A playlist chamada “Brasil” é bem variada, fora de um padrão. Alguns números da década de 1960 se misturam a outras mais recentes mas, nem tanto, pois a mais nova deve ser do início desse século. Chutando, as mais recentes são de 2003-2005: “X do Problema” (Marcos Sacramento), “Ilê Ayê” (Daúde), “Doce na Feira”, de Monica Salmaso, “Perto do Coração” (Nelson Ayres), “Baião de Quatro Tempos” (Zé Miguel Wiznik) e “Terra Estrangeira” (Eveline Hecker).
A seleção é pouco ortodoxa, Mas, se você é curioso, clica na playlist que disponibilizei no Spotify.
1 Marcos Sacramento - X do Problema
2 Vanessa da Mata - Alegria
3 Gal Costa - Lágrimas Negras
4 Daúde - Ilê-Ayê (Que Bloco É Esse?)
5 Paulinho da Viola - Deixa Pra Lá
6 Walter Wanderley - Garota de Ipanema
7 Sergio Ricardo - Folha de Papel
8 Dick Farney & Norma Bengell - Você
9 Caetano Veloso - Madrugada e Amor
10 Joel Nascimento - Canto Triste
11 Milton Banana - Cidade Vazia
12 Monica Salmaso - Doce na Feira
13 Eveline Hecker - Terra Estrangeira
14 Agostinho dos Santos - Manhã de Carnaval
15 Nelson Ayres - Perto do Coração
16 Olivia Byington - Canção do Amor Demais
17 José Miguel Wisnik - Baião de Quatro Toques
18 Marcos Valle - Ilusão à Tôa
19 Rumo - Deus Nos Livre dos Castigos das Mulheres
Amo música de fossa. Para quem não é do tempo em que se usava essa expressão, usava-se quando você estava triste por dor de corno, por ter sido abandonado pela namorada ou namorado. Dizia-se: “estou na fossa”, “ele está na maior fossa”. Antes que se canalizasse o esgoto, fazia-se uma fossa, que era onde iam todos os dejetos da casa. Infelizmente, existe na maioria das casas dos brasileiros ainda, em pleno século 21. Então, “estar na fossa” era um caso sério.
1 Maria Bethânia - O Que Tinha de Ser
2 A.C. Jobim - Por Toda Minha Vida
3 Odette Lara & Edu Lobo - Canção do Amor Ausente
4 Paulinho da Viola - Sinal Fechado
5 Alaíde Costa - Insensatez
6 Maysa - Bom Dia, Tristeza
7 Nana Caymmi - Canção em Modo Menor
8 Edu Lobo & Maria Bethânia - Pra Dizer Adeus
9 Zé Miguel Wisnik - Pérola aos Poucos
10 Odette Lara & Vinícius de Moraes - Samba em Prelúdio
Conta Ruy Castro, em “Chega de Saudade” (Companhia das Letras, 1991), que, segundo a lenda, Vinícius de Moraes foi à boate Arpège para prestigiar Tom Jobim, que defendia uns trocados, tocando piano, e lá viu Baden Powell executando “My Funny Valemtine” e “Estúpido Cúpido” na guitarra elétrica. Depois do show, o poetinha o procurou e propôs uma parceria musical.
Lenda mesmo. Tom Jobim, em 1962, já era suficientemente famoso e não precisava tocar em boates para se sustentar. E Baden, não era tão desconhecido. A real é a que Vinícius conheceu Baden por meio de Nilo Queiroz, aluno de violão deste último. Depois de ouvi-lo uma noite inteira na casa do amigo, surgia um novo parceiro. Baden foi parar no apartamento do ex-diplomata e lá ficou por quase noventa dias, compondo e bebendo. Resultou em 25 canções, muitas delas, hoje, clássicos.
De parte delas, resultou o genial álbum “Afro-Sambas”. A parceria foi regada a whisky Haig, que Vinícius tinha trazido na mala diplomática. A partir de um disco de folclore baiano, dado pelo amigo Carlos Coqueijo, e Baden sem nunca ter ido à Bahia, compuseram clássicos como os Cantos de Ossanha, de Xangô e de Iemenjá.
Depois dos quase noventa dias de isolamento, internaram-se na Clínica São Vicente para se desintoxicarem.
No programa “Ensaio”, dirigido por Fernando Faro, Baden conta que ele e Vinícius passavam noites em claro, enchendo a cara e compondo. Uma delas deixou o poeta injuriado. Disse que não ia colocar letra em um tema plagiado. O violonista alegou que não. “Isso é do Chopin”, dizia, depois de hectolitros de Haig na cabeça. Madrugada, quase amanhecendo, resolveu acordar a mulher, que conhecia bem sua obra do polonês.
A mulher confirmou que não era. Vinícius resolveu então colocar a letra. Assim nasceu o clássico “Samba em Prelúdio”.
A melhor interpretação, na minha opinião, é a de Odete Lara, no álbum “Vinícius & Odete” (Elenco, 1963).
Veja Elizete Cardoso cantando “Samba em Prelúdio”, com Baden Powell.
Veja também a talentosa Andrea Motis cantando esse clássico.
Com 24 anos apenas, Andrea Motis pode ser considerada uma veterana. Com sete, tocava trompete. Com dez, foi estudar na Escola Municipal de Música de San Andreu, dirigida por Joan Chamorro. Este músico, saxofonista, trompetista, flautista e contrabaixista, com seus alunos, criou a San Andreu Jazz Band e tem sido responsável pela revelação de uma nova geração de músicos na Catalunha e, por extensão, Espanha.
Andrea é a sua revelação maior. Além de tocar trompete e saxofone, é dona de uma voz bem afinada, charmosa por seu registro, meio juvenil. Depois de ter gravado na Espanha alguns álbuns com seu mentor Joan, lançou “Emotional Dance”, pelo selo Impulse, ligado ao grupo Verve, o que ajudou-a bem para ser mais conhecida fora de seu país. Nesse disco é acompanhada por Ignasi Terraza ao piano e Chamorro no contrabaixo, e conta com participações de músicos conhecidos como Warren Wolf ao vibrafone, Gil Goldstein no acordeão, Joel Frahm no sax tenor, Scott Robinson no sax barítono e o brasileiro Café da Silva na percussão.
“Emotional Dance” é composto de standards do cancioneiro americano, o que é uma boa forma de ser conhecida, pois funciona como um “teste”, um“exame de aprovação” para ser aceita no mundo do jazz. Mas Andrea é uma moça de personalidade e talento ímpar. Fora cantar e tocar trompete, compõe também. Nesse álbum estão incluídas “If You Give More Than You Can”, “I Didn’t Tell Them Why” e “Save the Orangutan”, de sua autoria.
Em março deste ano, Andrea Motis lançou um novo álbum. Chama-se “Do Outro Lado do Azul”. Quem está do outro lado do azul, se a referência é a Europa, naturalmente, é o continente americano, mais exatamente, o Brasil, o que nos atiça mais ainda a curiosidade. Das treze, oito são originais brasucas, com escolhas que fogem do óbvio.
Com exceção de “Antonico”, “Pra Que Discutir com Madame” e “Dança da
Solidão”, consideradas clássicos do cancioneiro brasileiro, a grande
qualidade de “Do Outro Lado do Azul” está na escolha de músicas como “Filho de Oxum”, do baiano Roque Ferreira, “Saudades da
Guanabara”, de Moacyr Luz, Aldir Blanc e Paulo César Pinheiro, “Samba de
Um Minuto”, de Roberta Sá e Rodrigo Maranhão, e até uma composição de
José Miguel Wisnik e Luiz Tatit — “Baião de Quatro Toques”.
Um dado surpreendente é Andrea cantar em português quase sem sotaque. É o que fica demonstrado logo no belo início, com “Antonico”, de Ismael Silva. As três seguintes — “Sombra de Lá”, “Brisa”, esta em parceria como brasileiro Sérgio Krakowski , e “Sense Pressa” — captam o espírito dos ritmos brasileiros, meio samba, meio bossa nova, são boas amostras do talento dela como autora.
