No texto sobre Lee Konitz, depois de sua morte pelo Covid-19, tentei ser abrangente em relação aos discos lançados, mas é uma tarefa quase impossível face ao quanto gravou. Começou jovem, no fim da década de 1940, e tocou até pouco antes de morrer, aos 92 anos.
Meio que aleatoriamente — tenho milhares de CDs —, peguei um de Kenny Wheeler: “Angel Song” (1997), com Lee Konitz no sax alto, Bill Frisell na guitarra, e Dave Holland no contrabaixo, sem bateria, o que faz a diferença.
A dinâmica nessas composições de Wheeler é um estado de melancolia, que nos empurra aos momentos de introspecção. Tendemos a achar que se a música de alguém é triste, ele é triste? Essa pergunta, não posso responder. Em uma entrevista, Edu Lobo afirma que prefere compor músicas tristes, por achá-las mais belas. São bons exemplos “Pra Dizer Adeus”, “Canto Triste”, “Beatriz”, “Sobre Todas as Coisas”. Há uma certa predominância desse estado nas composições do canadense que se radicou e fez carreira na Inglaterra.
Dentro dos padrões da ECM, segundo seu produtor e dono é o “som mais próximo do silêncio”. É uma busca pelo sublime, dentro da definição do inglês Edmund Burke em “Uma investigação filosófica sobre a origem de nossas ideias sobre do sublime e do belo” (Papirus/Ed. Unicamp, 1983) e de Immanuel Kant, quando escreve: “Pois, o verdadeiro sublime não pode estar contido em nenhuma forma
sensível, mas concerne somente a ideias da razão, que, embora não
possibilitem nenhuma representação adequada a elas, são avivadas e
evocadas ao ânimo precisamente por essa inadequação, que se deixa
apresentar sensivelmente.”
Sem teorizar e entrar na aridez dos conceitos filosóficos, instintivamente, percebemos a beleza, pois ela nos toca de forma indefinida. A melancolia, uma tensão nas notas certeiras, sem vibrato de Kenny Wheeler nos emociona, como o amor que sentimos, sem podermos defini-lo. São sentimentos, sensações apenas. Entram em nós, simplesmente. O som do sax alto de Konitz combina perfeitamente com o de Wheeler.
Há uma questão essencial aqui: ou você entra nesse universo da contenção, da beleza introspectiva, ou não. Se você está em um momento “hey ya”, melhor ouvir o Outkast e vá balançar o seu esqueleto e dar vazão ao seu momento de extroversão.
Ouça o álbum disponibilizado no Spotify
Se você não conseguir acessar, entre no link do Spotify.
Após uma longa temporada como contratado da ECM (1989–2013), gravando um disco bom atrás do outro, desde o ano passado, Charles Lloyd está no selo americano Blue Note. I Long to See You, lançado agora em janeiro, já é o segundo. Lloyd estreou com Wild Man Dance. Este foi tirado de uma apresentação no Jazztop Festival, em Wroclav, Polônia. Para quem ouviu ou conhece os últimos álbuns do saxofonista e flautista, encontrarão uma conexão deste com Athens Concert, duplo que saiu em 2011. Nele não conta com a cantora Maria Farantouri, mas inclui dois músicos gregos: Sokratis Sinopoulos, na lyra, que havia participado do concerto de Atenas, e Miklos Lucacks num instrumento chamado cimbalon. Orestante é o básico de um quarteto, mas a presença dos gregos imprime um caráter mais “world music”.
Uma coisa em comum, apesar da diferença de idade, com Sonny Rollins, também saxofonista tenor, foi o interesse pela música e cultura oriental e pelo rock’n’roll. Rollins, que foi comparado a John Coltrane, teve uma carreira um tanto errática devido a uma certa irresponsabilidade com os compromissos firmados. Passou mais de uma temporada afastado do meio musical. Interessou-se pela ioga e meditação e visitou a Índia algumas vezes. Interessou-se pelo rhythm’n’blues, o rock e o funk. Incorporou guitarras elétricas e chegou a participar de gravações com os Rolling Stones.
