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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Ryuichi Sakamoto e as cerejeiras em flor

O sonho secreto de Trudi era conhecer o Monte Fuji
Os cinéfilos, provavelmente, devem lembrar-se do filme Homens, de 1985, de Doris Dörrie na direção. Depois de muito tempo longe do circuito nacional, chegou-nos Hanami - Cerejeiras em Flor. A estrutura de Hanami é linear, para infelicidade dos que acham a descontinuidade e a desconstrução o máximo. É uma bela história de amor de uma casal da “melhor idade” – já inventaram tantos eufemismos para a palavra “velho” nesses tempos politicamente corretos! Esta é a mais recente, que sucede a “terceira idade” – Trudi (Hannelore Elsner) e Rudi (Elmar Wepper). Depois da morte da mulher, Trudi descobre que ela nutria uma paixão, que nunca revelara, pela cultura japonesa. Esse processo de descoberta é o parte da revelação para o marido daquela que passou tantos anos ao seu lado vivendo uma “vidinha” numa pequena cidade alemã e parecia tão circunscrita a tancanhêz desse pequeno universo. Primeiro, é levado pela namorada de sua filha a assistir uma apresentação de Tadashi Endo, um dos mestres do butoh, na capital alemã. Depois, mexendo nas coisas da mulher, descobre que ela conhecia o teatro butoh e colecionava imagens do Monte Fuji.

Rudi vai ao Japão – ele, que nem visitar os filhos em Berlin queria – e visitar o Monte como parte de “viver a vida” não vivida de Trudi.

Chama a atenção não só o enredo, em que o butoh não aparece por mero acaso – essa arte surgida depois da Segunda Grande Guerra é definida como a “dança da escuridão” –, pois Dörrie trata da morte, mas também as belas músicas que ouvimos nesse filme. Uma delas é Asadoya Yunta, e a outra é Chinsagu no Hana, canção folclórica da região de Okinawa, que fazem parte de um álbum de Ryuichi Sakamoto, lançado em 1990.

Sakamoto é bem conhecido dos brasileiros. Se o nome não soar tão familiar, uma lembrança: trabalhou como ator em Furyo – Em Nome da Honra (Furyio), de Nagisa Oshima. Compôs a trilha sonora de O Último Imperador e teve a música Bibo No Aozora incluída no filme Babel, de Alejandro Iñárritu. Quem viu Furyo deve se lembrar da música-tema Merry Christmas, Mr. Lawrence, A versão com letra, que se chama Forbidden Colours, é belíssima, na voz de David Sylvian. Vale a pena conhecer.

O som de Sakamoto é uma mescla de influências da música tradicional japonesa com a de outras culturas, inclusive a brasileira: gravou dois álbuns – Casa e A Day in New York – com Jacques Morelenbaum e a cantora Paula Morelenbaum. Desse universo conhecido como “world music”, Sakamoto se destaca pela modernidade e de como explora a instrumentação eletrônica – às vezes, um tanto indigesta ao explorar e mimetizar demais influências do hiphop, do rap e do eletropop –, mas sempre com resultados instigantes e originais. Na busca “world”, tem como parceiros músicos de todos os continentes.

Um disco, Beauty, que está entre os melhores que gravou, serve de amostra da versatilidade e talento em saber misturar as mais diferentes linguagens étnicas. É uma ousadia misturar instrumentos orientais com os ocidentais, percussão africana, indiana e japonesa e vocais em sua língua de origem com o inglês e até com o português. As citadas acima, Asadoya Yunta, Ao no Aozora e Chinsagu no Hana fazem juz ao título Beauty. São belíssimas, emocionantes e inesquecíveis. A parte “brasileira” cabe ao americano nascido em Pernambuco, Arto Lindsay na composição Rose: canta em inglês e perfeito “português pernambucano”. Em outra música, dentre as “excentricidades” ouvimos uma mistura de violino do indiano Shankar, as dissonâncias da guitarra de Lindsay, sons do grupo africano Farafina e vocais de Youssou N’Dour e em outra, participação brasileira do percussionista Naná Vasconcelos. Haja “world” para Sakamoto! No campo das interpretações idiossincráticas, registre-se a versão de We Love You, de Mick Jagger e Keith Richards, electropop percussiva com a participação mais que especial de um dos fundadores do Soft Machine, Robert Wyatt, nos vocais e backing de ninguém nada menos que o ex- Beach Boys Brian Wilson. No repertório das “belezas” desse álbum, não podemos deixar de citar Diabaram, com vocais “dilacerantes” do senegalês Youssou N’Dour (é, realmente o mundo está cada dia mais “worldy”: alguém imaginaria um japonês e um africano juntos?). É um dos grandes momentos dessa verdadeira alquimia chamada música que poucos sabem fazer.

Não deixem de ver o filme de Doris Dörrie e não deixem de ouvir Ryuichi Sakamoto. Pode começar com Forbidden Colours, cantada pelo grande David Sylvian.


Ouça Beauty, de Sakamoto.





terça-feira, 11 de março de 2025

Algo sobre “Um completo desconhecido” e sobre Bob Dylan

1. O primeiro álbum que tive de Bob Dylan foi The Freewheelin’. Era um dos LPs que encomendei para os meus pais. Minha geração é um pouco posterior à dos que já o conheciam. O primeiro LP que comprei na vida foi “Led Zeppelin III”. Acho que os seguintes foram (Pictures at an Exhibition, de Emerson, Lake & Palmer, e Fragile da banda Yes, possivelmente em 1972 ou 1973. Com o passar do tempo, fui atrás de artistas de outras gerações de que falavam, como Beatles, Rolling Stones etc. Foi assim que cheguei em Bob Dylan.

2. Antes de entrar em Arquitetura na USP, fiz seis meses na FAU-Santos. Tinha 18 anos e era a primeira vez que saía da casa dos meus pais. Dividi um pequeno apartamento na Ponta da Praia com um amigo que, por meio de outros, fiquei conhecendo na época do vestibular. Gastava todo o dinheiro da mesada comprando LPs, tinha uma quantidade considerável com 17 anos. Levei alguns e o meu equipamento, que era constituído de um Sansui, um toca-discos Elac e um par de caixas Polivox. Como morávamos em um apartamento que hoje seria chamado de estúdio (naquele tempo chamava-se kitnet), nossos vizinhos deviam ouvir o que escutávamos. O nosso de parede, um cara alto, meio calvo, uns dez anos mais velho, um doidão, descobrimos já de cara, consumidor de algumas drogas ilícitas, bateu na porta bem quando ouvíamos Bob Dylan. Entrou dizendo que era seu ídolo, sem cerimônias foi aumentando o som. O que eu quero dizer é que a diferença de idade era a razão de seu entusiasmo. Era um cara que viveu o surgimento de Dylan na música. Nós, mais jovens, tivemos a iniciação ouvindo o rock progressivo de Emerson, Lake & Palmer, Genesis, Yes e King Crimson.

3. Ao assistir ao filme Um completo desconhecido (2024), direção de James Mangold, fiquei com vontade de fazer um registro. Nunca li alguma biografia ou autobiografia de Dylan, portanto, o que escrevo está baseado no que vi e pode não corresponder exatamente com a a realidade.

4. Minha maior curiosidade, quando vi a capa de The Freewheelin’ pela primeira vez era pela mulher que  caminhava sorrindo abraçada a ele. Chamava-se Suze Rotolo. Digamos que me senti uma paixão platônica e um pouco de inveja. Estranhei que no filme se chamasse Sylvie Russo. Pesquisei e descobri que o próprio Dylan pediu ao diretor que trocasse seu nome. Pelo filme conclui-se que era uma moça culta, mais do que ele, politicamente engajada, ao contrário do “caipira” nascido em Duluth, Minesota. Porém era atormentada pela relação dele com Joan Baez. Teria sido mesmo?

5. O título da crítica de Inácio Araújo” na “Folha de S.Paulo” é: “Filme de Bob Dylan começa bem, mas se perde em burocracia”. Fiquei até receoso de assistí-lo. Ainda bem que não foi o suficiente para aplacar a minha curiosidade e posso dizer que adorei. Talvez soe um pouco esquemática e imagino que o diretor tenha dado mais ênfase no início de sua carreira, sua idolatria por Woodie Guthrie, seu maior ídolo e referência. Ao optar por passar a usar a guitarra elétrica, chocou um universo de amantes do folk, gênero com que ficara famoso. Foi um choque ele entrar com uma formação diferente no Newport Folk Festival. Era uma época de grandes mudanças estruturais, com o movimento civil, o flower power na Califórnia, drogas, amor livre, invasão britânica com os Rolling Stones e os Beatles e Jimi Hendrix fazendo uma revolução com sua guitarra elétrica em Londres e depois em sua terra natal. Dylan era um cara desses caras do “the times they are a-changin’”. Um marco dessa transformação é a apresentação de Bob Dylan, em 1966, no Royal Albert Hall, Londres, em que a primeira parte é acústica seguida pela elétrica.

6. No Brasil, logo depois, aconteceria algo parecido. Em 1967, no Festival de Música Popular da TV Record, Caetano Veloso resolve apresentar sua música Alegria, Alegria com a banda de rock argentina The Beat Boys. Foi acompanhada por vaias, mas uma parcela do público adorou a novidade. Aconteceram até passeatas em favor da pureza da música brasileira e contra a influência americana, com participantes conhecidos como Elvis Regina e até Gilberto Gil, que logo depois se renderia às guitarras elétricas e influências alienígenas. 

