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terça-feira, 11 de março de 2025

Algo sobre “Um completo desconhecido” e sobre Bob Dylan

1. O primeiro álbum que tive de Bob Dylan foi The Freewheelin’. Era um dos LPs que encomendei para os meus pais. Minha geração é um pouco posterior à dos que já o conheciam. O primeiro LP que comprei na vida foi “Led Zeppelin III”. Acho que os seguintes foram (Pictures at an Exhibition, de Emerson, Lake & Palmer, e Fragile da banda Yes, possivelmente em 1972 ou 1973. Com o passar do tempo, fui atrás de artistas de outras gerações de que falavam, como Beatles, Rolling Stones etc. Foi assim que cheguei em Bob Dylan.

2. Antes de entrar em Arquitetura na USP, fiz seis meses na FAU-Santos. Tinha 18 anos e era a primeira vez que saía da casa dos meus pais. Dividi um pequeno apartamento na Ponta da Praia com um amigo que, por meio de outros, fiquei conhecendo na época do vestibular. Gastava todo o dinheiro da mesada comprando LPs, tinha uma quantidade considerável com 17 anos. Levei alguns e o meu equipamento, que era constituído de um Sansui, um toca-discos Elac e um par de caixas Polivox. Como morávamos em um apartamento que hoje seria chamado de estúdio (naquele tempo chamava-se kitnet), nossos vizinhos deviam ouvir o que escutávamos. O nosso de parede, um cara alto, meio calvo, uns dez anos mais velho, um doidão, descobrimos já de cara, consumidor de algumas drogas ilícitas, bateu na porta bem quando ouvíamos Bob Dylan. Entrou dizendo que era seu ídolo, sem cerimônias foi aumentando o som. O que eu quero dizer é que a diferença de idade era a razão de seu entusiasmo. Era um cara que viveu o surgimento de Dylan na música. Nós, mais jovens, tivemos a iniciação ouvindo o rock progressivo de Emerson, Lake & Palmer, Genesis, Yes e King Crimson.

3. Ao assistir ao filme Um completo desconhecido (2024), direção de James Mangold, fiquei com vontade de fazer um registro. Nunca li alguma biografia ou autobiografia de Dylan, portanto, o que escrevo está baseado no que vi e pode não corresponder exatamente com a a realidade.

4. Minha maior curiosidade, quando vi a capa de The Freewheelin’ pela primeira vez era pela mulher que  caminhava sorrindo abraçada a ele. Chamava-se Suze Rotolo. Digamos que me senti uma paixão platônica e um pouco de inveja. Estranhei que no filme se chamasse Sylvie Russo. Pesquisei e descobri que o próprio Dylan pediu ao diretor que trocasse seu nome. Pelo filme conclui-se que era uma moça culta, mais do que ele, politicamente engajada, ao contrário do “caipira” nascido em Duluth, Minesota. Porém era atormentada pela relação dele com Joan Baez. Teria sido mesmo?

5. O título da crítica de Inácio Araújo” na “Folha de S.Paulo” é: “Filme de Bob Dylan começa bem, mas se perde em burocracia”. Fiquei até receoso de assistí-lo. Ainda bem que não foi o suficiente para aplacar a minha curiosidade e posso dizer que adorei. Talvez soe um pouco esquemática e imagino que o diretor tenha dado mais ênfase no início de sua carreira, sua idolatria por Woodie Guthrie, seu maior ídolo e referência. Ao optar por passar a usar a guitarra elétrica, chocou um universo de amantes do folk, gênero com que ficara famoso. Foi um choque ele entrar com uma formação diferente no Newport Folk Festival. Era uma época de grandes mudanças estruturais, com o movimento civil, o flower power na Califórnia, drogas, amor livre, invasão britânica com os Rolling Stones e os Beatles e Jimi Hendrix fazendo uma revolução com sua guitarra elétrica em Londres e depois em sua terra natal. Dylan era um cara desses caras do “the times they are a-changin’”. Um marco dessa transformação é a apresentação de Bob Dylan, em 1966, no Royal Albert Hall, Londres, em que a primeira parte é acústica seguida pela elétrica.

6. No Brasil, logo depois, aconteceria algo parecido. Em 1967, no Festival de Música Popular da TV Record, Caetano Veloso resolve apresentar sua música Alegria, Alegria com a banda de rock argentina The Beat Boys. Foi acompanhada por vaias, mas uma parcela do público adorou a novidade. Aconteceram até passeatas em favor da pureza da música brasileira e contra a influência americana, com participantes conhecidos como Elvis Regina e até Gilberto Gil, que logo depois se renderia às guitarras elétricas e influências alienígenas. 

