Um diretor do time “ame-o ou deixe-o” é Wes Anderson. Conheço alguns que o odeiam. Sou do time oposto e tendo à parcialidade. Suas esquisitices são julgadas como babacas por uns, e genial por outros. O Grande Hotel Budapeste, Viagem a Darjeeling e A Vida Aquática de Steve Zissou estão entre os meus preferidos. Esse “fanatismo” faz coisas tão imbecis como querer ter um tênis Adidas com faixas em dois tons de azul igual à da tripulação do barco do oceanógrafo vivido por Bill Murray. Procurei até em sites de fora e não o encontrei.
Dentre as coisas inusitadas que Anderson nos proporciona, como é que Seu Jorge foi parar em um filme seu? Se o compositor e cantor não era ainda nem tão conhecido como é agora, que até mora em Los Angeles… boa pergunta.
Encontrei o Fernando Meirelles, companheiro da Faculdade de Arquitetura da USP, em um bar por ocasião da despedida de uma amiga em comum que morava na França e vinha uma vez por ano ao Brasil. Já tinha realizado Cidade de Deus, O Jardineiro Fiel e, se não me engano, O Ensaio Sobre a Cegueira. Entre uma coisa e outra, revelou sua admiração por Paul Thomas Anderson e a conversa chegou em outro Anderson. Devo ter perguntado em como Seu Jorge fora parar em A Vida Aquática de Steven Zissou. Respondeu que ele fora o responsável. Um produtor bem conhecido – não lembro de seu nome agora –, tinha entrado em contato à procura de um ator com algumas características para o filme que Wes Anderson estava gestando. Sugeriu o cantor/compositor que participara de Cidade Deus como Mané Galinha. O que conto pode ter algumas imprecisões pois aconteceu há um bom tempo, mas foi mais ou menos assim. Disse que por sua causa Seu Jorge passara seis meses morando na Itália, curtindo e trabalhando no filme.
Seu Jorge e David Bowie
Ficou faltando a pergunta sobre como surgiram aquelas versões malucas em cima das mais conhecidas canções de Bowie que Seu Jorge canta no filme. Possivelmente não saberia responder.
Esquisitice por esquisitice, parece que a ideia partiu do próprio diretor. Seu Jorge cantando versões que, em termos de letra, não soma nada. É, no entanto, mais um toque exótico do diretor. A única que já tinha uma letra em português, de autoria da banda Nenhum de Nós é Starman; o resto é dele.
Seu Jorge ganhou palavras simpáticas de Bowie no encarte: "Se Seu Jorge não tivesse gravado minhas canções acusticamente em português, eu nunca teria ouvido esse novo grau de beleza que ele conseguiu adicionar a elas."
Após uma longa temporada como contratado da ECM (1989–2013), gravando um disco bom atrás do outro, desde o ano passado, Charles Lloyd está no selo americano Blue Note. I Long to See You, lançado agora em janeiro, já é o segundo. Lloyd estreou com Wild Man Dance. Este foi tirado de uma apresentação no Jazztop Festival, em Wroclav, Polônia. Para quem ouviu ou conhece os últimos álbuns do saxofonista e flautista, encontrarão uma conexão deste com Athens Concert, duplo que saiu em 2011. Nele não conta com a cantora Maria Farantouri, mas inclui dois músicos gregos: Sokratis Sinopoulos, na lyra, que havia participado do concerto de Atenas, e Miklos Lucacks num instrumento chamado cimbalon. Orestante é o básico de um quarteto, mas a presença dos gregos imprime um caráter mais “world music”.
Uma coisa em comum, apesar da diferença de idade, com Sonny Rollins, também saxofonista tenor, foi o interesse pela música e cultura oriental e pelo rock’n’roll. Rollins, que foi comparado a John Coltrane, teve uma carreira um tanto errática devido a uma certa irresponsabilidade com os compromissos firmados. Passou mais de uma temporada afastado do meio musical. Interessou-se pela ioga e meditação e visitou a Índia algumas vezes. Interessou-se pelo rhythm’n’blues, o rock e o funk. Incorporou guitarras elétricas e chegou a participar de gravações com os Rolling Stones.