4. Desde sempre tive curiosidade de saber quem era a mulher que caminha com Bob na capa de The Freewheelin’. Estranhei de que no filme chama-se Sylvie Russo, quando na vida real chamava-se Suze Rotolo. No filme Sylvie é uma namorada atormentada pelo ciúme que tinha de Joan Baez. Pelo que sei, Dylan e Baez tiveram uma relação tumultuada que durou um tempo, cheia de idas e vindas. Uma primeira sincronia: dias depois que vi o filme, assisti ao documentário que Jorge Bodansky fez sobre a artista plástica Eleonore Koch (As cores e amores de Lore), e ela cita Joan Baez como sua cantora preferida.

5. Masters of War. A crise dos mísseis em Cuba, em outubro de1962, quando foi descoberto que os soviéticos estavam construindo bases de lançamentos de artefatos nucleares em Cuba, foi a “maior guerra atômica que não aconteceu”. Para mim que era uma criança e nascido no Brasil tal crise passou em branco, mas lembro que meus pais estavam acompanhando por meio da revista americana “Life”, que minha mãe comprava direto. A 40 quilômetros de Passos, estava sendo construída a usina hidrelétrica de Furnas. Era uma legião estrangeira trabalhando lá, indianos, americanos, filipinos, japoneses, daí a razão da facilidade de se encontrar revistas americanas. Minha mãe não sabia nada da língua inglesa, mas não perdia um número da “Life” e nem das brasileiras “Cruzeiro”, “Manchete” e a “Fatos & Fotos”, a versão “Life” nacional, com pouco texto e profusão de imagens. 

Foi um fato marcante na história do mundo ocidental. O discurso de John Kennedy, presidente dos Estados Unidos, deflagrou pânico total no povo americano, com prateleiras de supermercado esvaziadas pelo medo do confronto, caos e gente improvisando ou construindo abrigos. No filme são reproduzidas registros da época. Parece que serviu de inspiração para Bob compor Masters of Wars (é uma das faixas em The Freewheelin”). 

Coincidentemente, a crise dos mísseis é narrada em Lições (Companhia das Letras, 2022), de Ian McEwan, que estou lendo por esses dias. Adoro essas sincronias. Roland um pré-adolescente apaixonado por sua professora de piano, está pouco ligando para a crise, ao contrário dele, razoavelmente mais velha que ele. Roland vai à casa de Myriam, a professora, e transam. Depois, liga o rádio enquanto limpa a casa. A notícia era de que a crise tinha acabado. Krushev ordenara a retirada dos mísseis em Cuba. Na cabeça de todos Kennedy tinha salvado o mundo. 

Bom, acho que é isso. Estou ouvindo The Freewheelin’ agora. Seu primeiro disco autoral é uma série de obras-primas. Começa com Blowin’ the Wind, um clássico que até o nosso Eduardo Suplicy cantou, se bem que desconfio que em razão de ser tão de carteirinha de Joan Baez. A segunda é uma das minhas preferidas de todos os tempos: Girl from the North Country. Devido à minha dificuldade de prestar atenção em letras de música, não faço a mínima ideia do que se trata e até hoje não sei quem é a tal “girl from the north country”. E aí vem Masters of War, que potência de música! Em vez de mais comentários, ouça o LP.


domingo, 20 de setembro de 2020

A prisão sem grades de Jafar Panahi



Por manifestar-se contra Mahmoud Ahmadinejad e apoiar o candidato adversário à presidência do Irã, Jafar Panahi, foi acusado de fazer propaganda anti-islâmica. Foi proibido de filmar e ficou em prisão domiciliar.

Panahi foi assistente de Abbas Kiarostami, o cineasta iraniano mais conhecido e reconhecido pelo Ocidente, premiado várias vezes no Festival de Cannes. Do mestre, herdou a capacidade de fazer cinema com poucos recursos. “Táxi Teerã” é um ótimo exemplo. Cria um microcosmo da realidade iraniana. É cinema de resistência.

Sem entrar em detalhes sobre o filme, sem spoilers, reproduzo a fala de uma advogada, amiga dele, no táxi: 

“Sabe, Jafar, fazem tudo para nós sabermos que estamos sendo vigiados. Conhecemos os métodos deles. Eles criam um histórico político. Você vira um agente da Mossad, da CIA ou do MI-5. Para completar, adicionam um escândalo sexual. Eles fazem a rua virar uma prisão. Você está livre, foi libertado, mas a rua virou uma grande prisão. Transformam seus melhores amigos nos seus piores inimigos, até você achar que a única saída é fugir do país ou se enfiar num buraco. Na minha opinião, é melhor deixar isso pra lá. É isso. E não coloque no filme isso que eu falei, senão vão dizer que você denegriu a realidade. Vai arrumar mais problemas ainda.”

Só esse trecho, que está no final, vale ver o filme. Tudo o que acontece dentro do táxi resulta na síntese do que é viver sob uma ditadura. O Brasil está perto disso. E, vamos combinar, nosso presidente é muito mais tosco e primário que os aiatolás. Precisamos enfrentar a ditadura dos ignorantes.

Disponível no Globoplay.

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

A Ítaca de Leonardo Padura


“The Big Chill” (1984), de Lawrence Kasdan, é um filme que trata de amigos que fizeram a Universidade e se reencontram  — por isso, no Brasil, o título “Reencontro” — quinze anos depois, por um motivo amargo: o suicídio de um deles. Passam o fim de semana juntos. Algo da pureza e da alegria dos tempos de estudante se desfez.

 Há uma certa semelhança com “Retorno a Ítaca”, de Laurent Cantet, diretor do premiado “Entre os Muros da Escola” (2008), com roteiro do escritor Leonardo Padura. A Ítaca dele é Cuba. 

Em vez de o reencontro ser em uma casa de campo, acontece em um terraço de um prédio bem no meio da cidade de Havana. O pretexto de se reunirem é a volta de Amadeo, que morou por muito tempo em Barcelona e resolve voltar para a sua terra natal. A semelhança entre ficção e realidade é clara para os que conhecem o escritor. Apesar da decadência econômica e política, sem ser um dissidente, é um crítico do regime e, mesmo assim, optou por se fixar em Cuba.

São amigos há 40 anos. Tania é uma médica que ganha uma miséria, Rafa, um pintor desiludido, que submergiu no alcoolismo, Aldo, o único negro do grupo, que é quem mais acreditou no regime socialista de Fidel Castro, e, por último, Eddy, o único que se deu bem economicamente, comendo pelas bordas, como diria Leonel Brizola. 

A riqueza do filme está na qualidade dos diálogos. O terraço, ou melhor, a laje, é o cenário para a síntese das ilusões e desilusões, de sonhos desfeitos, da luta diária pela sobrevivência, das misérias de cada um, daquele que resolveu, em vez de perseguir a carreira de escritor, preferiu se dar bem e, de certo modo, ter virado um “merda”. Frente às censuras dos amigos, afirma: “Me deixei transformar num merda. É verdade. Mas não me roubaram a vida. Me roubaram o sonho de ser escritor. Mas a vida, não.”

A desilusão está em cada diálogo ou confissão. Aldo é personagem do sonho do socialismo que se desfez. Sabe disso. “Sempre acreditamos e nos encheram de medo. E sabem por que? Porque queríamos acreditar e não contestávamos. Tínhamos que ser puros, sinceros e honestos. Os filhos da mãe sabiam, e nos encheram de medo!” Tania, a médica, diz a Amadeo: “Muitas vezes penso e digo — Meu Deus! —, dá vontade de morrer. E sabe o que é pior? A gente não morre. Continua aqui. […] Não dá para saber, se todo o sofrimento impede de você viver. Dá para viver assim? Droga!”

Há passagens emocionantes. Não é para quem gosta de filmes de ação. É para quem prefere mergulhar nos dramas humanos. “Retorno a Ítaca” está disponível no Globoplay.

Um Bola de Nieve para fechar.



quarta-feira, 18 de março de 2020

O desprezo

Michel Piccoli e Brigitte Bardot, em “Le mépris”

Dos filmes de Jean-Luc Godard, “Le mépris” está entre os meus preferidos. Ficava assistindo e anotando trechos.

Estão fazendo um filme. Fritz Lang é o diretor, Jack Palance, o produtor, e Michel Piccoli, casado com Brigitte Bardot, é o ator principal, se não me engano.

Trecho 1
“Mas isso não estava no roteiro”, diz o produtor. Lang responde: “Estava. Leia.” Palance pega o script: ‘Sim, está no roteiro.” Pega uma lata de filme e lança-o longe, como um discóbulo.
O diretor arremata: “A palavra escrita é uma coisa, a imagem da tela é outra; isto é cinema.’

Trecho 2 (Fritz Lang)
— Na última cena somos todos Ulisses.
— Jerry, não se esqueça. Os deuses não criaram os homens; os homens criaram os deuses.
— Não é mais a presença dos deuses que salva o homem e, sim, a sua ausência.

Trecho 3 (a dupla ambiguidade da fala de Camille (Brigitte Bardot) para Paul (Michel Piccoli)
— Esqueça, Paul. Finja que eu não disse nada.

Trecho 4 (fala de Jack Palance, parafraseando Goebbels)
— Quando vocês falam em cultura, saco do meu talão de cheques.

Trecho 4 (mais uma de Camille)
— Você é doido, mas não idiota.
 
Michel Piccoli e Brigitte Bardot, em “Le mépris”
 

quinta-feira, 16 de maio de 2019

A subestimada e genial Doris Day


Quando Doris Day estrelou “Confidências à Meia Noite”, “Volta Meu Amor” e “Carícias de Luxo”, tinha cerca de 40 anos. Assi mesmo, ficou com o estigma de “virgem oficial do cinema”, ou a “namorada da América”. Esses e outros filmes, na maioria, estrelados por ela e o o galã Rock Hudson, que acabou morrendo de AIDS, na década de 1980, comédias leves em que sempre resistia aos ataques masculinos, marcaram a sua biografia. Lembram-se menos de que estrelou “Ama-me ou Esquece-me”, em que faz o papel de uma cantora, com um amante violento (James Cagney), que a surrava e a violentava, ou, “O Homem Que Sabia Demais”, de Alfred Hitchcock, com James Stewart, em que têm o filho sequestrado em uma trama de espionagem, ou “A Teia de Renda Negra”, em que tem uma vida de terror com o marido (Rex Harrison).

