Mostrando postagens com marcador Dorival Caymmi. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Dorival Caymmi. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 20 de setembro de 2016

O amado Dorival Caymmi

Jorge Amado e Dorival Caymmi, grandes amigos
Seria um tanto ingênuo pensar que todas aquelas mulheres das músicas de Dorival Caymmi fossem de ficção. Mesmo casado – e apaixonado – com Adelaide Tostes, cujo nome artístico era Stella Maris, que ficou assim conhecida, era impossível evitar-se o assédio feminino. “Ele era lindo, não tinha um fio de cabelo branco, cantava com aquele violãozinho – violãozão – assim. E olhava para os cantos. O mulherio ficava louco com ele, a mulherada adorava. Caymmi tinha uma sensualidade, ele requebrava com o violão, mexendo os quadris tranquilamente. Tinha gente que dizia assim: “Caymmi não é bicha, não?’ Era brincadeira de quem chegava e não conhecia. E ele comia as mulheres todas.”, disse Tonia Carreiro. Ninguém resistia àquelas viradinhas de olho que Caymmi vivia a fazer.

Seu melhor amigo, Jorge Amado, não ficava atrás. Oswald de Andrade o chamava de “Barba-Azul da linha justa”. Quando estavam juntos, era um alvoroço. Aliás, Jorge e Zélia Gattai passaram a namorar com uma pequena ajuda Caymmi. Em uma das vezes em que estavam em São Paulo, reunidos com seus colegas do Partido Comunista, o escritor ficou fascinado com a então casadíssima Zélia. Combinou que quando estivesse com ela, Dorival se aproximaria cantando “Acontece Que Sou Baiano”. Zélia não resistiu aos versos “Acontece que eu sou baiano/ Acontece que ela não é// Mas tem um requebrado pro lado/ Minha Nossa Senhora/ Meu senhor São José// Há tanta mulher no mundo/ Só não casa quem não quer/ Por que é que eu vim de longe/ Pra gostar dessa mulher.” Foi irresistível.

A relação de Jorge e Dorival foi muito mais que a simples amizade. Quando, depois da legalização do PC, Jorge candidatou-se a deputado, este o levava a tiracolo e na companhia de outro amigo, o pintor Clovis Graciano, andaram pelo estado de São Paulo em campanha. Caymmi nem era tão militante, mas fez o hino da campanha, levado pelo entusiasmo de seus amigos comunistas.

Mulheres, mulheres
Em 1945, quando terminou a guerra, Dorival já era bem conhecido. Em 1939, tinha lançado o primeiro disco solo, com “Rainha do Mar” e “Promessa de Pescador”. Estourou mesmo foi com “O Que É Que a Baiana Tem?”, que foi cantada por Carmen Miranda.

Em 1945, era famoso e duro, como Jorge Amado, principalmente na época pós-guerra, em que ambos recebiam mal e porcamente royalties por suas obras, fora a militância política, que não lhes permitia centrarem suas vidas nas suas profissões. Nesse mesmo ano, lançou “Dora”. Na verdade, tinha sido composta em 1942. No fim do ano anterior, em viagem ao Recife, Caymmi, estava em um bar quando passou um bloco de frevo arrecadando um trocado e à sua frente dançava com os pés descalços uma mulata clara de corpo escultural. Na mesma noite, tinha os primeiros versos: “Dora, rainha do maracatu e do frevo/ Dora, rainha cafusa do maracatu.”

Em 1945, Caymmi estava na Bahia e começou a compor “Doralice”. A musa inspiradora existiu de fato e não se sabe se aconteceu algo entre eles. Chamava-se Berenice. Ao voltar para o Rio de Janeiro, concluiu o samba, com o parceiro Antônio Almeida. Este lhe sugeriu que mudasse o nome para Doralice, porque lembrava “Dora”, lançada naquele ano.

Doralice viaja
“O Que É Que a Baiana Tem”, composta em 1938, teve os direitos comprados por uma empresa de cinema e foi gravada por Carmen Miranda. Foi a primeira vez em que Caymmi foi ouvido nos Estados Unidos.

“Doralice” foi gravada pela primeira vez pelos Anjos do Inferno, em 1945. Provavelmente, ficou conhecida fora do Brasil por meio da gravação de João Gilberto.

Ouça “Doralice”, com Allan Harris.




Virginie Teychiné deve ser desconhecida pela maioria dos brasileiros. É uma francesa que tem a pegada do jazz e um incrível balanço brasileiro.




