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quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Jamie Saft e a cereja do bolo

Steve Swallow, Jamie Saft e Bobby Previte
Depois de ouvir, por curiosidade, “Borscht Belt Studies” (2011), fiquei um tanto obcecado por ouvir mais coisas de Jamie Saft. Por gravar na Tzadik, gravadora de John Zorn, e pelos títulos, percebi uma ligação particular com o judaísmo, o que sempre me atrai, não pergunte por que.

Ao ouvir outros títulos, fiquei feliz e, ao mesmo tempo, decepcionado. Desejava o mesmo tipo de som de “Borscht Bell Studies”. O que me atraiu foi o gosto dele construir sua música por meio de acordes, entremeados de belos floreios que, às vezes soa ao kitsch, meio Lovelace ou Pedrinho Mattar. Percebi que Saft era eclético, um pouco demais para o meu gosto. “Ticonder”, pelo line up – Joe McPhee e Joe Morris –, vi que seria meio avant garde. E era. Apesar de nem detestar o gênero, queria a face lírica, de climas de uma beleza estranha, como notas flutuando sobre a superfície de um mar calmo.

Nesse sentido, “Fight Against Babylon”, com o New Zion Trio, com Larry Grenadier e Craig Santiago, que tinham participado de “Borscht Belt Studies”, não me decepcionou. Os elementos que buscava estavam presentes nesse CD, talvez por terem sido lançados no mesmo ano.

O som é uma fusão judaico-jamaicana. É uma mistura um tanto inusitada, mas funciona. Há a batida clássica do reggae e do dub, engenhosamente mesclada à linguagem do jazz contemporâneo. Se for  possível outra classificação, diria que é meio “zen-reggae”. É possível?

Ouça “Slow Down Furry Dub”




Outro destaque é “Fire Blaze”. Achei uma apresentação do trio. Se for classificar, invento outra categoria: ambient-reggae.




Ouça “Hear I Jah”, com Saft no Fender Rhodes. Brilhante.




Depois de conhecer esses álbuns, ouvi “Black Shabbis”, anterior, de 2009. É completamente outra coisa. É punk-rock-jazz. Além de tecladista, toca guitarra, contrabaixo e canta. É bom, mas foge totalmente do que queria ouvir dele, novamente.

Um trio mais jazz
Jamie Saft, Steve Swallow e Bobby Previte montaram um trio, sem um líder, colaborativo Segundo Previte, depois de um almoço, entraram no estúdio e gravaram tudo em três horas, em sistema análogo de duas pistas em fitas de meia polegada. Das dez músicas, sete foram compostas – ou esboçadas, como disse – por Saft e as restantes são de autoria dos três. “The New Standard” foi lançado em 2014 pela gravadora inglesa RareNoise.

Previte e Swallow tocaram juntos ocasionalmente por quatro décadas. Ambos são veteranos. Swallow tem 77 anos e é um dos melhores baixistas elétricos da história. Começou no acústico e tocou em bandas lendárias, como a de Jimmy Giuffre, no início, e depois passou a tocar em um baixo elétrico e cinco cordas. Diferentemente dos mais conhecidos, como Jaco Pastorius ou Stanley Clarke, é menos percussivo e mais melódico, e utiliza-o quase que como um instrumento solo, privilegiando a melodia em notas mais agudas. Previte tem cerca de dez anos a menos e é um baterista que orbitou por todos os estilos, desde o mainstream até o avant garde. Participou de gravações com John Zorn, dono da gravadora Tzadik, a mesma na qual Saft gravou a maioria de seus discos.

Um trio desses nunca poderá ser classificado como mainstream É diferente de tudo. Queira-se ou não, o piano melodioso e nuançado de Saft predomina. “The New Standard” teve boa acolhida, recebendo 4 estrelas na Downbeat e pelo site AllAboutJazz. O encontro foi tão bom que merecia uma continuação. Agora em 2017, saiu “Loneliness Road”, com uma cereja no bolo: participação especial de Iggy Pop em três faixas.