Lloyd despontou um pouco mais tarde, no início dos 1960 e passou a gravar como líder em 1964, quando assinou contrato com a Columbia Records. No espírito da época, arregimentou a guitarra de Gabor Szabo e não seguia a tradição do bop. Teve entre seus liderados Keith Jarrett e Jack DeJohnette. Como Rollins, interessou-se por outras culturas e pelo rock. Foi para a costa oeste e embebeu-se da cultura hippie e passou uma temporada tocando com os Beach Boys.
Depois da Columbia, Lloyd foi para a Atlantic e por razões diferentes, passou uma década um tanto esquecido. Gravou pela Elektra e teve o ascendente Michel Petrucciani tocando com ele. A virada acontece quando lança Fish out of Water, em 1989, pela ECM. Não tinha mudado radicalmente. Vista hoje, a sua música dos anos iniciais apenas foi sendo depurada. Sob as mãos do produtor Manfred Eicher, parecia que toda a intensidade dramática e melódica do som do seu tenor e da flauta atingia uma maturidade produzindo sons que o aproximava da beleza intensa do John Coltrane da época de Meditations e A Love Supreme. E foi assim, num continuum de grandes discos. Os músicos podiam ser diferentes em cada um, mas essa atmosfera de espiritualidade hipnotizante é o grande elo entre eles.
Agora, quase octogenário, mudou de ares. No novo álbum, esse músico nascido nos Estados Unidos, está menos ECM e mais americanizado. Essa mudança, que pode até assustar um pouco, é bem evidente em I Long to See You. Não é à toa que a música de abertura seja Masters of War, de Bob Dylan. Simbolicamente, é como se ele voltasse aos anos 1960.
Ouça Masters of War.
Outro fator a se levar em consideração, é a de que Lloyd toca com dois guitarristas. Teve Calvin Newborn e Gabor Szabo, e durante os anos ECM, contou com a participação de John Abercrombie. No novo álbum, os dois são Bill Frisell e Greg Leisz. Suas participações dão o tom “americanizado”. Ambos não seguem a tradição de Django Reinhardt ou de Charlie Christian, Estão mais para Greg Allman, da lendária Allman Brothers.
Bill sempre teve uma queda pelo country folk. Chegou a gravar um disco cujo título é Nashville. Não é o único em sua discografia que vai por essa levada. Com Greg, que toca “pedal steel-guitar”, instrumento típico do country-folk, isso fica patente. Mesmo com Lloyd como líder, em princípio, o que predomina é isso. Não é uma crítica. É uma constatação. Frisell e Leiz são os “marvels” de Lloyd, com com Reuben Rogers e Eric Harland, que já tocavam com o saxofonista nos discos da ECM.
A segunda faixa é Of Course, Of Course. É boa, mas não tem o tom do que conhecemos dele.
Os propósitos mais comerciais da Blue Note estão evidentes com as participações especiais. Uma é de Willie Nelson em Last Night I Had the Strangest Dream, que faz par conceitualmente com Masters of War, outro número anti-bélico dos anos 1960. A outra participação é de Norah Jones em You Are So Beautiful, de Billy Preston, que virou carne de vaca após a morte de Lady Di. Com ela, fica bem mais interessante do que a com Joe Cocker. Uma constatação quando ouvimos os solos melancólicos de Charles Lloyd: tem um dos mais belos sons no sax tenor atualmente.
Confira.
La Llorona não é novidade no repertório de Lloyd. O tom melancólico da canção combina perfeitamente com as guitarras de Frisell e Leisz. Junto com outra tradicional, que é a conhecida Shenandoah, e Barche Lamsel, a última e mais longa, são os destaques.
Ouça La Llorona. Uma observação. O YouTube, geralmente, bloqueia arquivo de gravadoras mais conhecidas. O álbum tinha sido postado na íntegra, mas foi tirado. Corra e ouça antes que isso aconteça.
O mesmo autor de uma canção “fofa“ como Só Você foi um dos fundadores da banda progressiva O Terço. É autor também da bela e “fofa” Lua e Estrela, que fez muito sucesso na voz de Caetano Veloso. Provavelmente, quando compôs essas duas canções, Vinícius Cantuária estava apaixonado por alguma bela loura.