4. Desde sempre tive curiosidade de saber quem era a mulher que caminha com Bob na capa de The Freewheelin’. Estranhei de que no filme chama-se Sylvie Russo, quando na vida real chamava-se Suze Rotolo. No filme Sylvie é uma namorada atormentada pelo ciúme que tinha de Joan Baez. Pelo que sei, Dylan e Baez tiveram uma relação tumultuada que durou um tempo, cheia de idas e vindas. Uma primeira sincronia: dias depois que vi o filme, assisti ao documentário que Jorge Bodansky fez sobre a artista plástica Eleonore Koch (As cores e amores de Lore), e ela cita Joan Baez como sua cantora preferida.

5. Masters of War. A crise dos mísseis em Cuba, em outubro de1962, quando foi descoberto que os soviéticos estavam construindo bases de lançamentos de artefatos nucleares em Cuba, foi a “maior guerra atômica que não aconteceu”. Para mim que era uma criança e nascido no Brasil tal crise passou em branco, mas lembro que meus pais estavam acompanhando por meio da revista americana “Life”, que minha mãe comprava direto. A 40 quilômetros de Passos, estava sendo construída a usina hidrelétrica de Furnas. Era uma legião estrangeira trabalhando lá, indianos, americanos, filipinos, japoneses, daí a razão da facilidade de se encontrar revistas americanas. Minha mãe não sabia nada da língua inglesa, mas não perdia um número da “Life” e nem das brasileiras “Cruzeiro”, “Manchete” e a “Fatos & Fotos”, a versão “Life” nacional, com pouco texto e profusão de imagens. 

Foi um fato marcante na história do mundo ocidental. O discurso de John Kennedy, presidente dos Estados Unidos, deflagrou pânico total no povo americano, com prateleiras de supermercado esvaziadas pelo medo do confronto, caos e gente improvisando ou construindo abrigos. No filme são reproduzidas registros da época. Parece que serviu de inspiração para Bob compor Masters of Wars (é uma das faixas em The Freewheelin”). 

Coincidentemente, a crise dos mísseis é narrada em Lições (Companhia das Letras, 2022), de Ian McEwan, que estou lendo por esses dias. Adoro essas sincronias. Roland um pré-adolescente apaixonado por sua professora de piano, está pouco ligando para a crise, ao contrário dele, razoavelmente mais velha que ele. Roland vai à casa de Myriam, a professora, e transam. Depois, liga o rádio enquanto limpa a casa. A notícia era de que a crise tinha acabado. Krushev ordenara a retirada dos mísseis em Cuba. Na cabeça de todos Kennedy tinha salvado o mundo. 

Bom, acho que é isso. Estou ouvindo The Freewheelin’ agora. Seu primeiro disco autoral é uma série de obras-primas. Começa com Blowin’ the Wind, um clássico que até o nosso Eduardo Suplicy cantou, se bem que desconfio que em razão de ser tão de carteirinha de Joan Baez. A segunda é uma das minhas preferidas de todos os tempos: Girl from the North Country. Devido à minha dificuldade de prestar atenção em letras de música, não faço a mínima ideia do que se trata e até hoje não sei quem é a tal “girl from the north country”. E aí vem Masters of War, que potência de música! Em vez de mais comentários, ouça o LP.


quinta-feira, 12 de abril de 2018

O muito e o um pouco menos conhecido de Leonard Cohen

A música de Cohen mudou com Jennifer Warnes
Depois de “Death of a Ladies’ Man”, um tanto chato, fruto de sua parceria com Phil Spector, Leonard Cohen lançou “Recent Songs” (CBS 1979). Representa um retorno às raízes folk, que o tinham tornado razoavelmente conhecido nos EUA e é também o início da colaboração de Jennifer Warnes, fazendo a segunda voz.

O próximo LP saiu apenas em 1984: “Various Positions”. O hiato de cinco anos serviu para reoxigenar sua carreira. Dois clássicos atuais estão nesse disco: “Dance Me to the End of Love” e “Hallelujah”. Outra coisa também tinha mudado. Segundo ele, depois de “50 mil cigarros e várias piscinas de whisky”, sua voz era agora a de um baixo-barítono.

Há duas gerações de fãs de Leonard. A maioria é da “fase 2”. Estes, depois de ouvirem “Hallelujah” e “Dance Me to the End of Love”, descobriram que antes tinha composto músicas geniais, como “Susanne”, So Long, Marianne”, “Sisters of Mercy” e “Hey, That’s No Way to Say Goodbye”, todas lançadss em um único LP: “The Songs of Leonard Cohen” (1967). Quando ficou conhecido tinha, 33 anos, idade um tanto avançada para a revelação de um pop star.

