quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Só o João [Rabello] para me fazer gastar R$ 48,90 por um CD

O texto sobre João Rabello foi escrito na época em que foi lançado seu primeiro CD e não tinha sido publicado. Já lançou o segundo e disse-me no final do ano passado que estava gravando outro.

É impressionante o que a gravadora Biscoito Fino nos cobra por seus CDs. Acabo de receber um lançamento duplo da ECM – Robert Schumann: Geistervariationen, com András Schiff –, importado, por 59 reais. Pelo CD Uma Pausa de Mil Compassos paguei a bagatela de 48,90 reais, com frete incluso. Como o disco tem apenas 35 minutos, estou pagando R$ 1,43 por minuto. Caro, não? Se a gravadora se inspirou em Oswald de Andrade – “a massa ainda comerá o biscoito fino que fabrico” – para nomear seu selo, devo argumentar que o biscoito fino nunca chegará às massas. Seus proprietários devem ter uma noção bem elitista em relação – usarei um vocábulo preconceituoso que pode servir de boa medida a eles – ao poder aquisitivo da patuleia.

A sorte é que João, que usa o sobrenome de sua mãe Lila, em vez do Farias do pai Paulinho, faz valer cada real e meio por minuto com sua precoce maestria. João pode servir de experiência aos cientistas que pesquisam se certos genes podem ser transmitidos de geração a geração, ou, se apenas o convívio é o suficiente para o aprendizado e o desabrochar do talento. De seu avô César nasceu Paulo e de Paulo, João; em comum o fato dos três serem ou terem sido exímios nas cordas. Pela parte materna teve um tio genial – Raphael – e possui uma tia – Luciana –, craque no cavaquinho.

No conjunto que acompanhava Paulinho da Viola, o segundo violão era de um circunspecto senhor, César, pai do cantor e compositor. Conheci Paulinho através do amigo Takashi Fukushima. Em vários almoços Paulinho trazia seu filho. Este passara a acompanhar o pai em suas apresentações tocando violão. João era muito sério. Nunca o vi dando um sorriso. Era de poucas palavras e por isso devo ter conversado muito pouco com ele. Paulinho é bom de conversa: a toda hora rola uma história.

No fim de 2006, sem alarde, foi lançado seu primeiro disco: Roendo as Unhas. Nem parecia ser de um estreante. É natural que se fique um pouco com o pé atrás. Linhagens familiares resultaram em Moreno Veloso, Claudia Leite, Sandy e seu irmão Júnior, Davi Moreira. Parentescos podem facilitar e dificultar também. No caso específico, não deve ser nada fácil ser filho de um gênio como Paulinho da Viola.

Mas fica evidente que João tem personalidade. O nome do pai não pesa em seus ombros e, tampouco o do tio Raphael. Como é novo, pela qualidade do primeiro disco, é possível prever que é um desdobramento de uma linhagem de músicos geniais, não só pela habilidade como instrumentista, mas como compositor também. As duas composições de João – uma terceira (Sarau para Cesar) tem o pai como parceiro – são uma prova de que estamos diante de alguém que tem a mão.

A quinta faixa se inicia calma e, a partir do segundo minuto toma outro rumo; fica dramática, e o seu minuto final é uma coda: ele retoma o tema inicial. Chama-se Leme. O título diz tudo. Rubro, a outra composição da lavra de João, começa tateante, como se ele estivesse à procura de um tema. São notas dramáticas, pensativas, e o silêncio é de ouro. Entre uma nota e outra, entre um acorde e outro, acompanhamos mentalmente sua construção . Não sei por que, mas me fez lembrar o violão de Dorival Caymmi em A Jangada Voltou Só (Caymmi e Seu Violão, 1959).

Veja-o executando Rubro, de sua autoria.



Leme é outra de sua autoria.




Era tão impressionante que não parecia ser de um estreante. Com muita personalidade abriu mão de ser divulgado como o filho do Paulinho da Viola. Ele mesmo foi seu produtor artístico e o pai, discretamente, participa de apenas duas faixas: na primeira – Roendo as Unhas –, dividindo os solos de violão, e em Sarau para Cesar, composição de ambos, em que Paulinho toca cavaquinho. João toca, no violão, mais uma do pai – Inesquecível –, original gravada em Memória Chorando (1976), mas composta em 1972, para o bandolim, em homenagem a Jacob do Bandolim.

