quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Duas ou três coisas de My Blueberry Nights, de Wong Kar-Wai

Norah Jones tem sido o “assunto” das minhas últimas conversas por e-mail com a amiga Vania. Talvez por isso, acabei revendo Um Beijo Roubado (é o título brasileiro), de Wong Kar Wai.

Se o diretor – craque nas escolhas musicais para seus filmes – gosta de Norah Jones, por que não eu? Ela é sucesso de crítica e público, sem dúvida. A gravadora Blue Note vendeu-a como intérprete de jazz quando sua música ficaria mais bem classificada como country-folk, gênero que não é dos meus preferidos. Seu disco Come Away with Me explodiu nas paradas (vendeu até hoje mais de 20 milhões) e foi bem recebido pela crítica, mesmo de revistas mais voltadas ao jazz. Não achei que era para tanto. Deu-me impressão de um brilhante golpe de marketing: muitos, um tanto desinformados, acharam que o que Norah fazia era jazz. Esse dado – gato por lebre – despertou em mim certa birra. Mesmo assim, é inegável que faz uma música bem agradável. E, depois de ter revisto o filme, tem competência como atriz.


Duas ou três coisas sobre o filme:
1. Algumas cenas são belíssimas. O chinês é um esteta, como demonstrou em seus filmes “orientais”. Um recurso que costuma usar é o de dar uma leve desacelerada (como um breve slow motion) em algumas cenas. Outro recurso é o de filmar através de vidros que refletem ambientes fora dos que estão sendo captados. O cinema é “um olhar pela janela”. Somos espectadores que não têm como intervir nas cenas vistas. Dentro do filme, vidros ou janelas são “anteparos”; separa o de “fora” do de dentro”. É um duplo distanciamento e um “olhar” sem “olhar”, é um ver parcial do “através” e do que se reflete.

2. As cenas iniciais são as de uma metrópole – Nova York –, ou seja “vertical”. Quando Elisabeth (Norah Jones) resolve sair da cidade indo para o interior do país, o filme se “horizontaliza” na paisagem aberta. Arruma trabalhos como garçonete, trabalha de dia e de noite pois, ocupando-se, não pensa muito sobre ter sido trocada por outra.

A verticalidade está em Elisabeth, que, do rés do chão, vê as luzes acesas e nota a presença de uma mulher no apartamento de seu namorado. Verticalidade está relacionada à busca de Deus, e a horizontalidade é relação do homem com seus pares. A vertical é o céu e a horizontalidade, a terra. Quando resolve viajar por lugares não conhecidos procura essa relação com o humano, a compreensão do mundo pela observação, pelo dia a dia do trabalho rotineiro, com as pessoas que, randomicamente, vai conhecendo, que entram em sua vida, “batendo ou não na porta antes de entrar”. Um dos clientes é Arnie ((David Strathairn). Abandonado pela mulher, embeba-se, e é o último a sair. Confrontando-se com a realidade do outro (“relações horizontais”), percebe que seu sofrimento com a perda (“relação vertical”) não é exclusivo.

Arnie sai do bar e bate o carro. Sue Lynne (Rachel Weiz) sofre com a morte do ex-marido. Vivo, não prestava; morto faz falta. O sofrimento de Sue Lynne tem alguma semelhança com a de Elisabeth. Ambas as perdas são definitvas.

2. Jeremy (Jude Law) é dono de um bar em NY. Tem um pote de vidro em que os clientes deixam as chaves para que aqueles que dividem os apartamentos as peguem. Elisabeth chega no bar e procura por seu namorado. Pela sua descrição (pelo que come, mais exatamente), Jeremy o identifica. Ela diz que vai deixar as chaves, para que, acaso apareça, possa pegá-las. Naquele amontoado de chaves, algumas nunca foram resgatadas. Portanto, pode-se dizer que elas são “registros” de amores ou amizades desfeitas. Uma delas é a do próprio Jeremy, abandonado por sua namorada russa Katya (Cat Power).

Numa noite, ela aparece quando se prepara para fechar o bar. Katya diz: “Às vezes, mesmo quando se tem as chaves, essas portas não podem ser abertas, não é?”. Jeremy responde: “E mesmo que a porta seja aberta, a pessoa que procura talvez não esteja mais lá, Katya”. Despedem-se laconicamente com um beijo.

3. Ao ser perguntado da razão de ter optado por uma cantora sem experiência em atuar, Kar Wai esclarece que vários atores orientais com quem trabalhou em filmes anteriores são cantores ou sabem cantar. Justifica a escolha dizendo que músicos têm muita noção de ritmo, e isso ajuda. Acertou com Norah. Ela é bem convincente, a ponto de esquecermos de que é cantora. Outra que trabalha em My Blueberry Nights é Cat Power. Faz uma ponta de alguns minutos. É Katya, a ex-namorada de Jeremy.

As imagens: a do carro é Sue Lynne (Rachel Weisz), com Jeremy, é Katya (Cat Power); nas três em série, é Leslie (Natalie Portman), uma jogadora profissional de pôquer; e última, é Elisabeth (Norah Jones)


quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Rogério Caetano pinta o sete no violão de sete cordas

O CD mais recente de Rogério Caetano
Numa dessas tardes quentes de verão e a rua com poucos carros passando, o silêncio é quebrado pela algazarra de algumas crianças e cães que latem o dia inteiro. Coloco Pintando o Sete, de Rogério Caetano. Encontro-o no meio de uma pilha de discos sobre a bancada do equipamento de som. No meio de tantos comprados recentemente, ficou esquecido. Paulatinamente, o som toma conta da sala.