Em todo o álbum, a brasilidade está no uso de instrumentos como o pandeiro, o bandolim, o cavaquinho e a clarineta. Em vários números Andrea canta em catalão, sem perder de vista a pegada brasileira, como em “Record de Nit”, de Joan Mar Sauqué, e em “Mediterráneo”, de Joan Manuel Serrat. Uma curiosidade, já que os músicos, em sua absoluta maioria” é de espanhóis — catalães, para ser mais exato — é o “ole” proferido no final da vibrante interpretação de “Saudades da Guanabara”, tão vibrante que até Beth Carvalho aprovaria. Essa energia presente em todo o álbum termina em grand finale ao incluir uma citação de “Aquarela do Brasil” em “Baião de Quatro Toques”, a canção que fecha o álbum.
Preferências, na adolescência, tendem à polarização. Gostar de Caetano Veloso significava que não morria de amores por Chico Buarque. Como gostava de Gal Costa, outras cantoras pouco significavam para mim. O tempo provocou uma mudança e uma capacidade de ser menos radical e sectário. Posso ter todos os álbuns dos meus preferidos, como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Milton Nascimento, mas tenho cerca de dez de Chico. De Elis tenho poucos, mas um deles está entre os meus dez mais de música brasileira: “Elis & Tom”.
Assistir à minissérie – não vi o filme quando exibido nos cinemas – “Elis – Viver é Melhor que Sonhar” seria uma boa chance de reavaliação. Foi uma tremenda cantora, devo considerar. Continuo preferindo a Gal Costa dos primeiros anos. Questão de gosto. Agora, a atriz Andréia Horta subiu no meu conceito. Magnífica Elis. Nem dá para pensar alguém mais adequada para o papel.
Nesses filmes biográficos ficamos a ver o quão próximos são do real. Não li “Furacão Elis”, escrito pela jornalista Regina Echeverria. Muito do que eu sei da carreira de Elis é por meio de “Chega de Saudade” (Companhia das Letras, 1990) e do que li sobre ela em jornais e revistas. Acredito que os roteiristas usaram muito do que foi escrito no livro de Ruy Castro.
Uma é a de quando ela vai ao Rio de Janeiro fazer um teste para a peça “Pobre Menina Rica” e ouve palavras não muito lisonjeiras de Antônio Carlos Jobim. Pelo que consta no livro, Jobim teria afirmado: “Essa gaúcha é muito caipira. Ainda está cheirando a churrasco.” No filme não são essas palavras, mas percebe-se que a fonte pode ter sido o texto de Ruy Castro. O que ela soube, por Carlos Lyra, autor da canção, com Vinícius de Moraes, é que Jobim não a achara adequada para o papel. Mas ficou a bronca. Demorou para gravar alguma composição do autor de “Chega de Saudade”.
Elis não ficou inimiga de Tom, mas de Ronaldo Bôscoli, sim. Desde quando se conheceram, no Rio de Janeiro, a antipatia foi mútua.
O início
Em 26 de outubro de 1964, no show “O Remédio é Bossa”, no teatro Paramount, em que se reuniam Marcos Valle, Antônio Carlos Jobim, Alaíde Costa, Sylvia Telles, Carlos Lyra, Os Cariocas, Vera Brasil, Walter Santos, Vinícius de Moraes, Oscar Castro Neves, Paulinho Nogueira, Pedrinho Mattar, Zimbo Trio, Roberto Menescal e Quarteto em Cy, a participação por 30 segundos de Elis Regina, cantando um trecho de “Terra de Ninguém”, hipnotizou o público. Segundo Ruy Castro, “nascia uma estrela – grande demais para caber nos palcos para pulgas do Bottle’s e do Little Club.”
Pouco antes, com o furo da promessa feita pelo produtor Armando Pittiglani, ao vê-la cantar em Porto Alegre, de lançá-la no mercado fonográfico, obrigou-a a sair atrás de algum lugar que pudesse cantar e ganhar um dinheiro e não ter de voltar de mãos abanando à sua terra natal. Foi assim que conheceu Bôscoli, que em dupla com Luis Carlos Miele, produzia shows para as melhores boates do Rio de Janeiro.
Em pouco tempo, Elis ganharia um programa na TV Record, com Jair Rodrigues e o Jongo Trio. “O Fino da Bossa” foi um tremendo sucesso, mas começou a perder audiência. Enquanto isso, o programa dominical “Jovem Guarda”, com Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Vanderléa, explodia.
A direção da TV Record resolveu contratar a dupla Miéle-Bôscoli para salvar “O Fino da Bossa” do naufrágio. Elis odiava Ronaldo desde o dia em que se conheceram. E agora, iam trabalhar juntos.
O improvável aconteceu, no entanto. Pouco tempo depois de passarem a trabalhar juntos na Record, estavam casados. Carlinhos de Oliveira, o folclórico cronista do Jornal do Brasil, ao anunciar o casamento, escreveu: “Elis Regina terá para sempre o consolo de saber que a guerra do Vietnã é muito pior.”
Aqui, entra Frank Sinatra na história. Bôscoli dizia: “Gosto mais de Frank Sinatra do que de mulher.” E olhe quem dizia! O produtor e letrista era o que se chamava antigamente, um tremendo “rabo de saia”. Namorou Maysa e Nara Leão, para citar apenas as cantoras. Tremendo mulherengo, sentiu na carne as consequências de sua cafajestice. Depois de uma briga, ao voltar para o apartamento, viu toda a sua coleção de LPs e raríssimos discos de 10 polegadas de Frank Sinatra atirada “como discos voadores, no Oceano Atlântico. Alguns dos discos não haviam chegado ao mar e podiam ser vistos, como peixes mortos, na pista da av. Niemeyer”, escreveu Ruy Castro, em “Chega de Saudade”.
O casamento não durou muito tempo.
Ouça a música-título de Only the Lonely”, de Jimmy van Heusen e Sammy Cahn. É um dos grandes álbuns de Sinatra, de sua fase na Capitol Records. Nessa época, Frank encontrava-se no auge da dor pelo fim do casamento com Ava Garner.
Anos depois de ter sido chamada caipira por Tom, passou a raiva. Gravaram, em 1974, o antológico “Elis & Tom”.
Ouça o disco na íntegra.
Nota final
No filme, Elis joga uns poucos LPs. Foi por conta dessa cena que resolvi escrever esse texto. Tudo o que foi citado está em “Chega de Saudade”, de Ruy Castro.
Em novembro de 1981, Antônio Carlos Jobim era um cinquentão de bem com a vida e o sorriso fácil de quem era reconhecido como o maior compositor brasileiro, autor não apenas de clássicos como “Garota de Ipanema”, mas músico maior, com álbuns conceituais, como “Matita Perê” (1973) e “Urubu” (1976), com arranjos orquestrais sublimes de Claus Ogerman. Jobim gostava de dizer que todo brasileiro precisava de um alemão – natural de Ratibor, hoje no território polonês – para dar uma ordem na casa.
Edu Lobo, com 43 anos, na época, onze anos mais novo, bem jovem, com menos de 20, lançou um compacto duplo, e em 1964, “A Música de Edu Lobo por Edu Lobo”, com arranjos de Luiz Eça, hoje, considerado um clássico. Em 1981, o foco em temas sociais se deslocara para um estudo mais específico dos fundamentos musicais. Morou nos Estados Unidos e fez cursos de orquestração com Albert Harris e Lalo Schiffrin.
Em 1981, ambos tinham suas carreiras consolidadas, Jobim, conhecido internacionalmente, e Lobo, considerado um dos destaques da segunda geração da bossa nova, depois de ser premiado em festivais de música com canções marcantes como “Ponteio” e “Arrastão”. Os novos “bossa nova” diferenciavam-se por terem mudado a temática de “um cantinho e um violão” para as causas sociais, consequência de um país convulsionado por um golpe militar. Como Jobim, não sentara na fama. Os dois foram explorar novos horizontes musicais, compondo para peças de teatro e trilhas de cinema.
