Os mais ardorosos fãs de Chico Buarque devem achá-lo perfeito. Compositor genial e romancista idem, bonito, grande cantor etc. Bonito? Espero que nem todos sejam unânimes em dizer que é. E, cantor, convenhamos… ele canta. Mas será ele seu melhor intérprete? Convém separar as duas categorias. Pode acontecer de o compositor ser um grande cantor, casos de Milton Nascimento e Caetano Veloso. O exemplo de Chico pode muito bem ser aplicado a Tom Jobim. Tendemos a gostar das coisas por algumas particularidades. Por exemplo, acho espetacular Tom, quase morrendo de falta de ar, cantando Luiza. Quando ouço Lígia, vejo alguém caminhando do Leme ao Leblon perdido em seus pensamentos.
Leonard Cohen começou como escritor. Como literatura não dá dinheiro na maioria dos casos, resolveu tornar-se cantor folk. Saiu do Canadá e mudou para os EUA. Deu sorte. Judy Collins gravou Suzanne e um dos diretores da CBS, John Hammond, gostou dele. Ganhou contrato e seu primeiro disco virou cult. Participou de festivais e passou a ser reconhecido pela crítica, mas não tornou-se tão popular quanto é hoje, em razão até de não ligar muito ao star-system. Não gravava com regularidade. Afastava-se do business da música, passava por fases mais e menos depressivas e por um tempo, enfurnou-se em um templo e virou monge budista.
O melhor álbum de Cohen, na minha opinião, é Songs of Leonard Cohen, o primeiro. Neste estão clássicos como Suzanne, Sisters of Mercy, So Long, Marianne e Hey e That’s No Way to Say Goodbye. Depois de um início tão bom, o caminho mais fácil é piorar. Certo? Mas não foi o que aconteceu. Até que segurou a peteca. Compôs depois grandes clássicos como Chelsea Hotel no. 2 (rola uma história de que transou com Janis Joplin durante o período em que morou nesse hotel), Bird on the Wire, Joan of Arc, Who by Fire, The Famous Blue Raincoat, Everybody Knows, I’m Your Man, Take This Waltz, Tower of Song, Dance Me to the End of World, Hallelujah. São poucos os autores com tantas boas músicas.
Muitos resolveram gravar suas músicas. Diante de tanta oferta de interpretações diferentes é o caso de se perguntar: quem é o melhor intérprete de Leonard Cohen? O próprio? Pode ser. É a mesma pergunta que pode ser feita quanto aos dotes vocais e interpretativos de Chico Buarque. Cohen não tem boa extensão de voz, não possui um timbre especial e, com a idade, ficou com a voz mais grave ainda. Mesmo assim, existe um charme especial em sua forma monocórdia de cantar. É um tanto contraditório, mas é assim. É bem provável que ele seja o melhor intérprete de si.
Mas, e coloque-se “mas” nessa história, algumas versões de LC pelos outros são clássicas. A melhor de todas? Talvez Hallelujah com Jeff Buckley. Se não for, é a interpretação mais famosa do americano. No único disco lançado durante sua breve passagem pelo planeta, emplacou três músicas que não eram suas em Grace (1994): Lilac Wine, consagrada antes na voz de Nina Simone, por quem tinha admiração especial, Corpus Christi Carol, de Benjamin Britten, e Hallelujah.
Veja Buckley em Hallelujah.
A versão do disco.
Jeff Buckley, depois da morte misteriosa, virou um mito. Grace é considerado um dos melhores discos de todos os tempos. Se você quiser saber um pouco mais sobre ele, leia “O morto Jeff Buckley”: http://bit.ly/1c3l38w
Agora, prestes a completar 80 anos, não parece tão depressivo como antes e até parece feliz com a condição de astro. Continua produzindo – Old Ideas, seu último disco é de 2012 –, faz shows e é venerado por gerações que nem o conheciam, mesmo os que viveram o tempo dos festivais de Woodstock e da Ilha de Wight. Para se ter uma ideia de sua produção irregular, com essa idade, este último é seu 12º disco de estúdio.
Outros cantam Cohen
Em referência a conhecida canção I’m Your Man, foi lançado em 1991 um álbum com vários artistas interpretando Cohen: I’m Your Fan. Há 23 anos, o canadense ainda não tinha se transformado nessa unanimidade de agora. Em comparação com outros discos tributo, este é o melhor. Não é um punhado de nomes desconhecidos, como de costume. Em um mesmo álbum, temos R.E.M., Ian McCulloch, líder do Echo and The Bunnymen, Nick Cave, Lloyd Cole, Pixies, James, House of Love e John Cale. Todos os nomes citados estavam, como se dizia, na crista da onda.