Antes de tornar-se a “virgem oficial do cinema”, perdeu a virgindade antes de completar 17, com um músico chamado Al Jordan, da banda de Les Brown. A vida de Day não foi um mar de rosas, ao contrário do que sugeriria seus filmes “cor de rosa”.

De cantora à atriz
Antes de tornar-se atriz, seu início foi como cantora. De múltiplos talentos – dançava muito bem, apesar do acidente que resultou em múltiplas fraturas na perna –, Deus lhe deu uma beleza radiante e doce. Aprendeu a dançar porque adorava Fred Astaire e Ginger Rogers. Resolveu ter aulas de canto com uma professora porque adorava ouvir “A Tisket-a-tasket” e “Mr. Paganini”, com Ella Fitzgerald.

Passou a cantar em uma rádio local. Bob Crosby, irmão de Bing Crosby, depois de ouví-la, levou-a para Chicago. nem tinha 17 quando entrou na orquestra de Les Brown. Foi bom para os dois. Revelava-se o talento como cantora, e a big band de Brown ficou mais conhecida ainda.

Doris acreditava no amor. Conheceu o trombonista Al Jordan, na orquestra de Brown. Logo ficou grávida. Era um psicopata. Foi um suplício. Vítima de surras homéricas, conseguiu divorciar-se. Al não viveu muito. Não se sabe se, intencionalmente ou não, morreu, despencando de uma ribanceira com o carro.

Depois de mais esse percalço, voltou à orquestra de Les Brown e explodiu cantando “Sentimental Journey”. Vendeu mais de um milhão de cópias.Mas Doris se apaixonava facilmente. Casou com outro músico, George Weidler, e deixou a big band de Brown novamente.

Em 1948, os compositores Jule Styne e Sammy Cahn a levaram para um teste na Warner.Foi contratada para atuar em um filme de Michael Curtiz. Doris brilhou cantando “It’s Magic”. Virou clássico; não o filme — “Romance em Alto Mar” —, a música. A partir daí, seu nome passou a brilhar nos letreiros dos cinemas.


A Warner não tinha a bala da MGM e da Fox. Não tinha dinheiro para produzir aqueles musicais luxuosos de suas concorrentes. Assim mesmo, Day brilhou. Livre, em 1955, do contrato, estrelou, com James Cagney, “Ama-me ou Esquece-me”, pela MGM. Sua interpretação de “Ten Cents a Dance” é considerada um clássico. E nunca esteve tão sensual como nesse filme.

Seu talento como cantora não pode ser muito aproveitado, pois a era dos musicais estava em declínio. Pena. Mesmo assim, era uma estrela de Hollywood. Ganhou muito dinheiro. O problema é que Doris tinha, como se diz por aí, a “mão podre” para escolher seus homens. Casou-se com Mary Melcher, um agente de atores que fazia “qualquer milhão virar um tostão”. Quando percebeu, estava falida.

Agora, 13 de maio, Doris morreu. Tinha 97 anos. Teve vida longa. Afastada das telas, criou a The Doris Day Animal Foundation e era dona de um hotel butique famoso em Carmel, California. Foi nessa cidade que veio a falecer.

Uma das melhores cantoras de jazz de todos os tempos
Em “Saudades do Século 20” (Companhia das Letras, 1994), livro no qual me baseio para escrever esse texto, Ruy Castro faz um perfil de doze nomes. Das três do sexo feminino, uma delas é Doris Day. Escreve que ela é “a mais subestimada das cantoras americanas”. “Ela era absoluta nos tempos médios e rápidos. […] para ser uma cantora de jazz, não é obrigatório fazer gargarejos com tabasco (como Dinah Washington), emitir sons parecidos com um corrupaco (como Nina Simone) ou escangalhar com as letras e melodias fazendo scats à menor provocação (Billie Holiday nunca fez um scat na vida e foi a maior de todas). A única prova dos nove é o swing. E Doris Day nasceu com esse, e de sobra.”

Ruy Castro ainda cita o grande crítico de jazz Will Friedwald, que a elege como um dos cinco maiores cantores americanos. Os outros: Louis Armstrong, Bing Crosby, Billie Holiday e Frank Sinatra.

Veja a cena em que canta “Love Me or Leave Me”.




Canta “Ten Cents a Dance”, de Richars Rodgers e Lorenz Hart.




Canta “It’s Magic”



Obs: sou fã de carteirinha. Tenho dois box set dela, lançados por uma gravadora alemã Bear Family Recors, comprados em Nova York. A primeira, “It’s Magic”, compreende o período de 1947-1950, a segunda “Que Será”, 1956-1959. Não tenho as outras porque não as achei.




terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

A Favorita e meu Schubert favorito

Rachel Weisz e Olivia Colman em “Favorita”
Um tanto aleatoriamente resolvi assistir à “A Favorita”; nem tanto, vou confessar. Em rápida pesquisa, descubro que é um filme de Yorgos Lanthimus. Nomes diferentes me atraem. Filmes iugoslavos, quando Tito ainda vivia, iranianos, turcos, romenos, libaneses, israelenses, argentinos, chineses, coreanos, etc., despertam minha curiosidade; e gregos também, mais especificamente, Theo Angelopoulos.

Um filme com Rachel Weisz e Emma Stone estrelando, convenhamos, se não é mainstream, está próximo disso. É algo como Juliette Binoche em um filme de Abbas Kiarostami (“Cópia Fiel”, 2010) ou Natalie Portman trabalhando com Amos Gitai (“Free Zone”, 2005).

O filme levou um Globo de Ouro – Olivia Colman, melhor atriz de comédia – e sete Bafta – um deles, o de melhor filme britânico –, e tem dez indicações ao Oscar deste ano. Numericamente, concorre com “Roma”, de Alfonso Cuarón.

Anne (Olivia Colman) é a rainha, com uma série de problemas de saúde, e precisa de auxílio para se locomover. Mas quem governa é a duquesa de Malborough (Rachel Weisz), sua “favorita”, que decide sobre os assuntos de Estado por ela. Esse “equilíbrio” é quebrado com a chegada de Abgail (Emma Stone), que torna-se criada do reino e, aos poucos, conquista o papel de “favorita”. Basicamente, a história é a disputa ferrenha das duas para ser a segunda da rainha, tudo em clima de comédia, com imagens soturnas, com alguma semelhança, pela iconoclastia, ao subverter a linguagem de filmes de época, à “Maria Antonieta”, de Sofia Coppola. Não chega aos termos desta, que colocou personagens usando tênis All Star, mas é original nas imagens filmadas com lente grande angular e olho de peixe, que é aquela que capta 180º das cenas. Tematicamente é uma abordagem que, segundo o crítico Luis Carlos Merten, de “O Estado de São Paulo”, revela “uma profunda descrença na humanidade.” Ainda, segundo ele, “reis não são deuses, mas gente. […] Mulheres, como os homens, fazem coisas horríveis.” É um filme admirável.

Trilhas sonoras
Minha diversão é reconhecer temas utilizados em filmes de época. Compositores como Beethoven, Mozart, Schubert, Bach e Brahms servem bem a esse propósito. Um mestre no uso desse repertório é Stanley Kubrick. A prova é “Barry Lyndon”. Seu extremo bom gosto e inventividade está presente também em “Laranja Mecânica”, (“A clockwork orange”) com temas de Ludwig van Beethoven tocados em sintetizadores (novidade total na época), execução de Walter Carlos (mais tarde, trocou de nome para Wendy Carlos); em “2001 – Uma odisséia no espaço”, com “Also spracht Zarathustra”, de Richard Strauss”, abrindo o filme, “Danúbio Azul”, de Johann Strauss, o “Adagio” de “Gayane ballet suite”, de Aram Khachaturian, e “Lux aeterna”, de György Ligeti; de “De olhos bem fechados” (“Eyes wide shut”), novamente com trechos de Ligeti (“Musica ricercata), Shostakovich (“Suite no. 2 para Jazz Orchestra”), além de alguns standards americanos; e no espetacular encerramento de “Dr. Fantástico” (Dr. Strangelove”), dessa vez com um motivo da música popular, com “We’ll meet again”, cantada por Vera Lynn.

Veja o final de “Dr. Fantástico”, com We’ll Meet Again”.




Alguns devem ter ouvido essas composições eruditas pela primeira vez em filmes de Stanley Kubrick. Para exemplificar, lembro de um amigo, ao ouvir um trecho da “Nona Sinfonia”, de Beethoven, dizer mais ou menos o seguinte: “É a música do ‘Laranja mecânica’!” Acho que nem sabia quem era Beethoven, e nunca tinha ouvido o último movimento da “Nona”, tão pop quanto o início da “Quinta Sinfonia”, do alemão. Esses temas ficaram muito conhecidas em versões “profanas”, como “Also spracht Zarathustra”, com Eumir Deodato, e o último movimento da “Nona”, conhecida como “Ode a Alegria”, por algum cantor que não vou lembrar do nome agora. Outra composição erudita que ficou conhecida por meio de um filme – “Retratos da vida” (“Les uns et les autres”) – é “Bolero”, nominada popularmente “Bolero de Ravel”.

