depois, parentes dos três mil desaparecidos procuram os corpos de seus parentes. Enquanto os astrônomos pesquisam as origens do universo, sob o sol de 40 graus, pessoas vagam pelo deserto à procura dos desaparecidos. Como o clima é muito seco, muitos corpos são encontrados quase intactos. É como se esses corpos teimassem em simbolizar uma história que não deve ser sepultada. Enquanto os astrônomos buscam na poeira cósmica, outros procuram vestígios de seus mortos na poeira do deserto. São mágicas as imagens dos flocos de areia que preenchem a tela e reafirmam a persistência da memória.

Um trecho do filme com depoimento de Violeta Berríos, uma das mulheres que procura seus mortos:

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

34ª Mostra de Cinema: as voltas de Michelangelo Frammartino

As Quatro Voltas (Le Quatro Volte, 2010), de Michelangelo Frammartino, é um filme belíssimo, sem diálogos, e tem cara de documentário. Os sons são os da paisagem, o das cabras pastando, o latido de um cão. A primeira parte é a de um velho cuidador de um rebanho. Diariamente o velho e alquebrado pastor leva suas cabras pelas montanhas da Calábria para pastarem. Tira-lhe o leite e todos os dias deixa um litro na igreja. Em troca, recebe um papelote contendo o que parece serem cinzas. Ao deitar-se mistura o “pó” num copo d’água: é o seu “remédio” diário. Na noite em que deixa de tomá-lo – tinha caído de seu bolso quando estava no campo – morre.

O cuidador do rebanho toma seu remédio “milagroso”
Assistimos ao fim de um ciclo: a de um homem que deve ter cumprido a mesma rotina a vida toda e encontra-se perto do fim. Depois de presenciarmos a morte, temos a dádiva do nascimento. Uma cabra dá à luz. Acompanhamos seu desenvolvimento, o confinamento com outros filhotes enquanto não podem sair para o pastoreio e a primeira vez em que sairão com os animais adultos. Um deles cai em uma vala e se aparta do rebanho. Tem as mesmas características daquele que foi mostrado nascendo. É inconcluso, mas há algum distanciamento do espectador em ver cenas rurais. Não parece existir o propósito de nos fazer ficar emocionados com as perdas. São voltas, ciclos, sejam dos humanos, sejam da natureza.

Há o evento da derrubada de uma árvore enorme que será carregada até a aldeia por seus habitantes e visitantes. Tiram-lhes os galhos e a casca, é alçada e alicerçada de tal modo que fique de pé. Alguém tenta atingir-lhe o topo, galgando-a como naquelas competições de pau de sebo. O fim da festa consiste em trazê-la ao chão novamente. Fecha-se o ciclo quando vem um caminhão e leva o tronco, já serrado em partes, que virará carvão. Presenciamos o trabalho paciente de homens juntando os galhos e outros pedaços de madeira em bela forma arquitetural para serem queimados em processos ancestrais para virarem carvão mineral a ser usado na calefação das residências na época fria. Às nuvens de fumaça produzidas para a feitura do carvão formam névoas brancas fundindo-se no verde das árvores: florescimento e morte na mesma imagem. O ciclo se fecha quando o caminhãozinho transporta sacos de carvão para os moradores da aldeia.

Veja o trailer:


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