Perto do que tinham feito até então, o álbum “Edu & Tom”, ideia do grande produtor Aloysio de Oliveira, parece deslocado de suas trajetórias ou momentos em que viviam. E é isso mesmo. O encontro serviu para cantarem coisas belas. Nessa simplicidade está o sublime do disco. São cinco composições de cada um, revezando-se em solos ou cantando juntos, como, por exemplo, Edu Lobo a interpretar Luiza, em vez de Tom, autor da composição.
Edu, em uma entrevista, disse que prefere as músicas tristes. Surpreende, pois á autor de “Vento Bravo”, “Arrastão” e “Ponteio”, mas nesse álbum fica claro de por que disse isso. É brilhante em canções de andamento lento. Duas delas, obras primas, estão presentes: “Pra Fizer Adeus” e “Canto Triste”, esta, sublime, apenas ao violão.
Ouça “Canto Triste”.
“Pra Dizer Adeus” é do início da carreira, e se não me engano, foi gravado pela primeira vez no LP “Edu & Bethânia” (Elenco, 1966), produzido pelo mesmo Aloysio de Oliveira.
“Pra Dizer Adeus” tem letra de Torquato Neto. Nesse álbum, há uma com título muito parecido, mas é de Antônio Carlos Jobim e Vinícius de Moraes: “É Preciso Dizer Adeus”.
Um pouco mais uptempo é “Vento Bravo”, de Edu Lobo com letra de Paulo César Pinheiro. O flugelhorn é de Marcio Montarroyos. O registro é bem interessante porque mostra a discussão entre os dois para a gravação. Não sei se é uma dublagem ou não. Fiquei na dúvida.
Nesses dias, por razões mais e menos obscuras, para mim, entrei em uma onda nostálgica, que me levou a gravar vários CDs com mp3 de álbuns significativos de música brasileira, para ouvir no carro. Nessa seleção, estão Caetano Veloso, Gilberto Gil, Luiz Melodia, Milton Nascimento, Beto Guedes, Dorival Caymmi, Dori Cammi, Nana Caymmi e Edu Lobo. Nesses dias, na maior parte do tempo, ouço meus CDs no meu amplificador de válvulas. Nesse frio, o calor físico e sonoro das válvulas parecem fazer diferença.
Deles, dois álbuns de Caetano Veloso estão entre os selecionados por estarem entre os meus preferidos: “Joia” e “Qualquer Coisa”. De 1975, saíram juntos. A referência maior são os Beatles, a começar da capa do último, inspirada em “Let It Be”, com a diferença de que os quatro são ele apenas, em variações de uma foto, com registros de fotolito deslocados. Das doze faixas, três, cantadas em seguida, são de John Lennon e Paul McCartney: “Eleanor Rigby”, For No One” e “Lady Madonna”; em “Joia”, uma única composição: “Help”. Mais de 40 anos depois, continuam entre as mais originais leituras existentes, dentre as milhões disponíveis.
Ouça “Eleanor Rigby”.
Ouça “For No One”.
Ouça “Lady Madonna”.
Nas três, os violões são de Caetano e Perinho Albuquerque. Em “Help”, que está em “Joia”, é Caetano sozinho.
Caso interessar, os manifestos lançados com os discos, acesse aqui.
Alguns segundos são suficientes para que sua voz mude o seu humor: uma sensação de júbilo e você nem percebe por que. A voz de Virginie Teychiné é cristalina como a água que sai de um veio na rocha. E você a conhece? Você não é o único. Em uma busca pela internet se descobrirá que é como um metal raro a ser descoberto. Poucas referências. Inexplicável. Pelo menos para mim, é. Virginie em todos os predicados de uma boa intérprete do jazz, além de bela. É boa nos scats, afinadíssima, voz agradável. Apesar de francesa, vira-se bem cantando em inglês e em português. Sua habilidade em modular bem os tempos quebrados do jazz faz dela uma intérprete ideal para o gênero.
Uma das poucas formas de se saber um pouco mais dela é acessando sua página oficial (http://www.virginieteychene.com/index.html). Fico sabendo que cursou Literatura e Direito, antes de seguir a carreira de cantora. Seu primeiro álbum é “Portraits” (Altrisuoni 2007). Em 2008, na International Vocal Jazz Competition, em Juan les Pins, onde tradicionalmente acontece um festival, ganhou o “Prix du Juri” e “Prix du Public”, ao mesmo tempo.
O crítico Xavier Prévost, a propósito de seu álbum de estreia, escreveu que “essa jovem cantora mostra uma notável maturidade, dominando o idioma do jazz com uma expressividade muito profunda. Nestes tempos insípidos, sua originalidade aquece os corações, as almas e o espírito.”
Um dos destaques de seu disco de estreia é “Zingaro”. Veja Teychiné cantando esse clássico de Tom Jobim.
Depois de “Portrait”, lançou “I Feel So Good” (Altrisuoni 2009). “Double Rainbow” é um relançamento com os dois em um único CD, pela Jazz Village, selo de jazz da Harmonia Mundi.
“Bright and Sweet” (2012) é seu melhor disco, e é onde explora os scats, temas em uptempo e encanta com brilhantes interpretações de standards, como “Don’t Explain” e “Goodbye Pork Pie Hat”, além de clássicos contemporâneos como “Dry Cleaner from Des Moines”, de Joni Mitchell, e de quebra, “Para Que Discutir com Madame” e “Por Toda Minha Vida”, cantadas em impecável português.
Ouça “Por Toda Minha Vida”.
Teychiné canta “Rat Race” em apresentação no Jazz in Marsiac. Manda bem nos tempos rápidos.
Outra ótima é “Dry Cleaner from Des Moines”, de Joni Mitchell.
Uma das melhores é “Angel Face”.
“Encore”, de 2015, é seu mais recente. Bom CD. Como sempre, inclui temas brasileiros, como “Eu Sei Que Vou Te Amar” e “Doralice”.
Ouça esta última.
Bom, como ela é francesa, é preciso uma cantando em sua língua original. Veja o clipe oficial de “C'était bien”, de Gaby Verlor, conhecida na voz de Juliette Greco.
E, outra em francês: “Septembre” a última do disco. Na abertura, Olivier Ker Ourio toca um trechinho de “The Man I Love”.
A música brasileira não era estranha a Phil Woods, um dos melhores saxofonistas alto de todos os tempos, depois de Charlie Parker, naturalmente. Cansou de ser considerado o primeiro por revistas especializadas em jazz. É de 1975 “Floresta Canto”, LP em que toca “Canto de Ossanha” e “O Morro”, de Baden Powell e Tom Jobim, respectivamente. Em 1996, resolveu fazer outro álbum parcialmente dedicado à nossa música. Em “Astor e Elis”, algumas canções que se tornaram conhecidas na voz da cantora apelidada de Pimentinha, por Vinícius de Moraes: “Dois pra Lá, Dois pra Cá”, de João Bosco e Aldir Blanc, “Cais” e “Nada Será Como Antes”, de Milton Nascimento, e “Atrás da Porta”, de Francis Hime e Chico Buarque.
Do pianista Stefano Bollani então, nem se fala. Tem vários álbuns com temas brasileiros. Canta, inclusive, com enorme graça “Trem das Onze” e não fica no repertório batido da bossa nova. Canta coisas que só alguém especialista em música brasileira: “A Voz do Morro”, “Ao Romper da Aurora”, “Luz Negra”, “Folhas Secas”, “Apanhei-te Cavaquinho” e “Ao Romper da Aurora”. Lançou pelo selo japonês Venus Records “Falando de Amor” (2003), dedicado mais a temas da bossa nova. Em 2013, pela ECM, gravou “O Que Será”, em duo com Hamilton de Holanda.
Bárbara
Se esses dois são familiarizados com a nossa música, nem se fala então de Barbara Casini. A cantora nasceu em Florença, mas podia muito bem ter nascido no Rio de Janeiro. É expert em Brasil e tem até sotaque de carioca.
Quando tinha quinze anos, viveu o seu primeiro e definitivo amor. Caiu-lhe nas mãos um LP de Bossa Nova. Terminou o curso de psicologia, mas passou a pesquisar tudo sobre a arte que vinha do outro lado do oceano. Não foi apenas pela música, mas pela literatura e o aprendizado da língua.