Bom, voltando à “Favorita”, não lembro se em seu final ou nos letreiros, ouço o “Andante sostenuto”, da “Piano Sonata em si bemol maior, D. 960”, uma das três últimas sonatas de Franz Schubert, compostas no fim de sua vida, em 1828. Vi, nos créditos finais, que era interpretado por Sviatoslav Richter. Como ouvi muitas versões, não consegui reconhecer que era dele.

Movido pela curiosidade, fiz uma pesquisa no meu acervo. Como as últimas sonatas de piano do austríaco estão entre as minhas peças preferidas, tenho dezenas de interpretações diferentes. O que chamou a atenção de imediato foi o tom mais dramático do que, naturalmente, é o “andante”. Com Richter, os movimentos lentos são solenes, e os tempos rápidos, por seu virtuosismo técnico excepcional, transformam-se em montanhas russas – ou soviéticas. Infelizmente, por ter vivido sob o regime stalinista, a maioria de suas gravações são da Melodya, inferiores tecnicamente. Mesmo os lançados pela Philips e outras gravadoras menores são, em sua maioria, de apresentações ao vivo. Richter “brigava” com as tosses irritantes acrescentadas às suas brilhantes performances.

As sonatas com Richter estão entre as melhores de todos os tempos, na minha opinião, principalmente a de no. 19, D. 958. Como sou obsessivo, resolvi, compará-la a de outros pianistas.  Tenho mais que as que cito, mas dei-me ao trabalho de ouvir a de Alfred Brendel, Krystian Zimerman, Radu Lupu, Mitsuko Uchida, Paul Lewis, Claudio Arrau, András Schiff, Leif Ove Andsenes, Marc-André Hamelin e Stephen Hough. No conjunto, considerando-se a sonata inteira, minha preferida é a de Brendel, talvez por ter sido a primeira que conheci., mas é difícil dizer qual é a melhor. Faço questão de frisar que é a opinião de um leigo, pois sou um semi-analfabeto em música erudita; sou apenas um apreciador de música.Todas essas são muito boas. Dos registros mais recentes, minhas preferidas são as de Lewis, Andsnes e Hamelin. No conjunto, das últimas três sonatas, elejo como melhor a do inglês.

Sou fã de tudo o que Paul Lewis grava. Ouça o “Andante sostenuto” da sonata com ele.






 Sviatoslav Richter, no “Andante”, da “Piano sonata D. 960.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

O amor. A morte.

O antes e depois de Riva e Trintignant
Envelheço e aumenta o descompasso do tempo, o meu em relação ao do mundo real. Se ouço Creep”, por exemplo, da banda Radiohead, não consigo mais precisar se é antiga ou muito antiga. Vejo que é de 1993 e que, portanto, tem 25 anos. Minha sobrinha, com quem fui à primeira apresentação deles no Brasil, nasceu no ano em que foi lançada. Conhecia e cantava esta e outras como se fossem hits do momento. Devia ter uns quinze quando fomos vê-los. O show foi em 2007. Passaram-se dez anos e essa data parece muito remota. O problema é que uma década ou quatro se misturam e não sei mais o quão distantes ficam na minha memória.

Como o meu tempo é diferente – e bem diferente –, tenho lembranças bem claras de Emmanuelle Riva em ‘Hiroshima mon amour”. Sim, assisti ao filme de Alain Resnais bem depois, em algum cine clube, pois mal tinha tirado as fraldas quando foi filmado. As imagens, entretanto, dela e de Eiji Okada, fixaram-se no cinema da minha vida. O cinema de Resnais trata da memória e do esquecimento. Uma frase se repete: “Você não viu nada em Hiroshima. Nada.” Ele está de volta à cidade natal depois de terminada a Guerra. Ela é uma atriz que procura esquecer o passado, a de uma mulher que perdeu a virgindade para um soldado alemão e foi humilhada publicamente após a rendição do Eixo. O amor dos dois é o amor sobre escombros, o do passado que vem como pesadelo, que vem à tona quando relaciona-se com o arquiteto japonês, e o dele, o de voltar para uma cidade devastada pela bomba atômica.

Em “Sorpasso” (“Aquele Que Sabe Viver”), de Dino Risi, Jean-Louis Trintignant é um jovem estudante de direito, que aceita o convite para um passeio de carro com Bruno. Esse personagem, protagonizado por Vittorio Gassman, é um playboy, que, em um desses monótonos fins de semana ou um feriado, sai para um passeio com seu poderoso Lancia.  Tinha 32 anos, mas tinha a aparência de um menino.

Por coincidência, Emmanuelle Riva tinha a mesma idade quando fez “Hiroshima mon amour”. Ela e Trintignant são os atores de “Amor”, de Michael Haneke.

Vi muitos filmes, assistia a mais de trinta em cada Mostra de Cinema, organizada por Leon Cakoff. Por preguiça e um pouco por colecionismo, comprei um projetor e um telão e passei a frequentar cada vez menos as salas de cinema. Assim podia assistir ao filme que queria, na hora em que quisesse. Mas com o fim das locadoras, ficou difícil ver aqueles que tinham acabado de sair do circuito. Como tenho preguiça e achar custoso e fazer download pelo computador, vez ou outra, compro o que me interessa com os vendedores de DVDs piratas que ficam na frente da Sala Itau de Cinema, na rua Augusta, São Paulo, para o horror de uma amiga.

Eles vão se juntando em um canto das minhas prateleiras, mas tenho cada vez menos visto filmes, mesmo com a quantidade de originais que possuo. Resolvi, de uns tempos para cá, ver ou rever uns dois filmes por semana. Peguei um filme romeno. Desisti depois de dez minutos. Peguei  “Amor”. Tive uma surpresa ao descobrir que era de 2012. Não imaginei que pudesse ter sido há tanto tempo. Para mim, tinha sido ontem. Impressionou-me muito ver Riva e Trintignant tão velhinhos. A imagem mais vívida dela, para mim, era a de “Hiroshima mon amour”, pois devo ter visto pelo menos umas cinco vezes. Trintignant, menos, pois minhas lembranças são mais de “Um Homem, Uma Mulher” e “O Conformista”, de Bernardo Bertolucci, que também devo ter assistido umas cinco vezes.

Não é possível vislumbrar uma faceta mais otimista se a direção é do austríaco. Mas é impossível ser frente ao envelhecimento. A primeira cena é dos dois assistindo a um recital de um pianista. As cenas restantes acontecem no apartamento deles. Depois de uma cirurgia mal sucedida, ela fica presa a uma cadeira de rodas e depois, na cama. Pede ao marido que prometa, que se algo acontecer, não seja levada a um hospital. Ele, acompanha o seu sofrimento com a piora gradativa de sua saúde.

“Amor” lembra um pequeno livro do filósofo André Gorz, “Cartas a D. – uma história de amor”. Dorine tem uma doença degenerativa. Gorz recusa-se a sobreviver à morte de sua mulher. É uma história real, assim como foi a de outro escritor. Arthur Koestler, autor do clássico “O Zero e o Infinito”, cometeu o suicídio junto com a mulher, em 1983, acometida, primeiro, do Mal de Parkinson, e depois, de uma grave leucemia.

Mas voltando ao que o filme desencadeou em mim, ao vê-los tão velhinhos, que na minha memória, preferia guardá-los como foram jovens, foi a de que os tempos se embaralham e, ao olhar no espelho, nem tão velhos como eles, percebo  inexorabilidade do tempo agindo em mim também.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

A melancolia de Tracey Thorn

Fosse seu nome “Torn”, aí estaria um bom gancho para descrever algo da música de Tracey Thorn. Mas há um “H” no meio do caminho. Assim, muda bem: “espinho”.

O que caracteriza uma das partes de Everything But the Girl? E sua contraparte? É uma dupla complementar, tanto na vida musical e na vida cotidiana, já que são casados e parecem inseparáveis, como seres siameses. Mas tanto Ben Watt como Tracey têm gravado álbuns sob seus nomes e não mais como EBTG. Há, no entanto, algo de indissociável.

A voz de Thorn é inconfundível. Em colaborações com o Massive Attack, o Working Week (We Will Win, aka “Venceremos”), Style Council, sua voz dá aquele “plus” mais que especial.

No lançamento mais recente, Thorn é a voz e compositora de temas para o filme The Falling, da diretora Carol Morley. O drama é sobre um estranho fenômeno ocorrido no fim dos anos 1960: em uma escola inglesa estritamente feminina acontece um surto de desmaios inexplicáveis. Seria um bom tema para David Lynch. Lembra também Piquenique na Montanha Misteriosa (Picnic at Hanging Rock, 1975), de Peter Weir, autor de A Testemunha, de sua fase australiana. Meninas saem para uma excursão. Elas saem para explorar o lugar. Todas desaparecem, menos uma, que não lembra o que aconteceu. Como em The Falling, acontece algo inexplicável, como um surto coletivo.

Com um tema como esse, a cabeça de Thorn deve ter viajado. E é o que acontece. Sem ao menos ter visto o filme, compôs oito temas que não totalizam mais que 20 minutos. E o resultado é algo mágico, hipnótico, “weird”, como diriam no hemisfério norte. Tracey Thorn nos propicia momentos de magia e estranheza com sua voz sempre melancólica e enigmática.


Ouça Follow Me Down, primeira faixa.


Ouça Let Me in.



Se você quiser ouvir o EP inteiro:

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Fome de viver de Tony Scott

Scott e Denzel Washington, em Déjà vu
Cinematográfica a morte de Tony Scott, não? Escalar uma grade de três metros de altura e pular da ponte Vincent Thomas, na Califórnia, foi um ato corajoso. Foi seu salto solitário e espetacular, que poderia ter sido uma cena de algum filme seu que ele não quis mostrar a ninguém.

