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quinta-feira, 16 de maio de 2013

Jane Monheit e o gosto dos outros


O autógrafo de Jane com algumas gotas de whisky
Em três ocasiões tive a oportunidade de ver Jane Monheit no Bourbon Street Music Club, todas graças aos convites simpáticos de Carlos Conde. Ir com ele significava ficar na primeira fileira de mesas, e de graça. O único porém era de que ficávamos sujeitos aos perdigotos dos cantores. O jazz, sem chauvinismos, é mais do universo masculino, e não por coincidência, nossa mesa, na maioria das vezes, constituía-se apenas de seres deste sexo. A Dôra, mulher do Conde, ia muito de vez em quando, nunca quando era de música estritamente instrumental. Segundo outro amigo, o Zeca Leal, que conhecia tudo de jazz e, principalmente de Frank Sinatra (adorava dizer que foi a pessoa que mais comprara discos do “old blue eyes”; essa história conto em http://bit.ly/UTQNF3), a preferência das mulheres, em se tratando do gênero, recaía em temas de musicais de Hollywood.

Por ser costumeiramente uma mesa só de homens, imagine o tipo de comentários que surgiam quando os shows eram de representantes do sexo feminino, é claro, além das críticas e elogios específicos relacionados aos músicos, ao repertório, à execução, de certo solo do pianista, do baixista ou do saxofonista? Lembro que uma cantora nos impressionou especialmente por suas formas e pela beleza. O Conde não deixou de prestar atenção – e tecer comentários – em certas características físicas bem ao gosto dos brasileiros de Nnenna Freelon. Todos à mesa concordaram. E também quanto à voz, que seja dito. Aliás, a pianista, uma japonesa, de quem não recordo o nome, era muito boa.

Como vimos Jane Monheit por três vezes em ocasiões diferentes, percebemos certas mudanças físicas. Jane, mesmo hoje, com 35 anos, continua com um rosto muito bonito e seus lábios carnudos chamam muito a atenção. As observações, na primeira vez, foi quanto à pele alva, perfeita, belos olhos emoldurados por sombrancelhas bem desenhadas e nariz perfeito. Mas precisávamos arrumar um defeito. Era um pouco cheinha.

Uma das faces da sensualidade de Jane
Na segunda vez, para nossa surpresa, estava bem magra. Comentário masculino, com algo de chauvinismo: “deve estar apaixonada.” Verdade. O felizardo estava do seu lado: era Rick Montalbano, seu baterista. Bom, não disse uma palavra de suas qualidades como intérprete até agora. É afinadíssima. É, no entanto, uma qualidade que esperamos de qualquer intérprete.
Na terceira vez em que fomos vê-la no Bourbon – como John Pizzarelli havia ficado “freguês” dos palcos brasileiros – estava gordinha de novo. Aqui não direi o que foi comentado à mesa. Entre a primeira e a terceira vez havia ficado fã de Ivan Lins e cantou algumas de suas músicas e, obviamente, temas jobinianos.

O primeiro disco de Monheit foi Never Never Land, lançado em 2000, na esteira do segundo lugar conquistado no prestigiado Thelonious Monk International Jazz Competition. Fôra avaliada por um júri primeiro time: Dianne Reeves, Diana Krall, Nnenna Freelon, Dee Dee Bridgewater e Joe Williams. Nos álbuns seguintes, como no primeiro, prevalecem os standards, com um ou outro tema mais recente como A Case of You, de Joni Mitchell, e é acompanhada por um músicos de jazz excepcionais como Alan Broadbent, Ron Carter, Christian McBride, Tom Harrell, Kenny Barron, Hank Crawford, Bucky Pizzarelli (pai de John Pizzarelli), Toots Thielmans e Geoffrey Keezer. Demonstração de prestígio.

Em In the Sun, de 2002, Jane canta, pela primeira vez Ivan Lins: Começar de Novo e Once I Walked in the Sun (se não me engano, em português é A cor do pôr-do-sol, letra de Celso Viáfora). Once I Walked in the Sun é cantada com participação de Lins. Começar de Novo é com arranjo de Vince Mendoza e no final há um belíssimo e mínimo solo de trompete de Tom Harrell. Confira. É um dos melhores Começar de Novo até agora registrados.


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É evidente a paixão de Jane pela música brasileira. Em Surrender (2007), das dez faixas, seis são de brasileiros. Como de costume, inclui uma composição de Ivan (participa cantando também) – Rio de Maio –, outra da feliz parceria com Viáfora. As outras são de Jobim, Dori Caymmi e Sérgio Mendes. O toque “pop” é a gravação de Overjoyed, de Stevie Wonder. É um bom disco.