Conheceu Brasil em 1982, ano da morte de Elis Regina, por quem tinha admiração. Tempos depois lançaria um álbum com o título “Furacão Elis”. Voltou com a mala cheia de discos. Na outra vez que veio, fez uma longa viagem do nordeste ao sudeste e conheceu a música de Luiz Gonzaga, Xangai e Geraldo Azevedo. Quando voltou à Itália, montou a banda Outro Lado.
Casini tem cerca de vinte álbuns, e neles é acompanhada por músicos italianos do primeiro time, como Stefano Bollani, Renato Sellani, Enrico Rava, Fabrizio Bosso, além de Toninho Horta, Guinga, Lee Konitz e Phil Woods. Uma parcela significativa deles está relacionada ao Brasil: “Todo o Amor” (1997), com composições próprias, incluindo uma parceria com Novelli, e um original de Chico Buarque, “Você e Eu” (2001), “Uragano Elis” (2004), “Outra Vez” (2002), com o mestre Lee Konitz, “Anos Dourados – para Tom Jobim” (2003), e “Luiza” (2004), “Uma Mulher” (2015), com composições próprias, Danilo Caymmi, João Nogueira e Ivan Lins, e, o mais recente “Terras” (2016), que aborda temas do repertório da música nordestina, Edu Lobo, Djavan, Roberto Mendes e Dori Caymmi.
‘Luiza”, do álbum do mesmo nome, é uma das grandes interpretações de Casini. Preste atenção no piano de Riccardo Arrighini.
Além da música, dedica-se a traduzir canções e literatura brasileira. Verteu “Vidas Secas” de Graciliano Ramos para o italiano. É também autor de “All Is Music”, livro com suas conversas com Edu Lobo, Gilberto Gil, Chico Buarque e outros.
Trio perfeito
“Você e Eu” é de 2001. Phil Woods era um veterano. Tinha 70 à época. Mesmo com enfisema pulmonar, tocou até pouco antes de morrer, no fim de setembro de 2015. Em escala decrescente, vem Barbara, nascida em 1954, e Stefano Bollani, pianista ótimo e versátil.
Um trio como esse é dos sonhos. Quem não teria gostado de ter Phil Woods na banda. É um dos maiores da história no instrumento identificado indelevelmente ao genial Charlie Parker. Uma curiosidade: Phil casou-se com Chan, viúva de Parker.
As dez canções do disco são todas do cancioneiro brasileiro. São todas da década de 1970 para trás. Acho que a mais nova é “Cai Dentro”, de Baden Powell e Paulo César Pinheiro. É a mais uptempo do disco. Três são de Antônio Carlos Jobim – “Fotografia”, “Por Causa de Você”, parceria de Dolores Duran, e “Estrada Branca”, com Vinícius de Moraes –, duas de Carlos Lyra – “Maria Ninguém” e Você e Eu” –, uma de Haroldo Barbosa e Janet de Almeida – “Pra Que Discutir com Madame”, uma de Caetano Veloso – “Avarandado” –, e duas de Ary Barroso – “Pra Machucar Meu Coração” e “Na Baixa do Sapateiro” –, as minhas preferidas.
Ouça “Pra Machucar Meu Coração”.
Ouça também “Fotografia”, faixa que abre o disco. Se quisermos uma referência, acho que a voz de Barbara Casini tem alguma semelhança com a de Joyce Moreno.
Seria um tanto ingênuo pensar que todas aquelas mulheres das músicas de Dorival Caymmi fossem de ficção. Mesmo casado – e apaixonado – com Adelaide Tostes, cujo nome artístico era Stella Maris, que ficou assim conhecida, era impossível evitar-se o assédio feminino. “Ele era lindo, não tinha um fio de cabelo branco, cantava com aquele violãozinho – violãozão – assim. E olhava para os cantos. O mulherio ficava louco com ele, a mulherada adorava. Caymmi tinha uma sensualidade, ele requebrava com o violão, mexendo os quadris tranquilamente. Tinha gente que dizia assim: “Caymmi não é bicha, não?’ Era brincadeira de quem chegava e não conhecia. E ele comia as mulheres todas.”, disse Tonia Carreiro. Ninguém resistia àquelas viradinhas de olho que Caymmi vivia a fazer.
Seu melhor amigo, Jorge Amado, não ficava atrás. Oswald de Andrade o chamava de “Barba-Azul da linha justa”. Quando estavam juntos, era um alvoroço. Aliás, Jorge e Zélia Gattai passaram a namorar com uma pequena ajuda Caymmi. Em uma das vezes em que estavam em São Paulo, reunidos com seus colegas do Partido Comunista, o escritor ficou fascinado com a então casadíssima Zélia. Combinou que quando estivesse com ela, Dorival se aproximaria cantando “Acontece Que Sou Baiano”. Zélia não resistiu aos versos “Acontece que eu sou baiano/ Acontece que ela não é// Mas tem um requebrado pro lado/ Minha Nossa Senhora/ Meu senhor São José// Há tanta mulher no mundo/ Só não casa quem não quer/ Por que é que eu vim de longe/ Pra gostar dessa mulher.” Foi irresistível.
A relação de Jorge e Dorival foi muito mais que a simples amizade. Quando, depois da legalização do PC, Jorge candidatou-se a deputado, este o levava a tiracolo e na companhia de outro amigo, o pintor Clovis Graciano, andaram pelo estado de São Paulo em campanha. Caymmi nem era tão militante, mas fez o hino da campanha, levado pelo entusiasmo de seus amigos comunistas.
Mulheres, mulheres
Em 1945, quando terminou a guerra, Dorival já era bem conhecido. Em 1939, tinha lançado o primeiro disco solo, com “Rainha do Mar” e “Promessa de Pescador”. Estourou mesmo foi com “O Que É Que a Baiana Tem?”, que foi cantada por Carmen Miranda.
Em 1945, era famoso e duro, como Jorge Amado, principalmente na época pós-guerra, em que ambos recebiam mal e porcamente royalties por suas obras, fora a militância política, que não lhes permitia centrarem suas vidas nas suas profissões. Nesse mesmo ano, lançou “Dora”. Na verdade, tinha sido composta em 1942. No fim do ano anterior, em viagem ao Recife, Caymmi, estava em um bar quando passou um bloco de frevo arrecadando um trocado e à sua frente dançava com os pés descalços uma mulata clara de corpo escultural. Na mesma noite, tinha os primeiros versos: “Dora, rainha do maracatu e do frevo/ Dora, rainha cafusa do maracatu.”
Em 1945, Caymmi estava na Bahia e começou a compor “Doralice”. A musa inspiradora existiu de fato e não se sabe se aconteceu algo entre eles. Chamava-se Berenice. Ao voltar para o Rio de Janeiro, concluiu o samba, com o parceiro Antônio Almeida. Este lhe sugeriu que mudasse o nome para Doralice, porque lembrava “Dora”, lançada naquele ano.
Doralice viaja
“O Que É Que a Baiana Tem”, composta em 1938, teve os direitos comprados por uma empresa de cinema e foi gravada por Carmen Miranda. Foi a primeira vez em que Caymmi foi ouvido nos Estados Unidos.
“Doralice” foi gravada pela primeira vez pelos Anjos do Inferno, em 1945. Provavelmente, ficou conhecida fora do Brasil por meio da gravação de João Gilberto.
Ouça “Doralice”, com Allan Harris.
Virginie Teychiné deve ser desconhecida pela maioria dos brasileiros. É uma francesa que tem a pegada do jazz e um incrível balanço brasileiro.
A música de Caymmi tem uma característica regional bem evidente, o que não impede a sua internacionalização e cair no gosto gringo. Certamente, um dos responsáveis, além da pioneira Carmen Miranda, foi João Gilberto. Duas das canções do baiano foram registradas pelo mais prestigiado cantor de jazz dos últimos 15 anos. Kurt Elling cantou “Você Já Foi à Bahia” (“Passion World”, 2015) e “Rosa Morena” (“This Time It’s Love”, 1998).