 Iggy. Pop ou jazz
Ao contrário de alguns cantores e cantoras que, numa certa hora, aquela do esgotamento criativo, como Rod Stewart, resolvem gravar discos com o repertório do “great american songbook”, em versões orquestrais estilo Frank Sinatra, Iggy Pop optou por um “french songbook” mezzo muzzarela mezzo calabresa, ou melhor, mezzo camaembert mezzo pastrami. No conceito de “Après”(2012), são temas que possuem alguma relação com a França. Estão incluídas “La vie en rose”, “Syracuse”, clássico na voz de Henri Salvador, “La javanaise”, de Serge Gainsbourg, mas também “Michelle”, de Lennon e McCartney, presumo que devido ao nome, e, não me pergunte por que, “What Is This Thing Called Love”, de Cole Porter, e “Only the Lonely”, clássico de Jimmy van Heusen e Sammy Cahn, eternizado por Frank Sinatra em sua fase dor de cotovelo por ter perdido Ava Gardner.

Pop não conhecia nenhum dos três pessoalmente. Tinha ouvido falar de Swallow, por ser ele casado com Carla Bley. De Saft, nunca tinha ouvido falar. A parceria improvável aconteceu por meio do músico e produtor Bill Laswell. Os dois e mais Bootsy Collins estavam fazendo algum trabalho, e Bill comentou de uns músicos de Nova York, não se lembra direito, como disse em uma entrevista à Rolling Stone, que queriam a sua participação em um projeto. Saft enviou três músicas para Pop, em Miami. O cantor disse que as letras saíram naturalmente na primeira ouvida. E o resultado é até impressionante. A voz é aquela, um Leonard Cohen de registro menos sujo. Alguns acharão sua participação a cereja do bolo; outros poderão achar que a cereja é falsificada, feita de chuchu.

A primeira a constar no disco é “Don’t Lose Yourself”. Ouça.




Na de encerramento, Pop canta "I'm hungry for the soul that shines in your eyes/And all I want to say is/I love you/Every day/I love you.", em “Everyday”.




Jamie Saft é o pianista das cores. Veja-o, com Swallow e Previte na música que abre o CD: “Ten Nights”.




“Henbane” é mais jazz. Swallow arrasa no walking bass e Previte é só classe.




Feliz passagem de ano e, em 2018, estou de volta.

Veja também uma apresentação do trio, em 2015.






quinta-feira, 4 de maio de 2017

A pescaria de John Zorn nas águas da música sefardita, com Dora Juárez Kiczkovsky

Quando aquele rapaz magérrimo entrou no palco, no Free Jazz Festival, em 1989, parte da plateia sabia o que podia acontecer. Alguns dos que lá estavam, conheciam John Zorn, por meio de seus discos “The Big Gundown” e “Spillane”, lançados em edições nacionais. 

O som nervoso do sax alto do americano, eram mais frenéticos e ruidosos, ao vivo, quase insuportáveis. Não era para qualquer ouvido. Na mesma noite, estava programada a apresentação de outro representante do free jazz: Cecil Taylor. A debandada foi geral. Afinal, o nome do evento não era Free Jazz Festival? Eram a expressão do “free” Tinha esse nome em razão da marca de cigarros que o patrocinava. Nem tão free, o festival foi a oportunidade de conhecermos ao vivo músicos do quilate de Joe Pass, Chick Corea, Stan Getz, Dexter Gordon, John McLaughlin e muitos outros.

Nem tão fã de Zorn, por sua importância, nunca deixei de acompanhá-lo, mesmo que pouco ouvindo-o. Seus álbuns da série Masada tinham capas incrivelmente belas: douradas, com imagens que remetiam à cultura judaica. Os primeiros saíram, se não me engano pelo selo japonês DIW. Os músicos que tocavam com ele nos primeiros eram do primeiro time: Dave Douglas, Greg Cohen e Joey Baron ou Kenny Wollesen, na bateria.

Tempos depois, criaria a própria gravadora. No mesmo ritmo frenético com que soprava o saxofone, montava bandas, cada qual com direções musicais diferentes, dentre elas a Naked City, surgida com o disco do mesmo nome, a John Zorn’s Cobra, Hemophiliacs, além da Masada, citada em cima, Electric Masada, e gravou e produziu séries como a “Filmworks” e a “Book of Angels”. Lançou várias centenas de álbuns, com formações que tocam suas composições e de outros, nem sempre com sua participação como músico. Reuniu uma verdadeira constelação de artistas de todos os continentes, explorando ritmos e formas musicais, quebrando com os conceitos do que é erudito ou popular.

