Está lá: dia 25 de fevereiro, Amok, álbum da banda Atoms for Peace, será lançado. Por enquanto é possível ouvi-lo no site oficial da banda: http://amok.atomsforpeace.info
Atoms for Peace faz parte de projeto paralelo de Thom Yorke com o produtor Nigel Godrich, Flea, do Red Hot Chilli Peppers e o percussionista brasileiro Mauro Refosco. Quem espera algo normal de Yorke? É um som muito em cima de batidas eletrônicas criadas em sintetizadores, laptops, percussões analógicas e marcações de baixo de Flea. No último Radiohead se percebe coisa semelhante.
Atoms for Peace é o nome da sexta faixa de The Eraser, solo de Thom Yorke, em 2006. Parece que a inspiração do nome veio de um discurso de Dwight Eisenhower, em 1953, general herói da 2ª Guerra Mundial, que sucedeu Harry Truman. O novo álbum poderia ser outro solo de Thom, mas este preferiu não. No fundo é uma “continuação” de The Eraser, a começar pelo tipo de som, pela participação nos dois discos do produtor Nigel Godrich, que se incumbe dos teclados, guitarras e sintetizadores; e até pela capa em preto e branco, provavelmente, criada pelo mesmo designer, Stanley Donwood (não é certeza, pois não tenho a ficha técnica do novo álbum).
A palavra “amok” significa louco, fora do normal. Ao mesmo tempo, se separamos – “am” e “ok” –, é o caso de se pensar em “I’m ok”. Será esse o estado natural da humanidade? Amok?
Entre no site oficial, que é possível conhecer todas as faixas (http://amok.atomsforpeace.info). Se você está com preguiça, clique no player e ouça, pelo menos, uma delas – Ingenue.
Nota: todas as músicas postadas no DivShare podem ser “puxadas”. Basta clicar em “share” e depois, em “download”.
Default.
Uma joia. Atoms for Peace interpreta Love Will Tear Us Apart, do Joy Division.
Ouvi Smash (Concord Jazz, 2013), o álbum mais recente de Patricia Barber cerca de dez vezes. Sinal de que gostei. Para a minha surpresa, na revista Downbeat, Jim Macnie dá 2 estrelas e meia (o máximo é 5) e fala (bem) mal do disco. Um trecho: “A faixa-título é uma narração sussurrada de um caso de amor desintegrado que se inicia com uma silenciosa combinação de piano e voz e, depois de descrever um coração partido, explode em um bombástico anacronismo que evoca ‘Purple Rain’, de Prince, e ‘Repent Walpurgis’, do Procol Harum.” Não é lá muito elogioso, não. Fato: é muito diferente do que Patricia fez até hoje. Fã de carteirinha de Barber, só (ou)vi beleza nesse “bombástico anacronismo”..
Se o crítico tivesse lido o que Barber disse sobre essa composição, talvez tivesse entendido melhor o solo “roqueiro” de John Gregor. A canção trata do fim de um caso de amor descrito como “o desmoronamento de castelos altos construídos/ em beijos e sangue/ e os sonhos como areia.” Ninguém do lado de fora consegue decifrar a dor que experimentamos por uma grande perda. Certo? O som de um coração partido é o silêncio. “Você está sozinho. E eu achei que era uma interessante justaposição, desde que o som de um coração partindo deveria ser o mais alto, gritado, a combinação mais ruidosa de sons possível.” Está aqui explicitado o solo de guitarra, pelas palavras de Barber, além de boa pianista, excelente nas letras.
Ouça Smash.
Aliás, os solos de John Gregor são bem interessantes, como no toque funky que imprime em Devil’s Fool, ou no toque bossa nova em Redshift, e nas belas notas em duo com o piano em Missing.
A história dessa canção é interessante. Foi feita de “encomenda”. Uma mulher escreveu uma carta contando sua história e pediu-lhe que compusesse uma música. Nas palavras de Barber, “era uma espécie de pedido absurdo, mas aquilo me tocou e então a escrevi; foi minha a ideia de contá-la através das quatro estações do ano.”
Ouça Missing.
A levada funky de Gregor em Devil’s Fool combina com os bem humorados versos de Barber: “Boy meets boys/ girl meets girl / given any chance / to fall in love / they do . . . / like loves like / like devil's food / like chocolate twice / I'm in the mood / for you.” Nem é preciso dizer do que Barber trata nessa música..
Code Cool, a primeira faixa, também é um bom exemplo dessas mudanças repentinas de mood. Inicia com uma batida bem ritmada, marcada pela bateria e baixo e acordes do piano. “Estava dormindo, como que estivesse sonhando/ […]/ Inspiro como se estivesse pregando”, e voz de Barber se desvanece em clima fantasmagórico, em sons que lembram a psicodelia “pinkfloydiana” e “desperta” com os versos “I square dance slow/make love with my lips/read eyes like books/ read books like science/ I remember and fix/ citation to case/ case to form/ discombobulation and I/ can cook up a storm/ I’m Michelangelo’s David/tested and worn.”
Ouça Code Cool.
Há outro conceito importante na formulação de Smash. Em entrevistas e em vídeo disponível no YouTube, Barber diz que o disco nasceu com a intenção de ser uma série de canções silábicas. Reproduzo aqui parte do texto de João Marcos Coelho, publicado em O Estado de S.Paulo (3/2/2013), porque não vou tentar escrever o que está muito bem escrito: “ela se autoimpôs limites silábicos para cada verso. Há três exemplos destas experimentações no CD, em que ela trabalha com versos de duas, três e seis sílabas/palavras.Vejam The Swim, com duas: ‘So like/ goodbye/ with you/ at once/ too much/ too fast’. Spring Song, com três: ‘His absence/ fills the pail/ like water/ to the brim’. E The Wind Song, com seis: ‘Something suddenly cool/ something suddenly dearer/ someone wonderful who’ll/ appear suddenly nearer’. Mas Barber reconhece as limitações da letra nas músicas: “Estou tentando fazer poesia mais refinada. Mas ainda necessito de rima, porque a rima é ritmo, e ritmo é música” (a frase de cantora/compositora/pianista foi tirada do mesmo texto de JMC).
O prêmio para o curioso é a descoberta. Ir pelo faro. Um “sinal” é suficiente. Sem saber quem era, gostei da pose dela na capa. O título era mais que interessante: Café Blue. Na lista das músicas, a primeira que me chamou a atenção foi Manhã de Carnaval. É só ver que tem Manhã, compro. É uma das minhas preferidas de todos os tempos. Tenho na discoteca até uma interpretação em espanhol que poucos conhecem, a de Los Zafiros (clique no link). Um bom modo de conhecer alguém é ouvindo-se interpretações de standards, pelo menos no jazz. Tinha The Thrill Is Gone, Inch Worm e Nardis, de Miles Davis. Depois de conhecer Café Blue, comprei tudo o que ela lançou, menos o segundo, Distortion of Love, que nunca encontrei. Mesmo Split, seu primeiro disco, adquirido depois, de 1989, e difícil de encontrar por não ter tido a distribuição dos posteriores, pela Blue Note, é bom. Ao contrário do crítico da Downbeat, acho Smash um de seus grandes discos. É uma boa estreia em sua nova gravadora, a Concord Jazz.