Saindo d’O Terço, Cantuária foi participar de uma outra banda, de belo nome, A Outra Banda da Terra, assim nomeada por Caetano Veloso, como baterista também. Em um show dessa época, comecinho dos anos 1980, o baiano estava em uma fase pós-revolucionária, menos experimental, mais hedonista e compondo muito bem. A banda apresentava-se vestida de branco, com um coro de belas moças que mais embelezavam o palco que qualquer outra coisa. Qualquer banda que se prezasse tinha que ter backing vocals. Lua e Estrela era um dos temas que faziam parte do show.
É de 1984 o maior sucesso de Cantuária. Só Você era uma canção daquelas “grudentas”. Virou hit nas vozes de Fabio Jr. e Fagner. Quando poderia tornar-se um sucesso de vendas, sumiu. E foi para longe. Quando tiveram notícias dele, estava morando nos Estados Unidos.
No Brasil, Cantuária é um quase desconhecido. Pouco saiu dele aqui. Na América, também, não deve ser um astro, mas desde 1986, ano em que mudou-se para lá, tem conseguido lançar álbuns em gravadoras prestigiadas no mundo do jazz, como a tradicional Verve e a Grammavision. E não para de lançar. Desde 2008, seus discos saem pela Naïve, gravadora francesa independente bem conhecida pelos bons títulos de música erudita e também de jazz.
Outro sinal de que que Cantuária é respeitado são os músicos que têm tocado com ele. Um deles é o guitarrista Bill Frisell. Ambos assinam Lágrimas Mexicanas, bem recebido pela crítica. [leia sobre ele em http://bit.ly/1I7w9io]. A colaboração do americano não se restringe a esse somente. Ele participa de Índio de Apartamento (2012). Índio ainda conta com participações de Ryuichi Sakamoto, Norah Jones e o bom cantor Jesse Harris.
Seu álbum mais recente é Vinícius canta Antônio Carlos Jobim. O título é dúbio, pois logo associamos a um dos parceiros de Tom, este de sobrenome Moraes, letrista de seis das treze músicas do CD. Aqui também conta com colaborações preciosas como as de Melody Gardot (sobre ela, veja links no fim do post), dos mesmos Ryuichi Sakamoto, Bill Frisell, e a participação nos vocais em Caminhos Cruzados da brasileira Joyce Moreno.
Vinícius deixou de ser baterista quando partiu para a carreira solo e optou pelo violão. Nunca foi exatamente um roqueiro, apesar de ter sido d’O Terço. Suas composições tendem mesmo à bossa nova e ao samba-canção. Nunca foi grande cantor e nunca será. É até um enigma ser tão prestigiado. Mas de uma coisa, tanto cá como lá, pode-se dizer. Sua música é agradável e seu modo de cantar é quase sempre melancólico, o que pode ser um atrativo para alguns.
Ouça Insensatez, com participação de Melody Gardot.
“Em tempos não muito distantes, mas hoje longínquos – 50 e tantos anos – os soviéticos buscavam o cosmos, e os americanos, os astros. Esses desbravadores do espaço eram chamados, na União Soviética, de cosmonautas, e, nos Estados Unidos, de astronautas. A diferença parecia sutil sem ser. Essas duas nações representavam os opostos, a esquerda e a direita, e estavam em alerta incessante prontos a destruir um ao outro. Nessa coisa denominada “guerra fria”, a humanidade vivia a iminência de deixar de existir.”
O parágrafo acima é repetição do início de outro post (“A mulher que não dá samba, segundo Vanzolini”: http://bit.ly/1xTupCt), mas serve perfeitamente para início deste sobre o CD Guitar in the Space Age, de Bill Frisell, que teve lançamento oficial agora, em 6 de outubro. A sacada da diferença entre americanos e soviéticos não é minha: foi exposta em um filme do dramaturgo, roteirista e cineasta Robert Lepage.
Bill Frisell nasceu em 1951, portanto é um ‘baby boomer”. São assim chamados os filhos americanos que nasceram logo depois do fim da guerra. Bill mal tinha passado dos dez anos e entrou na adolescência sob a égide da guerra do Vietnã, dos sons da explosão do rock britânico com os Beatles e Rolling Stones, e do florescimento do rock flower power californiano, que teve como um dos destaques os Beach Boys, de Brian Wilson.