Com um nome tão comum, um quase “João da Silva”, irmão menos famoso (Ridley, o outro, virou culto depois de Os Duelistas e Blade Runner). Mas é impossível alguém que dirigiu Top Gun (1986), Jogo de Espiões (Spy Game, 2001), Déjà vu (2006), Maré Vermelha (Crimson Tide, 1985) e Chamas da Vingança (Man on Fire, 2004) ser considerado de segunda, como alguns o taxam. E tem mais: Scott é diretor de Fome de Viver (The Hunger, 1983), um filme espetacular.

Ridley e Tony vieram do cinema publicitário. Essa origem é determinante na parte visual de seus filmes. Apesar de Tony ser considerado mais “hollywoodiano” que o irmão, ambos se assemelham em muita coisa. Lidam – lidava, no caso de Tony – muito bem com a imagem, sabem tirar o máximo proveito das possibilidades da linguagem cinematográfica. O início de Top Gun – Ases Indomáveis, seu maior sucesso, é deslumbrante, com imagens de aviões de caça taxeando em um porta-aviões. Era um mestre em filmes de ação. Isso não é defeito. É qualidade.

O grande filme de Tony foi um fracasso de bilheteria. Fome de Viver era, em inúmeros sentidos, um filme destinado a tornar-se cult. Bom, esse termo, de hoje em dia, é um pouco bobo e perdeu parte do que significava; é como o termo kitsch, que quase não se usa mais. Um primeiro motivo é a participação do cantor e compositor David Bowie. Fez poucos e marcantes filmes: além deste, cabe citar Labirinto (Labyrinth, 1986), Furyo, Em Nome da Honra (Merry Christmas, Mr. Lawrence, 1983) e O Homem Que Caiu na Terra (The Man Who Fell to Earth, 1976). Até sua aposentadoria (depois de um ataque de coração, retirou-se e, convidado, recusou-se a participar do show de abertura das Olimpíadas de Londres) nunca deixou de ser um astro de primeira grandeza.

Lançou o primeiro disco em 1967 e tornou-se conhecido com Space Oddity, que saiu dois anos depois. Estourou com The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars, em 1972. Bowie revolucionou o show business da música, não apenas pelo talento, mas por vestir a persona criada por ele. Inventou um ser andrógino, fora desse mundo, meio alienígena (Neil Armstrong tinha pisado no solo da Lua em 1969 e a exploração espacial era tema quente). Até Elton John compôs uma música “espacial”: Rocket Man.

Bowie era a representação em si, vestindo a personagem de Ziggy Stardust. Faltava apenas que fosse a representação da representação. Essa oportunidade surgiu com o convite de Nicholas Roeg, diretor de Performance (teve participações de Mick Jagger e Anita Pallenberg) e do maravilhoso Walkabout (1971), para ser o ator principal de O Homem Que Caiu na Terra. Na juventude, em uma briga levou um murro no olho. A consequência foi a de que a pupila de um dos olhos ficou sem a capacidade de dilatar e contrair conforme a intensidade da luz. Roeg explorou esse problema da pupila, em que uma ficava contraída e outra não para caracterizar o “extraterrestre” Bowie.

Fome de Viver é estrelado por David Bowie, Catherine Deneuve e Susan Sarandon. Bowie e Deneuve formam um casal que, para não envelhecer, precisa se alimentar de sangue humano. Preocupada com sinais de envelhecimento dele, procura por uma médica especialista, que é Susan Sarandon. Não vou contar a história. Todo mundo tem a obrigação de ver esta filme. É maravilhoso em todos os sentidos; pelo enredo, pelos atores, pelas cenas e a música. Se Scott tivesse feito apenas Fome de Viver, já teria sido um grande legado.

Em vários sentidos, como disse, é excepcional. A abertura, com a banda gótica Bauhaus tocando Bela Lugosi Is Dead é um deslumbre. Veja. Combina perfeitamente com o clima noir do filme.




John, a personagem vivida por David Bowie é um violoncelista. Além do Bauhaus, tem Schubert na trilha sonora. O alemão compôs duas peças para piano, violino e violoncelo, o Trio nº 1 em si bemol maior, opus 99, e o Trio nº 2 em mi bemol maior, opus 100. São duas obras primas. A gravação clássica é a de Eugene Istomin (piano), Isaac Stern (violino) e Leonard Rose (violoncelo)

Ouça o segundo movimento do Trio opus 100 com eles. Sorte existir esse áudio no YouTube.



Outra bom registro, esse mais recente é com Vladimir Ashkenazy (piano), Pinchas Zukerman (violino) e Lynn Harrell (cello), gravação pela London Records (1997).

Veja também trechos de Fome de Viver tendo Andante con moto do Trio opus 100 de fundo.


A propósito de Schubert, leia sobre Stanley Kubrick, que usou o mesmo tema antes de Scott em Barry Lyndon: http://guenyokoyama.blogspot.com.br/2010/12/stanley-kubrick-o-mestre-da-musica.html.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Cybill Shepherd estava podendo

Cybill Shepherd em dois momentos de glória
Quem assistiu a A Última Sessão de Cinema (The Last Picture Show)? Quem não viu? Pode ter envelhecido, afinal, é de 1971; e, hoje, nem se fala mais de Peter Bogdanovich. É o problema de ter começado a carreira realizando grandes filmes. Como disse Scott Fitzgerald, se você chega no topo antes dos 30, o resto é anticlímax. O autor de Suave É a Noite e Grande Gatsby foi exemplo do próprio dito. O primeiro longa de Peter – Targets (Na Mira da Morte, no Brasil) – era um tremendo filme. Menos de três anos depois, em 1971, fez outro, melhor ainda.

Bogdanovich pode ser considerado uma versão americana de seus colegas franceses da nouvelle vague. Era um estudioso, e por conta disso, foi programador de cinema do MoMA (Museu de Arte Moderna de Nova York), prestigiando John Ford e cineastas não tão valorizados pela crítica americana, como Howard Hawks, e colaborou com artigos na revista Esquire. Quando Roger Corman o convidou para dirigir um filme com Boris Karloff – que seria o derradeiro de sua longa carreira–, Peter já sabia tudo sobre cinema.

O seguinte – A Última Sessão de Cinema – é um daqueles filmes que marcaram uma geração e lançaram atores como Timothy Bottoms, Jeff Bridges e Cybill Shepherd. Na condição de representante do sexo masculino, posso garantir que Jacy Farrow e, por extensão, Shepherd, habitaram e alimentaram fantasias mais e menos nomeáveis. A cena dela na piscina, em uma “festinha de arromba”, é clássica.



Shepherd era uma explosão de sensualidade; Jacy era a garota espevitada e atrevida de uma pequena cidade americana.

Cybill teve lições de canto. Chegou a participar de um concurso cantando Don’t Think Twice It’s All Right, de Bob Dylan, acompanhando-se ao ukulele (para quem não sabe que instrumento é esse, leia http://bit.ly/LhPVJq). Não levou. Estudou canto em Nova York, Los Angeles e Roma almejando uma carreira como intérprete lírica. A beleza de uma mulher faz coisa: foi capa de revista (Glamour Magazine), o que chamou atenção de Peter Bogdanovich. Sem saber entre o que o que escolher, ajudou-a na decisão o conselho de Orson Welles: disse-lhe que era preferível escolher a carreira de atriz à de cantora. Mesmo assim, segundo ela, em seu site: “continuei a estudar e cantar standards de jazz”.

Como atriz, Shepherd teve oportunidade de usar seus dotes vocais em Amor, Eterno Amor (At Long Last Love, 1975), dirigido por Peter novamente, seu namorado, na época. Fizeram juntos Daisy Miller (1974) também. Esses dois filmes eram um tanto ruins, comparados aos primeiros do diretor.

Em relação a Amor, Eterno Amor, no site, Cybill escreve: “Para a minha decepção e embaraço, uma crítica dizia ‘Cybill Shepherd não consegue andar, falar, muito menos cantar.’ Ele estava certo quanto a andar e falar, mas eu cantei muito bem, considerando-se que tudo foi feito sem montagens (overdubs). Outra publicação escreve que eu tinha o charme de um hamster. Determinada a provar que estavam errados, chamei Stan Getz e ele aceitou em participar de Mad About the Boy, em 1976 (mais tarde relançado com o nome de Cybill Getz Better).”

Beleza e charme são poderosos motivos para se aceitar um convite desses. E não é que Shepherd gravou um disco, não apenas com Stan Getz, mas com outro monstro do “west coast jazz”? Frank Rosolino, um dos maiorais do trombone! Ela estava podendo! O disco contou com arranjos (e no violão) de Oscar Castro Neves. E foi assim que Cybill Shepherd fez seu disco com standards. Ouça This Masquerade, com direito a solo de Getz.



As carreiras de Peter e Cybill entraram em descenso mais ou menos nessa época. Ela experimentou um “rittorno” às luzes em um seriado que, no Brasil, se chamou A Gata e o Rato, exibido na rede Globo. Moonlighting (era o título original), curiosamente, serviu para lançar seu parceiro Bruce Willis na trama ao estrelato. Devo ter assistido a alguns episódios (a série durou de 1985 a 1989), mas não lembro de um único. Na busca, descubro uma performance musical dela. Veja-a cantando Blue Moon. Cybill…, ah como era bela! Não me surpreendo que Stan Getz tenha topado participar de um disco de uma cantora que, com toda a boa vontade, pode ser considerada mais ou menos.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Adeus, Primeiro Amor, de Mia Hansen-Løve

“O filme é parado, não tem história, parece até filme francês.” A fala não é exatamente, essa; é algo mais ou menos assim. Esse é o comentário autorreferente em Adeus, Primeiro Amor (Un amour de jeneusse, 2011). Acontece em uma cena em que Camille (Lola Créton) e Sullivan (Sebastian Urzendowsky) estão saindo do cinema.

