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quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

A morte anterior de Juan Gelman

Juan Gelman e o companheiro inseparável
Essa dor – esse desespero – Juan Gelman carrega sempre: em 1976 uma patrulha militar invadiu a sua casa procurando por ele, que já estava no exílio. Levaram seu filho com a mulher, que estava grávida, e também sua filha. A filha apareceu dias depois. Do filho e da nora grávida, nenhum sinal. Tudo que Juan Gelman conseguiu saber foi que, levada de Buenos Aires para um cárcere uruguaio, sua nora deu à luz uma criança no Hospital Militar de Montevidéu, em dezembro de 1976. Os restos mortais de Marcelo foram entregues a ele treze anos depois. Só em março de 2000, depois de uma peregrinação sem um só instante de sossego, ele conseguiu localizar a neta, no Uruguai. Foi um encontro denso e intenso. A menina, ao nascer, havia sido adotada por uma família de Montevidéu. Passou 23 anos acreditando ser filha de um chefe de polícia. Encontrou o avô, ou foi encontrada por ele. Soube de sua verdadeira história. Continuou ao lado da mãe adotiva. Juan, na época, disse a um amigo: “Era o que eu queria: que ela soubesse sua verdadeira história. Nós dois, ela e eu, somos órfãos de Marcelo.” Anos antes, em plena busca, ele havia dito uma frase definitiva, ao mencionar o filho desaparecido, a nora desaparecida, a neta que ele não conhecia: “Eu gostaria de ser Deus, para saber o que é o perdão. Não posso perdoar, porque não sou Deus.”

Filho de judeus ucranianos, Juan Gelman nasceu em Buenos Aires. Quando estudante, filiou-se à Federação Juvenil Comunista da Argentina. Poeta e jornalista, participou da principal revista cultural de resistência à ditadura militar. Foi na Crisis, que Eric Nepomuceno conheceu Gelman, quando tinha 25 anos. O parágrafo acima é um trecho do prefácio de Amor que serena, termina? (Editora Record, 2001), coletânea organizada pelo brasileiro.

Gelman sentiu na carne os rigores do regime argentino. Nos últimos 20 anos morou no México, onde morreu aos 83 anos no dia 14 de janeiro. Ironicamente, foi condenado à morte pelo grupo esquerdista Montoneros. Ele era contra a luta armada.

É autor do poema a seguir, um dos meus preferidos.


Gotán

Essa mulher se parecia à palavra nunca,
de sua nuca subia um encanto particular
uma espécie de esquecimento onde guardar os olhos,
essa mulher se instalava em meu lado esquerdo.

Atenção atenção eu gritava atenção
mas ela invadia como o amor, como a noite,
os últimos sinais que fiz para o outono
deitaram-se tranquilos debaixo da maré de suas mãos.

Dentro de mim explodiram ruídos secos,
caíam aos pedaços a fúria, a tristeza,
a senhora chovia docemente
sobre meus ossos parados na solidão.

Quando partiu eu tiritava feito um condenado,
com um punhal brusco me matei,
vou passar a morte inteira estendido com seu nome,
ela moverá minha boca pela última vez.

Mais um.

Foto

Na fotografia que teus olhos tornam doce
há teu rosto de perfil, tua boca, teus cabelos,
mas quando vibrávamos de amor
debaixo da maré da noite e do clamor da cidade
teu rosto é uma terra sempre desconhecida
e esta fotografia o esquecimento, outra coisa.

Nota: as traduções são de Eric Nepomuceno.


Leia mais sobre Juan Gelman em:
O poeta de olhos tristes (Juan Cruz, El País): http://bit.ly/1aH5mXn
Morre aos 83 anos o poeta argentino Juan Gelman (Bernardo Marín, El País): http://bit.ly/1hrOq8X
Juan Gelman: “Se ha instalado todo un sistema para recortarnos el espíritu” (entrevista para El País, em 28/4/2013): http://bit.ly/1dukyK0

Sobre Eric Nepomuceno, seu tradutor para a edição brasileira lançada pela editora Record::
Eric Nepomuceno e a morte dos navios: http://bit.ly/1apguEY

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Eric Nepomuceno e a morte dos navios

Estava conversando com a Bia Lopes, agora não lembro se ela falava do Eric Nepomuceno ou de Juan Gelman. Ela estava atrás do resto da citação de Nepomuceno de um trecho de um poema do argentino que o brasileiro incluíra no conto Essa mulher (“Essa mulher se parecia à palavra nunca,/ de sua nuca subia um encanto particular/ uma espécie de esquecimento onde guardar os olhos,/ essa mulher se instalava em meu lado esquerdo.// Atenção atenção eu gritava atenção/ mas ela invadia como o amor, como a noite,/ os últimos sinais que fiz para o outono/ deitaram-se tranquilos debaixo da maré de suas mãos.”).

O nome do poema era Gotán (está na coletânea Amor Que Serena, Termina?, Editora Record, 2001). Conhecia pouco da literatura de Nepomuceno, apesar de ter lido dezenas de livros traduzidos por ele. O pouco que conhecia por meio de coletâneas esparsas, havia gostado. Com a Bia é uma boa referência, comprei o que tinha sido recomendado, o Antologia Pessoal (Record, 2009).

