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quinta-feira, 19 de março de 2015

Ketil Bjørnstad, Edvard Munch, John Donne e Michelangelo Antonioni

Ketil Bjørnstad e seu piano
Edvard Munch
Poucos devem saber que Edvard Munch escrevia. Munch, às vezes, é classificado como um pintor proto-expressionista por seus trabalhos de carga dramática intensa. Até o mais analfabeto em artes plásticas conhece e admira O Grito. Um dos “Gritos”, já que foram realizadas quatro sob esse nome, em 2012, foi arrematada por 119,9 milhões de dólares, quantia nada desprezível para uma pintura. Como escritor, o pintor poderia ser considerado um pré-existencialista.

A vida de Munch é um reflexo de sua pintura. Perdeu a mãe com cinco anos, uma das irmãs morreu com 15, outra morreu logo após se casar, e uma terceira teve de ser internada por ser bipolar. O desejo de Munch era ser pintor e escritor. Ketil Bjørnstad, também norueguês, admirador de sua obra, compôs Sunrise usando seus escritos, em 2013, coincidindo com o 150º aniversário de seu nascimento.

Bjørnstad e Antonioni
A formação de Ketil Bjørnstad é de pianista clássico. Com 16 anos, estreou nos palcos executando o Terceiro Concerto para Piano e Orquestra, de Béla Bartók. Nascido em 1952, seus interesses musicais foram contaminados pelo jazz e o rock. Gravou com Terje Rypdal, Jon Christensen, Arild Andersen e o cellista americano David Darling, pelo selo alemão ECM.

Ouça a bela The Sea I, com o guitarrista Terje Rypdal, David Darling no violoncelo, e Jon Christensen na bateria.




Em 2010, Bjørnstad apresentou a obra La Notte no Molde International Jazz Festival, na Noruega. Ketil credita o cineasta Michelangelo Antonioni dentre os artistas que o influenciaram: “Ao mesmo tempo em que descobria o que o jazz poderia ser, ouvindo In a Silent Way, de Miles Davis, também assistia aos filmes de Godard, Bresson e Antonioni. Talvez tenha sido o ritmo lento dos filmes de Michelangelo Antonioni que me fizeram pensar em música… da mesma maneira que as artes visuais criam músicas em nossas mentes, e a música sugere pinturas e expressões visuais com a mesma intensidade, ambas são profundamente interdependentes.” Na gravação lançada pela ECM, é acompanhado pelo belo violoncello de Anja Lechner.

Ouça La notte: III, inspirada em filme do mesmo nome, de Antonioni.




Bjørnstad e John Donne
Em um ponto o percurso de Ketil e Munch convergem: as letras. Em paralelo à música, lançou seu primeiro livro de poemas – Alone – em 1972 e desde então, tem de cerca de trinta obras publicadas, incluindo poesia, romances e biografias.

A formação clássica e seu interesse pelo jazz e pelo rock desemboca em uma carreira muito interessante, pois nos últimos anos tem composto peças que o aproximam da música erudita. É a serpente que busca a própria cauda: é o movimento circular daquele que se inicia no erudito, passa por outros gêneros e volta para a origem e alimenta-se das experiências por que passou.

Seu interesse pela literatura, pelas artes plásticas e pelo cinema, e claro, pela música, resultam em gravações em que esses conceitos se fundem, como nos citados Sunrise e La notte. Esses motes inspiradores continuam no mais recente A Passion for John Donne (ECM, 2014). Pelo título, já se sabe quem é sua referência para seu mais recente trabalho, o que não é novidade, pois, em 1990, havia lançado The Shadow, musicando poemas do inglês.

Ouça Sweetest Love, do álbum The Shadow, de Ketil e a mezzo-soprano Randi Stene, de 1990.