Sullivan, Camille e o amor no campo
A diretora Mia Hanson-Løve é uma grata surpresa. Não assisti ao seu Pai dos Meus Filhos (Le pèré de mes enfants, 2009). Adeus, Primeiro Amor lembra filmes de Eric Rohmer e um pouco de Maurice Pialat (principalmente, o belo A nous amours, com interpretação marcante de Sandrine Bonnaire), por uma certa crueza – ou frieza, não no sentido de gélido – de como aborda relações humanas. Elas são vistas sem que a diretora tome partido ou se utilize de artifícios para “pegar” o espectador na emoção; ou melhor, não há juízos morais, o que é bom, pois assim exercitamos os nossos e, humanos, podemos considerar certos fatos como normais, abjetos ou circunstanciais.

Camille ama Sullivan. É um amor da adolescência. Sullivan planeja uma longa viagem à América do Sul. Ela disse que se mata se ficar sem ele. Antes da separação, passam uns dias em uma casa de campo à beira do Loire. Essas cenas ocorrem sob o olhar distanciado de Hansen-Løve e nós, espectadores, presenciamos e “vivemos” o amor dos dois.

Sullivan parte e o mundo de Camille fica “negro”. Separam-se no ano de 2000. Três anos se passam. Ele envia cartas e Camille, vai marcando em um mapa os lugares que ele vai conhecendo. Entra na escola de Arquitetura e surge um interesesse mútuo entre ela e Lorenz (Magne Håvard Brekke), um de seus professores. Em um caderno, distraidamente deixado na ocasião de uma das visitas que fazem à Alemanha e à Escandinávia para conhecerem algumas obras arquitetônicas, Lorenz lê uma frase em que Camille revela que seu mundo “enxerga” uma luz depois de anos de escuridão. É mais ou menos assim; mais uma vez, não consigo lembrar da cena com melhor exatidão.

Camille, depois do longo período de “luto” causado pelo “desaparecimento” do seu amor, se envolve com o professor tornando-se sua assistente e, depois passam a morar juntos. Em uma ocasião, num ônibus, encontra-se com a mãe de Sullivan e fica sabendo que ele, há vários anos, voltou e mora em Marselha. Entrega-lhe um pedaço de papel com seu número de telefone.

Em uma de suas vindas a Paris, reencontram-se e tornam-se amantes. O que é incômodo para Sullivan, não representa problema, sob o aspecto moral, para Camille. Ama Sullivan. Este, mais uma vez a abandona. E, como diz aquele amigo, a vida continua. É como a água: flui, percorre seu caminho, os acidentes geográficos são pedras no caminho, das quais se desvia e encontra novas vias. É assim na vida também.

Falo da água só agora. Quem assistiu ou, porventura, assistirá, percebe – ou perceberá – como o elemento “água” está presente em Adeus, Primeiro Amor. Outra coisa: é um filme em que os arquitetos e os que “gostam de” não devem deixar de ver. A “excursão” arquitetônica é deslumbrante: é muito bom ver o legado da Bauhaus nas telas.

Ouça a música que “fecha” (nunca fecha, na verdade, a vida continua como a água percorre seu caminho), sintomaticamente, se chama The Water e é interpretada por Laura Marling e Johnny Flynn.



Há uma resenha muito boa sobre o filme, na revista Cinética (http://bit.ly/xV7kko)

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Os primeiros cinco minutos de Coração Selvagem

Lula (Laura Dern)  e Sailor (Nicolas Cage)
A experiência mais impressionante que tive no cinema, depois das cenas iniciais de Cidadão Kane – sei que é clichê dizer isso, mas é verdade –, foi ter visto Coração Selvagem (Wild at Heart, 1990) em um cinema com a tecnologia THX, criada por George Lucas, num cinema em Paris com os amigos Vânia, Márcio e a Magu.

Em uma tela enorme, depois da assinatura “azul” de Samuel Goldwyn, vemos a cabeça de um fósforo em “super zoom” no momento em que a pólvora se incendeia. É uma “explosão” sonora, mil vezes amplificada. A chama se torna incêndio e ocupa a tela inteira. O título “Wild at Heart”, palavra por palavra surge em zoom, acompanhadas por um som que que corresponde ao exato momento em que a pólvora vira chama. Uma das mais belas peças do repertório erudito, Im Abendrot – é parte integrante de Vier Letzte Lieder (Quatro Últimas Canções), assim chamadas porque foram as composições derradeiras de Richard Strauss – faz fundo para a longa sequência dos letreiros iniciais.

Corte. Outra música e início do filme. A câmera aponta para o teto de um teatro. O letreiro situa a cena: Cape Fear (será uma referência ao clássico filme de 1962 estrelado por Gregory Peck e um amedrontador Robert Mitchum?). Vemos Sailor Ripley (Nicolas Cage) – mais uma referência: dessa vez reporta-se a Thomas Ripley, personagem dos policiais de Patricia Highsmith – chegando para se encontrar com Lula Fortune (Laura Dern). Sailor chega vestido com um estiloso paletó bicolor (cinza gelo e preto) e tasca um beijo em Lula. É abordado por um negro que chega acusando-o de ter assediado Marietta (Diane Ladd), a mão de Lula, no banheiro, dizendo-lhe que o matará por causa disso. Bom, melhor que descrever a cena é vê-la. Terminada a contenda, Sailor acende um cigarro.

A cena:



Próximo take: o portal da penitenciára onde Sailor passará uma temporada, até conseguir liberdade condicional. Mas aí, é a continuação da história. Meu propósito é apenas narrar os primeiros cinco minutos do filme. Visto, hoje, ainda causa impacto.

Uma cena “Lynch”
Laura Dern não é exatamente bonita, mas exala sensualidade e certa vulgaridade, algo que, certamente, desperta fantasias masculinas, um pouco como outra atriz, Ellen Barkin (uma referência: coprotagoniza Sea of Love com Al Pacino). Sua “esquisitice” é perfeita para as esquisitices de Lynch. O mesmo se aplica a Cage e àquela sua eterna cara de bebê chorão.

Em liberdade condicional, Sailor foge com Lula e partem, de carro em direção à Califórnia, se não me engano. Em um motel de estrada, cenas de sexo se misturam a alguns flashbacks como o de Sailor sendo assediado no banheiro por Marietta e de um “estranho” incêndio. Sailor veste a sua roupa preferida – casaco e botas de caubói manufaturados em couro de cobra – enquanto Lula veste a sua de periguete (essa palavra não constava na linguagem da época, mas cabe bem hoje ao seu jeito de vestir, meio “putinha”, “aberta para o crime”).

Dançam freneticamente, com direito a coreografias e luzes rubras. Num momento em que estão separados, um rapaz puxa Lula para o seu lado. Sailor, enciumado, parte para cima dele. O diálogo, que acontece antes dos seus murros certeiros contra o rapaz, é impagável:

— Você parece um palhaço nessa jaqueta estúpida.
— É uma jaqueta de couro de cobra: um símbolo da minha individualidade e da minha crença na liberdade pessoal, responde Sailor.

Sobre as Vier Letzte Lieder
Pelo título já é possível de saber que são as canções derradeiras de Richard Strauss. Pelo fato de ter permanecido na Alemanha durante a 2ª Guerra Mundial, e ser uma celebridade, com razão, teve seu nome associado ao hitlerismo. No mínimo, foi conivente, assim como tantas pessoas que viveram essas guerras. O mesmo aconteceu com o, então jovem, Herbert von Karajan, que se aproveitou da debandada de grandes músicos, contrários ao regime. Essa “conivência” deve ter sido mais funcional que ideológica. Era amigo do judeu Stefan Zweig (emigrou para o Brasil) e parece que não nutria a mínima simpatia por Joseph Goebbels, o “cérebro intelectual” do 3º Reich. 

Terminada a guerra e recluso, em “desgraça”, foi reconhecido por um militar que amante da música clássica. Foi uma sorte. Poderia ter sido diferente. Morreu em 1949. Se tivesse sido morto ou preso, não teríamos essas Quatro Últimas Canções. O mundo seria menor sem ela.

Na minha opinião a melhor interpretação de Vier Letzte Lieder é a de Elisabeth Schwarzkopf, com regência de George Szell. É evidente que nem todo mundo vai concordar. “Todo mundo” gravou. Tem registros bem antigos como a da wagneriana célebre, Kirsten Flagstad, com regência de Fürtwangler, duas lendas; essa é considerada a “grande” por muitos, em razão de dizerem que Strauss pensou nela como intérprete quando as compôs. Esses lieder são tão sublimes que até aceitam pequenos “desaforos”. De memória, lembro as de Montserrat Caballé (a que me “desvirginou”), de Kiri Te Kanawa (há um registro belíssimo em vídeo da apresentação e dos ensaios com Georg Solti, imperdível), Renée Fleming (ótima), Gundula Janowitz, Jessie Norman, Lucia Popp, Leontyne Price, bom, já deu, não?

Ouça a de Elisabeth Schwarzkopf. Deu para notar que sou fã incondicional dela, não? Tenho dois textos relacionados. Leia em http://bit.ly/uoO9Fp, e http://bit.ly/tmYMyr.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Duas vezes Ne me quitte pas

Dois dos filmes recentes vistos na 35ª Mostra de Cinema de São Paulo utilizaram Ne me quitte pas em algum momento: O Ruído do Gelo, de Bertrand Blier, e Toast, de S. J. Clarkson. No primeiro, é a tradicional interpretação de Nina Simone, e, no segundo, uma outra, relativamente antiga, da inglesa Dusty Springfield, essa na versão em inglês – If You Go Away.

