quinta-feira, 5 de abril de 2018

O amor. A morte.

O antes e depois de Riva e Trintignant
Envelheço e aumenta o descompasso do tempo, o meu em relação ao do mundo real. Se ouço Creep”, por exemplo, da banda Radiohead, não consigo mais precisar se é antiga ou muito antiga. Vejo que é de 1993 e que, portanto, tem 25 anos. Minha sobrinha, com quem fui à primeira apresentação deles no Brasil, nasceu no ano em que foi lançada. Conhecia e cantava esta e outras como se fossem hits do momento. Devia ter uns quinze quando fomos vê-los. O show foi em 2007. Passaram-se dez anos e essa data parece muito remota. O problema é que uma década ou quatro se misturam e não sei mais o quão distantes ficam na minha memória.

Como o meu tempo é diferente – e bem diferente –, tenho lembranças bem claras de Emmanuelle Riva em ‘Hiroshima mon amour”. Sim, assisti ao filme de Alain Resnais bem depois, em algum cine clube, pois mal tinha tirado as fraldas quando foi filmado. As imagens, entretanto, dela e de Eiji Okada, fixaram-se no cinema da minha vida. O cinema de Resnais trata da memória e do esquecimento. Uma frase se repete: “Você não viu nada em Hiroshima. Nada.” Ele está de volta à cidade natal depois de terminada a Guerra. Ela é uma atriz que procura esquecer o passado, a de uma mulher que perdeu a virgindade para um soldado alemão e foi humilhada publicamente após a rendição do Eixo. O amor dos dois é o amor sobre escombros, o do passado que vem como pesadelo, que vem à tona quando relaciona-se com o arquiteto japonês, e o dele, o de voltar para uma cidade devastada pela bomba atômica.

Em “Sorpasso” (“Aquele Que Sabe Viver”), de Dino Risi, Jean-Louis Trintignant é um jovem estudante de direito, que aceita o convite para um passeio de carro com Bruno. Esse personagem, protagonizado por Vittorio Gassman, é um playboy, que, em um desses monótonos fins de semana ou um feriado, sai para um passeio com seu poderoso Lancia.  Tinha 32 anos, mas tinha a aparência de um menino.

Por coincidência, Emmanuelle Riva tinha a mesma idade quando fez “Hiroshima mon amour”. Ela e Trintignant são os atores de “Amor”, de Michael Haneke.

Vi muitos filmes, assistia a mais de trinta em cada Mostra de Cinema, organizada por Leon Cakoff. Por preguiça e um pouco por colecionismo, comprei um projetor e um telão e passei a frequentar cada vez menos as salas de cinema. Assim podia assistir ao filme que queria, na hora em que quisesse. Mas com o fim das locadoras, ficou difícil ver aqueles que tinham acabado de sair do circuito. Como tenho preguiça e achar custoso e fazer download pelo computador, vez ou outra, compro o que me interessa com os vendedores de DVDs piratas que ficam na frente da Sala Itau de Cinema, na rua Augusta, São Paulo, para o horror de uma amiga.

Eles vão se juntando em um canto das minhas prateleiras, mas tenho cada vez menos visto filmes, mesmo com a quantidade de originais que possuo. Resolvi, de uns tempos para cá, ver ou rever uns dois filmes por semana. Peguei um filme romeno. Desisti depois de dez minutos. Peguei  “Amor”. Tive uma surpresa ao descobrir que era de 2012. Não imaginei que pudesse ter sido há tanto tempo. Para mim, tinha sido ontem. Impressionou-me muito ver Riva e Trintignant tão velhinhos. A imagem mais vívida dela, para mim, era a de “Hiroshima mon amour”, pois devo ter visto pelo menos umas cinco vezes. Trintignant, menos, pois minhas lembranças são mais de “Um Homem, Uma Mulher” e “O Conformista”, de Bernardo Bertolucci, que também devo ter assistido umas cinco vezes.

Não é possível vislumbrar uma faceta mais otimista se a direção é do austríaco. Mas é impossível ser frente ao envelhecimento. A primeira cena é dos dois assistindo a um recital de um pianista. As cenas restantes acontecem no apartamento deles. Depois de uma cirurgia mal sucedida, ela fica presa a uma cadeira de rodas e depois, na cama. Pede ao marido que prometa, que se algo acontecer, não seja levada a um hospital. Ele, acompanha o seu sofrimento com a piora gradativa de sua saúde.

“Amor” lembra um pequeno livro do filósofo André Gorz, “Cartas a D. – uma história de amor”. Dorine tem uma doença degenerativa. Gorz recusa-se a sobreviver à morte de sua mulher. É uma história real, assim como foi a de outro escritor. Arthur Koestler, autor do clássico “O Zero e o Infinito”, cometeu o suicídio junto com a mulher, em 1983, acometida, primeiro, do Mal de Parkinson, e depois, de uma grave leucemia.

Mas voltando ao que o filme desencadeou em mim, ao vê-los tão velhinhos, que na minha memória, preferia guardá-los como foram jovens, foi a de que os tempos se embaralham e, ao olhar no espelho, nem tão velhos como eles, percebo  inexorabilidade do tempo agindo em mim também.