O mundo, depois da Segunda Guerra, ficou dividido em dois grandes blocos. A guerra mal havia terminado e iniciaram outra: a “guerra fria”. E resolveram também “brigar” no espaço. No início, a primazia foi dos soviéticos, com Laika, o primeiro animal a ir para o espaço, e Yuri Gagarin. Os americanos, para não ficar para trás, mandaram um macaco. A NASA importou o gênio nazista da Guerra, Von Braun, para auxiliar no desenvolvimento do projeto espacial.
Frisell é um guitarrista prolixo, não só pela quantidade de gravações e shows que participou, mas pela facilidade com que transita por vários gêneros. Por falta de opção para rotulá-lo, é considerado jazz. Se cantasse também, provavelmente, classificariam-no como country, tal o gosto que tem por explorar esse gênero. Não é unanimidade, mas é alguém que inventou um estilo, um som próprio. Entre altos e baixos, ou melhor, entre coisas que fazem o gosto de uns e de outros, é músico prestigiado pela crítica e tem um público perenal.
Bill é genuinamente americano. Suas inspirações têm sempre como ponto de partida a América. Por essa razão, entram muitos elementos do folk e do country e do chamado country western. Não é um guitarrista que vem da tradição de Wes Montgomery, Joe Pass ou Jim Hall, apesar de ter sido aluno deste último na Berklee College of Music. Preferiu seguir por uma seara bem própria.
O meu gosto
Gosto de um álbum em especial, que é Angel Song (ECM, 1997), quem sabe, pelos que estão com ele: Kenny Wheeler, Lee Konitz e Dave Holland. Os seus com Paul Motian e Joe Lovano são muito bons também (It Should I’ve Happened a Long Time Ago, ECM, 1985; On Broadway vol. III, JMT, 1992; e I Have the Room Above Her, ECM, 2005). Assisti a uma apresentação de Bill, Lovano e Paul Motian no Village Vanguard, Nova York, e foi fantástico. Parecia uma reunião de velhos conhecidos. Enquanto aguardávamos na fila, vimos eles chegando, como se morassem a um quarteirão de lá.
Ouça Kind of Folk, de Angel Song.
O astronauta Frisell
Quem que era adolescente à época dos lançamentos das Apolos não se encantava com as viagens espaciais? Era sempre um acontecimento. Enquanto Bill assistia às aventuras galácticas pela televisão, rádios americanas tocavam bandas como The Byrds, The Kinks, Beatles e Rolling Stones. Guitar in Space Age é memorialístico, nesse sentido. A guitarra é o “símbolo” do rock. Algo relacionado a esses tempos deve tê-lo feito interessar-se por aprender a tocá-lo, já que começou com a clarineta.
Nesse álbum, Frisell conta com um parceiro que dá a tônica do álbum. Greg Leisz toca a lap steel guitar e a pedal steel guitar, que partem do mesmo princípio. É tocada sobre o colo do músico ou em uma base fixa. Ambas são executadas com um cilindro metálico que produzem um som contínuo e trêmulo, bem parecidos com o das tais guitarras havaianas. Aliás a “lap steel guitar” é chamada de guitarra havaiana, cuja sonoridade Bill gosta bastante.
Os dois primeiros números são canções associadas à surf music. Pipeline, que é um tipo de onda – corrijam-me, surfistas, se estou errado – é também o título de um sucesso dos Chantays, do início dos anos 1960. A segunda é o clássico Turn, Turn, Turn, de Pete Seeger, que ficou conhecida mesmo foi com o The Byrds, de David Crosby, Roger McGuinn e Gene Clark. A quarta – Surfer Girl –, é de outro ícone dessa década e, californiana, também: os Beach Boys, do gênio Brian Wilson.
Ouça Surfer Girl.
Veja também uma entrevista com Bill, e de quebra, um solo de Surfer Girl.
Veja o making of de Guitar in Space Age. Aqui você tem uma amostra de alguns números. Não deixe de ver porque é muito bom.