São filmes com histórias bem diferentes. No filme de Blier, o Ne me quitte pas cantado pela americana, pode até ser levado por um lado irônico. O escritor Charles Faulque e a criada enganam o “câncer” e partem para uma viagem de barco, [maiores detalhes, leia em http://bit.ly/vcFI2Q]. É a cena final, e a ironia é se o comentário do “não me deixe” é relacionado à futura vida do casal ou se é o lamento do “câncer” suplicando por um “não me deixe”.

Toast é do mesmo roteirista de Billy Elliot (2000), Lee Hall. Baseado na história de Nigel Slater, conhecido jornalista, apresentador de “Simple Suppers”, na BBC, e autor de vários livros de culinária, ainda inédito no Brasil, tem todos os ingredientes – já que falamos de gastronomia – para que seja exibido em circuito comercial. As únicas oportunidades de vê-lo, até agora, foram em sessões da 34ª Mostra de Cinema de São Paulo.

O roteiro gira em torno de sua infância e adolescência. A mãe de Nigel é péssima cozinheira que, na elaboração dos pratos usa quase que exclusivamente produtos industrializados. Deve ser verdade: o filme é baseado em livro autobiográfico; ou “meia-verdade”, se considerarmos os protestos das meias-irmãs de Slater, que ficaram revoltadas ao verem sua mãe, protagonizada por Helena Bonham Carter (cada vez mais especializada em fazer papéis histriônicos), trajando sempre um roupão surrado, com meias com costura (antes do advento de fibras sintéticas, as meias possuíam uma costura longitudinal) e sempre com um cigarro pendurado na boca, até quando cozinhava. Elas alegam que Dorothy não era uma “arrumadeira” e sim, amiga de família que se prestou a “ajudar” o pai Tony Slater (Ken Scott), recém enviuvado. O pai Tony acabou casando com “Miss Potter”.

Mentira ou não, considerando-se que cinema é, antes de tudo “ficção”, a história do modo que é contada no filme, é muito divertida. O jovem Nigel “vê” despertar seu interesse pela cozinha devido à habilidade dela, principalmente pelo delicioso merengue de limão, que, avaramente, não deixava que Nigel descubrisse a receita.

O discreto charme de Dusty
Dusty Springfield. O destaque na trilha sonora são duas canções da inglesa Dusty Springfield. Em 1964, lançou A Girl Called Dusty e chamou a atenção da crítica. Em 1969, lançaria seu melhor disco: Dusty in Memphis. Devido a sua paixão pela soul music americana, principalmente, pelas gravações lançadas pela Motown Records, a londrina gravou esse disco com músicos americanos pelo selo Atlantic Records, impulsionada por seu proprietário Ahmet Ertegun, que a via como a alternativa “branca” a Aretha Franklin. Dusty in Memphis virou clássico, mas na época do lançamento, não fez o sucesso que Ertegun previa.

Em Toast, que eu me lembre, as canções que fazem parte são The Look of Love, do americano Burt Bacharach, e a outra é If You Go Away, a versão em inglês do clássico Ne me quitte pas, de Jacques Brel (leia sobre essa canção em: http://bit.ly/tkC6WI). Encaixam perfeitamente, principalmente essa última. É essa a que você vai ouvir.


terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Primeiro, Eric Clapton e depois, Ringo Starr

Clapton jovem
No mês de outubro, recebemos a visita de Eric Clapton. Foi a segunda apresentação do britânico, dez anos depois da primeira. A de São Paulo ocorreu no feriado de Nossa Senhora Aparecida. Em uma noite agradável, Clapton apresentou sucessos, alguns antiquíssimos.

Mr. Slowhand, como o ator Jack Nicholson, foi criado pelo marido e avó, imaginando-os sendo seus pais, quando, na verdade, era filho da irmã mais velha, que o teve quando tinha 16 anos.

Com 18 anos, estava tocando com o lendário Yardbirds, por onde, logo depois, passariam dois outros guitarristas que se tornariam lendários: Jeff Beck e Jimmy Page. Logo depois, foi tocar na banda John Mayall and The Heartbreakers. Alcançou sucesso meteoricamente. Juntou-se ao baixista e cantor Jack Bruce e ao baterista Ginger Baker e formaram o grande “power trio” de todos os tempos, o Cream. Era ego demais por centímetro quadrado. Durou pouco.

Os jovens pichavam nos muros: “Clapton is God”. Mas outro “deus” despontava no cenário inglês: um negro americano chamado Jimi Hendrix “perdido” na metrópole. Dizem que (não li a autobiografia recém-lançada de Clapton) a morte precoce de Hendrix o abalou profundamente.

Até hoje, Clapton canta músicas que compôs na época do Cream. São hits antiquíssimos, coisa de mais de quarenta anos. Parte da plateia do Estádio do Morumbi nem tinha nascido. Isso parece ser um fenômeno mais recente: muitos astros não sobreviveram – caso de Elvis Presley, por exemplo, aos seus sucessos. Hoje, astros sessentões – ou quase setentões – ainda pulam como macacos nos palcos e despertam o interesse de uma juventude de vinte e poucos anos. É muito interessante ver um adolescente cantando animadamente, e de cor, uma canção que tem mais que o dobro de sua idade, como no caso dos shows de Paul McCartney.

Outro astro que, em outros tempos, seria chamado de “dinossauro do rock” – ninguém, hoje, ousaria classificar Mick Jagger assim – desembarcou no mês passado: Ringo Starr. A impressão é que o baterista é mais “respeitado” agora do que quando era componente dos Beatles. “Chegou” depois, substituindo Pete Best. É um peso. Por muitos era considerado quase um apêndice; próximo das personalidades fortes e presentes da dupla compositora Lennon & McCartney (assim assinavam apesar de a maioria das músicas ser de apenas de um deles, com “a little help” do outro), George Harrison, guitarrista tímido e habilidoso e “segundo” compositor do quarteto, “sobrou” pouco para Ringo. Compôs algumas canções: Don’t Pass by Me e Octopus’s Garden. Agora, era um cara engraçado. Lembro de uma entrevista com os Beatles para alguma estação britânica em que se ouve a voz de John Lennon, de Paul, de George (menos) e nada da fala de Ringo. O locutor diz: “Ringo, diga alguma coisa.” Ele: “au!, au!, au!”

Sem aviso, acho que até para ele, e bem mais tarde, começaram a dizer: “Não, Ringo era um bom baterista”, “a bateria de Ringo era essencial para a qualidade da música dos Beatles” e, por aí vai. Sua personalidade um tanto histriônica, de certo modo, o deixou em evidência, depois do fim dos Beatles (é autor de, praticamente, um sucesso solo: It Don’t Come Easy), meio como uma celebridade, e nem tanto como músico. Quem “resolveu” colocá-lo no céu foram os membros da banda britânica Oasis, a ponto de o filho de Ringo, Zak Starkey ter-se tornado membro como baterista.

Pois, não é que lembraram dele para se apresentar no Brasil? A preços exorbitantes. Não conheço ninguém que foi vê-lo. Bem, não deixa de haver alguma magia em assistir a uma apresentação de Ringo Starr, imagino

Harrison e Clapton nos backing vocals na “ONU”, em Water
Só o amigo Rui Moreira Leite para achar um elo entre as apresentações tão próximas de Eric Clapton e Ringo Starr. Rui foi “buscá-lo” em um filme, que nem deve ter sido exibido no Brasil, chamado Water. Não assisti, portanto não posso dizer muita coisa dele. Pelo que li na internet, faz aquele gênero “comédia maluca” e foi dirigido por Dick Clement e estrelado por Michael Caine e Valerie Perrine. Water é uma produção da HandMade Films – mais um “elo” –, de George Harrison.

O Rui, que viu o filme (tem no YouTube, dividido em sete partes), disse que tem uma cena impagável satirizando a ex-primeira-ministra Margareth Thatcher. Todo esse papo furado serve para mostrar os dois juntos – Ringo e Clapton –, além de George Harrison, tocando juntos na banda de apoio de uma dupla de “revolucionários” (imagino) “cantando” na sede da ONU para uma plateia de representantes mundiais.






Assista ao vídeo:

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

35ª Mostra: mais um belo Blier

Bertrand Blier continua em forma. Faz parte de uma geração nascida no período do fim da Segunda Guerra, posterior, portanto, a François Truffaut, Jacques Rivette e Jean-Luc Godard. Na faixa de idade de Blier estão nomes como os de Bertrand Tavernier (Un coup de torchon, ’Round Midnight), Régis Wargnier (Indochina), Patrice Leconte (O Marido da Cabeleireira, Um Homem Esquisito), e Jean-Jacques Annaud (O Urso, O Nome da Rosa). Desses, Blier é o mais irreverente e, quem sabe, o mais interessante.

O belo trio de Corações Loucos
Corações Loucos (Les valseuses, 1974) é um clássico. É libertário, meio amalucado e “fez a cabeça” de muita gente que estava na universidade nessa época; entre os estudantes da USP era “cult”, até porque era inteligente, divertido e um pouco diferente dos filmes exibidos nos cineclubes, politizados e densos como Terra em Transe (Glauber Rocha), O Encouraçado Potemkim (Sergei Eisenstein) ou A Chinesa (Jean-Luc Godard); desse último, como outros do mesmo autor, devemos reconhecer que, apesar de politizados ao extremo, eram irreverentes e bem humorados, ao contrário dos mais recentes, sérios demais (se comparados aos dos feitos na década de 1960) e um tanto preconceituosos, principalmente, em relação aos judeus: seu antissionismo beira ao antissemitismo.