Por preguiça e desinformação acabo por perder apresentações de bons nomes do jazz que até com frequência maior do que imaginamos, no Brasil. Inúmeros festivais de jazz – o mais recente foi o de Diamantina – acontecem pelo país, até em rincões que pouco imaginaríamos patrocinar esse tipo de evento. Nunca imaginaria que houvesse um festival desse tipo em Barreirinhas, Maranhão. Lá acontece anualmente o Lençóis Jazz e Blues Festival. Fiquei sabendo no ano passado quando fui passar uns dias por lá.
Em um site direcionado aos bootlegs (gravações não oficiais), descobri uma gravação de um show de Mike Moreno em Minas Gerais, no Savassi Festival. Foi uma surpresa. Nem fiquei sabendo. E mais: não era a primeira vez. Dando uma fuçada, descubro que não só tinha vindo em 2013 (ou 2014?), como agora no mês de maio, apresentando-se em vários lugares, inclusive no simpático JazzB, em São Paulo.
Se soubesse, teria ido ver. Ficara interessado desde que ouvi duas interpretações de composições brasileiras em First Mind (CrissCross, 2012). Uma delas, mesmo para uma americano, não era estranho. Milton Nascimento é bem popular em qualquer lugar do mundo. “Milagre dos Peixes”, tudo bem, mas “A Flor e o Espinho”? O fato de conhecer esse clássico de Nelson Cavaquinho e Guilherme Brito me fez imaginar que tinha um bom conhecimento da música brasileira. Só esse fato teria sido suficiente para querer vê-lo ao vivo.
Alguns álbuns
Mike é de Houston, Texas. Depois de formar-se na Houston High School for the Performing and Visual Arts, mudou-se para Nova York e estudou na New School University. Enturmou-se na cena musical novaiorquina. Tocou com Joshua Redman, Terence Blanchard, Stefon Harris, Jason Moran, e com a geração mais próxima de sua idade, como Ambrose Akinmusire, Robert Glasper e Aaron Parks. Este último tem sido o pianista mais frequente das bandas de Mike.
Seu primeiro álbum é “Between the Lines”, que foi considerado um dos melhores lançamentos de 2007 pelo The New York Times. “Third Wish” e “First in Mind” (2011) foram os seguintes, pelo selo europeu Criss Cross. Pelo selo de seu primeiro, a World Culture, lançou “Another Way” (2012). O último é “Lotus”, de 2015, bom disco, que recebeu quatro estrelas pela Downbeat.
Ouça a música título.
Moreno e o Brasil
No início, referia-me às vindas de Mike Moreno. Sem saber disso, sabendo tendo gravado “Milagre dos Peixes” e “A Flor e o Espinho”, em 2011, me perguntava se já tinha vindo ao Brasil. Sei agora que, depois de 2013, veio. Fica a pergunta: veio antes. Pode também ser possível que conhecesse a música de Nelson Cavaquinho por meo de algum amigo brasileiro residente na América.
Ouça “A Flor e o Espinho”, de Nelson Cavaquinho e Guilherme Brito.
Ouça “Milagre dos Peixes”.
Moreno toca “Manuel o Audaz”, de Toninho Horta no Savassi Festival deste ano.
No início dos anos 1960, Stan Getz era um músico com uma boa discografia e prestígio. Em 1943, estava tocando na orquestra de Jack Teagarden, portanto já era um veterano. Passou logo depois pelas bandas de Benny Goodman e Woody Herman. Nesta, ficou conhecido como um dos ‘four brothers”, com Serge Chaloff, Zoot Sims e Herbie Steward.
Como experiência de vida, em 1954, passou pela cadeia ao tentar roubar morfina em uma farmácia. Casamento desfeito, logo estava casado com a sueca Monica Silfverskiöld. Na nova vida, talvez para distanciar-se do ambiente das drogas, mudou-se com a mulher para Copenhagem. Teve dois filhos com ela e outro com a amiga Inga Torgner. Monica era compreensiva. Ela o amava. A Europa era boa com os músicos americanos expatriados. Stan sempre tinha um lugar para tocar.
No meio de tantos negros bons que tocavam em velocidades supersônicas, Getz era um judeu branco, bom também, mas não do bebop. Gostava da suavidade de Lester Young. No início dos anos 1960, não estava nem aí com a emergente bossa nova. O produtor Creed Taylor, sempre do olho nos dólares, pretendia gravar um álbum de bossa nova com o guitarrsta Charlie Byrd e precisava de alguém de renome para maior apelo comercial. Getz aceitou o convite um pouco por favor a Taylor. Jazz Samba ficou em primeiro nas paradas da Billboard e o saxofonista ganhou um Grammy pela melhor interpretação em jazz com Desafinado no ano seguinte. Fez pouco caso: mandou a mulher Monica para receber o prêmio. Uma observação: era um favor a Taylor, mas era uma oportunidade de ganhar alguns dólares. Alguns vícios são dispendiosos e ele devia impostos para o governo da Dinamarca.
Dinheiro não aceita desfeita e Getz como bom judeu, sabia disso. Percebeu que podia ganhar um bom dinheirinho, como diria Tom Jobim, e abraçou a bossa nova. No reboque do sucesso do primeiro, gravou Getz/Gilberto, com participação de Jobim, João Gilberto e Astrud Gilberto, na época mulher do cantor violonista. Disse a Astrud que faria o disco se ela fizesse uma mescla de canções cantadas em português e inglês. O sucesso foi mais estrondoso ainda e ganhou mais um Grammy, e mais dólares. Resultado: quando precisa de algum, lembrava-se logo de João Gilberto e sua turma. No total foram quatro álbuns bossa nova pelo selo Verve.
João
Histórias sobre as esquisitices de João Gilberto são abundantes e até folclóricas. Desde sua mudança para o Rio de Janeiro, nunca pagou aluguel. Baixava na casa de alguém pedindo morada por algumas semanas até arrumar um lugar em definitivo. As semanas viravam meses, até ser expulso. Daí, arrumava outro amigo que pudesse acolhê-lo. Outra conhecida é a de que, em certa ocasião, quando fazia um show, um espectador, no fim da apresentação, disse ter ficado impressionado com a sonoridade do violão. João deu-lhe de presente. Detalhe: não era seu.
Ao passar a morar em Nova York, como lá não tinha amigos, provavelmente, teve que pagar aluguel, pela primeira vez na vida. Também, dinheiro não lhe faltaria daí em diante. A fama de esquisitão e de cantor genial atravessou o oceano. Excursionou pela Europa, morou no México, apresentou-se por duas vezes em O Fino da Bossa, comandado por Elis Regina.
Depois dos álbuns iniciais lançados apenas no Brasil e os do mercado americano, não gravou mais nada nos anos 1960. Apenas em 1973, iria lançar o que ficou conhecido como o “album branco de João”, pela Polydor. Getz deve ter pensado: “João significa… dólares”. Em 1976, estavam novamente no estúdio, com uma diferença: Astrud Gilberto tinha virado “persona non grata”. Em seu lugar, entrou Miúcha, a nova mulher de João.
O título do álbum – The Best of Two Worlds – era perfeito para o reencontro. É um dos grandes discos da discografia de Getz, e de João, também. Um dos solos mais belos do saxofonista é o do início de Ligia. Miúcha está perfeita em Just One of Those Things, e João é genial na divertida Izaura, de Herivelto Martins, e em É Preciso Perdoar, de Alcivando Luz e Carlos Coqueijo Costa. Quarenta anos depois, o álbum soa tão bom quanto em sua primeira audição.
Ouça Ligia.
João ’76
Não deve ter sido fácil convencer João a sair do apartamento. Getz queria promover o álbum lançado pela Columbia. Se por necessidade ou prazer, isso pouco importa, mas fizeram algumas apresentações, que aconteceram entre 11 e 16 de maio de 1976 no Keystone Korner, em San Francisco.