Ouça Who By Fire, com House of Love.
Lloyd Cole canta Chelsea Hotel no. 2.
Tower of Song em versão “speedy” e cavernosa com o cavernoso Nick Cave.
Outro com um plantel de respeito é Tower of Song: The Songs of Leonard Cohen (1995). Tem Bono Vox em Hallelujah, Sting e os Chieftains (Sisters of Mercy), Don Henley (Everybody Knows), Peter Gabriel (Suzanne), Willie Nelson (Bird on a Wire), Elton John (I’m Your Man), Suzanne Vega (Story of Isaac), Billy Joel (Light as a Breeze), Martin L. Gore (Coming Back to You), Tori Amos (The Famous Blue Raincoat), dentre outros. Com uma verdadeira seleção de craques dessa, a coletânea não é tão boa. Cohen funciona melhor se mantido o clima depressivo da maioria de suas composições. A pior deve ser a de Elton John, bem “alegrinha”, cantando I’m Your Man: parece não ter captado o ritmo de valsa da original.
Veja Tori Amos em uma apresentação em Albany cantando The Famous Blue Raincoat.
Outro tributo é I’m Your Man (2005), mesmo nome do documentário dirigido por Liam Lunson. A gravadora Verve Forecast (é uma espécie de segunda linha, menos jazz) lançou com um CD com performances de Nick Cave, Jarvis Cocker (ex-Pulp), Antony (Antony and the Johnsons) e alguns membros da família Wainwright, dentre outros. São nomes mais conhecidos que The Handsome Family ou Teddy Thompson. O britânico, filho de Richard e Linda Thompson, nem o primeiro decepcionam,
The Famous Blue Raincoat, com o Handsome Family, é muito boa. A voz de Brett Sparks é grave; combina com a de Cohen. Ouça.
Tudo o que Antony toca vira ouro. É emocionante a interpretação de If It Be Your Will. Veja. Maravilha pura.
Veja também Rufus Wainwright cantando Chelsea Hotel no. 2. A aparição dos Wainwright no documentário não é gratuita: são parentes de Cohen.
Várias revistas estrangeiras costumam encartar CDs. Alguma são caprichadas, como a da Mojo, que preparou um apenas com músicas de Cohen. Os intérpretes são menos conhecidos que dos anteriores. Mesmo assim, alguns podem ser destacados, como os ingleses The Miserable Rich, com um belo The Stranger Song, com instrumentação econômica, com um cantor de voz que lembra a de David Gates, da pré-histórica Bread, ou Michael Kiwanuka, com Hey, That’s No Way to Say Goodbye, belíssima voz. Outra bem interessante é a de Father John Misty, do guitarrista Josh Tillman, ex-baterista da banda folk Fleet Fox, em One Of Us Cannot Be Wrong. Mais? The Famous Blue Raincoats, com os ingleses do Diagram, mas esta não vale: quase todas que conheço são interessantes.
Ouça The Stranger Song, com The Miserable Rich.
Ouça Hey, That’s No Way to Say Goodbye, com Michael Kiwanuka
quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014
terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
O bardo canadense Leonard Cohen revisitado
Esse texto é uma republicação, com algumas mudanças em relação ao original publicado no blogue “Vamos Combinar”, de Paulo Moreira Leite, no site da revista Época (8/10/2009). A razão de ser republicado é que as colaborações de PML para essa revista não estão mais disponibilizadas.
Acho que todo mundo já notou que o ar em contato com a superfície quente do asfalto cria um efeito de “miragem”, que é como se estivéssemos a “ver” o ar em movimento. É possível ver tal fenômeno logo antes da largada de corridas de Formula 1, por causa do calor das pistas, dos motores e dos gases que saem dos escapamentos. Isso acontece em superfícies quentes e também em superfícies gélidas como as das regiões polares. Variações abruptas da temperatura do ar causam uma espécie de refração. Isso tem um nome: “fata morgana”, expressão que vem do italiano em referência à meia-irmã do Rei Arthur que, “segundo a lenda, era uma fada que conseguia mudar de aparência ‘criando’ um efeito de ilusão óptica” (as aspas são porque tirei essa definição da Wikipédia”).
Werner Herzog fez um filme em 1971 com esse nome. Acho que poucas pessoas o assistiram. O cineclube da Faculdade de Arquitetura da USP promovia com frequência sessões de filmes de pouco apelo comercial, raramente exibidos em sessões comerciais. A primeira cena é a de um avião pousando num aeroporto no meio do nada. A câmera fixa “vê” a imagem sob o efeito da fata morgana. Essa cena se repete várias vezes “anunciando” que estamos chegando em um lugar de clima tórrido, no caso, ao deserto do Saara.