Nessa altura, Cohen, com alguns livros de poesia publicados, era razoavelmente conhecido no Canadá, sua terra natal. Queria mais, no entanto. Foi para os EUA, aventurando por outras searas. A cantora Judy Collins gravou Collins gravar “Susanne”. Foi o primeiro grande passo. Comparado à Bob Dylan, mas diferente, a não ser pela pouca extensão da voz, suficiente para dar voz a sua poesia “cantada”, virou o que chamam de cult.

Um novo Cohen
Na “fase 2”, a voz de Cohen tornou-se mais dark e sua música, mais light. Perdeu um pouco daquela aridez que combinou tão bem com as paisagens invernais de “McCabe & Mrs. Miller” (“Onde os Homens São Homens” no cinema, e “Jogos e Trapaças” em sua versão para DVD), belo filme de Robert Altman, de 1971, estrelado por Warren Beatty e a gloriosa Julie Christie, em que poderia se apostar que aquelas canções foram sido feitas sob encomenda como trilha sonora. Mas tinham sido compostas antes.

Sobre “McCabe & Mrs, Miller” leia no post O bardo canadense Leonard Cohen

Cohen gravou mais discos depois do retorno do que na primeira fase. É provável que, mais em paz, de bem com o sucesso, e menos atormentado por dramas interiores, tenha ficado mais prolífico, ou com menor rigor autocrítico. É o preço que se paga pela felicidade. Em vez do bardo doidão a fazer o discurso de paz e amor, como na apresentação no festival da Ilha de Wight, em 1970, sob o poder kármico de algumas drogas ilícitas, tornou-se uma representação de si mesmo, como um homem vestido com os ternos encomendados em alguma alfaiataria da Savile Row sóbrios e elegantes e legítimos panamás, e não mais o mal barbeado com sobretudos negros ou cáquis e cabelos sebentos, que combinava bem com a figura do artista dos anos 1970. Afinal, o mundo transformou-se e ele resolveu ser “outro”. Não é uma crítica, pois não virou uma caricatura de si mesmo, e ainda tinha talento suficiente para surpreender seu público. Menos atormentado e rodeado de mulheres a lhe dar suporte vocal, trovejava – tanto no sentido sonoro como no de trovador – mais um punhado de belos versos.

Das grandes composições da “fase 2”, além de “Hallelujah”, “Take This Waltz”, “I’m Yor Man”, gosto muito de “The Letters”. É uma das que está em “Dear Heather” (2004). Este álbum é um dos mais interessantes e não muito comentado. Neste, várias delas são em parceria com outros, como Sharon Robinson e Anjani Thomas, que participam nos vocais. A voz grave dos “50 mil cigarros e uma piscina de whisky” soa bela como nunca. Em várias, não canta, recita, e, fora do usual, seus parceiros são Lord Byron (“Go No More A-Roving”) e Frank Scott (“Villanelle for Our Time”). Sua voz soa sublime neste último. Ouça.




Ouça “The Letters”.


quinta-feira, 26 de maio de 2016

As velhas novidades de Eric Clapton e Bob Dylan

Na semana passada foram lançados I Stiil Do, de Eric Clapton, e Fallen Angel, de Bob Dylan. São duas estrelas que estão na estrada desde a década de 1960, o que significa que estão há muito tempo. São remanescentes de uma década rica em revoluções musicais e de costumes. Clapton quase submergiu devido ao consumo de drogas mais pesadas, ao contrário de Dylan que, de mais grave aconteceu, adepto contumaz da marijuana, foi o acidente de motocicleta que o obrigou a se afastar do business da música por um tempo. A quarentena foi boa: Dylan voltou eletrificado, para a tristeza de seus fãs mais puristas.

No dia 24 deste mês, Bob Dylan comemorou o aniversário de 75 anos e continua na estrada. Faz em média cem apresentações por um ano, número significativo para alguém que já pode ser chamado de ancião. E para o recente Fallen Angel, está programada uma turnê com a também veterana Mavis Staples abrindo os shows. O negócio é que Bob, para o bem ou para o mal, gosta de ser original: nunca interpreta seus sucessos como são conhecidos em disco. O finado jornalista do Jornal da Tarde, Edmar Pereira, dizia, que, com um pouco de sorte, reconhecia-se o que o bardo americano cantava na hora do refrão. Aqueles que gostam de um bom espetáculo não sentem o mínimo prazer de verem Dylan em um palco. É ele e uma pequena banda, sem projeções em laser ou iluminações extravagantes.