 Na série da banda Masada, Zorn explora suas raízes com cerca de duzentas composições que representam uma música judaica do século 21. As formações musicais para o projeto, que envolve também os “Book of Angels” – até agora, são cerca de 30 álbuns –, vão desde formações clássicas como trios e quartetos de cordas, performances em que participa como músico, e também intérpretes como Cyro Batista, Greg Cohen, Jamie Saft, o trio Medeski, Martin and Wood, Bill Frisell, Mark Feldman e Joe Lovano. Outro projeto interessante, é uma série de discos em que toca órgão solo.

Zorn criou um verdadeiro acervo da música judaica, indo muito além do klezmer, tocado por músicos amadores, sem aprendizado formal, nos shtetls – aldeias ou guetos que se espalharam pela Europa Oriental. A sua exploração se expande pelas vertentes resultantes da diáspora dos judeus pelo mundo. É relevante a presença deles no lado ocidental da Europa, principalmente nos Países Baixos e na Península Ibérica. Os judeus sefarditas que habitavam a Península foram expulsos pela Inquisição. Muitos se converteram ao cristianismo e muitos foram para outros lugares, como o norte da África e a América do Sul. Um dos destinos foi o México e muitos continuaram, apesar de convertidos, a seguir os ritos tradicionais, clandestinamente.


Dora
Em primeiro lugar, tiveram de sair da Polônia, perseguidos, para não terem o mesmo destino de seus parentes e de milhões de judeus, os campos de concentração. A família de Dora Juárez Kiczkovsky, novamente, em virtude do recrudescimento da ditadura militar na Argentina, em 1976, resolveu mudar de país.

No México, Dora estudou cinema e na Escola Superior de Ensino de Música do Instituto de Belas Artes. Montou um trio com Leika Mochán e Sandra Cuevas. Gravaram ““Muna Zul”, nome que escolheram para a formação, que foi lançado pelo selo Tzadik, de Zorn, em 2006. Em relação ao cinema, colaborou com Werner Herzog, compondo para um de seus filmes.

Em 2013, foi a vez de “Notas Para Una Diáspora”. O título é ótimo, pois sintetiza o percurso dos judeus ao longo da história e, por conseguinte, a sua e de sua família. Com cantos sefarditas de “amor, morte, guerra e migração”, a artista mexicana de origem judia mergulha em suas raízes para enlaçar o ancestral com o contemporâneo”, assim a gravadora Tzadik a define. Dora interpreta canções sefarditas que remontam a Idade Média espanhola antes da diáspora, quando os reis católicos expulsam os judeus da Península Ibérica.

Nada melhor do que o próprio John Zorn explicar por que lançou esse álbum por sua gravadora: “Dora Juárez cria uma fascinante travessia musical, explorando sua própria identidade, rastreando as raízes judaicas de sua linhagem familiar do leste europeu, Espanha, Argentina, Israel e México. Esta é a história judaica apaixonada e intensamente pessoal contada por meio de canções sefarditas.” Quer melhor crédito?

Não é para todos os gostos, certamente. Mas basta deixar os ouvidos livres de quaisquer preconceitos para sentir a beleza e singeleza dessas canções ancestrais na doce voz de Dora.

Ouça “Las tres morillas”, a nona faixa do disco.




A minha preferida é “Por qué yorash?”




Dora canta “Morenica”. Beleza em estado puro.

terça-feira, 11 de março de 2014

O som do Bester Quartet

A primeira vez em que ouvi alguma referência à palavra klezmer foi em um disco de Don Byron. Pelo que pude entender, era um gênero musical de origem judaica. Quando o conheci pessoalmente, com o Takashi Fukushima, na primeira vez em que veio ao Brasil, conversei sobre suas conexões judaicas. A pergunta foi em razão de seu CD Don Byron Plays the Music of Michael Katz, em cuja capa o clarinetista segura uma galinha depenada. Ingenuamente perguntei se era de verdade. Era de borracha; existem à venda até no Brasil. Byron tem um humor bem particular e adora as misturas entre a alta e baixa culturas. Outro CD – Bug Music – faz referência aos desenhos animados de maneira humorada: é a versão dos Flintstones aos Beatles (“Bug Music with them four insects”). Confessou ser fão do canal Nickleodeon.

O klezmer, afinal, é uma forma musical popular nascida entre os judeus askenazis. Era a música dos que viviam em stheitls (aldeias em que moravam, na Europa Central). Era tocada em festas e celebrações por músicos amadores que tinham aprendido a tocar de ouvido. Pelo fato de ter surgido na região da Polônia, Hungria, Romênia e Bulgária, absorveu muito da música cigana.