A música de Caymmi tem uma característica regional bem evidente, o que não impede a sua internacionalização e cair no gosto gringo. Certamente, um dos responsáveis, além da pioneira Carmen Miranda, foi João Gilberto. Duas das canções do baiano foram registradas pelo mais prestigiado cantor de jazz dos últimos 15 anos. Kurt Elling cantou “Você Já Foi à Bahia” (“Passion World”, 2015) e “Rosa Morena” (“This Time It’s Love”, 1998).

Ouça “Rosa Morena” na voz de Kurt Elling.




Leia também: De como Marina surgiu na vida de Dorival Caymmi.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Ah, insensato Dexter Gordon

DG pelo gênio de Herman Leonard
Começo misturando Dorival Caymmi com Antônio Carlos Jobim, dois nomes maiores da música brasileira. Uma de minhas maiores emoções musicais foi a da primeira vez em que ouvi o disco – LP, na época – Caymmi e Seu Violão. A voz gutural, que parecia vir da alma, e os acordes um tanto rudes e pontuais me marcaram. Desde então, as canções praieiras estão entre as minhas preferidas, mais do que as urbanas. Caymmi é o nosso Thelonious Monk: compôs menos de uma centena de canções e todas são clássicas.

Ao ouvir How Insensitive, lembro-me imediatamente dos versos – “Ah! insensato coração/ Por que me fizeste sofrer/ Porque de amor para entender/ É preciso amar, porque…/? Só louco”. São de Dorival. E os de Jobim, letra de Vinícius de Moraes, são: “A insensatez que você fez/ Coração mais sem cuidado/ Fez chorar de dor/ O seu amor/ Um amor tão delicado/ Ah, porque você foi fraco assim/ Assim tão desalmado/ Ah, meu coração que nunca amou/ Não merece ser amado// Vai meu coração ouve a razão/ Usa só sinceridade/ Quem semeia vento, diz a razão/ Colhe sempre tempestade/ Vai, meu coração pede perdão/ Perdão apaixonado/ Vai porque quem não/ Pede perdão/ Não é nunca perdoado.” “Quem semeia vento […]/ Colhe sempre a tempestade.”

Por razões muito particulares, o melhor Insensatez instrumental é o de Dexter Gordon, do álbum Sophisticated Giant. Num tempo em que os LPs importados eram quase que um produto de luxo, principalmente para um estudante que vivia da mesada do pai, juntei um dinheirinho em uma das idas ao Rio de Janeiro para comprar LPs. Discos de jazz eram mais comuns nas cariocas Billboard e Modern Sound, ambas na Rua Barata Ribeiro, em Copacabana, do que no Museu do Disco, a maior loja de importados em São Paulo. Lembro até hoje que, além desse LP do saxofonista, comprei Grazing Dreams, de Collin Walcott. É provável que seja um desconhecido para muitos, mas quem conhecia uma banda chamada Oregon, sabe que era seu percussionista. Walcott morreu em um acidente besta: o ônibus do grupo bateu e, como estava dormindo, acabou batendo a cabeça.

Meu interesse pelo jazz se deu de maneira inversa como, imagino, aconteceu com muitos da minha geração. Basicamente “roqueira”, os primeiros a me chamar a atenção foram Weather Report, Chick Corea, Miles Davis e o Soft Machine, protagonistas do que estava sendo chamado de jazz progressivo ou jazz elétrico. Éramos da turma do Bitches Brew. Tempos depois, quando fui ficando amigo de admiradores do jazz, todos mais velhos do que eu, percebi o ódio que alguns tinham do Miles Davis pós Bitches Brew.

Nesse “caminho inverso” passei depois a prestar atenção nos músicos consagrados – Duke Ellington, Count Basie e, não me pergunte por que, Art Tatum – e, em alguns que se apresentaram nos primeiros festivais de jazz que aconteceram no Teatro Anhembi, o do pudim, como costumávamos dizer, devido ao seu formato. Desse modo, eu e meus amigos da USP, tivemos a oportunidade de ver, pela primeira vez, Ahmad Jamal, Stan Getz, Zoot Sims, Frank Rosolino, Joe Pass, Dizzy Gillespie e Benny Carter, dentre outros. Claro que os elétricos – ou quase – eram os que mais nos empolgavam: John McLaughlin, Chick Corea, Larry Coryell, Philip Catherine.