EC pela mãos do mestre Peter Blake
Eric Clapton é um pouco mais novo e parece não se interessar mais em fazer grandes turnês. Assim mesmo, não vesitu o pijama e acaba de colocar na internet e nas poucas prateleiras das lojas de discos o seu I Still Do. É um aviso: “I still do.” O que ele faz, aliás, muito bem. São canções que pendem para o blues, gênero preferido desde os tempos em que começou tocando com John Mayall.

Clapton nunca fez um álbum ruim. Consegue manter uma média boa, ou melhor, são sempre, no mínimo, bons. I Still Do é o retrato disso e por isso é um título revelador. Aqui, não quer mostrar que já foi considerado Deus, o melhor guitarrista do mundo etc. Simplesmente, mostra que não tem que ficar se mostrando, o que é sinal de bom equilíbrio mental. O que pode ser um pouco decepcionante é a constatação de que nunca é genial como foi nos tempos em que era um “drug and alcohol Addict”.

Ouça o álbum na íntegra. Há sempre a possibilidade de, por conta de direitos autorias, de esse “youtube” ficar indisponível.




Um dos destaques é Stones in My Passway, de Robert Johnson. Esta é a versão do álbum que foi dedicado exclusivamente ao bluesman.




Outra a destacar é Cypress Grove, de Skip James. Essa versão é a de uma apresentação ao vivo.




A face Sinatra de Dylan
Em seu penúltimo álbum – Shadows in the Night –, Bob Dylan resolveu encarar o repertório de standards. Completando 75 anos, quase coincidindo com o aniversário, lançou Fallen Angels, centrado novamente nos standards do cancioneiro americano. É de se esperar que não dê uma de Rod Stewart e passe a gravar álbuns assim um atrás do outro.

Erradamente, alguns fazem referência a Frank Sinatra quando Dylan recorre ao repertório Tin Pan Alley. Nesse álbum, o número mais associado ao “ol’ blue eyes” é All the Way. As restantes, como Polka Dots and Moonbeams, Skylark, All or Nothing at All ou It Had to Be You e Come Rain or Come Shine, e até Young at Heart foram cantadas por Sarah Vaughan, Ella Fitzgerald e por uma infinidade de outros intérpretes, e com muito mais competência. A diferença é que Dylan não é Sinatra, nem Fitzgerald e nem pretende sê-lo, é o que imagino. Como cantor, sempre foi sofrível. É um grande, isso sim, bom intérprete de si mesmo. Em Come Rain or Come Shine e Neverthless desafina bem. O mesmo acontece em Skylark, por exemplo, brilhantemente interpretada no passado por Willie Nelson, outro country-folk singer que aventurou-se pelos standards na década de 1970.

Em Shadows in the Night, o fator novidade funcionou. A busca pelo passado era um bom pretexto. Fallen Angels é uma continuação piorada. Em bom artigo, Fernando Navarro dá uma luz em “O belo outono de Bob Dylan” sobre as referências relativas à velhice. Talvez, cantar o repertório Tin Pan Alley tenha alguma relação com isso. Faz sentido, de repente, Dylan abordar esse repertório.

Ouça a faixa promocional All the Way.



Ouça Melancholy Mood outra disponível.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Bob Dylan ataca nos standards

Shadows in the Night, lançado em 2 de fevereiro
Devo ter contado essa história em alguma ocasião anterior, mas, vamos lá. Não lembro mais em que ano foi, presumo porém que foi há mais de 20 anos, pois era um festival de música patrocinado pela indústria do tabaco, o que hoje é proibido. Em um dos Hollywood Rock, uma das atrações era Bob Dylan. Era dia ainda quando se apresentou, porque não era a atração principal. Apesar de sua relevância, nunca encontrei fãs fanáticos pelo americano aqui.

Encontrei com o Edmar Pereira, à época, do Jornal da Tarde. Para confirmar que foi há muito tempo, o jornal deixou de existir em 2012 e Edmar morreu em 2003. Ele estava com um daqueles jalecos verdes que os fotógrafos costumam usar. Era um cara grandão e difícil de passar despercebido em qualquer lugar. Ele estava bem distante do palco e com o estádio do Morumbi relativamente vazio ainda, fiquei conversando com ele. Comentei que não conseguia reconhecer a música que Dylan cantava. O Edmar comentou: “Na hora do refrão, é possível descobrir.” Às vezes, nem pelo refrão, tal a forma que cantava até as mais conhecidas como Blowin’ the Wind. Como o Edmar estava a trabalho, tinha o setlist à mão. Foi um show estranho, como o outro a que assisti, quando abriu para os Rolling Stones, em 1998, se não me engano.