Agora em 2013, Jane acaba de lançar The Heart of Matter, seu décimo álbum. Ouvi e baixou a bronca. Apesar de considerá-la afinadíssima, é muito certinha para o meu gosto. Tem alguma coisa faltando. Em matéria da Downbeat (junho de 2013), Allen Morrison tece rasgados elogios à cantora. Depois de ouvir por algumas vezes, vou discordar. Enjoei. Seu jeito “sensual” de cantar, arfante, me faz lembrar o que o Zeca Leal, amigo que faz falta, agora que se foi, com seus comentários ácidos e engraçados. Disse uma vez que alguns intérpretes cantam com um fole na garganta. Para cada frase, uma puxada de ar, como se estivesse afogando. Não tinha percebido o quanto Monheit “arfa” e suas modulações vocais, sabe, aquelas em que a voz vai num sobe e desce suspirante, especialmente em Two Lonely People (quarta faixa), é irritante. Allen Morrison escreve que “ela nunca cantou melhor ou com maior convicção, desmentindo a sabedoria convencional de que a melhor arte nasce das cinzas da desgraça.” O que escreve outro Bobby Reed, da mesma revista, em “Editor’s Picks” do mês de maio, é só elogios. Estou começando a pensar que sou o único que não gostou do disco. Outra coisa que passou a irritar-me e havia percebido nos shows, mas não incomodava tanto é sua tendência a reforçar um lado sensual, não apenas pelos movimentos no palco, assim como pelo modo de cantar, cheio de modulações e, como havia dito, arfante. Garanto porém que deve ter muitos que adoram esse seu estilo. Prefiro Julie London.

Última coisa: não falta Ivan Lins. Desta vez, canta Depende de Nós e A Gente Merece Ser Feliz. Curiosidade: Sing, aquela do Vila Sésamo. A melhor do disco: Born to Be Blue, de Mel Tormé e Robert Wells.

Ouça Sing.

terça-feira, 26 de março de 2013

A filhinha de mamãe e de papai Amanda Brecker

Amanda, filha de Randy e Eliane
Pelo sobrenome, é possível desconfiar. Quem se lembra dos Brecker Brothers? Como muitos músicos da geração deles, os irmãos Randy e Michael, montaram uma banda jazz-rock, gênero que permeou o gosto de muitos dos adolescentes nas décadas de 1960 e 70. Não foi diferente com eles. Poderiam gostar de jazz, mas era impossível resistir à força avassaladora do rock, do funk, da soul music e do rhythm’n’blues. Ambos participaram de gravações de James Taylor, Steely Dan, Frank Zappa, Dire Straits e Paul Simon.

Michael Brecker se tornou um dos mais aclamados sax tenoristas no jazz. Passou bem pela fase fusion, como passaram Miles Davis, Chick Corea e Herbie Hancock. Esteve sempre entre os da primeira linha da música instrumental. Em 2004 descobriu que tinha leucemia. Continuou tocando até pouco antes de morrer, em 2007. Formou-se uma verdadeira corrente entre os que o ajudaram em sua luta contra o câncer.

Randy, o irmão, está vivo, no entanto, hoje, não se fala muito dele, mas continua na ativa e ainda é considerado um dos melhores no trompete e no flugelhorn. Foi parceiro musical e na vida de Eliane Elias. Dessa união nasceu Amanda, homenageada por um disco com o mesmo nome, lançado em 1985.

Pois Amanda cresceu e resolveu seguir a carreira dos pais como cantora. Lançou três discos. O primeiro, Here I Am, saiu pelo selo japonês Bird Records, em 2008. Levou vários prêmios, todos por lá. Sucesso localizado. Uma das canções do CD virou tema de programa de TV, o que, como no Brasil virar tema de novela, resultou em boa notoriedade. O segundo, Brazilian Passion (2009), foi lançado também no Japão. É um disco mezzo Brasil, mezzo americano. Claro que, filha de Elias, canta em português perfeito.

Ouça Amanda em dueto com Ivan Lins em Lembra de Mim.



Deixou a Bird e assinou pela Universal Music japonesa e passou a fazer parte do cast da Decca Records. Lançou Blossom com repertório dedicado à Carole King e a James Taylor. É bem agradável. Não vou falar nem bem nem mal. Digo só que Amanda é bela, tem pais famosos e é afinada. É um bom começo, não? Fora isso, tem o guitarrista Anthony Wilson e o tecladista Larry Goldings participando.

Ouça Amanda cantando It’s Too Late.



A minha preferida é (You Make Me Feel Like) A Natural Woman. Confira. Bom, não vá tentar comparar com a de Aretha Franklin.

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quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

A Diana Krall que poucos conhecem

O título capcioso não serve para revelar algum segredo ou fato obscuro da vida de Diana Krall, e muito menos, do marido Elvis Costello. É claro que, não sendo Elvis um modelo de beleza, e Krall, bela e talentosa como é – muitos acham que poderia ter arrumado um homem mais “aprumado” –, o casal é alvo de fofocas e maledicências. Já se disse até que o casamento é de fachada (a exemplo da união de Tom Cruise e Nicole Kidman) e que os filhos gêmeos são de proveta.