Na época em que conheci Dexter Gordon, conheci também o Gustavo, um apaixonado pelo saxofone tenor. Era um dos amigos que tinha ido ao Rio conosco, daquela vez, para assistir ao único Festival de Monterrey, se não me engano, que aconteceu lá. Foi a oportunidade de conhecer o Weather Report em seu auge criativo, ver McCoy Tyner e Pat Metheny. Inesquecível. O melhor do Gustavo era o de que tinha um tenor Selmer Mark IV, sonho de qualquer saxofonista. Com muitas reservas e palhetas velhas, nos deixava soprar no seu sax. Não sei se por essa razão, o saxofone tenor virou o meu segundo instrumento preferido no jazz. Além de Dexter Gordon, Lester Young, Coleman Hawkins e Ben Webster viraram deuses, para mim. Ficávamos eu e o Gustavo, ouvindo os LPs que Hawkins e Webster tinham gravado juntos, com um terceiro tenor – Budd Jonhson – e ficávamos “reconhecendo” cada solo dos discos. Para mim, o sax tenor é o que existe de mais próximo à voz humana.

Dexter Gordon, depois da volta aos EUA (tinha emigrado, como muitos músicos, para a Europa, em razão de problemas que teve com o consumo de drogas consideradas ilícitas). Em seu retorno, foi contratado pela Columbia e foi “redescoberto” pela crítica e pelo público. Depois de um álbum ao vivo com apresentação no Carnegie Hall, lançou Sophisticated Giant. O título era apropriado: era um gigante de quase dois metros de altura e um Dodge Dart – era como designávamos os grandes bebedores, pois esse carro era enorme e “bebia” bem. Na primeira apresentação em São Paulo, cada vez que terminava um de seus longos solos, saía do palco para “molhar” a garganta. Dizem que bebeu 25 latas de cerveja durante uma única apresentação. Era uma figura! Enorme, andava a passos lentos e, quando apresentava a música, falava no mesmo ritmo, com voz de trovão. Foi memorável.

O responsável pelos arranjos de Sophisticated Giant foi o trombonista Slide Hampton. Aí reside a grande qualidade do disco. São dois trumpetes ou flugelhorn (Woody Shaw e Benny Bailey), dois trombones (Hampton e Wayne Andre), uma tuba (Howard Johnson, que toca sax barítono também), a “cozinha” (George Cables ao piano, Rufus Reid no baixo e Victor Lewis na bateria), Frank Wess na flauta e no saxofone alto, e, finalmente, Gordon no sax tenor e no soprano.

O repertório é, igualmente, excepcional: Laura, The Moontrane (Woody Shaw), The Red Top (L. Hampton e B. Kynard), Fried Bananas (DG), You’re Blasé (O. Hamilton, B. Sievier), e How Insensitive, que fecha o disco. Na canção de Jobim, Gordon estraçalha. Seus solos no sax soprano são coisa de gênio e o arranjo, também. O resto não é resto: é tudo muito bom, com destaque para Laura (superlativo), The Moontrane e You’re Blasé. Se você não conhece o disco, vá atrás.

Preste atenção nos metais em How Insensitive.



Insensatez pelo gênio de JG.



Se você está muito interessado e não conhece o disco Sophisticated Giant, tente esse link. Tem até uns bonus track.

http://turbobit.net/ombxjhya93qr.html

quarta-feira, 9 de março de 2011

De como Marina surgiu na vida de Dorival Caymmi

O elegante Dorival
Noutro dia, dispus um artigo do poeta Manuel Bandeira sobre Sinhô, presente no primeiro número da Revista da Música Popular, editada por Lúcio Rangel. Há algumas preciosidades que, aos poucos, registrarei.

Em entrevista feita por Paulo Mendes Campos, Dorival Caymmi fala sobre jazz e música erudita, pintura e… da sua música. A abertura é preciosa e uma radiografia do homem que parece simples. Parece.

“Dizer que Dorival Caymmi é um rapaz simples seria um lugar-comum de reportagem e uma inverdade. Caymmi não é de poses mas também não é simples. O modo com que fala, sua tortura para exprimir o que pensa, e se definir, suas irritações contra isso ou aquilo mostram um homem subjetivo, de funcionamento complicado.”

