quinta-feira, 15 de novembro de 2012

A “Carta de amor” de Gismonti

Gismonti, Haden e Garbarek (Ralph Quinke/ECM)
Quem é fã de Egberto Gismonti vai comprar o álbum duplo Carta de Amor, lançado pela gravadora internacional do brasileiro, a ECM. São registros de uma apresentação no Americanhaus, em Munique, acontecidas em abril de 1981. A Borandá tem distribuído alguns bons CDs da ECM, poucos, é certo. Os CDs físicos são importados e o encarte e o box são produzidos aqui mesmo. Sai um pouco mais barato. Por este álbum duplo paguei 69 reais. Com a facilidade de se baixar de graça, sai caro. Tenho minhas dúvidas se deveria ter esperado um pouco e deixar de gastar meu precioso dinheirinho. Vi, em pelo menos dois sites, disponível para ser baixado em mp3 “de grátis”, como dizem por aí.

A ECM deve ter montes de registros guardados como esse, e agora, resolveu lançá-los. Tem cheiro de estratégia “caça-níquel”. Pouco tempo atrás, lançou Sleeper, com o quarteto europeu de Keith Jarrett. Um músico que está nos dois discos é Jan Garbarek, saxofonista norueguês. (sobre Sleeper, leia http://bit.ly/RV0JOn)

Quem conhece razoavelmente os discos da ECM, sabe que Manfred Eicher gosta de unir seu cast em formações eventuais. Em uma delas, juntou Gismonti, Charlie Haden e Jan Garbarek. O brasileiro tem cartaz com o alemão. Além de continuar a gravar com total liberdade, conseguiu lançar por lá vários títulos que haviam saído pela EMI-Odeon brasileira e outros de seu selo Carmo.

Mágico e Folk Songs foram os discos lançados pelo trio. Ambos foram gravados em 1979, o primeiro em junho, e o outro, em novembro. Quem tem os dois não vai se decepcionar com o álbum ao vivo, pois algumas são inéditas. De Gismonti são Carta de Amor, Dom Quixote e Branquinho. A “inédita” de Haden é La Pasionaria, composição que saiu no genial The Ballad of the Fallen (1976), homenagem à Dolores Ibarruri, figura legendária da Guerra Civil Espanhola. Haden sempre esteve engajado politicamente com a esquerda e procurou levar isso à sua música. Não sei até onde funciona efetivamente como instrumento de luta, mas, pelo menos, musicalmente, deu certo com a sua banda em parceria com Carla Bley, a Liberation Music Orchestra. A outra de Haden é All That Is Beautiful.

Após Two Folk Songs, de Jan Garbarek, em meio aos aplausos, ouve-se um espectador dar um grito. Catarse… por estar vivendo aquele instante único. Fico a pensar acerca do grito. Depois de ouvir uma composição do “gélido” norueguês? Emoções são muito particulares e peculiares. Não vi algum motivo para esse “orgasmo musical”.

Juntando a “temperatura” de Jan com a de Gismonti (alta), o resultado final em Carta de Amor é morno. Garbarek tornou-se conhecido por um público maior quando se tornou membro da banda de Keith Jarrett, mas já era da ECM desde 1969, quando a gravadora tinha sido criada.

Na mesma época em que fez parte do quarteto de Jarrett, gravara dois discos superiores, na minha opinião, com o pianista Bobo Stenson, Palle Danielsson (baixo) e Jon Christensen (bateria): Witchi-Tai-To (1973) e Dansere (1975).

Se considerarmos a música de improviso como jazz, aí sim, Garbarek é do ramo. Mas não é assim. Por seus registros posteriores, percebe-se que seus interesses musicais são bem mais amplos. Enveredou pela música erudita com o Hilliard Ensemble, fez releituras do canto gregoriano e o que chamam por aí de world music. Seu disco Ragas and Sagas (1992) é dividido com Ustad Fateh Khan e outros músicos paquistaneses. Twelve Moons – a segunda faixa, Psalm, cantada por Agnes Buen Garnås, é maravilhosa – explora o folclore escandinavo. Por essas e outras gravações, muitos o classificam como um representante da world music e até, erroneamente, da música new age. Os dois citados e Dansere, com o trio de Bobo Stenson, são muito bons e demonstrativos da versatilidade do norueguês.