George Klabin, fundador da organização sem fins lucrativos Rising Jazz Stars Foundation, resolveu criar uma gravadora com a intenção de lançar registros inéditos de nomes importantes da história do jazz. Já estão disponíveis CDs de Larry Young (In Paris: The ORTF Recordings), Thad Jones and Mel Lewis Orchestra (All My Yesterdays), Bill Evans (The Lost Tapes from the Black Forest), e Stan Getz e João Gilberto (Getz/Gilberto ’76), dentre outros.
Na introdução, Getz diz o quanto aquele encontro é especial pelo fato de João, com sua voz cálida, sem vibratos ser um cara único e também por ele ser resiliente em apresentar-se. Fim de papo. O resto é música. Acompanhados por seu quarteto da época, com Joanne Brackeen ao piano, Clint Houston no contrabaixo, e Billy Hart na bateria, o protagonismo é do brasileiro e do saxofone tenor. Quase não se ouve o piano de Jonne, por exemplo.
Das onze músicas do álbum, descontado o bis, que é repetido, cinco são de The Best of Two Worlds. Extraídas de registros em fitas cassete, até que a qualidade sonora é razoável. Em termos de performance, o álbum em estúdio é superior, mas como Getz frisa no início, uma apresentação ao vivo de João é um acontecimento especial.
Ouça É Preciso Perdoar, de The Best of Two Worlds.
A ausência de uma bateria faz uma diferença danada. Principalmente, se for com Stacey Kent. Sua voz é um convite para refestelar-se no sofá bebendo um vinho, o que não significa, de modo algum, que seja “easy listening”.
O que a diferencia da maioria das outras cantoras é a sua formação e de como isso influenciou sua trajetória profissional. Formada em Literatura, mudou-se para a Inglaterra com o intuito de fazer Literatura Comparada. Estudou na London's Guildhall School of Music and Drama, onde conheceu Jim Tomlinson, com quem se casou. Foi o que ajudou-a a escolher o que ia fazer.
Lançou o primeiro disco em 1997 pelo selo Candid. No círculo londrino, apresentou-se em clubes tradicionais como o Cafe Boheme e no Ronnie Scott’s. Depois de seis álbuns bem sucedidos por esse selo, ganhou notoriedade maior com Breakfast on the Morning Tram.
Até então, cantando basicamente standards do cancioneiro americano, no primeiro álbum pela Blue Note, as transformações são significativas. O interesse pela literatura e a amizade com o premiado Kazuo Ishiguro, autor de Vestígios do Dia (Remains of the Day), inauguram a parceria de escritor com Jim Tomlinson.
Kent e Ishiguro
Obviamente Kent tinha lido livros de Ishiguro e o admirava. Ishiguro, fã e grande conhecedor de jazz, convidado a participar do programa de rádio ”Desert Islands Discs”, tinha de elencar suas oito canções favoritas. Billie Holiday e Ella Fitzgerald, com certeza, estavam na lista. Incluiu Stacey Kent. Tendo-a visto cantar uma vez e ouvido dois de seus discos, sentiu algo de especial na forma em que interpretava clássicos que tanto admirava desde jovem.
Kent, ao saber disso, resolveu escrever uma carta agradecendo-o, dizendo que gostara muito de Remains of the Day e Never Let Me Go. Esse título é uma clara evidência de seu gosto pelo jazz; é o nome de conhecida composição de Jay Livingston e Ray Evans. Passaram a corresponder-se por e-mail. A cantora pediu-lhe um texto para as “liner notes” do álbum que faria com músicas de autoria de Richard Rodgers, In Love Again (Candid Records, 2002). Nasceu assim, lembrando Casablanca, uma bela amizade e uma grande parceria.
Em Breakfast on the Morning Train (Blue Note, 2007), das doze canções do disco, quatro são com letras de Ishiguro e música de Jim Tomlinson, marido e saxofonista de Stacey. Nesse álbum, evidencia-se seu interesse crescente pela música brasileira e pela francesa. So Many Stars, de Sergio Mendes, e Samba Saravah, composição de Baden que recebeu enorme acolhida na França depois de Pierre Barouh tê-la cantado em Um Homem e Uma Mulher, eram as “brasileiras”, ou melhor, de brasileiros. Além delas, dentre outras, fazem parte Never Let Me Go – referência a Ishiguro, imagino – e duas composições de Serge Gainsbourg.
Dentro dessa linha de desenvolvimento, seu próximo CD, Raconte moi… (Blue Note, 2010) é composta de músicas cantadas em francês, sendo algumas de autoria de Benjamin Biolay, considerado o Gainsbourg da nova geração. Duas, apesar dos títulos em francês são as exceções: Les eau de mars (Águas de Março) e C'est le Printemps (It Might As Well Be Spring).
O propósito de aprender português por Jim e Stacey era sério. Vieram ao Brasil várias vezes e tiveram como “professor particular” o poeta português António Ladeira. Em Changing Lights (Parlophone, 2013), 70% do disco é de música, vertida ou não, de autores brasileiros ou portugueses, no caso, Ladeira que, além de professor, tornou-se parceiro em Mais Uma Vez,Tarde e Chanson Légère, com Tomlinson. Pelo lado brasileiro estão Tom Jobim, João Bosco, Marcos Valle, Roberto Menescal e Dori Caymmi. Contam também com mais três com letra de Ishiguro.
Tenderly
Depois de álbuns com várias referências literárias, músicas cantadas em três línguas diferentes, composições próprias, temas mais contemporâneos, Stacey resolveu dar uma relaxada. Tenderly é composto de clássicos do repertório americano.
Em comemoração aos 50 anos da carreira, Marcos Valle gravou um belíssimo álbum com Stacey, lançado em 2013. Em Changing Lights, há a participação de Roberto Menescal em dois números tocando violão.
Menescal, antes de tornar-se executivo na gravadora Philips, foi um dos fundadores do movimento da bossa nova. Autor de inúmeros clássicos, em sua maioria, em parceria com Ronaldo Bôscoli, nunca deixou de ser músico. Depois de sair da Philips, montou o estúdio Albatroz com o filho. Misto de produtor, músico e compositor, é o maior responsável pela propagação da bossa nova. Admirado por cantoras, que adoram tê-lo ao lado na condição de acompanhante e parceiro, lançou muitos discos no mercado japonês e é, com certeza, com seu jeito relaxado e despretensioso, um dos gênios da música. Seu jeito de tocar o violão e a guitarra elétrica, sem efeitos, abrilhantam qualquer música.
Ao vê-lo casualmente em de suas inúmeras vezes em que veio ao Brasil, no show Cristo Redentor 80 Anos exclamou: “Roberto!”; ao que ele respondeu: Stacey!” Depois, passaram a se comunicar com frequência. Stacey o queria para alguns números de Changing Lights. Ligou para ele. Menescal contou que, quando Tom Jobim ligava, já sabia que queria encontrá-lo. Antes que Tom completasse alguma frase, respondia: “Tô indo”. Sabia que era por isso que Tom ligara. Terminando de contar a Stacey, respondeu: “Estou indo.”
Em Tenderly, a participação de Menescal foi diferente. Tocando guitarra elétrica, com Jim Tomlinson no saxofone tenor e na flauta, e Jeremy Brown, propuseram-se a fazer um disco de standards. A única exceção é Agarradinhos, de Menescal e Rosália de Souza. A escolha do título é em razão do elo de Tenderly com o Brasil. O primeiro intérprete da hoje conhecidíssima composição de Jack Lawrence e Walter Gross, foi Dick Farney, quando morou nos EUA.
Tenderly, cinco estrelas pela publicação The Guardian e quatro estrelas pela Downbeat, como disse acima, é um daqueles discos tranquilos e tremendamente prazerosos de se ouvir. Menescal, com a experiência de meio século acompanhando cantoras e o talento natural, é cúmplice desse clima. Tem um modo tranquilo de tocar, é um carioca da praia, de fala mole, que adora o mar. Gosta tanto que só se chega ao seu estúdio de barco. Ele transpira esse sossego. Jeremy Brown é um acompanhante discreto no contrabaixo acústico, Jim é exato em seus comentários musicais no sax tenor e na flauta. E Stacey, é Stacey. Sua voz pequena é sempre elegante e suas intervenções em canções que o mundo já cantou, sempre trazem algo original. Não é à toa que Kazuo Ishiguro a escolheu, com Billie Holiday e Ella Fitzgerald para o seu “desert island discs”.