A febre de lançamentos de álbuns de figuras carimbadas do pop/rock cantando clássicos do cancioneiro americano é antiga. Temos bons discos de Carly Simon (Hurt), Willie Nelson (Stardust) e Bryan Ferry (As Time Goes By) cantando standards com muita categoria; outros, nem tanto, como o de Paul McCartney (Kisses on the Bottom; leia em http://bit.ly/1DrGX3R), mas de nenhuma forma, ruim. Esses álbuns, em sua maioria, pois até Luis Miguel já fez isso, têm cara de caça níqueis. Veja-se o exemplo de Rod Stewart, que lançou um “Great American Songbook” e depois, mais quatro. Haja saco, ou melhor, ouvidos.

Há uma certa ironia em Bob Dylan, depois de tanta gente ter feito, lançar o seu álbum de standards. A ironia é porque muitas de suas composições podem ser consideradas como tal. De chofre, sem pensar muito, é possível lembrar-se de Blowin’ in the Wind, All Along the Watchtower, Like a Rolling Stone, clássicos que merecem o rótulo de “standards”. Certo que nenhuma delas está relacionada à tradição dos musicais como as de um Cole Porter ou um Irving Berlin.

Dylan, em entrevista à AARP the Magazine, Dylan disse que pensava em gravar um álbum nesse formato desde que ouvira Stardust, de Willie Nelson, lançado nos anos 1970. Disse também que Sinatra é uma referência forte: “Quando você começa a gravar essas músicas, Frank vem à mente. Porque ele é uma montanha. Essa é a montanha que você quer subir, mesmo que você a escale apenas uma parte. E é difícil encontrar uma canção que ele não tenha gravado. Ele é o cara que você deve conferir. As pessoas falam o tempo todo de Frank. Ele tinha essa habilidade de entrar na canção como se fosse uma conversação. Frank cantava para você – não em você.”

Há uma qualidade específica em suas interpretações. Longe de ser um Frank Sinatra, com direito a algumas semitonadas, há uma beleza na forma como aborda cada uma das canções. Canta melhor do que em seus últimos álbuns. Há um certo consenso de que sua voz, que nunca foi uma maravilha, piorou com o passar dos anos. Como Willie Nelson, que em Stardust deixa evidente que suas raízes estão na country music, Dylan imprime uma ambiência folk, cantando sobre uma base bem despojada, na maioria delas, só com o violão e uma guitarra slide. Outra coisa boa é a de que, nesse álbum produzido por ele, garimpa canções não muito conhecidas. Ao contrário de um Rod Stewart, Dylan foge do óbvio.


Ouça algumas faixas além de I’m a Fool to Want You.

Stay with Me, de Jerome Moross, Carolyn Leigh.




Full Moon in Empty Arms, de Buddy Kaye, Ted Mossman.






sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Um café para Jack, do White Stripes

“Sua respiração é doce, seus olhos são como/ Duas joias no céu/ Sua postura é ereta seus cabelos são suaves/ Sobre o travesseiro no qual pousa/ Mas eu não sinto afeição/ Nem gratidão nem amor/ Sua lealdade não é para mim mas para as estrelas acima.” Após a primeira estrofe, vem o refrão “One more cup of coffee for the road/ One more cup of coffee for I go,/ To the valley below.” Há uma interrupção, ou melhor, uma voz que morre “descendo o vale”.

Que história é essa? Ao sabermos que “Sua irmã vê o futuro/ Como sua mãe e ela./ Você nunca aprendeu a ler ou escrever./ Não há um livro na sua estante/ E seu prazer não conhece limites/ E sua voz soa como o canto da cotovia./ Mas seu coração é qual um oceano/ Misterioso e escuro.” A garota deve ser uma cigana, uma andarilha. O prazer não conhece limites, mas seu coração é misterioso e escuro.

One More Cup of Coffee é a quarta canção do álbum Desire (CBS 1976) e é cantada em dueto com a cantora folk Emmylou Harris. É desse disco a conhecida Hurricane, que trata da prisão do boxeador peso médio Rubin Carter, preso acusado de triplo homicídio, em 1966. Foi solto em 1985.


Em 1999, uma banda formada apenas de duas pessoas, o guitarrista e vocalista Jack White e uma moça ensandecida na bateria chamada Meg White, lançou o primeiro disco, apenas com o nome dela: The White Stripes. Têm preferência pelo branco e o vermelho nas roupas. Os dois branquelos fizeram um disco realmente “enfurecido”. A décima terceira música é One More Cup of Coffee. Enfurecida e bela. Ouça.