O saxofonista e compositor John Zorn, de uns tempos para cá, lança um álbum atrás do outro pelo selo Tzadik, dedicado, segundo ele, à música experimental e avant garde que é difícil ou não encontra espaço pelas vias convencionais. O novaiorquino é um dos músicos mais versáteis da atualidade, compondo para formações camerísticas e orquestrais.


Uma das bandas que grava pela Tzadik é o Bester Quartet. Liderado pelo acordeonista Jarosław Bester, tem Jarosław Tyrała no violino, Oleg Dyyak no acordeon, clarineta, duduk e percussão, e o contrabaixista Mikołaj Pospieszalski, lançaram The Golden Land, em 2013. Dentre as participações anteriores pela gravadora está Balan, série chamada The Book of Angels, com sua banda anterior, a Cracow Klezmer Band, criada em 1997.

O klezmer não deve ser o gênero mais conhecido e difundido. Independente disso, para quem é curioso, vale ouvir. É uma música vibrante, alegre, às vezes melancólica mas, antes de mais nada, o Bester Quartet faz música de primeira e inquietante.

Uma das boas composições é Di Lalke. É a primeira faixa do disco.



Ouça Dos Lidl Fun Goldenem Land. É um dos destaques.




Outro destaque: Oy, Brider, L'chayim.




Veja uma apresentação do quarteto.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Quem é Jamie Saft?

O barbudo Jamie Saft
São tantas as cantoras novas que vão surgindo que, como guia, vejo quem as acompanha. Se é Fred Hersch, Hank Jones (é um exemplo apenas, pois este morreu no ano passado), tento ouvir um trecho nos samples do site Amazon. Nem sempre a aposta é boa. Nunca tinha ouvido falar de Jamie Saft. Em Borscht Belt Studies, vejo que é acompanhado por Larry Grenadier, um baixista que conheço por ter acompanhado o pianista Brad Mehldau por muito tempo. Noto que participa de apenas uma faixa, mas a aposta está feita.

Depois de ouvir o CD, pesquiso na internet e descubro que participou de alguns discos e apresentações do saxofonista John Zorn. Borscht Belt Studies – nome diferente, não? – foi lançado em 2011 pela Tzadik, a mesma de Zorn. Saft toca, além do piano acústico, o elétrico (Fender Rhodes). Na maioria das faixas, é acompanhado pela clarineta de Ben Goldberg. A primeira Issachar começa com o piano elétrico; entra a clarineta. Belo tema.

A clarineta é um instrumento que não é tão comum quanto o saxofone ou o trompete, mas está totalmente incorporado à linguagem do jazz. Sem falar de Buddy DeFranco, só entre os da atualidade, temos Don Byron, Gianluigi Trovesi, Anat Cohen, Marty Erlich, Eddie Daniels e Ken Peplowski, e claro, Ben Goldberg.

A segunda – Hellenville – é um solo de Saft. Em Darkest Arts, entra novamente a clarineta, e o solo remete ao klezmer, gênero intrinsecamente judaico. O piano elétrico em Pinkus, a próxima música, representa bem o espírito do disco. É climática, como um tema de alguma cena cinematográfica; é reflexiva, uma das mais belas do CD. Saft explora ao máximo a sonoridade do piano elétrico, abusando dos ecos tão típicos dos Fender Rhodes. The Pines é meio “quebrada”, como um estudo, um exercício estilístico. Darash e Solomon County têm climas semelhantes à Pinkus. Jews for Joseph (Manieri) é frenética: foge um pouco do clima geral do disco. Kutschers: belo tema no piano acústico. Nossa, é muito bonita mesmo. Emociona. Azulai é um pouco estranha: não entra na lista das preferidas. A última, New Zion, é diferente de tudo: tem bateria, um som que parece o de um baixo mas não é. Não estranhe: mesmo que lhe pareça meio parada, é a mais agitada do disco. New Zion tem uma beleza estranha. O teclado de Saft, em todo o CD é de extremo bom gosto. O cara sabe das coisas. A cada audição – ouço pela sexta vez –, acho melhor. Em cada faixa, me transporto para algum lugar desconhecido. A beleza está nesse universo desconhecido.

Ouça Pinkus.




New Zion.