Depois de ter falado tão bem de Garbarek, vou falar mal. Enjoei do sopro estridente de seu sax, principalmente no soprano. Ouvindo Carta de Amor, percebo que seus discos gravados com ele e Charlie Haden não se incluem entre os melhores de sua discografia. Minha opinião, certo? Agora, os registros existentes de Gismonti com o baixista (In Montreal, ECM, 2001), em 1989, são pra lá de bons. É uma perfeita combinação. Haden é cool e, com Gismonti, atingem a temperatura ideal. Até que não seria má ideia comentar sobre esse disco posteriormente.

Bom, posso considerá-lo médio, mas não quer dizer que seja ruim, por favor. Ouça a música-título.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Chá para um ou para dois? O de Robert Plant é para um

Doris Day e Robert Plant
Tea for Two, composta em 1925, é do musical No, No Nanette. É de Vincent Youmans, com letra de Irving Caesar. É um dos grandes standards do cancioneiro americano. Foi gravada e tocada por meio mundo. Funciona bem cantada e, tocada apenas, também. Não foi Nick Hornby, em Alta Fidelidade, quem inventou a mania de listas dos melhores – as dez mais, os livros que se deve ler antes de morrer, etc. –, mas dali em diante, o inglês virou referência à mania, tão comum, de fazermos listas. No meu levantamento, tenho 37 interpretações diferentes de Tea for Two, o que comprova a popularidade desse tema de quase 100 anos de idade. Gosto, particularmente, dessa música no piano. Elegeria as de Nat “King” Cole, Art Tatum e de Bud Powell as melhores nesse instrumento. Existe uma no saxofone, excepcional, a de Lester Young, em The President Plays (Verve). “Presidente” era o apelido de Young. Com letras, pode-se destacar as de Anita O’Day, Bobby Short, Ella Fitzgerald, Lee Wiley, Jane Monheit e, é claro, a de Doris Day.

A letra de Caesar é a narração de um momento ideal do amor, o chá para dois e “nós dois com chá”. Refere-se àquelas horas em que se vive o amor sem que os amigos ou um parente possam estragá-lo, sem um telefone a atrapalhar o idílio. O chá para dois é o momento só dos dois.

O chá para uma pessoa, ao contrário, celebra a solidão, o tédio, distância e saudade: “Como é que vinte e quatro horas,/ baby, às vezes, parecem dias/ Oh, vinte e quatro horas/ Baby, às vezes, parecem dias/ Quando um minuto parece durar toda a vida.”

Tea for One é a última faixa de Presence, o sétimo álbum do Led Zeppelin. Como a banda andou “falada” nos últimos dias por conta do lançamento do DVD e exibição nos cinemas de Celebration Day, o último show deles, e Robert Plant se apresentou no Brasil, fiquei ouvindo o Zeppelin nesses dias em que andei aprisionado no trânsito paulistano. Quando ouvi esse blues, lembrei-me que tinha esquecido dele; e é tão bom quanto Since I’ve Been Loving You.

Agora, é ouvir (e ver) Tea for One.




E, que tal matar as saudades do Led Zeppelin ouvindo Since I’ve Been Loving You?




Doris Day. Em Saudades do Século 20 (Companhia das Letras, 1994), de Ruy Castro, Doris é um dos treze gênios do século passado. Não é pouco. Ouça Tea for Two, por Doris. Outro dia, “mataram” o arquiteto Oscar Niemeyer (sábado, 10 denovembro). Doris (nasceu em 1922) está vivinha da silva.



Nat “King” Cole interpreta Tea for Two. Essa é daquelas que não se pode perder. Maravilha pura.