Veja Cohen em Suzanne, no festival da Ilha de Wight.
O filme, na época, impressionou-me. A trilha musical combinava perfeitamente com as cenas de paisagem desolada e despovoada. A amiga Ruth Klotzel disse que as canções eram de um cantor chamado Leonard Cohen. Procurei nas melhores lojas de São Paulo e não encontrei nada dele. Na primeira viagem que fiz a Nova York comprei o LP Songs of Leonard Cohen. E todas as músicas do filme estavam lá: Suzanne, So Long, Marianne, Hey, That’s No Way to Say Goodbye e Sisters of Mercy. Tornou-se meu disco predileto por muito tempo. A voz de Cohen era meio grave, melancólica e triste. Sem entender direito as letras, “via” as tais paisagens desoladas de Fata Morgana e imaginava que eram palavras de dor e abandono. No mesmo ano de 1971, Robert Altman dirigiu o filme McCabe and Mrs. Miller (Onde os Homens São Homens; no DVD trocaram o título para Jogos e Trapaças). Warren Beatty era um jogador de cartas profissional que vagava de cidade em cidade atravessando regiões nevadas e desoladas. Eram viagens solitárias – ele e o cavalo – por lugares em que não se via uma vivalma. As canções que os acompanhavam também eram solitárias – a voz e o violão. Logo identifiquei que era Cohen. Provavelmente, nem Altman tinha visto o filme de Herzog e nem o contrário, mas era uma coincidência muito grande. No mesmo ano!
O canadense Leonard Cohen quando se tornou músico já era um escritor com algumas obras publicadas, o que explica a qualidade de suas letras, em contraste com a pobreza característica da maioria das canções pop/rock.
O melhor intérprete de Leonard Cohen é ele mesmo. Com quase 50 anos de carreira está sendo descoberto pelas novas gerações e estamos sempre a tomar conhecimento de intérpretes regravando-o. Sua voz, nos anos 1960, não era tão grave como agora. Mais áspera, perdeu um certo brilho. Devido a pequena amplitude de sua voz, o tom é sempre meio monocórdio. Pode-se dizer que inventou um estilo de cantar à sua medida. Suas limitações como cantor são camufladas pelos “backing vocals” femininos, violões acústicos ou esporádicas intervenções de algum outro instrumento. No século XXI a cozinha aumentou: presença maior de baterias, órgãos eletrônicos, saxes, gaitas e até algo parecido a uma guitarra portuguesa. Não dá para dizer que piorou. Pode-se dizer que, como todo mundo, transformou-se. Continua interessante. Alguns o compararão a Serge Gainsbourg ou ao australiano Nick Cave.
Vamos a Leonard Cohen pelos outros. Na área jazzística, Suzanne foi cantada por Dianne Reeves, René Marie e pelo novo darling do show business, Michael Bublé. No pop/rock temos First We Take Manhattan com o R.E.M., Hey, That’s No Way to Say Goodbye, com IanMcCulloch, vocalista do Echo & The Bunnymen, So Long Marianne com a banda inglesa James, Chelsea Hotel com Lloyd Cole, Hallelujah com John Cale, ex-membro do Velvet Underground, Suzanne com Nick Cave e uma estonteante Who by Fire pela banda underrated House of Love. Sua conterrânea kd lang, como de costume, interpreta um irretocável Hallelujah e um belo Bird on a Wire em seu último CD Hymns of the 49th Parallel. Num terreno que nem é pop nem é música erudita, a canadense Patricia O’Callaghan no CD Real Emotional Girl interpreta várias de seu repertório: Hallelujah, I’m Your Man, Take This Waltz e A Singer Must Die. Vale a pena ouvir.
Ouça O’Callaghan em Hallelujah.
O Hallelujah de kd lang. Veja.
Uma sugestão para se conhecer todos os sucessos de Cohen é Live in London (2009). Ele fala um pouco demais no show, mas está perdoado depois de tanta coisa boa que compôs.
Acho que todo mundo já notou que o ar em contato com a superfície quente do asfalto cria um efeito de “miragem”, que é como se estivéssemos a “ver” o ar em movimento. É possível ver tal fenômeno logo antes da largada de corridas de Formula 1, por causa do calor das pistas, dos motores e dos gases que saem dos escapamentos. Isso acontece em superfícies quentes e também em superfícies gélidas como as das regiões polares. Variações abruptas da temperatura do ar causam uma espécie de refração. Isso tem um nome: “fata morgana”, expressão que vem do italiano em referência à meia-irmã do Rei Arthur que, “segundo a lenda, era uma fada que conseguia mudar de aparência ‘criando’ um efeito de ilusão óptica” (as aspas são porque tirei essa definição da Wikipédia”).