João nasceu pronto. É o que mostra tocando Dança Brasileira e Tocata em Ritmo de Samba, de Radamés Gnattali, acompanhado apenas pelo baixo de Matias Correa, La Catedral, de de Agustín Barrios e Valsa Crioula, de Antonio Lauro, e a melancólica Inspiração, de Garoto. João mostra seus dotes de compositor Leme e Rubro.

Veja João executando La Catedral, de Agustín Barrios.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Morrissey. Ou onde os velhos têm vez

O topete de Morrissey continua o mesmo
“Que crime horrível lançar em nossas entranhas as entranhas de seres animados, nutrir na sua substância e no seu sangue o nosso corpo! para conservar a vida a um animal, porventura é mister que morra um outro?”

A frase acima é de Metamorfoses, de Ovídio e foi escrita em alguma data próxima ao ano zero. Vinte séculos depois, o homem continua a se alimentar de animais mortos. É imoral? Pode ser. Mas está arraigado na cultura dos homens.

Na onda chamada natureba, que corresponde temporalmente à onda hippie fez emergir a figura do vegetariano militante. E, como qualquer coisa pode tornar-se mais radical, há os vegans, aqueles que não consomem também derivados animais, como queijos, leites, iogurtes e outras variantes. Alguns militantes defendem que alimentar-se de animais mortos influencia na agressividade do ser humano. Mas é inegável que que ser vegetariano não faz de ninguém um ser melhor. Basta lembrar de Adolf Hitler. Adorava os animais, não fumava e não comia carne. Evidente que os vegetarianos fazem questão de dizer que isso não é verdade. Falam que não gostava de carne mesmo, mas que era chegado numa salsicha acompanhada de cerveja. Tinha afeição especial por seus cães. Quando refugiou-se no bunker, levou Blondi, a sua pastora preferida.

Outra variante é o militante pela preservação da natureza. Quem não conhece alguém que jura conversar com as plantas? Outros abraçam árvores para trocarem energias. Inventaram até um apelido para essas pessoas: “ecochato”. Bom, ninguém mais pode ser assim chamado. Pela situação atual, se não nos preocuparmos com o planeta, o mundo acaba e não sobra ninguém para contar história.

O chato verdadeiro é aquele sujeito que deseja convertê-lo às suas crenças. Tanto faz ser o carnívoro defensor dos benefícios de uma picanha, o vegetariano comedor de alface que fica a tentar convencê-lo dos males de comer carne vermelha, ou o pregador evangélico desejoso de converter os “pecadores”.

Uma das Ongs mais conhecidas por se manifestar contra o abuso no tratamento dos animais e consequentemente ao sacrifício deles como fonte de alimentação é a Peta  – People for the Ethical Treatment of Animals. Suas campanhas são, às vezes, bem humoradas e bem feitas, em outras fazem o figurino do militante chato.

Morrissey e The Smiths. Os Smiths foram uma das bandas emblemáticas dos anos 1980. Considere-se que são da mesma década em que surgiram Joy Division, The Cure, Talking Heads, Siousxie and The Banshees, Bauhaus, Echo and The Bunnymen e Gang of Four. Tinha me cansado de rock. Por conta do barulho que se estava fazendo na imprensa em torno de um tal de Smiths, tomado de curiosidade, na hora do almoço fui até o Museu do Disco, a melhor loja de discos importados à época e paguei uma pequena fortuna pelo bonachão de 12 polegadas, em cuja capa em tons vinhos e azuis, via-se um torso desnudo. Fora tirado de uma cena de um filme de Andy Warhol. Era do ator Joe Dallessandro, um ícone do imaginário gay.

Devido à expectativa gerada pela imprensa, senti-me um pouco decepcionado. A guitarra de Johnny Marr era extraordinária. Não senti a voz do cantor como algo especial. Era normal. Ouvindo mais vezes, o disco me pegou e me fez passar a, novamente, ficar antenado nos lançamentos da música britânica.

Comentavam das boas letras de Morrissey, mas até hoje sinto certa dificuldade em prestar atenção nelas, talvez porque goste muito de jazz e, consequentemente, de música instrumental. Não poderia, no entanto, deixar de “desconfiar” do que poderia querer dizer um título como Meat Is Murder. A revolta sempre foi uma das características do rock. E, por que não o denuncismo? Pelo que parece, Morrissey desejava fazer um barulho. Falar mal do governo sempre funciona. Melhor ainda: viviam a era Tatcher. É mais fácil falar mal da direita. Tanto faz que a esquerda possa ser corrupta ou autoritária. A direita sempre esteve associada à caretice e ao conservadorismo. Ao colocar a inscrição “meat is murder” sobre uma foto de 1967 de um soldado na guerra do Vietnam no lugar de “make war not love” representava um ato político: fazer a guerra ou comer carne não eram coisas tão diferentes.