Suas narrativas são, geralmente, novelos de desencontros em que os destinos ou resolucões já estão “traçados”. Nepomuceno é um mestre em narrar relações e desencontros amorosos. Tende ao fatalismo. A riqueza da narração está em circularidades e espirais especulativas, que é o modo como tendemos a pensar quando estamos a sós e apenas conosco. No fundo, seus protagonistas sabem que aquela pessoa que espera ou com quem combinou um encontro, afinal não vem. No fim, conformam-se com a frustração de suas expectativas por saberem que eram apenas expectativas, ou seja, “espirais de pensamentos”.

Cito um dos contos – Em Coisas do Mundo. A personagem é um homem que viaja constantemente a trabalho. É o segundo melhor vendedor da empresa e sonha em ser o primeiro. Detesta aeroportos e, principalmente, ter de embarcar muito cedo, que é o que acontece na narrativa.

Encontra Pedro, que também está indo para a mesma cidade. Enquanto espera o embarque, avista uma mulher que crê conhecer. Aborda-a “dizendo coisas criativas e imaginosas, como, ‘Meu Deus, você aqui!’.” Tinham passado duas semanas num hotel, numa praia estrangeira, um ano antes, com ela. Num dia chuvoso, foi embora e nunca mais a viu.

Diz-lhe que está indo para uma cidade de praia a trabalho. Pergunta para onde está indo. A moça diz-lhe que veio ao aeroporto para confirmação de seu voo à noite. Pede-lhe que, já que terá de fazer uma escala, que mude-a para poderem passar uns dias juntos, de novo. Diante da insistência – com direito a até um “por favor” –, responde-lhe: “Vamos ver”.

O conto é um primor de narrativa de um solitário que vive constantemente nos aviões. Lembra um pouco George Clooney em Amor Sem Escalas (Up in the Air, 2009). A “viagem” dele é conhecer tudo sobre aeroportos e voos: sabe o menu das refeições de todas as companhias, melhores lugares nos aviões, constrói estatísticas de pessoas que bebem apenas refrigerantes ou bebidas alcoólicas de acordo com o assento em que se acomodam, a utilidade do uso de óculos escuros de acordo com as circunstâncias, e prefere os voos diurnos e aeroportos afastados da cidade. Um dia, pensa, escreverá um livro sobre isso.

Chega ao hotel, faz o lanche, toma banho e fica só pensando no encontro que terá à noite. Fica imaginando em coisas que acontecerão quando estiverem juntos. Adormece com a televisão ligada e é despertado pelo telefone a tocar. É ela, pensa. Não é. É Sérgio, seu colega de trabalho que estava no mesmo voo e sentara-se bem longe. Ainda bem: não fazia muita questão de ficar conversando com ele. Na chegada saiu sem preguntar ou dizer onde ficaria.

O amigo diz-lhe que estava à sua procura e comunica-lhe que está no lobby de seu hotel. Está feliz porque ganhou dinheiro no cassino. Diz qualquer coisa para não sair. E aí, ele mergulha no sono novamente, “vestido na cama, e no lento mergulho” vê “a moça eo pôr-do-sol numa praia estrangeira”.

Esses parágrafos iniciais almejavam serem breves e não foram. Serviria apenas como uma introdução de um trecho muito bom do conto Bangladesh (por isso, “a morte dos navios” no título). Leia.


Gostaria de ter sonhado com velhos navios.

Há muitos anos conversei com um amigo fotógrafo que percorria o mapa buscando a luz dos homens, e ele me contou.

No litoral mais distante do mundo, em Bangladesh, os navios se matavam na praia. Os navios que haviam percorrido mares, mundos e vidas, buscavam aquele litoral para seu suicídio.

Ficavam ao largo, a proa apontando a areia triste, e então soavam seu apito dilacerado, e giravam seu motor até a última de suas infinitas forças, e disparavam rumo à praia. E os navios avançavam numa velocidade alucinante e entravam terra adentro, um de cada vez, os demais esperando sua hora da morte, e o que vinha entrava terra adentro, seu casco de aço rasgando a areia, buscando embaixo da praia a terra, até parar encalhado a sua última viagem. Um de cada vez.

E então começava a demolição. Como se aquela fosse a verdadeira morte, a que rondou o navio o tempo inteiro. E vinham os homens mínimos, minúsculos diante da grandeza daquele animal gigantesco encalhado na areia, e furavam seu casco para que as águas da maré entrassem e invadissem o seu interior e ele 
nunca mais voltasse ao mar. Os furos eram como os tiros de misericórdia naquele suicida cansado, digno e generoso, pensei enquanto ouvia a história e olhava os olhos cor de lágrima daquele homem que buscava mundo afora a luz dos homens. 

E então os homens quebravam o navio, cortavam as chapas de aço, transformavam o madeirame em lascas.

As hélices que levavam o navio pelos mares do mundo, são, eram feitas de bronze, e o bronze era, é, derretido para se transformar em jóias que enfeitam as mulheres. O navio morto era dilacerado em pedaços que seguiriam novas vidas.

Eu ouvia a voz que contava essa história, olhava os olhos que viram essa história. Muito tempo depois, entendi: eu também singrei mares, cruzei mundos, até chegar aqui, a este espelho onde não quero, não posso encalhar.