Bill resgata composições de autores que devem ser mais conhecidos pelos americanos de sua geração. Um deles, por exemplo, Duane Eddy, autor de Rebel Rouser, é um guiarrista que fez sucesso no início dos anos 1960, assim como Speedy West, de Reflections from the Moon, craque no pedal steel guitar. São guitarristas que Bill deve ter ouvido e gostado na adolescência. Jimmy Bryant, outro autor elencado, de Bryant’s Boogie, segundo a Wikipedia, era chamado de “the fastest guitar in the country”. São compositores bem específicos e servem de lembrança dos tempos da corrida espacial.
Paul Motian passou a ser conhecido quando participou do, provavelmente, melhor trio piano/ baixo/ bateria de todos os tempos. São clássicos os discos de Bill Evans, Scott LaFaro e ele. Outra fase importante foi quando tocou com Keith Jarrett, na década de 1970. Passagens por essas bandas moldaram o som da bateria de Motian.
Como líder gravou vários álbuns pela ECM, JMT e Winter & Winter. Fugindo do padrão trio ou quarteto, montou várias bandas com mais de um músico tocando o mesmo instrumento. Em Flight of the Blue Jay (Winter & Winter, 1997), conta com dois guitarristas e dois saxofonistas, cada qual, em um dos canais: Kurt Rosenwinkel (canal esquerdo) e Brad Schoeppach (direito), e Chris Potter (esquerdo) e Chris Cheek (direito). Motian não é pioneiro em fazer isso. Ornette Coleman, em Free Jazz (Atlantic, 1961), gravou com dois quartetos, um no canal esquerdo e outro no direito.
Em Garden of Eden (ECM, 2006) são dois saxofonistas (Chris Cheek e Tony Malaby), três guitarristas (Steve Cardenas, Ben Monder e Jakob Bro), o baixista Jerome Harris e ele na bateria.
Um dos guitarristas de Paul Motian, Jakob Bro, vem gravando regularmente como líder desde 2003 e tem usado a mesma “fórmula” de seu mestre. Enquanto vivo, Motian era o seu baterista. Não participou do primeiro nem do segundo, mas nos seguintes Pearl River (2007), The Stars Are All New Songs vol. 1 (2008) e Balladeering (2009), sim.
Jakob Bro é um guitarrista diferente. Seu estilo lembra o de John Abercrombie. E é diferente porque não é um solista, na velha tradição. Faz uma música de texturas, de camadas sobrepostas formando teias sonoras. Sua guitarra não “briga” com a de Bill Frisell. Complementam-se.
Suas composições são como pequenas peças camerísticas em que os instrumentos “conversam” uns com os outros. Uma presença importante em Balladeering e no último álbum – December Song (Loveland Records, 2013) – é a do lendário Lee Konitz. O americano é uma das principais figuras do nascimento do cool jazz e, antes disso, foi da banda do pianista Lennie Tristano. Passou pelo bop, pelos movimentos avant garde e nem ele deve saber o número de participações em gravações de outros músicos nos seus 86 anos de vida.
Em Balladeering, temos ainda Motian. Como espécie de tributo ao mestre, Bro, em December Song (Loveland Records, 2013), prefere uma formação sem a bateria, como fez no anterior Time (2011). Não abre mão, no entanto, de contar com mais um guitarrista, seu parceiro de anos, Bill Frisell. E o resultado é pra lá de interessante.
Confira em Vraa, de Balladeering.
Veja um trecho da gravação de Vraa, no Avatar Studios, em Nova York. Grande Lee Konitz!
A seguinte é muito boa também: Starting Point, na versão acústica. Preste atenção nos violões de Bro e Frisell.
Veja Bro com Lee Konitz, Bill Frisell, Craig Taborn, Ben Street e Thomas Morgan nas gravações de Vinterymne, de December Songs, o mais recente; com direito a rápido depoimento do mestre Lee Konitz.