Em Corações Loucos, Gerard Depardieu e Patrick Dewaere são dois desocupados que saem por aí e nesse qualquer lugar conhecem uma loira com cara de vadia, protagonizada por Miou-Miou. Fazem pequenos assaltos, vão para uma pequena cidade de praia, quase deserta por ser fora de temporada, invadem casas e se divertem e muito. Formam um trio cheio de charme; riem, fazem muito sexo entre eles (há uma cena engraçada em que Dewaere está tristonho e Depardieu o consola – adivinhe o que aconteceu?) e não se sentem compromissados com nada. Les Valseuses consagrou os três. O único que não seguiu adiante foi o (aparentemente) atormentado e o mais belo deles: Patrick Dewaere se matou com um tiro na cabeça quando tinha apenas 35 anos.

Blier é autor de filmes com nomes instigantes: Meu Marido de Batom (Tenue de soirée), A Filha de Minha Mulher (Beu-père), e Bela Demais para Você (Trop belle pour toi, 1988). Em Bela Demais, Gerard Depardieu é casado com a belíssima Carole Bouquet, mas acaba se apaixonando pela secretária gordinha Colette (Josiane Balasko).

Quase quarenta anos depois de Corações Loucos, dirige o mais recente O Ruído do Gelo (Les bruit des glaçons, 2010). Inusitado esse Blier, como de costume. Charles Faulque (Jean Dujardim) é um escritor premiado com o Pulitzer que se retira na antiga propriedade da família em Languedoc-Roussillon (é uma das regiões demarcadas da França como produtoras de vinho) depois de ter se separado da mulher. Vivem ele e Louise (Anne Alvaro), a criada. Passa os dias carregando um balde de gelo, o vinho e uma taça. Bebe desde que acorda, consumindo cerca de seis garrafas por dia. [Nota: tem um merchandising lascado da região vinícola de Languedoc-Roussillon.]

O “Câncer” (Albert Dupontel) de Charles (Jean Dujardim)
Essa situação, aparentemente exdrúxula, é factível. Sei do caso de um amigo de família que passava os dias bebendo cerveja. Num certo momento, largou tudo – o trabalho inclusive – e foi morar sozinho em um sítio que possuía a 10 km da cidade. Passava os dias cuidando da casa e da piscina e recebendo visitas diárias do amigo fiel, cujo apelido era Cuequinha, e de outros eventuais; era ótimo na cozinha e um dos seus prazeres era recebê-los.

Entrou no folclore dos amigos. Era um homenzarrão de quase 1,90 m de altura, mais de 100 quilos, peito e costas peludas; estava sempre sem camisa, e costumava usar calça social – que deveria ser sobra de costumes que, eventualmente, usava – e um par de sandálias de couro. Não largava da garrafa de cerveja. Andava com um pedaço de pano no ombro, a garrafa em uma das mãos e, na outra, o copo. Quando se sentava à mesa, estendia o pano e punha a garrafa e o copo sobre ele. Era um cara boa praça; morreu com pouco mais de 60 anos. Um fato engraçado foi quando sua mulher V. veio a São Paulo. Ela queria ir a algumas lojas de decoração. Lá pela terceira loja em que entrou, minha mãe perguntou, curiosa de saber, o que estava procurando. Disse que queria um objeto que servisse de aparador de garafas de cerveja e porta-copos para deixá-lo no banheiro; bebia até enquanto tomava banho.

Charles, em seu retiro, recebe uma visita inusitada: quem bate à porta é sujeito que se autodenomina “o [seu] Câncer” (Albert Dupontel). Recebe-o a contragosto, mas passado um tempo, passam a conviver mais pacificamente: conversam à beira da piscina, trocam ideias, o “Câncer” lhe dá uma “força” diante da beleza estonteante da namoradinha, uma ninfeta russa. Mas o “Câncer” é o que se pode chamar de “grudento”. até à hora de deitar, lá está.

A criada Louisa é uma solteirona que nutre um inconfessado amor pelo patrão. É discreta, no entanto. Certo dia, surge uma mulher de cara muito feia, cara de malvada, em sua vida. É o “Câncer de Louisa” (Myriam Boyer). Fica a persegui-la, a importuná-la dizendo que está em seu seio.

Bom, resumindo a história insólita, em algumas palavras, Louisa consuma o que era apenas um desejo. O que nem passava pela cabeça de Charles, “funciona”. Ambos resolvem armar um assalto à casa, ludibriam os dois “Cânceres” e fogem deles. Pela última cena, depreende-se que estão livres. Estão os dois, felizes, prontos a realizarem uma viagem de iate (ao som de Ne me quitte pas, cantada por Nina Simone), eles e o balde de gelo, dessa vez com duas taças.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

35ª Mostra: Um mundo pouco ou nada misterioso

Como prefiro manter a constância de escrever duas vezes por semana, observações sobre alguns filmes que vi na Mostra de Cinema de São Paulo ficarão defasadas, mas entendo que, apesar disso, podem ser lidas fora do contexto do imediato.


Os amigos Andrej e Gregor
Uma Viagem. Um dos bons filmes exibidos, na minha opinião é Uma Viagem (Izlet, 2011). Andrej (Luka Cimpric), Gregor (Jure Henigman) e Ziva (Nina Rakovec) são amigos desde a adolescência. Antes da partida de Gregor para o Afeganistão em missão militar, os três saem sem destino no carro de Ziva.

Andrej tem Gregor como seu melhor amigo, um pouco, em razão de ter sido aquele que o “salvou” de uma situação, na qual foi posto pelado no meio dos colegas de escola. Ziva é a sua melhor amiga. A relação de Gregor com ela é mais ambígua, pois se sente atraído sexualmente, enquanto isso não acontece com Andrej, pois este é gay.

A qualidade desse filme dirigido pelo esloveno Nejc Gazvoda reside nas tensões que vão se desvelando. Os caminhos da “viagem” são “sem rumo” e percorrem atalhos inesperados e, por vezes, dolorosos. Ziva é uma moça cheia de energia, diverte-se muito com Andrej, provoca o desejo de Gregor numa espécie de jogo de aproximação e repulsão; e, no decorrer da história, perceberemos que ela o deseja também e que existe um “obstáculo” para que isso aconteça de fato. Outro momento de tensão é quando Ziva revela a farsa de seu “salvador”. Percebemos que, como o que ocorre entre os dois, muitas das nossas maiores convicções e sentimentos podem, muito bem, estar baseadas em premissas que podem não ser reais.

Depois de tudo, apesar de algumas verdades doloridas, a amizade entre eles continua. É um alento, até para os mais pessimistas.

O trailer de Uma Viagem.


Um Mundo Misterioso. O argentino Las Acacias foi agraciado com o Camera d’Or em Cannes e recebeu boas críticas na Folha de S. Paulo e em O Estado de S. Paulo. Luiz Zanin Oricchio diz que “Las Acacias é mais um exemplo de como o cinema argentino – ou pelo menos a parte dele mais visível para nós – é capaz de tirar o máximo do mínimo.” (OESP, 31/10/2011).

É certo que o olhar de alguns cineastas europeus nos mostrou um universo bem diferente do cinema cheio de histórias, “aconteceres” e ações. Através desse olhar, vemos a vida acontecer ou sendo revelada por gestos, frases e atos insinuados, em um processo no qual o espectador, de certa maneira, “preenche” os vazios e assim se constrói a história. Las Acacias (leia em http://bit.ly/vPkTEN) é uma mistura disso com os “road movies” de Wenders. Até por isso, o primeiro filme que me veio à lembrança foi No Decurso do Tempo (Im Lauf der Zeit, 1976), dirigido pelo alemão. Rüdiger Vogler é um técnico de projetores de cinema. Com seu caminhão viaja pelas cidades do interior consertando-os. Em um filme de cerca de três horas, somos espectadores de histórias que vão se passando “no decorrer do tempo”. Há uma cena reveladora que pode delatar – maldosamente – a minha percepção sobre esses filmes: Walter – é o nome dele – está com o caminhão estacionado num lugar ermo; faz a higiene (bem pouca) pessoal no caminhão, vai até um “matinho”, abaixa o macacão (pelo jeito, não usa cueca) para fazer cocô, literalmente; ficamos a observar o cocô saindo dele. Ainda bem que o filme é em preto e branco.

Nesse “nada acontecer” e acontecendo, como nos filmes americanos, o “nada acontecer” pode ser, literalmente, isso mesmo. Em outro filme elogiado por Oricchio – Um Mundo Misterioso –, Ana (Cecilia Rainero) pede um tempo para Boris (Esteban Bigliardi). Começa com um “quanto tempo” é esse tempo? Boris vai morar num hotel 2 estrelas, compra um carro velho, vai a festa, levado por um amigo, deixa de viajar porque está sem documentos, e depois, acaba indo para Colônia do Sacramento – do outro lado do rio da Prata, no Uruguai – atrás da mulher que lhe dera “bola” na festa; não a encontra e acaba passando o ano com o mecânico que está consertando o seu carro. Por fim, volta ao antigo apartamento em que morava com Ana e percebe que ela não tinha trocado as chaves, como tinha afirmado que ia fazer. Resumo: acontece um monte de coisas e nada de muito misterioso se realiza. O segredo da fechadura que não foi trocada faz pensar que tudo continua na mesma. Vai, a vida acontece, com um pouco de mistério, ou quase nada, mas acontece, mas ficar sentado quase duas horas no escuro e ficar a observar que os “mistérios” não são tão misteriosos, ah, é melhor ficar em casa lendo um bom livro e ouvindo boa música. De tanto falar mal, acabei esquecendo de citar o nome do diretor. Gravem: seu nome é Rodrigo Moreno.