Ouça Embraceable You.
If I’m Lucky é um dos destaques.
Tenderly, a música título, é excepcional com Kent e Menescal.
Devo ter dito antes, pois deve ser a terceira ou quarta vez que faço um post sobre Carlos Barbosa-Lima. A minha lembrança mais vívida que tenho desse violonista brasileiro é da única vez em que o vi tocando. Era o mais conhecido no Brasil, menino prodígio que apresentou-se pela primeira vez quando tinha 12 anos. Foi no auditório do MASP, muito mal acomodado naquelas cadeiras de madeira, belas, mas torturantes, projetadas por Lina Bo Bardi. O jornalista Telmo Martino, que tinha uma coluna no extinto Jornal da Tarde, adorava chamá-las de “cadeira garrote vil”. Para contextualizar, é bom que se diga que à época, dois longos governos ditatoriais estavam em um “balança mas não cai”, os de Portugal e Espanha. Eram os dois países mais atrasados da Europa, sem considerar os sob a influência soviética.
Na Espanha vigia uma modalidade de tortura (e de morte), o tal do garrote vil, inventado no século 19. Era uma cadeira em que o sujeito era preso com uma cinta e a cabeça com uma argola de ferro e um buraco por onde passava um parafuso na altura da nuca que prensava o pescoço da vítima até a morte. O garrote vil era a representação da barbaridade e do atraso da Espanha sob o Generalíssimo Franco. Era um dos ditadores mais odiados e temidos à época.
Bom, voltando à apresentação, aquele teatro era realmente inóspito; em uma noite fria, sem sistema de aquecimento, a coisa era séria, ainda mais para mim, que estava gripado, e naquele silêncio de um recital de violão, minha grande tortura, além de ficar sentado naquela cadeira, foi a de passar o tempo inteiro segurando a tosse, para não incomodar o resto da plateia.
Depois disso, nunca mais ouvi falar de Barbosa-Lima. No início dos anos 1980, vi um CD do violonista tocando Antônio Carlos Jobim e George Gershwin. Estava aí a razão de seu “desaparecimento”. Ainda pela mesma gravadora, a Concord, tempos depois, acabei comprando The Music of Americas. Além desses dois, havia encontrado o CD Impressions, de 1985, este sim, centrado nos clássicos Gabriel Fauré, Erik Satie, Claude Debussy, Ravel e Villa-Lobos e dois – Enrique Ubieta e Robert W. Scott – que, por desconhecimento, imagino não serem.
Em Plays the Music of Antônio Carlos Jobim e George Gershwin (1981), as nove primeiras do primeiro e oito do outro. A escolha é significativa, não apenas por serem os nomes mais conhecidos cá e lá, mas pelo fato de os dois estarem no limiar do que é popular e erudito. Barbosa-Lima e o repertório do violão estão nesse limiar.
Dos três citados, The Music of Americas é o melhor. As interpretações são mais vibrantes devido a escolha dos temas. Os destaques são Aquarela do Brasil, as duas de Garoto (Carioquinha e Mazurka nº 2) e as três de Alfredo Vianna, o fabuloso Pixinguinha (Um a Zero, Cochichando e Lamento).
Veja Barbosa-Lima tocando Cochichando.
Aquarela do Brasil.
Um a Zero, de Pixinguinha.
De pouco em pouco, a música de Barbosa-Lima abriu-se a outros gêneros musicais latino-americanos e, como se sabe, ritmos mais quentes como os da América Central, e passionais, como o bolero. Dançando de acordo com a música, o violonista passa a se vestir de modo menos sisudo e vai morar em Porto Rico. Presumo que se sente mais feliz hoje.
O mesmo autor de uma canção “fofa“ como Só Você foi um dos fundadores da banda progressiva O Terço. É autor também da bela e “fofa” Lua e Estrela, que fez muito sucesso na voz de Caetano Veloso. Provavelmente, quando compôs essas duas canções, Vinícius Cantuária estava apaixonado por alguma bela loura.
Saindo d’O Terço, Cantuária foi participar de uma outra banda, de belo nome, A Outra Banda da Terra, assim nomeada por Caetano Veloso, como baterista também. Em um show dessa época, comecinho dos anos 1980, o baiano estava em uma fase pós-revolucionária, menos experimental, mais hedonista e compondo muito bem. A banda apresentava-se vestida de branco, com um coro de belas moças que mais embelezavam o palco que qualquer outra coisa. Qualquer banda que se prezasse tinha que ter backing vocals. Lua e Estrela era um dos temas que faziam parte do show.
É de 1984 o maior sucesso de Cantuária. Só Você era uma canção daquelas “grudentas”. Virou hit nas vozes de Fabio Jr. e Fagner. Quando poderia tornar-se um sucesso de vendas, sumiu. E foi para longe. Quando tiveram notícias dele, estava morando nos Estados Unidos.
No Brasil, Cantuária é um quase desconhecido. Pouco saiu dele aqui. Na América, também, não deve ser um astro, mas desde 1986, ano em que mudou-se para lá, tem conseguido lançar álbuns em gravadoras prestigiadas no mundo do jazz, como a tradicional Verve e a Grammavision. E não para de lançar. Desde 2008, seus discos saem pela Naïve, gravadora francesa independente bem conhecida pelos bons títulos de música erudita e também de jazz.
Outro sinal de que que Cantuária é respeitado são os músicos que têm tocado com ele. Um deles é o guitarrista Bill Frisell. Ambos assinam Lágrimas Mexicanas, bem recebido pela crítica. [leia sobre ele em http://bit.ly/1I7w9io]. A colaboração do americano não se restringe a esse somente. Ele participa de Índio de Apartamento (2012). Índio ainda conta com participações de Ryuichi Sakamoto, Norah Jones e o bom cantor Jesse Harris.
Seu álbum mais recente é Vinícius canta Antônio Carlos Jobim. O título é dúbio, pois logo associamos a um dos parceiros de Tom, este de sobrenome Moraes, letrista de seis das treze músicas do CD. Aqui também conta com colaborações preciosas como as de Melody Gardot (sobre ela, veja links no fim do post), dos mesmos Ryuichi Sakamoto, Bill Frisell, e a participação nos vocais em Caminhos Cruzados da brasileira Joyce Moreno.
Vinícius deixou de ser baterista quando partiu para a carreira solo e optou pelo violão. Nunca foi exatamente um roqueiro, apesar de ter sido d’O Terço. Suas composições tendem mesmo à bossa nova e ao samba-canção. Nunca foi grande cantor e nunca será. É até um enigma ser tão prestigiado. Mas de uma coisa, tanto cá como lá, pode-se dizer. Sua música é agradável e seu modo de cantar é quase sempre melancólico, o que pode ser um atrativo para alguns.
Ouça Insensatez, com participação de Melody Gardot.
Da lista que publiquei dos que receberam as melhores classificações, segundo os críticos da revista Downbeat, os únicos brasileiros são o saxofonista Ivo Perelman, com Reverie (Leo Records), em duo com Karl Berger, e a banda SpokFrevo Orchestra, ambos com 4 estrelas. Esta última deve ter chamado a atenção dos chefes da gravadora Motéma, que tem se destacado pelo cast bem diversificado. Nele incluem-se Leny Andrade, Nilson Matta, Ithamara Koorax e Helio Alves.
O saxofonista Inaldo Cavalcante de Albuquerque, chamado Spok, é quem montou a banda que, pelo nome, sugere o que tocam. É composta por 17 (varia) músicos e, por isso, pode ser considerada uma orquestra. É bem conhecida dos pernambucanos, naturalmente. Desde 2007, fecham o carnaval do Recife. O lançamento de Ninho de Vespas pela Motéma propicia o conhecimento aos americanos desse gênero tipicamente nordestino.