Depois de tanto tempo sem ouvir falar de Vinícius Cantuária, pensei que tinha virado mexicano. Pelo menos, foi a primeira impressão, ao começar a ouvir seu mais recente disco. Nas duas primeiras faixas, Cantuária canta na língua hispânica. A terceira é instrumental, e a quarta se chama Lágrimas Mexicanas… cantada em português.
Lágrimas mexicanas é o título do disco, lançado em 2010, que foi realizado com o americano Bill Frisell. Faz tempo que Cantuária o conhece, tendo participado de, pelo menos um disco dele – Tucumã (1989) –, lançado pelo selo americano Verve. Esse guitarrista é deveras eclético. Com seu nome ligado ao jazz, está sempre a variar de gêneros. Basicamente instrumentais, gosta de fundir gêneros como o country e o folk. Seu estilo de tocar não segue a tradição de Wes Montgomery, Joe Pass ou Jim Hall. Tem predileção por distorções discretas e não faz o tipo “o mais rápido do Oeste”.
Cantuária passou a ser mais conhecido tocando com Caetano Veloso, apesar da experiência anterior como membro da banda de rock progressivo O Terço. Era o baterista da Outra Banda da Terra, que acompanhou Caetano na época de Muito (1978). Na turnê e no disco, tocava violão também. Sua faceta compositora se popularizou – principalmente pelo número de ouvintes – com Só Você, sucesso e parte da trilha sonora de uma novela, cantada por Fabio Jr.
A outra é a doce Lua e Estrela, gravada por Caetano Veloso, em Outras Palavras (1981). Quem não se lembra dos versos singelos e delicados dessa música? “Menina do anel de lua e estrela/ Raios de sol no céu da cidade/ Brilho da lua oh oh oh, noite é bem tarde/ Penso em você, fico com saudade”. O seu talento foi reconhecido e gravou dois discos pela RCA Victor. Tem mais em terras brasileiras, mas “desapareceu”. Mudou-se para os EUA e prosseguiu na carreira como artista e compositor, e o foco mudou. Não abandonou a música brasileira: é, ainda, essencialmente, um brasileiro que mora e grava lá.
É o que se depreende, a partir de Tucumã (tenho-o em casa, nunca mais ouvi, no entanto) e do recente Lágrimas… Curioso que sou, vi no site da Amazon e comprei fiando-me naqueles samples de 15 segundos cada. É difícil um juízo a partir disso: corri o risco. E o bom é quando as expectativas se superam. Uma amiga a quem fiz ouvir o disco disse ter gostado e comentou da variedade rítmica das faixas. É verdade: essa é a riqueza dele. Ninguém é estrela nesse disco tocado por dois apenas; nem a guitarra de Bill Frisell está tão característica. Antes da primeira audição, a pergunta que surgiu foi exatamente: onde o som meio “havaiano” do americano iria se encaixar com o estilo do brasileiro? E combinam muito bem. Conta-se o tempo em que se conhecem e por terem gravado anteriormente.
A multiplicidade se justifica no produto resultante desse projeto. É um som híbrido, cantados em espanhol, português e em inglês, e algumas instrumentais. É a própria expressão da cultura multiétnica de um lugar como Nova York e, crescentemente, do resto do país norte-americano. Depois das “lágrimas mexicanas” serem vertidas em português, vertem-se na mesma língua, as Lágrimas de Amor. Nessa doce canção, Cantuária se apresenta por inteiro no que parece característica maior: um lirismo presente desde Lua e Estrela.
Cafezinho é um baião “americanizado”, apenas instrumental, com uma levada irresistível, mas não para ser dançada num salão. A sexta faixa, El Camino, é maravilha pura, com belos acordes etéreos de Bill. Aquela Mulher é um sambinha bem ao estilo de Cantuária, com uma batida econômica e voz contida sobre um ritmo fundido à guitarra quase sem efeitos do americano. Depois de Brigas de Namorados, o CD termina com Forinfas, cantado em português. Despojada, lembra vagamente Nostalgia, a última faixa de Transa, de Caetano Veloso, aquela que é cantada pelo baiano e Gal Costa, só que num ritmo bem menos rocker.
Quem está com saudades de Vinícius Cantuária vai se esbaldar com o CD Lágrimas Mexicanas. Ouça a maravilhosa El Camino.