Os Smiths se separaram logo. Foi o suficiente para deixarem um marca indelével na história do rock. A química entre Morrissey e Marr era perfeita. O guitarrista meio que desapareceu. Lançou no entanto, The Passenger, no ano passado, e parece estar voltando aos bons momentos. Morrissey foi mais bem sucedido, porém seus álbuns solo nem chegavam perto em qualidade aos dos Smiths.

Capa do mais novo CD
O novo solo. No dia 15 deste mês, Morrissey lançou World Peace Is None of Your Business. Nem todo mundo gostou. O cineasta e crítico André Barcinski, em Folha de S.Paulo (11/7/2014), dá o teor do que acha já no título: “Morrissey vira ombudsman do mundo em CD”. Na primeira audição o que mais chama mais atenção é isso mesmo: uma certa pretensão em ser uma espécie de voz da razão. É o que Barcinsky afirma: “Acontece que, de uns anos para cá, o compositor parece ter embarcado numa egotrip exagerada até para sua conhecida ojeriza à modéstia.”

A começar pelo título “A paz mundial não é da sua conta”, seu discurso soa presunçoso e ingênuo ao mesmo tempo. Morrissey canta “Each time you vote, you support the process/ Brasil and Bahrein/ Oh, Egypt, Ukraine/ So many people in pain/ No more, you poor little fool/ No more, you fool.”

A fúria vegetariano-militante está de volta em The Bullfighter Dies. O bom é que Morrissey continua sendo um craque nos achados. Nos primeiros versos, brinca com sonoridades: “Mad in Madrid/ Ill in Sevilla/ Lonely in Barcelona.” Logo a seguir, repete: “Gaga in Malaga/ No mercy in Murcia/ Mental in Valencia.” Claro. A felicidade do inglês é que “ninguém chora/ porque todos queremos que o touro sobreviva.”

É o velho Morrissey na mais bela composição: Neal Cassady Drops Dead. Mosca morta, não? Essa história de apelar à geração beat ainda dá um caldo. Lá se vão décadas – On the Road, de Jack Kerouac foi publicado em 1957 – e Lawrence Ferlinghetti, Allen Ginsberg, William Burroughs, Neal Cassidy continuam chamando atenção de gerações e gerações diferentes. Como em The Bullfighter Dies, Morrissey constrói versos por meio de pequenos achados, como em “Neal Cassady drops dead/ And Allen Ginsberg’s howl becomes a growl.” “E o uivo de Allen Ginsberg torna-se um rosnado”. Bom, e depois tece um monte de enfermidades e imagens mórbidas. Vai ver que Morrissey anda preocupado com seus últimos problemas de saúde. Claro que a brincadeira com o mais famoso poema de Ginsberg – “Howl”, ou “uivo” – faz parte da “graça” da canção.

Ouça Neal Cassady Drops Dead.




Assista ao vídeo de Morrissey recitando os versos de The Bullfighter Dies.




Ouça a música.




Outro bom momento é I’m Not a Man. Fica a dúvida: ele entrega ou não entrega. Sexualidade é um problema para todos os gêneros, imagine para quem sempre deixou uma nuvem de fumaça em volta dessa questão. O bom, nesse caso é sentir-se (ou dizer-se) acima de tudo isso: “I’m not a man/ I’m something much bigger than/ A man.” Para afirmar que não é um homem, recorre a um punhado de exemplos duvidosos para dizer-se alguém melhor: “Don Juan/ Picaresque/ Wife beater vest/ Cold hand/ Ice man/ Warring cave man/ Well if this is what it takes to describe/ I’m not a man.” Para completar, volta com sua fúria “PETA” nos versos finais: “Não sou um homem/ Nunca matarei ou comerei um animal/ E nunca destruiria nesse planeta em que vivo/ Bem, o que você acha que eu sou?/ Um homem?”


Ouça I’m Not a Man.




Contraditório ou não – quem não é? – Morrissey, raivoso ou não, World Peace Is None of Your Business é um álbum enérgico, com guitarras espanholadas que “esquentam” e, por momentos causam estranhamentos e são prova de que os “velhos” ainda têm vez. Pensando melhor, o título de um disco de Jethro Tull – Too Old to Rock’n’Roll, Too Young to Die – não serve nem a Ian Anderson, e muito menos a Morrissey. Afinal é um jovem de 55 anos.

Ouça World Peace Is None of Your Business.