O recente A Passion… deixa evidente os elos de Bjørnstad com seu aprendizado inicial da música dita clássica. Em suas composições, em razão de partir de textos e poemas, serve-se de uma estrutura que remete à música dos séculos XVI e XVII, evidentemente, sob o filtro de alguém que compõe no século XXI. Os resultados são, por vezes, de uma beleza que beira ao sublime, como em A Fever.

Ouça.




O fato pitoresco é a de que o dono da bela voz de tenor é, ao mesmo tempo, quem toca o saxofone e a flauta: Håkon Kornstad. Em A Fever, mostra como é bom nos dois. Belíssimo também é a atuação da Oslo Chamber Choir.

Ouça Since she whom I loved hath paid her last dept.



Por fim, ouça Interlude no.1. Bjørnstad é um artista completo.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

A cena mais linda de Antonioni

Grande Antonioni!
Se não é a mais linda, é a mais impactante. Saiu há algum tempo um dos grandes filmes da fase americana de Michelangelo Antonioni: Zabriskie Point. Todo ser normal com mais de 45 anos deve ter visto esse filme. Para os que não, é uma grande chance, agora que está disponível em DVD nacional. Se você tem mais de 15 anos, tem a obrigação de assistir e de ter uma ideia da “pré-história” dos movimentos libertários pós-Vietnã. Poucos devem saber quem foi Angela Davis, alguns podem ter ouvido falar de Cohn-Bendit, Malcolm-X e Marthin Luther King. Mas Felipe Belisario Wermus, o Brasil conhece. É um nome “un poco” estranho, mais ainda se alguém sabe que esse é o nome verdadeiro do ex-trotskista Luis Favre. Antigos trotskistas, hoje convertidos em elegantes críticos, jornalistas e professores, o conhecem muito bem. Outro francês – Favre é franco-argentino –, Regis Debray, é outro que andou por terras do Novo Mundo latino. Esse deve ser quase um desconhecido para a geração que tem menos de 45 anos. Encontrava-se na Bolívia quando Che Guevara foi morto. Anos mais tarde, integrou o governo socialista de François Mitterand.

Voltando ao diretor italiano, é responsável por grandes filmes na década de 1960 (A Aventura, Eclipse, A Noite, Deserto Vermelho). Como vários italianos que amealharam notoriedade além-mar, foi cooptado pelos estúdios americanos. Produtores como Carlo Ponti e Franco Cristaldi – respectivamente, srs. Sofia Loren e Claudia Cardinale – foram protagonistas desse “expansionismo” do cinema italiano. A primeira produção fora da Itália foi Blow Up, chamado no Brasil – não riam – Depois Daquele Beijo, em 1966. Grande filme, baseado num conto de Julio Cortazar, Las Babas del Diablo. Em 1970, foi lançado Zabriskie Point e, em 1975, The Passenger (Profissão: Repórter).

Bela Daria!
Zabriskie Point é um petardo sociopolítico da efervescente situação dos EUA. A cena de uma assembleia que ocorre entre estudantes, a tensão racial, a violência policial – e a dos jovens, também – compõem um painel agudo de um estrangeiro que tudo enxerga e coloca personagens em situações-limite. Mark Frechette é perseguido pela polícia por conta de uma morte acontecida num confronto dos estudantes com a polícia e cruza com a bela Daria Halprin, que secretaria um empreendedor imobiliário. Além do teor fortemente político, há uma atmosfera de psicodelia nas cenas que acontecem no deserto. A cena final, tendo de fundo musical, Pink Floyd, é antológica. Veja (ou reveja) no primeiro vídeo.

O filme seguinte, protagonizado por Jack Nicholson, no papel de um jornalista que assume outra identidade, e Maria Schneider, então conhecidíssima por ter feito O Último Tango em Paris, de Bernardo Bertolucci, tem uma cena antológica. Não vou contar. Assista e compreenda porque Antonioni é considerado um dos grandes nomes do cinema.





Será essa, a de Passageiro: Repórter, a melhor cena da fase “americana” de Antonioni?