Caymmi se mostra um homem sofisticado e antenado. É amigo de Jorge Amado, conversa sobre pintura com “Pancetti, Portinari, Burle Marx, Di Cavalcanti, Bruno Giorgi, Gobis, Manoel Martins…”. Seus pintores de preferência são Giotto, Masaccio, Utrillo, Cézanne, Gauguin,Tintoretto, Matisse, Guignard, Pancetti, Clovis Graciano…

Caymmi, além de compor, pintava, conhecia pintura: “[…] eu acompanhei toda essa querela entre abstracionismo e figurativismo. Mas não cheguei à posição definitiva. Sou um lírico em pintura, gosto da harmonia das cores. Por outro lado, não posso me desprender da forma. Meu ideal seria uma pintura que correspondesse em vozes às harmonias de uma fuga de Bach.”

Caymmi diz não ler muito, mas leu Victor Hugo, quando jovem. Gosta dos romances regionalistas: Jorge Amado, José Lins do Rego, Graciliano Ramos. Gosta de Érico Veríssimo e admira Garcia Lorca, Drummond, Bandeira, Jorge Guillén e Pablo Neruda. Lendo pouco, leu mais que muita gente.

Quando tinha doze anos, ficou doente de impaludismo. De cama, “tinha que ouvir o dia inteiro a vitrola de um homem que morava na minha rua.” Não se conforma de não ter tido uma boa educação musical. Admira Villa-Lobos, Bach, Haydn, Handel e Mozart. Dentre os jazzistas, tem predileção por Jelly Roll Morton, Louis Armstrong e Fats Waller. Diz não gostar do bebop (era o ritmo da moda, em 1955, quando foi feita a entrevista). Credita ao relativo “analfabetismo” musical o fato de ter virado o compositor que era: “Quando arranjei um violão, fui descobrindo um mundo novo na sonoridade. Como não aprendi música, descobrindo-a por mim mesmo, em companhia de um grande amigo, tive uma vantagem: fui levado por isso mesmo a inventar um pouco de música. Foi o que me fez compositor”.

“A título de publicidade, costumo dizer em entrevistas que componho ao violão. Não é verdade. Acredito que todos como eu, que não sabe música, compõe imaginando a linha melódica, confrontando semelhanças com outras canções, pesando a força lírica, procurando as palavras. Faço minhas músicas em geral andando na rua, nos lugares em que posso falar sozinho, nos lugares em que haja muita gente e onde eu sinta uma certa indiferença pela minha pessoa.”

Caymmi conta, como exemplo, de como nasceu Marina. Uma vez, ao sair de casa, seu filho Dorivalzinho (deve ser o Dori) disse-lhe com a cara zangada: “Estou de mal.” “Na rua, essa frase ficou martelando na minha cabeça: ‘Estou de mal, estou de mal, estou de mal…’. Enquanto ia à rádio, comprava umas coisas, andava nas ruas, a melodia e a letra foram se compondo em minha cabeça. No fim do dia, a música estava pronta.”

Obs: a entrevista foi publicada na edição nº 4 da Revista da Música Popular, em janeiro de 1955.

Ouça uma gravação, acho que pouco conhecida, do cearense (um amigo conterrâneo lembrou-me desse detalhe) e pianista erudito Jacques Klein, tocando Marina.



Dorival canta Marina.



sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Ary toca Caymmi. Dorival canta Barroso

O mineiro e o carioca no Rio
O que chama atenção, para começo de conversa, é a bela capa de colorido intenso, em que dois protagonistas da música brasileira estão numa pedra a pescar na Baía de Guanabara. Caymmi, vestido com uma camiseta de listras rubro-negras e cabelos precocemente brancos, e Ary Barroso de chapéu, com uma vara de pescar e calças arriadas à “pula brejo”, como convém: vai que vem uma onda e lhe molha as calças. O baiano tem um porte físico de pescador; se pescou alguma coisa em vida, é outra história. Ary, mineiro, pode ter sido pescador de rio, pois seu estado natal, como a Bolívia, não tem mar, mas pelo jeito, a coçar a cabeça com a vara na mão, não parece do ramo.

Em 15 de setembro de 2010, faleceu Caetano Rodrigues, um dos maiores colecionadores de discos de bossa nova. Muitos desses títulos de sua enorme discoteca estão disponibilizados no blogue Loronix (www.loronix.blogspot.com). Foi lá que encontrei esse disco de 1958, em que Ary toca Caymmi ao piano e Caymmi canta Ary com seu violão.

Ouça Dora por Ary,




e Na Baixa do Sapateiro com Dorival.