O frevo é comparado à música de New Orleans do início do século 20, na matéria publicada no New York Times por ocasião da apresentação deles no Rose Hall’s Appel Room, do Jazz at Lincoln Center, coincidindo com o lançamento do álbum. A banda contou com a “rising star” chilena Melissa Aldana e o espetacular trombonista Wycliffe Gordon como “special guests”. No álbum, seus convidados também são de peso, só que brasileiros.
Em Onze de Abril, primeira faixa, o convidado é o clarinetista Paulo Sergio Santos. Os outros que fazem alguma participação especial são Dori Caymmi – dá uma canja fugaz na música título, que é de sua autoria –, Jovino Santos Neto, Nelson Ayres e Hamilton de Holanda. Sua participação em Tá Achando Que Tá Devagar? é um dos destaques.
Ouça.
O SpokFrevo se apresenta com a orquestra do Jazz at the Lincoln Center. Veja.
Veja a apresentação da orquestra no Sesc Instrumental, tocando Ninho de Vespa, de Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro. No álbum lançado pela Motéma, é cantada por Dori.
Se você quiser conhecer mais o trabalho da SpokFrevo Orchestra, tem muita coisa no youtube.
No dia 4 de setembro, Phil Woods anunciou sua aposentadoria num show em Pittisburgh na qual, junto com a orquestra local, tocou temas do álbum Charlie Parker with Strings. Phil apresentou-se com um tubo de oxigênio ao lado. Brincou dizendo que era seu “amplificador”. Há muito tempo, os milhões de cigarros que consumiu afetaram-lhe os pulmões. A parte impressionante é que continuava a tocar apesar do enfisema pulmonar. Poucas semanas depois, mais exatamente em 29 de setembro, morreu.
Woods afirmava que, se “Charlie Parker era Deus, nesse caso, eu sou o o seu mensageiro.” Não era apenas uma frase de efeito. Era o que achavam os críticos: um legítimo herdeiro do legado de Bird. Um outro dado reforçou essa ligação: depois da morte do genial saxofonista alto, Phil casou-se com Chan Richardson, sua viúva, além de tocar o mesmo instrumento. Mantiveram o casamento por muito tempo.
Sua importância, descontando-se Parker, como altoísta é comparável a de outros dois grandes do instrumento: Cannonball Adderley e Art Pepper. Dois outros são considerados importantes, mas não tanto quanto estes: Johnny Hodges, eterno membro da banda de Duke Ellington, e Paul Desmond, conhecido até pelo gajo da esquina, por Take Five, em seus tempos do quarteto de Dave Brubeck.
Surpreende que Phil tenha morrido, fumando tanto, com 83 anos e, tocando. O enfisema o perseguia há muito tempo. Não lembro há quanto tempo foi que, comentário de quem o assistiu em São Paulo, de seus curtíssimos solos devido a falta de fôlego. Mesmo assim, como se diz por aí, continuava a mandar bem. Conseguia fazer bom uso do pouco ar que lhe sobrava nos pulmões, o que era uma façanha.
Tendo gravado álbuns de sucesso nos anos 1950 e 1960, Woods mudou-se para a França. Saiu um pouco dos holofotes por isso. Montou uma banda meio estranha chamada Phil Woods and His European Rhythm Machine, incorporando instrumentos eletrônicos como o piano elétrico e ritmos africanos. Mas a banda era boa e música também, apesar de não fazer o gosto de todo mundo. O pianista elétrico era Gordon Beck e os franceses da banda eram do primeiro time, como Henri Texier e Daniel Humair.
Ao voltar para o seu país natal, gravou vários álbuns para a Concord Jazz e a Antilles com o quarteto formado por Hal Galper, Bill Goodwin e Steve Gilmore. Outros como Tom Harrell, Jim McNeely e Bill Charlap participaram de outras formações. Um bom disco dessa época é Birds of a Feather (Antilles, 1982).
Um bom ponto de contato com a música brasileira é o álbum Astor & Elis (Chesky), de 1996, que conta com o pianista Bill Charlap e Duduka da Fonseca na bateria.
Ouça o bolero Dois Pra Lá, Dois Pra Cá, de João Bosco e Aldir Blanc, com Phil Woods.
Veja uma apresentação de Woods de 2005 com orquestra, no Festival de Marciac.
Phil e Michel Legrand, em Watch What Happens.
Veja os dois novamente na bela What Are You Doing the Rest of Your Life?, composição do francês. Ah, ele canta; o Michel.
As amostras aqui apresentadas são deste século. Phil já tinha sido diagnosticado com enfisema pulmonar. Não importava tanto o fôlego, porque ele sempre manteve a limpidez no som e a sutileza que sempre foram suas marcas no saxofone alto.
Se algumas viraram musas e inspiradoras da bossa nova, como a que gerou Garota de Ipanema, poucas foram protagonistas do movimento. Uma delas é Wanda Sá. As mais conhecidas foram Astrud Gilberto, Sylvia Telles e Nara Leão, mas Wanda não fica atrás de nenhuma delas quanto à qualidade como intérprete. Astrud é quase um acidente: estava no lugar certo na época certa. Casou com João Gilberto em 1959 e descobriu-se cantora devido ao empurrão do marido. Mudaram-se para os EUA e gravaram com o saxofonista Stan Getz o álbum Getz/Gilberto. Por um lado foi bom e por outro, não, para João: as portas estavam abertas para o baiano, mas Astrud gostou de Getz.
Como as ondas das praias cariocas, Sylvinha Telles, considerada uma das grandes intérpretes da bossa nova, hoje, encontra-se um tanto esquecida. Como as ondas, daqui a pouco vão se lembrar dela. Tinha voz pequena, delicada, e combinava bem com o gênero. Meu amigo Zeca Leal era amigo de Sylvia e Candinho, seu primeiro marido. Emprestou vários discos de playback com orquestrações de Nelson Riddle de canções de Frank Sinatra para ela treinar o seu canto. Disse-me que ela dava umas belas atravessadas. Tinha bom ouvido. Deve-se, em parte, o esquecimento de Sylvinha, à morte precoce em um acidente automobilístico em 1966. Era garota ainda. Mal tinha passado dos trinta.
Parte da turma da bossa nova reunia-se no apartamento de Jairo Leão. Roberto Menescal, Carlos Lyra, Sérgio Mendes e Ronaldo Bôscoli eram os frequentadores mais assíduos. Para Nara Leão, filha de Jairo, tornar-se cantora foi um passo natural. Apesar de associada à bossa nova, no início da carreira, na menina de classe média alta, um dia, a voz do morro soou mais forte, assim como para Carlinhos Lyra. Nara participou do Teatro Opinião. Cantava Carcará com João do Valle e Zé Keti. Ela foi maior que os gêneros. Fez até um songbook de Roberto Carlos, quando isso nem moda era.
Wanda Sá é da segunda dentição da bossa nova, assim como a turma que se reunia na casa de Nara. Em 1964, lança o belíssimo Wanda Vagamente. Participa também do Brasil 65, de Mendes, nos EUA. “Desaparece” da cena musical depois de casar-se com Edu Lobo. Opta por criar os três filhos. Separa-se de Edu em 1982 e, paulatinamente, retoma a carreira interrompida. Volta a se apresentar e a gravar, quase sempre com seu antigo professor de violão Roberto Menscal.
Ouça Vagamente na íntegra.
O tempo longe dos palcos não a fez perder o bonde. A voz, inclusive, mais grave, ganhou maior expressividade. Não é mais a voz da garota de Vagamente. Em comemoração aos seus 70 anos, completados em 11 de julho de 2014, a gravadora Biscoito Fino lançou Wanda Sá ao Vivo em DVD. Os registros foram feitos no Espaço Tom Jobim, Rio de Janeiro e conta com vários e velhos amigos como Marcos Valle, João Donato, Carlos Lyra, Dori Caymmi e a americana Jane Monheit. [sobre Jane, leia http://bit.ly/1CBbj7U].
Nada melhor que comemorar datas como essas com os amigos.
Ouça Inútil Paisagem, com participação de Jane Monheit.
Ouça também faixa que abre o disco: Só Me Fez Bem. Era uma das músicas de Vagamente. É uma bela composição do ex-marido Edu Lobo, em parceira com Vinícius de Moraes.