Lloyd despontou um pouco mais tarde, no início dos 1960 e passou a gravar como líder em 1964, quando assinou contrato com a Columbia Records. No espírito da época, arregimentou a guitarra de Gabor Szabo e não seguia a tradição do bop. Teve entre seus liderados Keith Jarrett e Jack DeJohnette. Como Rollins, interessou-se por outras culturas e pelo rock. Foi para a costa oeste e embebeu-se da cultura hippie e passou uma temporada tocando com os Beach Boys.
Depois da Columbia, Lloyd foi para a Atlantic e por razões diferentes, passou uma década um tanto esquecido. Gravou pela Elektra e teve o ascendente Michel Petrucciani tocando com ele. A virada acontece quando lança Fish out of Water, em 1989, pela ECM. Não tinha mudado radicalmente. Vista hoje, a sua música dos anos iniciais apenas foi sendo depurada. Sob as mãos do produtor Manfred Eicher, parecia que toda a intensidade dramática e melódica do som do seu tenor e da flauta atingia uma maturidade produzindo sons que o aproximava da beleza intensa do John Coltrane da época de Meditations e A Love Supreme. E foi assim, num continuum de grandes discos. Os músicos podiam ser diferentes em cada um, mas essa atmosfera de espiritualidade hipnotizante é o grande elo entre eles.
Agora, quase octogenário, mudou de ares. No novo álbum, esse músico nascido nos Estados Unidos, está menos ECM e mais americanizado. Essa mudança, que pode até assustar um pouco, é bem evidente em I Long to See You. Não é à toa que a música de abertura seja Masters of War, de Bob Dylan. Simbolicamente, é como se ele voltasse aos anos 1960.
Ouça Masters of War.
Outro fator a se levar em consideração, é a de que Lloyd toca com dois guitarristas. Teve Calvin Newborn e Gabor Szabo, e durante os anos ECM, contou com a participação de John Abercrombie. No novo álbum, os dois são Bill Frisell e Greg Leisz. Suas participações dão o tom “americanizado”. Ambos não seguem a tradição de Django Reinhardt ou de Charlie Christian, Estão mais para Greg Allman, da lendária Allman Brothers.
Bill sempre teve uma queda pelo country folk. Chegou a gravar um disco cujo título é Nashville. Não é o único em sua discografia que vai por essa levada. Com Greg, que toca “pedal steel-guitar”, instrumento típico do country-folk, isso fica patente. Mesmo com Lloyd como líder, em princípio, o que predomina é isso. Não é uma crítica. É uma constatação. Frisell e Leiz são os “marvels” de Lloyd, com com Reuben Rogers e Eric Harland, que já tocavam com o saxofonista nos discos da ECM.
A segunda faixa é Of Course, Of Course. É boa, mas não tem o tom do que conhecemos dele.
Os propósitos mais comerciais da Blue Note estão evidentes com as participações especiais. Uma é de Willie Nelson em Last Night I Had the Strangest Dream, que faz par conceitualmente com Masters of War, outro número anti-bélico dos anos 1960. A outra participação é de Norah Jones em You Are So Beautiful, de Billy Preston, que virou carne de vaca após a morte de Lady Di. Com ela, fica bem mais interessante do que a com Joe Cocker. Uma constatação quando ouvimos os solos melancólicos de Charles Lloyd: tem um dos mais belos sons no sax tenor atualmente.
Confira.
La Llorona não é novidade no repertório de Lloyd. O tom melancólico da canção combina perfeitamente com as guitarras de Frisell e Leisz. Junto com outra tradicional, que é a conhecida Shenandoah, e Barche Lamsel, a última e mais longa, são os destaques.
Ouça La Llorona. Uma observação. O YouTube, geralmente, bloqueia arquivo de gravadoras mais conhecidas. O álbum tinha sido postado na íntegra, mas foi tirado. Corra e ouça antes que isso aconteça.