Costello e Diana: um casal feliz
Existe gente que não o acha talentoso; mas, de fato, é. Costello participou de algumas pequenas “revoluções” da música. Passou pelo punk, country, folk, new wave, rockabilly, sempre adicionando alguma novidade. É autor de Shipbuilding e Almost Blue. Não precisava fazer mais nada. Elvis tem o “desassossego” dos grandes artistas, é um subversivo, enfim. Foi a Nashville e lá gravou um disco country (fãs e desafetos devem ter torcido o nariz), colaborou em disco do trumpetista cult Chet Baker, associou-se a intérpretes geniais como Robert Wyatt, gravou com Burt Bacharach (um escândalo; Elvis fazendo música easy listening?), gravou discos com uma das melhores mezzo-sopranos da atualidade –Anne Sofie von Otter –, compôs música para balé (Il Sogno), ambos pela mais prestigiada gravadora de música erudita, a Deutsche Grammophon. Não é pouco, não.

Faz parte dos meus roteiros turísticos entrar em lojas que vendem CDs e DVDs. Meio pobre, não? Quando se viaja, deve-se incluir visitas a museus, sítios arqueológicos, espetáculos de música, restaurantes etc. Minha pobreza de espírito e falta de refinamento cultural me empurram para o consumo, principalmente de discos. Quando vou a Nova York, passo por, pelo menos, duas lojas por dia. É uma pena que estejam desaparecendo. Terei de arrumar outras coisas para fazer. Ouvi muito dizerem que, se você vai a Nova York e não vê um musical da Broadway, efetivamente, você não foi a Nova York. Passei dessa fase e depois, acho os ingressos caríssimos. Quase dormi em Cats. Duas filas atrás um japonês roncava, virado de boca aberta para cima. Tive até inveja dele, mas como é que iria dizer aos amigos que tinha achado Cats chata? Aqueles efeitos de um helicóptero descendo em pleno palco ou um lustre descer a toda a velocidade não se sabe de onde, tudo isso não me impressiona. Prefiro passar horas no MoMA e no Metropolitan e depois passar numa Borders, Barnes & Noble, Rizzolli, J&R ou na minha preferida, a Jazz Record Center (sobre a loja, leia http://bit.ly/hYoeP5), que fica escondido num prédio no lado oeste da metrópole.

Pois, em Paris, em 1995, como não conhecia o La Défense, e não era a primeira vez que visitava a cidade, em razão dos clamores de meus companheiros arquitetos, fui até lá. É a parte “muderna” de Paris. Há um grande arco que, visualmente, “abriga” o velho Arco do Triunfo: dá uma linha reta que corre pela Champs Elisées. É a sede do mercado financeiro. Na frieza de sua arquitetura, encontrei uma loja Fnac. Enquanto remexia nas bancadas dos CDs, no setor de jazz, o som que tocavam naquela hora chamou-me a atenção. Fiquei curioso de saber quem era o pianista. Logo mais, ouço uma voz familiar. Era a de Diana Krall. Não tinha essa fama que tem agora. Diana era uma espécie de “segredo bem guardado” de alguns aficionados de jazz. Desde o primeiro que comprara – Only Trust Your Heart – a canadense chamou-me a atenção, pelo piano que lembrava Nat King Cole, pela beleza e pela voz.

Turn Up the Quiet foi lançado em 1996
Falo, no máximo umas vinte palavras em francês, todas relacionadas a comida. Na França, a amiga Vania deu algumas dicas. Uma delas era a de que sempre se usa artigo antes do substantivo. Por exemplo, se fosse pedir água, em vez de dizer “eau”, deveria dizer “l’eau”. Quem viu Pulp Fiction deve lembrar da cena em que John Travolta explica a Samuel L. Jackson que, para se pedir um Big Mac na França, deve-se dizer “Le” Big Mac. Hilariante. Graças a essa lição básica, em vez de pedir a Perrier, um pouco gasosa demais para o meu gosto, podia pedir a “l’eau Badoit, s'il vous plaît”, a minha preferida. Quando tinha de falar com ela, fui instruído a dizer ao telefone: “Vaniá, si vu plé”

Por conta da dificuldade em comunicar-me na língua de Flaubert e Proust, demorei-me uns dez minutos para tomar coragem e abordar um atendente. Solícito, mostrou-me o CD. Era de um pianista que não conhecia: Geoff Keezer (depois, descobri que possuía um disco de Art Blakey, em que tocava). Em inglês, disse-lhe que queria comprá-lo. Ele disse que não podia vender pois era uma amostra para os lojistas e iria estar disponibilizado apenas no começo de outubro. Era setembro e, em poucos dias voltaria ao Brasil. Saí frustrado da loja.

De volta ao Brasil, tempos depois, fui ter com o Odair – grande Odair!, a quem conhecia desde os tempos em que era gerente da melhor loja de discos importados entre os anos 1970 e 80, o Museu do Disco e nessa época, trabalhava numa loja próxima ao Colégio Dante Alighieri. Os catálogos ainda eram impressos (verdadeiros catataus em papel jornal) e não disponibilizados pela internet como hoje. Bom, resumindo, o disco foi lançado uns seis ou sete meses depois. Acho que foi o disco mais esperado daquele 1996.

É desse belo disco que você vai ouvir Love Dance, de Ivan Lins.