Werner Herzog fez um filme em 1971 com esse nome. Acho que poucas pessoas o assistiram. O cineclube da Faculdade de Arquitetura da USP promovia com frequência sessões de filmes de pouco apelo comercial, raramente exibidos em sessões comerciais. A primeira cena é a de um avião pousando num aeroporto no meio do nada. A câmera fixa “vê” a imagem sob o efeito da fata morgana. Essa cena se repete várias vezes “anunciando” que estamos chegando em um lugar de clima tórrido, no caso, ao deserto do Saara.
Veja Cohen em Suzanne, no festival da Ilha de Wight.
O filme, na época, impressionou-me. A trilha musical combinava perfeitamente com as cenas de paisagem desolada e despovoada. A amiga Ruth Klotzel disse que as canções eram de um cantor chamado Leonard Cohen. Procurei nas melhores lojas de São Paulo e não encontrei nada dele. Na primeira viagem que fiz a Nova York comprei o LP Songs of Leonard Cohen. E todas as músicas do filme estavam lá: Suzanne, So Long, Marianne, Hey, That’s No Way to Say Goodbye e Sisters of Mercy. Tornou-se meu disco predileto por muito tempo. A voz de Cohen era meio grave, melancólica e triste. Sem entender direito as letras, “via” as tais paisagens desoladas de Fata Morgana e imaginava que eram palavras de dor e abandono. No mesmo ano de 1971, Robert Altman dirigiu o filme McCabe and Mrs. Miller (Onde os Homens São Homens; no DVD trocaram o título para Jogos e Trapaças). Warren Beatty era um jogador de cartas profissional que vagava de cidade em cidade atravessando regiões nevadas e desoladas. Eram viagens solitárias – ele e o cavalo – por lugares em que não se via uma vivalma. As canções que os acompanhavam também eram solitárias – a voz e o violão. Logo identifiquei que era Cohen. Provavelmente, nem Altman tinha visto o filme de Herzog e nem o contrário, mas era uma coincidência muito grande. No mesmo ano!
O canadense Leonard Cohen quando se tornou músico já era um escritor com algumas obras publicadas, o que explica a qualidade de suas letras, em contraste com a pobreza característica da maioria das canções pop/rock.
O melhor intérprete de Leonard Cohen é ele mesmo. Com quase 50 anos de carreira está sendo descoberto pelas novas gerações e estamos sempre a tomar conhecimento de intérpretes regravando-o. Sua voz, nos anos 1960, não era tão grave como agora. Mais áspera, perdeu um certo brilho. Devido a pequena amplitude de sua voz, o tom é sempre meio monocórdio. Pode-se dizer que inventou um estilo de cantar à sua medida. Suas limitações como cantor são camufladas pelos “backing vocals” femininos, violões acústicos ou esporádicas intervenções de algum outro instrumento. No século XXI a cozinha aumentou: presença maior de baterias, órgãos eletrônicos, saxes, gaitas e até algo parecido a uma guitarra portuguesa. Não dá para dizer que piorou. Pode-se dizer que, como todo mundo, transformou-se. Continua interessante. Alguns o compararão a Serge Gainsbourg ou ao australiano Nick Cave.
Vamos a Leonard Cohen pelos outros. Na área jazzística, Suzanne foi cantada por Dianne Reeves, René Marie e pelo novo darling do show business, Michael Bublé. No pop/rock temos First We Take Manhattan com o R.E.M., Hey, That’s No Way to Say Goodbye, com IanMcCulloch, vocalista do Echo & The Bunnymen, So Long Marianne com a banda inglesa James, Chelsea Hotel com Lloyd Cole, Hallelujah com John Cale, ex-membro do Velvet Underground, Suzanne com Nick Cave e uma estonteante Who by Fire pela banda underrated House of Love. Sua conterrânea kd lang, como de costume, interpreta um irretocável Hallelujah e um belo Bird on a Wire em seu último CD Hymns of the 49th Parallel. Num terreno que nem é pop nem é música erudita, a canadense Patricia O’Callaghan no CD Real Emotional Girl interpreta várias de seu repertório: Hallelujah, I’m Your Man, Take This Waltz e A Singer Must Die. Vale a pena ouvir.
Ouça O’Callaghan em Hallelujah.
O Hallelujah de kd lang. Veja.
Uma sugestão para se conhecer todos os sucessos de Cohen é Live in London (2009). Ele fala um pouco demais no show, mas está perdoado depois de tanta coisa boa que compôs.
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