Curioso é o fato de dois dos bons instrumentistas revelados nos últimos anos serem do Planalto Central. Rogério nasceu em Goiânia e Hamilton de Holanda (carioca) cresceu em Brasília. Interessante também é o número de músicos jovens tocando choro, atualmente. Nos anos 1970, ocorrera um boom desse gênero, com jovens – naquela época – formando conjuntos e tocando em bares. As gravadoras lançavam discos de Waldir Azevedo, Joel Nascimento e Altamiro Carrilho entre tantos outros. Em 1976, Paulinho da Viola lançou dois discos ao mesmo tempo: Cantando e Chorando. Esse último continha apenas choros de antanho e alguns compostos por ele. Acompanhado do pai, o violonista César Farias, do pianista Cristóvão Bastos e do mestre Copinha na flauta e sax, Paulinho fez um disco memorável e, provavelmente, despertou o interesse de muitos jovens que ouviam mais rock que música brasileira. Num belo filme exibido em 1977, Chuvas de Verão, Carlos Diegues encerra-o com a tomada de uma rua de subúrbio e Pedacinho de Céu, de Waldir Azevedo, como fundo sonoro. Nessa cena, Diegues sintetiza algo de muito caro ao gênero choro.

Rogério, além de virtuoso no violão de sete cordas, demonstra ser bom compositor. A primeira faixa, Violão na Gafieira é sua. É vigorosa, daquelas que poderiam ser tocadas numa gafieira. Em Rogerinho no Sete, toca com Maurício Carrilho, autor da música, e com Luciana Rabello no cavaquinho. Em seguida, ouve-se Valsa de Mãezinha, de Caetano e Hamilton, interpretada por ele e Yamandú Costa, ambos no violão de sete cordas. Belíssima. Em Carioquinha da Gema, Hamilton esmerilha no bandolim de 10 cordas e André Vasconcelos, no baixolão, e Rogério no violão, o acompanham. Pintando o Sete e Milena são dois belíssimos solos de violão. Em Saída pela Esquerda, outra composição de Rogério, as cordas (três violões e o cavaquinho) se contrapõem ao som áspero do trombone de Zé da Velha e o trompete de Silvério Pontes. Correr com Medo, um tour de force dos dois amigos brasilienses, em ritmo alucinante, fecha esse belo disco que vale a pena ser conhecido. Dino 7 Cordas e Raphael Rabello tem um sucessor à altura.

Veja e ouça Rogério Caetano tocando Samba em Prelúdio, clássico de Vinícius de Moraes e Baden Powell.

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Toninho Horta • Harmonia compartilhada é lançado em São Paulo

A Maria Tereza R. Arruda Campos estará amanhã, 15/12, autografando o livro Toninho Horta, harmonia compartilhada. Editado pela Imprensa Oficial, parte da Coleção Aplauso, é um apanhado da história do fabuloso Toninho até hoje, detalhadíssimo e fartamente documentado com imagens cedidas por ele. É um daqueles livros que deve fazer parte da biblioteca de qualquer ser que gosta de música e dos fãs do compositor e violonista (deles, nem é preciso dizer que estarão presentes).

Na ocasião, Toninho Horta estará autografando seu novo CD, Harmonia e Vozes (foi indicado ao Grammy Latino). Ele divide sua sensibilidade e bom gosto com Djavan, Ivete Sangalo, Seu Jorge, Ivan Lins, Frejat, Erasmo Carlos dentre outros.

Apareça. O evento acontece na Livraria da Vila (Rua Fradique Coutinho 915) a partir das 19h, quarta-feira. Tem estacionamento na porta.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Norah Jones canta Love Me Tender e, Love Me, simplesmente

Minha amiga querida, a Vania, leu, gostou e protestou em bom som: “adorei!!!!! Só não gostei que você nos considera como franceses................essa não, ESSA NÃO !!!!!!!!!” (quem não leu o post de ontem, está aqui: http://bit.ly/hSXHFc).

Volto ao tema “Norah Jones”, por duas razões.

O vídeo que a Vania tinha anexado no e-mail, tinha sido o da música Love Me, sem o “Tender”, de Jerry Leiber e Mike Stoleer, em que Norah canta com sua banda country Little Willies. Achei que tinha sido engano dela; troquei o vídeo por Love Me Tender, lembrando da paixão do Marcio por essa música. Alertou-me depois de ler o post e completou: “Mas o Elvis que a Norah canta que tá no disco que eu te comprei.”

Aqui entra a segunda razão: ela comprou o disco da Norah; apesar de ter dado a entender que não é das minhas preferidas. Muitas pessoas – mais as mulheres –, quando encasquetam que querem fazer uma coisa, nem Deus consegue demovê-las de seus propósitos. Querem e tem que ser do jeito delas. Não é uma crítica; é apenas constatação. E nem consideraria um defeito. É uma característica. Acho que ela é um pouco assim. E gosto dela como ela é.

Uns versinhos de Love Me: “Treat me like a fool,/ Treat me mean and cruel,/ But love me.” Forte, não?

E a música, é claro.